"Olhai para os lírios do campo, como eles crescem; não trabalham, nem fiam. E eu vos digo que nem mesmo Salomão, em toda a sua glória, se vestiu como qualquer deles".

segunda-feira, 9 de julho de 2018

Os domínios de natureza no Brasil: potencialidades paisagísticas.

AB’SÁBER, Aziz Nacib. Os domínios de natureza no Brasil: potencialidades paisagísticas. 7. ed. São Paulo: Ateliê, 2012

Andrezza Karla de Oliveira Silva

RESENHA 
A obra “OS DOMÍNIOS DE NATUREZA: POTENCIALIDADES PAISAGÍSTICAS” escrita pelo professor Aziz Nacib Ab’Sáber é estruturada em nove capítulos, que relatam os domínios e as potencialidades paisagísticas existentes no Brasil analisados através dos aspectos morfoclimáticos, pedológicos, hidrológicos, ecológicos e fitogeográficos.
No primeiro capítulo “POTENCIALIDADES PAISAGÍSTICAS BRASILEIRAS” a paisagem é vista como um conjunto de elementos naturais ou artificiais sempre atrelados à herança. Este caráter de herança é estabelecido por processos de atuação antigos e recentes, que remodelam a topografia diante de forças da natureza em uma escala de tempo de milhões a dezenas de milhões de anos. A magnitude espacial do território brasileiro propicia um mosaico bastante completo das principais paisagens e ecologias tropicais. Deste modo, o entendimento dessas potencialidades é constituído a partir dos domínios morfoclimáticos e fitogeográficos compreendidos como um conjunto espacial de certa ordem de grandeza territorial, onde estejam integradas as feições de relevo, tipos de solos, formas de vegetação e condições climático-hidrológicas para formação de complexos fisiográficos e biogeográficos homogêneos e extensivos. Tais complexos podem ser estruturados em arranjos poligonais possuidor de áreas core. Estas áreas possuem domínios de transição e de contato, que podem formar competências com combinações físico-ambientais diferenciadas com expressão regional, além dos enclaves distinguidos por sua própria natureza. Existem seis grandes domínios paisagísticos e macroecológicos no território brasileiro: a) domínio das terras baixas florestadas da Amazônia; b) domínio das depressões interplanálticas semiáridas do Nordeste; c) domínio dos “mares de morros” florestados; d) domínio dos chapadões centrais recobertos de cerrados e penetrados por florestas-galeria; e) domínio dos planaltos de araucárias; f) domínio das pradarias mistas do Rio Grande do Sul. O autor descreve detalhadamente os aspectos morfoclimáticos e fitogeográficos de cada domínio abordando suas principais características e contrastes, que são responsáveis por formar um cenário com combinações distintas em cada domínio. Ao final tece algumas considerações e conclusões em relação à estrutura da paisagem do território brasileiro caracterizado por áreas homogêneas em seu caráter fisiográfico e ecológico, entretanto cada domínio é formado por subconjuntos que criam contrastes na paisagem. Esses padrões diferenciados são estabelecidos pela existência de faixas de contato e transição, que formam espacialmente quadros de exceção constituindo um mosaico paisagístico. Relata também, a substituição dos ecossistemas naturais pela produtividade da agricultura, que se consolidou pela rápida interiorização e destruição das florestas para o avanço do espaço agrário, forma de desenvolvimento econômico implantada na maioria dos países tropicais. A introdução desse modelo econômico ocasionou drásticas mudanças na estrutura dos ecossistemas deflagrados pela devastação da cobertura vegetal natural, exploração de madeira, urbanização e industrialização, que reduziram pequenos espaços a ambientes insalubres para a qualidade de vida.
No segundo capítulo ““MARES E MORROS”, CERRADOS E CAATINGAS: GEOMORFOLOGIA COMPARADA”, o autor expõe as semelhanças existentes entre os grandes domínios morfoclimáticos e as principais províncias fitogeográficas da região intertropical do Planalto Brasileiro levando-o a uma observação científica para esclarecer tais coincidências geográficas. Assim, foi possível constatar diferentes tipos de combinações de fatos geomórficos, climáticos, hidrológicos e ecológicos, que representam nesta área três domínios morfoclimáticos sobrepostos por três das principais províncias fitogeográficas: 1. domínio das regiões serranas, de morros mamelonares do Brasil de Sudeste (área de climas tropicais e subtropicais úmidos – zona de mata atlântica sul-oriental); 2. domínio das depressões intermontanas e interplanálticas do Nordeste semiárido (área subequatorial e tropical semiárida – zona das caatingas); 3. domínio dos chapadões tropicais do Brasil Central (área tropical subquente de regime pluviométrico restrito a duas estações – zona dos cerrados e de florestas-galeria). Tais domínios constituem uma estrutura complexa formada por uma área core e faixas de transição e contato, que se interpenetram, se diferenciam ou se misturam criando áreas de exceção. O autor descreve cada um dos três domínios morfoclimáticos fazendo uma análise dos aspectos físicos que os caracterizam, demonstrando como pequenos quadros morfoclimáticos, geopedológicos e hidrológicos podem modificar condições ecológicas formando redutos de floresta.            
