"Olhai para os lírios do campo, como eles crescem; não trabalham, nem fiam. E eu vos digo que nem mesmo Salomão, em toda a sua glória, se vestiu como qualquer deles".

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Uma lenda antiga

Há na Índia uma lenda antiga que nos conta sobre dois amigos que há algum tempo não se viam e que marcaram uma pescaria para se reencontrarem e pôr a conversa em dia. Para alegria deles, o dia marcado foi de um límpido céu azul e uma brisa agradável que soprava às margens do rio onde iriam passar as horas pescando.

Entre uma e outra fisgada entretinham-se em contar as novidades, os “causos” e outras piadas que sabiam. Além de suas vozes alegres a natureza expressava a sua exuberância no farfalhar das folhas ao vento e no marulhar das águas da correnteza que seguia rio abaixo.

Um dos amigos contava uma piada que foi interrompida por um grito. Olhando para frente e para os lados nada viram, a não ser a água cristalina que se movia ligeira por entre as pedras do rio. Mais alguns instantes e outros gritos se seguiram invadindo seus corações de angústia — mãos e pernas que ora estavam submersas, eram agora visíveis a uma certa distância da margem. Eram duas crianças que a correnteza levava rio abaixo. Sem trocar sequer um olhar ambos saltaram da margem e, exímios nadadores que eram, recuperaram as duas crianças inconscientes, mas vivas. Com o fôlego no limiar e mal recuperados do susto, eis que novos gritos surgem. Chocados, avistam vários pares de pernas e braços, entremeados por cabeças que sobem e descem ao agitar das águas bravias. Eram quatro crianças que a correnteza levava rio abaixo. Recobrados os ânimos pelo perigo iminente, os dois amigos lançam-se às águas, mas conseguem salvar somente duas, das quatro crianças que tentaram resgatar. Abalados emocional e fisicamente pelo esforço descomunal desprendido e pela perda das duas crianças, os dois amigos mal podiam acreditar nos gritos que novamente espalhavam-se pelos ares e chegavam aos seus ouvidos. Eram oito crianças que a correnteza levava rio abaixo. Um dos amigos, sem expressar palavra ou gesto, dá as costas ao cenário macabro e começa a correr. O outro, em desespero e perplexo pela reação do amigo, o interpela atônito: Que é isto? Está louco? Não vai me ajudar? O outro, que começara a correr, não parou e bradou a viva voz: Resgate quantas puder. Preciso impedir que continuem jogando crianças correnteza abaixo.

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