"Olhai para os lírios do campo, como eles crescem; não trabalham, nem fiam. E eu vos digo que nem mesmo Salomão, em toda a sua glória, se vestiu como qualquer deles".

domingo, 21 de maio de 2017

Trem bala

Ana Vilela

  
Não é sobre ter todas as pessoas do mundo pra si
É sobre saber que em algum lugar, alguém zela por ti
É sobre cantar e poder escutar mais do que a própria voz
É sobre dançar na chuva de vida que cai sobre nós
É saber se sentir infinito
Num universo tão vasto e bonito, é saber sonhar
Então fazer valer a pena
Cada verso daquele poema sobre acreditar
Não é sobre chegar no topo do mundo e saber que venceu
É sobre escalar e sentir que o caminho te fortaleceu
É sobre ser abrigo e também ter morada em outros corações
E assim ter amigos contigo em todas as situações
A gente não pode ter tudo
Qual seria a graça do mundo se fosse assim?
Por isso eu prefiro sorrisos
E os presentes que a vida trouxe para perto de mim
Não é sobre tudo que o seu dinheiro é capaz de comprar
E sim sobre cada momento, sorriso a se compartilhar
Também não é sobre correr contra o tempo pra ter sempre mais
Porque quando menos se espera, a vida já ficou pra trás
Segura teu filho no colo
Sorria e abraça os teus pais enquanto estão aqui
Que a vida é trem bala, parceiro
E a gente é só passageiro prestes a partir
Laiá, laiá, laiá, laiá, laiá
Laiá, laiá, laiá, laiá, laiá

Segura teu filho no colo
Sorria e abraça os teus pais enquanto estão aqui
Que a vida é trem bala, parceiro
E a gente é só passageiro prestes a partir

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quarta-feira, 10 de maio de 2017

SEMÂNTICA

A semântica estuda o significado das palavras e das expressões que constroem os textos.

Significação das Palavras
As palavras, quando combinadas para formar frases, estabelecem diferentes relações significativas. Veja algumas:

Sinônimos
Duas palavras são sinônimas quando, em certo contexto, apresentam sentidos iguais ou muito próximos.
Exemplos:
§  O homem retornou para sua doce casa.
§  O homem retornou para seu doce lar.

Acima, “casa” e “lar” são sinônimos e, por isso, a primeira frase pode ser substituída pela segunda sem grandes alterações de sentido.
Mas cuidado! Não há sinônimos perfeitos. As palavras em questão são semanticamente próximas, não idênticas. A palavra “casa” possui um sentido mais concreto; o trecho “doce casa” faz o leitor pensar em um espaço aconchegante e agradável. Por outro lado, a palavra “lar” possui um sentido mais abstrato, relacionado às relações familiares; o trecho “doce lar” leva a imaginar uma família agradável e de boa convivência.
O conhecimento de sinônimos é ferramenta importante na construção de textos bem escritos, nos quais não existam desnecessárias repetições de palavras.

Hiperônimos / Hipônimos
Um termo será chamado de hiperônimo quando, em relação a outro, tiver um sentido mais genérico e um termo será chamado de hipônimo quando, em relação a outro, tiver um sentido mais restrito.
Agora, pense em duas palavras: gato / mamífero.
Percebeu que o gato é apenas um animal entre tantos outros dentre as espécies dos que são mamíferos?
Em relação ao termo “gato”, “mamífero” tem um sentido mais genérico. Por isso, “mamífero” é hiperônimo de “gato”.
Em relação ao termo “mamífero”, “gato” tem um sentido mais restrito. Por isso, “gato” é hipônimo de “mamífero”.

Antônimos
Duas palavras são antônimas quando, em certo contexto, apresentam sentidos opostos ou aproximadamente opostos.
Exemplos:
            aberto / fechado
            alto / baixo
            bem / mal
            bom / mau
            bonito / feio
            feliz / infeliz
O conhecimento de antônimos é fundamental para a compreensão de uma figura de linguagem chamada antítese.