No terceiro capítulo “NOS VASTOS ESPAÇOS DOS CERRADOS” Ab’Saber aborda os cerrados como conjuntos de arboretas de mesma composição que os cerradões, sendo diferenciados pela exposição do solo que é seu principal suporte ecológico. Ressalta que devido à localização geográfica (longitudinal) e o grau de interiorização das matas atlânticas impossibilitaram a dispersão do domínio dos cerrados. Observa ainda a composição florística no núcleo dos cerrados, constituída por tipos de cerrados e cerradões, e destaca que este padrão é muito diferente das savanas existentes no território africano possuidoras de um arranjo gradativo de diferentes tipos de savana. Este fato não é encontrado nos cerrados brasileiros devido ao seu caráter repetitivo, formado por ecossistemas de cerrados, cerradões e campestres, e relativa homogeneidade paisagística. Neste contexto analisa também as condições geoecológicas e paleoclimáticas recentes do Planalto Central, observando provas sedimentares a partir de formações superficiais como, por exemplo, a presença de paleo-inselbergs, atualmente representados por relevos residuais.             
No quarto tópico do livro “DOMÍNIO TROPICAL ATLÂNTICO”, avalia a magnitude das matas atlânticas como o segundo grande complexo de florestas tropicais biodiversas brasileiras, onde abrangiam aproximadamente um milhão de quilômetros quadrados. As florestas atlânticas possuem uma estruturação espacial azonal de caráter longitudinal nor-nordeste e sul-sudoeste, estendendo-se do sudeste do Rio Grande do Norte ao sudeste de Santa Catarina. A partir desta ressalva distingue-se a existência de subáreas topográficas diferenciadas dentro do domínio tropical atlântico. Estas subáreas podem ser observadas pelos tabuleiros da Zona da Mata nordestina, as escarpas tropicais das Serras do Mar e Mantiqueira, e os “mares de morros”, além dos quadros de exceção verificados fora do espaço principal das matas atlânticas. Após estas colocações descreve cada uma destas subáreas exemplificando através do conjunto de aspectos morfoclimáticos e fitogeográficos a distribuição das florestas de mata atlânticas, bem como analisa a faixa leste-oeste diferenciando os padrões de transição e contato ecossistêmicos. Observando os contrastes topográficos e geológicos existentes entre a Amazônia Brasileira e o Tropical Atlântico atesta que o primeiro é caracterizado pela predominância de terras baixas recobertas por florestas biodiversas, em um eixo leste-oeste ao longo do Equador; já o tropical atlântico possui uma topografia complexa, um recorte norte-sul e grande biodiversidade o que reflete neste domínio diferentes combinações de fatores.            
No quinto capítulo “AMAZÔNIA BRASILEIRA: UM MACRODOMÍNIO”, Ab’Saber enfatiza a Amazônia como um macrodomínio destacando sua alta biodiversidade biológica, a exuberância de suas florestas, sua rede hidrográfica e suas as pequenas variações ecossistêmicas. Estes fatores estão diretamente ligados a sua posição geográfica, que possibilita elevadas taxas de luminosidade (entrada de energia) em associação as permanentes massas de ar úmido condicionam altos índices de precipitação anual entre 1 600 a 3 000 mm, em uma área espacial de aproximadamente 4,2 milhões de quilômetros quadrados. É um domínio caracterizado por feições hidrológicas que constituem labirintos hidrográficos. Destaca ser a bacia amazônica dependente do regime pluviométrico, analisando as variações nos índices de precipitação de acordo com a localização geográfica, a navegabilidade dos rios, o conflito entre águas doces e salinas, as diferentes cores das águas dos rios e a importância dos igarapés para a ocupação indígena da Amazônia. Ao final o autor faz uma reflexão sobre o processo de ocupação da região, as interferências geradas neste complexo paisagístico e discute a necessidade de diagnósticos para a verificação das mudanças na diversidade fisiográfica e ecológica.            
No sexto capítulo “CAATINGA: O DOMÍNIO DOS SERTÕES SECOS”, Ab’Saber inicia discutindo as causas da existência de uma região semiárida em um continente de grandes e contínuas extensões de terras úmidas a partir de uma análise dos fatores climáticos e morfológicos, que contribuem para um déficit prolongado de precipitações com duração, em geral de seis a sete meses. Este caráter desigual das precipitações, que em média no Nordeste seco está entre 268 e 800 mm, fez com que o autor comparasse os índices de precipitações do semiárido nordestino com o domínio dos Cerrados, a Zona da Mata nordestina e a Amazônia, destacando as disparidades observadas. A partir de estudo desenvolvido por George Hargreave para a SUDENE, na década de 1970, baseado em critérios de evapotranspiração e duração dos períodos de deficiência hídrica, Ab’Saber fez uma leitura critica deste estudo e propôs modificações nos conceitos, utilizando as terminologias: 1. faixas semiáridas acentuadas ou subdesérticas; 2. faixas semiáridas ou semiáridas típicas; 3. faixas semiáridas modernas; 