Homônimos
Dois termos são homônimos quando, apesar de apresentarem significados diferentes, são iguais na grafia ou na pronúncia.
As palavras homônimas, dependendo da relação que têm entre si, podem ser:
Homônimos perfeitos: são termos idênticos na grafia e na pronúncia.
Exemplos:
canto (substantivo – extremidade; ângulo) / canto (verbo “cantar”)
leve (adjetivo – pouco peso) / leve (verbo “levar”)
mangueira (substantivo – árvore) / mangueira (substantivo – tubo plástico)
são (adjetivo – sadio) / são (verbo “ser”) / são (substantivo – santo)
morro (substantivo – acidente geográfico) / morro (verbo “morrer”)
cobre (substantivo – metal) / cobre (verbo “cobrar”) / cobre(verbo “cobrir”)

Homônimos homógrafos: são termos idênticos apenas na grafia.
Exemplos:
almoço /ô/ (substantivo – refeição) / almoço /ó/ (verbo “almoçar”)
colher /é/ (substantivo – objeto) / colher /ê/ (verbo)
governo /ê/ (substantivo – administração) / governo /é/ (verbo “governar”)
torre /ô/ (substantivo – construção alta) / torre /ó/ (verbo “torrar”)
molho /ô/ (substantivo – tempero) / molho /ó/ (verbo “molhar”)

Homônimos homófonos: são termos idênticos apenas na pronúncia.
Exemplos:
acento (substantivo – sinal gráfico) – assento (substantivo – lugar de sentar)
coser (verbo “coser” – ato de costurar) / cozer (verbo “cozer” – ato de cozinhar)
cessão (substantivo – ato de ceder) / sessão (subst. – tempo) / seção (subst. – parte)
caçar (verbo “caçar” – perseguir) / cassar (verbo “cassar” – impedir; anular)
censo (substantivo – contagem) / senso (substantivo – sensatez)
espiar (verbo “espiar” – olhar) / expiar (verbo “expiar” – pagar uma culpa)
incipiente (adjetivo – iniciante) / insipiente (adjetivo – tolo; ignorante)
paço (substantivo – palácio) / passo (movimento das pernas)
serrar (verbo “serrar” – cortar com serra) / cerrar (verbo “cerrar” – fechar)
estrato (substantivo – camada) / extrato (substantivo – trecho, fragmento, resumo)
chácara (substantivo – pequena propriedade) /xácara (subst. – narrativa popular espanhola)

Parônimos
Dois termos são parônimos quando apresentam grafia e pronúncia muito próximas.
Exemplos:
absolver (verbo – perdoar) / absorver (verbo – sorver)
acostumar (verbo – habituar-se) / costumar (verbo – ter por costume)
acurado (part. do verbo “acurar” – feito com cuidado) /apurado (part. do verbo “apurar” – refinado)
afear (verbo – tornar feio) / afiar (verbo – amolar)
amoral – (adjetivo – indiferente à moral) / imoral (adjetivo – contra a moral; devasso)
cavaleiro (substantivo – que anda a cavalo) / cavalheiro(substantivo – homem educado)
comprimento (substantivo – extensão) / cumprimento(substantivo – saudação)
deferir (verbo – atender) / diferir (verbo – adiar; retardar; ser diferente)
delatar (verbo – denunciar) / dilatar (verbo – estender; ampliar)
descriminar (verbo – absolver) / discriminar (verbo – separar)
eminente (adjetivo – alto; elevado; excelente) / iminente(adjetivo – que ameaça acontecer)
emergir (verbo – sair de onde estava mergulhado) / imergir(verbo – mergulhar)
emigrar (verbo – deixar um país) / imigrar (verbo – entrar num país)
estádio (substantivo – praça de esporte) / estágio (substantivo – aprendizado)
flagrante (adjetivo – evidente) / fragrante (adjetivo – perfumado)
incidente (substantivo – circunstância acidental) / acidente (substantivo – desastre)
inflação (substantivo – aumento de preços, perda do poder aquisitivo) / infração (adjetivo – violação)
infringir (verbo – desrespeitar) / infligir (verbo – aplicar)
mandado (substantivo – ordem judicial) / mandato(substantivo – tempo de um cargo político)
ótico (adjetivo – relativo ao ouvido) / óptico (adjetivo – relativo à visão)
peão (substantivo – homem que anda a pé; homem do campo) /pião (substantivo – brinquedo)
plaga (substantivo – região, país) / praga (substantivo – maldição)
pleito (substantivo – disputa eleitoral; questão judicial) /preito (substantivo – homenagem)
ratificar (verbo – confirmar) / retificar (verbo – corrigir)
sortir (verbo – abastecer) / surtir (verbo – causar um efeito)
tráfico (substantivo – negócio ilícito) / tráfego (substantivo – fluxo de veículos)
vultoso (adjetivo – volumoso) / vultuoso (adjetivo – inchado)