4. faixas de transição. Deste modo descreve e exemplifica cada faixa, destacando as principais características que as definem. Além de abordar os aspectos físicos que marcam a região semiárida analisa o cotidiano do sertanejo e de como a variabilidade climática afeta a estrutura socioeconômica da região diante da atividade agrícola e do processo migratório. Ao final faz um registro do processo de ocupação da região enfatizando os grupos indígenas, a importância dos “brejos” para a agricultura desde o período colonial com a introdução da cana-de-açúcar e, atualmente da bananicultura, bem como relata de forma sintética algumas ações governamentais e suas consequências no desenvolvimento da região e as mudanças ocasionadas na vida do homem do sertão.           
No sétimo capitulo do livro “PLANALTOS DE ARAUCÁRIAS E PRADARIAS MISTAS” destaca as particularidades deste domínio, onde aborda a relativa perda de tropicalidade, principalmente em relação às temperaturas médias. Esta característica foi fator condicionante para a presença de um complexo vegetacional extratropical de araucárias, sub-bosques e um mosaico de bosquetes de pinhais. A singular originalidade ecológica torna este cenário, totalmente diferente da paisagem dos cerrados e das florestas de matas. A partir de estudos paleoclimáticos observou que entre 23 e 13 mil anos AP a paisagem dos planaltos subtropicais, dominados por pradarias, era constituída por um cenário de estepes, solos pedregosos e um clima semiárido frio. Além de relatar as feições geológicas e geomorfológicas existentes no Brasil Meridional utilizando-se de uma análise nos estados do Paraná e Santa Catarina de transectos leste-oeste e no Rio Grande do Sul no eixo de sul-norte, abordando os Planaltos paranaenses, as estruturas ruiniformes e a importância do Escudo Uruguaio-Sul-Rio-Grandense.            
No oitavo capítulo da obra “O DOMÍNIO DOS CERRADOS” faz uma reflexão da importância de profissionais como o geógrafo, retornarem a regiões outrora estudadas e fazerem uma releitura das paisagens e espaços tanto observando os aspectos ecológicos quanto sociais. Com essa proposta Ab’Saber sugere uma reavaliação do domínio dos cerrados, analisando as transformações ocorridas na gênese das paisagens e dos espaços geoecológicos de uma região que está em constante modernização. Analisa os fatores ecológicos, hidrológicos, pedológicos, climáticos, morfológicos e fitogeográficos predominantes neste domínio, ressaltando como a combinação de fatos físicos, ecológicos e bióticos podem caracterizar a relativa homogeneidade do domínio dos cerrados. Destaca os conjuntos topográficos do Planalto Central, a rede de depressões interplanálticas e os enclaves de cerrados no domínio das caatingas. Ab’Saber alerta para a necessidade de conciliar desenvolvimento e proteção dos patrimônios genéticos, sugerindo três diretrizes básicas, bem como faz algumas propostas aos órgãos de gerenciamento do meio ambiente no Brasil na tentativa de conciliar o dilema entre desenvolvimento de técnicas de seleção dos espaços agricultáveis com a preservação natural dos cerrados e cerradões.              
No nono capítulo “DOMÍNIOS DE NATUREZA E FAMÍLIAS DE ECOSSISTEMAS” é discutido os domínios de natureza do Brasil, ressaltando que em cada domínio a um tipo predominante de vegetação. Apesar da aparente homogeneidade são observados quadros de exceção formando mosaicos paisagísticos, sendo importante a escala de observação. Um conceito relatado é o de ecossistema introduzido por Tansley em 1935, que retratou a relação entre fatores bióticos e fatos físicos. Tal conceito possibilitou a evolução do pensamento na busca de estudos que melhor retratassem os espaços ecológicos. Salienta também a importância dos estudos desenvolvidos por George Bertrand em 1968 que procurou obter a partir de uma ótica geográfica, uma tipologia de espaços naturais com subdivisões escalares: geossistemas, geofácies e geótopo, sendo o geossistema mais aplicável. Ab’Saber faz uma abordagem sobre como os macrodomínios e como estes podem ser estudados perante uma escala regional com a combinação de atributos comuns. Desta forma, cada domínio morfoclimático e fitogeográfico (cerrados, caatingas, grandes domínios florestais, planalto das araucárias) são descritos com a análise das famílias de ecossistemas, tendo como base espacial os conceitos de espaços naturais de Bertrand.             
A importância do livro, Os Domínios de natureza no Brasil: potencialidades paisagísticas está na construção de uma obra que traz uma riqueza de conteúdo e detalhes sobre os aspectos físicos do território brasileiro. Retratados a partir da integração e contextualização da influência dos fatos geológicos, geomorfológicos, pedológicos, hidrológicos, climáticos, ecológicos e fitogeográficos na determinação dos complexos vegetacionais, aparentemente homogêneos, mas possuidores de enclaves com características diferenciadas. A obra é um subsídio aos planejadores e pesquisadores de diferentes áreas do conhecimento no sentido de compreender o grande mosaico paisagístico do Brasil.

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terça-feira, 29 de maio de 2018

Como escrever resenhas

Todos que passam pelos bancos escolares acabam se deparando com a necessidade de fazer uma resenha — um dos tipos de trabalhos mais solicitados pelos professores.
Como um gênero textual, uma resenha é um texto em forma de síntese que expressa a opinião do autor sobre um determinado fato cultural, que pode ser um livro, um filme, peças teatrais, exposições, shows etc. O objetivo da resenha é guiar o leitor pelo emaranhado da produção cultural que cresce a cada dia e que tende a confundir até os mais familiarizados com todo esse conteúdo.
Como uma síntese, a resenha deve ir direto ao ponto, mesclando momentos de pura descrição com momentos de crítica direta. O resenhista que conseguir equilibrar perfeitamente esses dois pontos terá escrito a resenha ideal.  No entanto, sendo um gênero necessariamente breve, é perigoso recorrermos ao erro de sermos superficiais demais. Nosso texto precisa mostrar ao leitor as principais características do fato cultural, sejam elas boas ou ruins, mas sem esquecer de argumentar em determinados pontos e nunca usar expressões como “Eu gostei” ou “Eu não gostei”, pois essa é uma característica o texto científico, aquele usado em TCC e artigos científicos.
A resenha deve possuir as mesmas qualidades de estilo imprescindíveis a todo texto escrito, como: simplicidade, clareza, concisão, propriedade vocabular, precisão vocabular, objetividade e impessoalidade. Além disso, a resenha deve apresentar imparcialidade, atitude científica e privilegiar o essencial. Veja seguir.
Imparcialidade
Seja na defesa ou no ataque, o resenhista deve julgar as ideias da obra sem paixão, devendo posicionar-se criticamente como um juiz e apresentar tanto os aspectos positivos quanto os negativos da obra, sem defender ou lado ou outro devido a motivos externos à obra (amizade com o autor, imposição de editoras, professores, colegas, etc.)
Cientificidade
A resenha, assim como todo trabalho acadêmico, deve ter cunho científico — veja mais sobre TCC, por exemplo. Ou seja, estar em conformidade com as exigências de objetividade e impessoalidade.
Privilegiar o essencial
Você deve falar apenas do que é mais importante na obra, pois seu leitor raramente estará interessado em muitos detalhes ou em partes menos importantes. Devido a isso é necessário respeitar o tempo que ele está reservando para ler seu texto.
Quanto aos tipos de resenha, a mais conhecida delas é a resenha acadêmica, que apresenta moldes bastante rígidos, responsáveis pela padronização dos textos científicos. Ela, por sua vez, também se subdivide em resenha crítica, descritiva e temática.
Na resenha acadêmica crítica, os oito passos a seguir formam um guia ideal para uma produção completa:
1.    Identifique a obra: coloque os dados bibliográficos essenciais do livro ou artigo que você vai resenhar;
2.    Apresente a obra: situe o leitor descrevendo em poucas linhas todo o conteúdo do texto a ser resenhado;
3.    Descreva a estrutura: fale sobre a divisão em capítulos, em seções, sobre o foco narrativo ou até, de forma sutil, o número de páginas do texto completo;
4.    Descreva o conteúdo: Aqui sim, utilize de 3 a 5 parágrafos para resumir claramente o texto resenhado;
5.    Analise de forma crítica: Nessa parte, e apenas nessa parte, você vai dar sua opinião. Argumente baseando-se em teorias de outros autores, fazendo comparações ou até mesmo utilizando-se de explicações que foram dadas em aula. É difícil encontrarmos resenhas que utilizam mais de 3 parágrafos para isso, porém não há um limite estabelecido. Dê asas ao seu senso crítico.
6.    Recomende a obra: Você já leu, já resumiu e já deu sua opinião, agora é hora de analisar para quem o texto realmente é útil (se for útil para alguém). Utilize elementos sociais ou pedagógicos, baseie-se na idade, na escolaridade, na renda etc.
7.    Identifique o autor: Cuidado! Aqui você fala quem é o autor da obra que foi resenhada e não do autor da resenha (no caso, você). Fale brevemente da vida e de algumas outras obras do escritor ou pesquisador.
8.    Assine e identifique-se: Agora sim. No último parágrafo você escreve seu nome e fala algo como “Graduando em Letras pela Universidade Federal do ABC”.
Na resenha acadêmica descritiva, os passos são exatamente os mesmos, excluindo-se o passo de número 5. Como o próprio nome já diz, a resenha descritiva apenas descreve, não expõe a opinião o resenhista.
Finalmente, na resenha temática, você fala de vários textos que tenham um assunto (tema) em comum. Os passos são um pouco mais simples:
1.    Apresente o tema: Diga ao leitor qual é o assunto principal dos textos que serão tratados e o motivo por você ter escolhido esse assunto;
2.    Resuma os textos: Utilize um parágrafo para cada texto, diga logo no início quem é o autor e explique o que ele diz sobre aquele assunto;
3.    Conclua: Você acabou de explicar cada um dos textos, agora é sua vez de opinar e tentar chegar a uma conclusão sobre o tema tratado;
4.    Mostre as fontes: Coloque as referências Bibliográficas de cada um dos textos que você usou;
5.    Assine e identifique-se: Coloque seu nome e uma breve descrição do tipo “Graduando em Letras pela Universidade Federal do ABC”.
O outro tipo de resenha é aquele que serve para divulgar uma obra, simplesmente. Ele permite ao leitor tomar conhecimento do livro, filme ou artigo de que trata a resenha e, consequentemente, decidir se deseja lê-lo ou assisti-lo. Esse tipo é muito comum quando referida a uma obra da literatura, o que constituirá uma resenha literária.
Antes de iniciar a produção do texto há alguns passos importantes que você deve considerar para que a qualidade do seu trabalho possa atingir um patamar de excelência.
Passo 1 – Leitura da obra a ser resenhada
Chega a ser ridículo ter que colocar este ponto, mas já vi muita gente fazendo resenhas de livros que nunca leu, de filmes que nunca assistiu ou de palestras às quais não compareceu. Soou familiar? É uma realidade crescente entre os estudantes universitários.
Mas você não pretende ser um desses, certo? Então o primeiro passo é conhecer o objeto que será resenhado. Um detalhe importante: essa sua leitura deve ser rápida, com o objetivo de conhecer a obra como um todo. Portanto, não faça anotações e nem sublinhe nada.
Passo 2 – Releitura
Na primeira leitura que fazemos de qualquer coisa há muitos elementos que passam despercebidos. É nessa etapa que devemos, lentamente, analisar aspectos mais pontuais da obra que será alvo da resenha. Use a técnica de sublinhar, fazer esquemas com as ideias principais (tanto da obra quanto de cada capítulo) e tente estabelecer relações entre tudo isso.
Algo que eu faço e que ajuda muito: fazer perguntas e anotá-las no canto das páginas (se você estiver resenhando um material escrito, claro). Isso força você a pensar sobre o material que tem em mãos.
Passo 3 – Parar para pensar
Você deve para um tempo para pensar sobre tudo, rever suas anotações, formar uma opinião e, quem sabe, até buscar outras fontes que tratem dos mesmos assuntos, para poder fazer contrapontos em seu texto. Se possível, essa pausa deve durar mais de 24h, mas não ultrapasse as 72h para que as ideias não lhe fujam da memória. Faça mais anotações e já tente formular os argumentos que utilizará em seu texto.
Partindo de tudo que foi dito, talvez você já tenha uma boa ideia sobre o que escrever em sua resenha e até mesmo sobre a estrutura que deve seguir. Mas vamos falar especificamente de uma das perguntas que eu mais ouço dos alunos: Como começar uma resenha?
Há uma série de questões que você deve tentar responder em sua introdução. Veja:
1.    De que trata o livro?
2.    Ele tem alguma característica especial?
3.    De que modo o assunto é abordado?
4.    Qual é a tese do autor?
5.    Qual a intenção do autor?
6.    Que conhecimentos prévios são exigidos para entendê-lo?
7.    A que tipo de leitor se dirige o autor?
8.    O tratamento dado ao tema é compreensível?
9.    O livro foi escrito de modo interessante e agradável?
10.     As ilustrações foram bem escolhidas?
11.     O livro foi bem organizado?
12.     O leitor, que é a quem o livro se destina, irá achá-lo útil?
13.     Comparando essa obra com outras similares e com outros trabalhos do mesmo autor, a que conclusões chegamos?
Evidentemente, você não precisa responder a todas essas questões, sendo elas sugestões que você pode utilizar no início de sua resenha.
Outro ponto em que muitos têm dúvidas é na hora de escrever a conclusão. Esse espaço final da resenha serve para expor sua avaliação geral sobre a obra.
Até aqui você já deve ter discutido os argumentos do autor e como ele os defende, assim como ter avaliado a qualidade e a eficiência de diversos aspectos do livro ou artigo.
Agora é o momento de avaliar o trabalho como um todo, determinando coisas como se o autor conseguiu ou não atingir os objetivos propostos e se a obra contribui de maneira significante para a área de conhecimento da qual faz parte.
Ao escrever a conclusão, você pode considerar as seguintes perguntas:
·       A obra usa graus de objetividade ou subjetividade apropriados à proposta inicial do autor?
·       O autor consegue manter o foco da obra, sem incorrer em excesso de opinião própria ou falta de fontes que comprovem seus argumentos?
·       Em algum momento o autor deixa de considerar aspectos relevantes de sua área, como outros pontos de vista ou teorias contrárias às dele?
·       O autor conseguiu atender aos objetivos a que se propôs ao iniciar a obra?
·       Que contribuições a obra traz para sua área de conhecimento ou grupo específico de leitores?
·       É possível justificar o uso dessa obra no contexto em que foi indicada (uma disciplina da universidade, por exemplo)?
·       Qual o comentário final mais importante que você faria a respeito dessa obra?
·       Você tem sugestões para futuras pesquisas nessa área?
·       De que maneiras ler/assistir essa obra contribuiu para sua formação?
O tamanho do seu texto pode variar muito, principalmente de acordo com o material que você estiver resenhando. Por isso, não há regra quanto ao número de parágrafos, mas se você estiver escrevendo uma resenha para a faculdade, por exemplo, dificilmente você deve pensar em menos do que duas páginas do Word, o que daria entre 6 e 10 parágrafos, aproximadamente.
Quando falamos de textos acadêmicos, pouca coisa muda em relação aos demais tipos de materiais (livros, filmes, palestras, etc.). Você deve considerar, no entanto, que um texto acadêmico deve ser impessoal — seus verbos nunca serão escritos em primeira pessoa (eu, nós).
Portanto, ao resenhar esse tipo de texto, siga as dicas já expostas acima, mas tenha um cuidado ainda maior com a linguagem e atente para as normas da ABNT. Quanto à quantidade de páginas, o tamanho de uma resenha, depende muito da sua fonte. Não há regra fixa, mas tente nunca ficar abaixo das duas páginas do Word.
Concluindo, fazer uma resenha parece muito fácil à primeira vista, mas devemos tomar muito cuidado, pois dependendo do lugar, resenhistas podem fazer um livro mofar nas prateleiras ou transformar um filme em um verdadeiro fracasso.
As resenhas são ainda, além de um ótimo guia para os apreciadores da arte em geral, uma ferramenta essencial para acadêmicos que precisam selecionar quantidades enormes de conteúdo em um tempo relativamente pequeno.

Referências:
DIDIO, Lucie. Leitura e Produção de Textos. São Paulo: Atlas, 2013


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sábado, 19 de maio de 2018

CONTOS DE ENSINAMENTO


Os contos populares da tradição oral são narrativas ancestrais que vêm resistindo à passagem do tempo. No Brasil, convivem contos de tradição dos diferentes povos indígenas e africanos, de povos orientais e os de tradição européia (estes mais divulgados pela mídia impressa, cinematográfica e virtual). São estudiosos do conto da tradição oral brasileira Câmara Cascudo e Silvio Romero, entre outros. De gêneros variados, possuem certas características que os aproximam e outras que os distanciam, permitindo diferentes classificações. A organização mais comum é a que reúne os contos populares da tradição oral em uma só categoria, “contos de fadas”, ignorando que esses últimos receberam essa designação por terem fadas em seus enredos. Mas, ao serem analisados por estudiosos, os contos populares, em geral, foram classificados de formas mais complexas. Um dos agrupamentos mais importantes é o de Aarne-Thompson; outros, dos formalistas russos, entre eles Wladimir Propp.
As classificações dos contos da tradição oral, porém, embora valiosas para ampliar a compreensão de sua natureza e importância, costumam apresentar certa rigidez própria das tipologias e não podem ser consideradas verdades absolutas, uma vez que alguns temas, por exemplo – como o da menina e o lobo, “escapam” das classificações por terem sido contados de diferentes jeitos, ou seja, em diferentes gêneros. Mas olhá-los por meio dessas análises produzidas com cuidado e intenção investigadora, ainda que marcada por uma fixidez excessiva, permite que se perceba a riqueza da cultura oral. É inegável que os numerosos estudos e classificações contribuem para isso.
Hoje vamos abrir espaço para os chamados “contos de ensinamento”, importante grupo de contos da tradição oral de todas as regiões da Terra. Como contos da tradição oral, têm em comum com os maravilhosos e os de fadas a antiguidade, comprovada pelas inúmeras pesquisas de estudiosos no assunto, a falta de autor determinado, a transmissão boca a boca através das gerações. O que os particulariza é a intenção: sua finalidade principal não é divertir, é ensinar.
Atualmente, esses contos (como todos da tradição oral) são, muitas vezes, classificados como pertencentes à literatura infantil. Se os analisarmos com mais cuidado, veremos que eles, em sua origem, eram destinados a ouvintes de todas as idades. Isso fica fácil de entender quando lembramos que, antes do século XIX, não havia essa divisão rígida que temos hoje em “mundo das crianças” e “mundo dos adultos”, com os diferentes artigos de consumo (os materiais e os culturais) divididos entre públicos bem definidos. Até essa época, em sociedades ocidentais ou orientais, as crianças das classes populares não eram apartadas dos adultos em situações de trabalho, diversão ou convívio familiar. É claro que os mais velhos passavam ensinamentos tradicionais para os mais jovens, como tendemos a fazer ainda hoje, mesmo que de modos diversos, mas a distância entre gerações não era tão espacialmente determinada; o convívio entre velhos, adultos e crianças era próximo, os nascimentos e as mortes não eram tratados de forma “higienizada” como o são atualmente: nascimentos e mortes não são coisas “da casa” são coisas do espaço hospitalar e subordinados ao cuidado médico. Os acontecimentos da vida eram partilhados no convívio próximo e cotidiano.
Nesse ambiente onde a maioria não tinha acesso à escolarização, a eletricidade chegava a poucos lugares e ainda não tinha diminuído os mistérios da noite, e a internet – nosso grande oráculo - não era sequer imaginada, a conversa era o meio mais usual para o acesso aos conhecimentos acumulados. As reuniões nas famílias ou em grupos sociais maiores, sempre eram animadas por contadores que guardavam na memória as narrativas mais significativas para a transmissão da história e das tradições de seu povo, entre eles os contos de ensinamento. Eram ocasiões de grande envolvimento dos ouvintes, era nelas que se aprendia sobre a vida. E os contos eram o instrumento, nesse momento eles ganhavam uma vida que não podemos reviver pelas versões escritas. Como diz o historiador Robert Darton, um estudioso do assunto, não há como recuperar os dispositivos gestuais e de entonação usados na época por meio das frias páginas escritas.
Embora não possamos recriá-los como eram, não deixam de ser, ainda hoje, encantadores e poderosos, mesmo para os ouvintes adultos. Há contos de ensinamento originários do mundo todo. São muito conhecidos aqueles que valorizam o esforço e a esperteza dos fracos contra os fortes e poderosos (como Pequeno polegar, João e Maria, O pequeno Alfaiate, João e o pé de feijão, Aladin e a Lâmpada maravilhosa, etc.) e os que alertavam contra os perigos do mundo (como Chapeuzinho Vermelho, Barba Azul etc.).
Como todos os demais contos da tradição oral, as versões que conhecemos hoje resultam da passagem por diferentes países e são influenciadas por suas versões escritas. Por conta de serem atualmente, tratadas como literatura infantil, e porque vivemos a divisão da sociedade em adultos (que tudo podem ver e saber) e crianças (cuja mente não pode ser contaminada pelas maldades do mundo), as versões mais recentes são abrandadas, mais românticas, em relação às primeiras que foram escritas e que, provavelmente, são mais próximas da tradição oral. As primeiras versões escritas continuam influenciando, é claro, as atuais. São elas a de Perrault, no século XVII, na França, a dos irmãos Grimm, no século XIX na Alemanha e as de Andersen, também no século XIX, na Dinamarca. Além das escritas, no século XX houve versões gravadas em discos e fitas e versões cinematográficas.
Os contos de ensinamento são um material rico que desperta o interesse dos estudiosos. Podemos encontrar correntes diversas que revelam perspectivas de diferentes campos de estudo:
• Há os que vêem neles elementos psicológicos¹ revelados na simbologia que pode se atribuir aos personagens, aos elementos da paisagem às cores etc., úteis na análise psicanalítica.
• Existem os que os estudam como documentos históricos² que revelam, de forma crua, fatos realmente vividos e retratados nos contos como advertência e como indicação de atitudes que devem ser tomadas como proteção à vida.
• Muitos foram analisados pelas formas que tomaram quando foram utilizados como ensinamentos filosóficos³, morais e religiosos.
Alguns povos ainda muito ligados aos ensinamentos da tradição oral estão recolhendo, mais recentemente, contos que ainda circulam oralmente para registrá-los por meio da escrita. Veja alguns lançamentos editoriais recentes:
• Contos recolhidos da tradição oral africana por Nelson Mandela, Meus contos africanos, livro publicado no Brasil pela editora Martins Fontes;
• Contos recolhidos da tradição de povos indígenas brasileiros, por Daniel Munduruku e Heloisa Prieto, Antologia de contos indígenas de ensinamento, publicado pela editora Salamandra.

¹ Entre os estudiosos da psicologia que estudaram os símbolos nos chamados contos de fadas estão Bruno Betelheim, de linha freudiana, autor do conhecido Psicanálise dos contos de fadas, publicado pela editora Paz e Terra, e Marie Louise Von Franz, de linha junguiana, autora de alguns livros sobre o assunto, entre eles A interpretação do conto de fadas, publicado pela editora Paulus.
² Entre os historiadores que estudaram os contos populares de ensinamento está Robert Darton, que escreveu O grande massacre de gatos e outros episódios da história cultural francesa, livro publicado pela editora Graal.
³ Entre os contos de tradição filosófico-religiosa oriental estão os do personagem Nasrudin. Veja um dos contos em http://www.releituras.com/nasrudin_menu.asp


Heloisa Amaral
http://escrevendo.cenpec.org.br

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domingo, 18 de fevereiro de 2018

O retrato oval



O castelo onde meu criado aventurara-se a forçar nossa entrada, em vez de permitir que eu passasse a noite, ferido como eu estava, ao relento, era uma daquelas construções lúgubres e grandiosas que há tempos debruçam-se por sobre os Apeninos, não apenas de fato como na imaginação da sra. Radcliffe. O lugar dava a impressão de ter sido abandonado havia pouco tempo, em caráter temporário. Instalamo-nos em um dos aposentos menores e mais humildes. O quarto ficava em um torreão afastado. A decoração era sofisticada, mas antiga e maltratada pelo tempo. As paredes estavam cobertas por tapeçarias e ornadas com troféus de armas; ademais, havia um número incomum de pinturas modernas muito agradáveis com molduras de arabescos dourados. Essas pinturas, que pendiam não apenas das paredes amplas, mas também de inúmeros recônditos que arquitetura bizarra do palácio fazia necessários ‒ essas pinturas, talvez em virtude de um delírio incipiente, despertaram-lhe um profundo interesse, de modo que solicitei a Pedro que fechasse as pesadas cortinas daquele cômodo ‒ uma vez que já era noite ‒,  que acendesse os pavios de um candelabro alto que estava junto à cabeceira da minha cama e que abrisse, tanto quanto possível, as cortinas franjadas de veludo negro que envolviam a cama. Fiz esse pedido para que eu pudesse me entregar se não ao sono, pelo menos à contemplação daqueles quadros e à leitura de um pequeno tomo encontrado sobre o travesseiro, que se propunha a fazer críticas a eles e a descrevê-los.
Por muito ‒ muito tempo eu li ‒ e concentrado, absorto, eu contemplava. As horas passaram céleres e agradáveis até que a meia-noite escura se instaurou. A posição do candelabro aborrecia-me e, preferindo fazer um esforço a importunar meu criado, que dormia, estiquei o braço e ajustei-o de modo a obter mais luz sobre o livro.
Mas esse ato teve consequências de todo inesperadas. Os raios de inúmeras velas (pois havia muitas) iluminaram um nicho do quarto que até então permanecera envolto na densa sombra de uma das colunas da cama. E assim vi, iluminado, um quadro que até então me passara despercebido. Era o retrato de uma menina em que despontavam os primeiros sinais de mulher. Observei a pintura por alguns instantes e logo fechei os olhos. O que me despertou esse impulso era algo que a princípio eu mesmo não compreendia. Mas, enquanto as pálpebras permaneciam-me fechadas, vasculhei meus pensamentos em busca de motivos para fechá-las. Um movimento impulsivo deu-me tempo para pensar ‒ para ter certeza de que os olhos não me haviam logrado ‒ para serenar meus devaneios e lançar à tela um olhar mais sóbrio e mais preciso. Passados alguns instantes, olhei mais uma vez para o retrato.
Que naquele instante eu o via de modo objetivo estava além de qualquer dúvida; pois o primeiro clarão das velas sobre a tela parecia ter dissipado o estupor onírico que aos poucos dominava meus sentidos e me reconduzido, de sobressalto, à vigília.
O retrato, conforme descrevi, era o de uma jovem moça. Era um simples busto, executado com a técnica que se costumava chamar de vignette; o estilo era muito semelhante ao das famosas cabeças de sully. Os braços, o colo e até mesmo as pontas do cabelo radiante fundiam-se de modo imperceptível na sombra vaga e mesmo assim densa que constituía o segundo plano da obra. O quadro ainda tinha uma moldura oval, dourada com grande esmero e filigranas à mourisca. Como obra de arte, nada poderia ser mais admirável do que a pintura em si. Mas não fora nem a execução do trabalho nem a beleza imortal daquele semblante o que me comovera de maneira tão súbita e tão contundente. Também seria impensável que minha fantasia, já desperta de seu cochilo, houvesse tomado o retrato por uma pessoa real. Percebi de imediato que as particularidades da composição, do estilo vignette e da moldura haveriam de ter afastado essa ideia no mesmo instante ‒ haveriam de ter impedido que fosse sequer matéria de consideração. Ocupado com esses pensamentos, permaneci, talvez por uma hora inteira, meio sentado, meio reclinado, com o olhar fixo no retrato. Por fim, ao deslindar o segredo de seu efeito, deitei-me. Descobri que o encanto do quadro residia na perfeição absoluta da expressão naquele rosto que parecia vivo e que, a princípio tendo-me assustado, logo pôs-me perplexo, subjugou e aterrorizou-me.  Sob a influência de um espanto profundo e reverencial, recoloquei o candelabro em seu lugar. Com a causa de minha agitação fora de vista, debrucei-me com avidez sobre o volume que discorria sobre as pinturas e suas histórias. Ao buscar o número que identificava o retrato oval, li as obscuras e peculiares palavras que seguem:
“Era uma donzela de rara beleza, e só não era mais amável do que alegre. Numa hora infeliz ela viu, amou e desposou o pintor. Ele, arrebatado, estudioso, rigoroso, já tendo a Arte por esposa; ela, uma donzela de rara beleza, e só não era mais amável do que alegre; toda luz e sorrisos, brincalhona com os filhotes de corça, amava e apegava-se a tudo; detestava somente a Arte, que era sua rival; temia apenas a palheta e os pinceis e outros instrumentos indesejáveis que a privavam de ver o rosto do amado. Assim, para a moça, era uma coisa terrível ouvir o pintor falar sobre o desejo de retratar sua jovem esposa. Mas ela era humilde e dócil, e pousou por semanas a fio em um torreão escuro onde a luz que iluminava a tela vinha apenas de cima. Mas o pintor comprazia-se naquele trabalho, que se estendia hora após hora, dia após dia. Ele tinha uma alma apaixonada, indomável, suscetível, e era dado a devaneios; assim, não percebia que a terrível luz que se filtrava pelo torreão solitário abatia a saúde e o ânimo da esposa, que definhava à vista de todos, menos da sua. Mesmo assim ela seguia sorrindo, sem queixar-se, porque notava que o pintor (que era muito renomado) sentia um prazer imenso ao desempenhar a tarefa, e trabalhava dia e noite para retratar a mulher que tanto o amava, mas que a cada dia ficava mais desanimada e fraca. E na verdade algumas pessoas que viam o retrato comentavam a semelhança à meia-voz, como se falassem de um milagre, e de uma prova não só da habilidade do pintor como também do profundo amor que ele nutria pela modelo que retratava com tanta maestria. Mas, à medida que o trabalho chegava ao fim, o acesso ao torreão foi vetado, pois o pintor tomara-se de arrebatamento e mal despregava os olhos da tela, mesmo que fosse para olhar o rosto da esposa. E ele não percebia que as cores espalhadas sobre a tela vinham das faces daquela que sentava ao seu lado. E ao cabo de várias semanas, quando faltavam apenas alguns retoques ‒ uma pincelada nos lábios e um sombreado no olhar ‒, o ânimo da esposa mais uma vez bruxuleou como a chama do interior do lampião. E foi dada última pincelada, e logo o sombreado estava completo; então, por um instante, o pintor ficou em transe diante da obra que executara; mas no momento seguinte, ainda olhando a pintura, ficou pálido e começou a tremer; horrorizado, gritou: ‘Isso é a própria Vida!’ e virou para contemplar a amada: Ela estava morta!”.



Edgar Allan Poe. O gato preto e outros contos. São Paulo: Hedra, 2008. p. 65-69.