Expressão idiomática
Expressão idiomática é uma sequência fixa de palavras (as palavras não podem ser alteradas) que tem um sentido socialmente determinado e único.
As expressões idiomáticas são próprias da fala coloquial e, por isso, participam, frequentemente, de diálogos cotidianos.
Exemplos:
“agarrar com unhas e dentes” (não desistir de algo ou alguém facilmente)
“andar feito barata tonta” (estar distraído)
“comprar gato por lebre” (ser enganado)
“meter o rabo entre as pernas” (submeter-se; acovardar-se)
“onde Judas perdeu as botas” (lugar remoto)
“o gato comeu a língua” (diz-se de pessoa calada)
“pensar na morte da bezerra” (estar distraído/a)

“pôr as barbas de molho” (precaver-se)


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terça-feira, 9 de maio de 2017

Funções da linguagem

AS SEIS FUNÇÕES BÁSICAS DA LINGUAGEM

Função referencial ou denotativa
Transmite dados e informações de modo neutro e objetivo. É a linguagem típica dos textos jornalísticos, do discurso científico, dos contratos e relatórios. O uso do verbo costuma ser feito na terceira pessoa do singular.


Função expressiva ou emotiva
Manifesta uma expressão subjetiva, uma emoção ou ponto de vista. As interjeições e as reticências são sinais reveladores da função emotiva, assim como o uso da primeira pessoa.

Ex: Nós te amamos!


Função apelativa ou conativa
Busca interferir no comportamento do leitor, convencê-lo de algo ou lhe dar ordens ou conselhos. Presente em manuais, livros didáticos e de autoajuda e textos publicitários. É comum o uso dos verbos no imperativo.

Ex: Não perca esta promoção!


Função poética
Elabora a mensagem de modo criativo e explora a linguagem figurada. Está presente na poesia, em provérbios e em mensagens publicitárias.


Função fática
Inicia, prolonga ou encerra um contato. É aplicada em situações em que o mais importante não é a comunicação, mas sim o desejo de contato entre o emissor e o receptor. Predomina nos momentos iniciais e finais de qualquer mensagem ou conversa.

Ex: sim, claro, sem dúvida.


Função metalinguística
Metalinguagem ocorre quando o emissor explica um código usando o próprio código. Por exemplo, uma poesia cujo tema e assunto seja poesia ou poeta. As gramáticas e os dicionários são exemplos de metalinguagem, pois são palavras explicando palavras.

Ex: Oração é uma sentença com sentido completo organizada em torno de um verbo (para explicar a oração usamos uma oração).


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domingo, 7 de maio de 2017

Império Romano

Sobre a grandeza do Império Romano
As causas da grandeza de Roma, para avaliar a força, a pujança delas, nada melhor do que considerar aquilo que elas produziram, a saber, a própria grandeza de Roma.
Roma notabilizou-se, desde cedo, pela vocação de grandeza. Um fato diz tudo. A própria Constantinopla, construída sob o signo da hegemonia, vassalagem lhe rendeu: para enobrecê-lá, chamaram-na Nova Roma.
Era Roma cidade extensa, populosa, de ruas estreitas, febrilmente laboriosa. Durante o dia, proibido nela tráfego de carros. O Coliseu, com três andares, assemelhava-se ao nosso estádio do Maracanã̃; comportava cinquenta mil espectadores; e tinha cobertura quando convinha. O Circo Máximo comportava duzentos e cinquenta mil espectadores. Em suas pistas, brigas e quadrigas corriam, pelejando por suas cores. Os prélios esportivos exerciam, tal como o carnaval e futebol brasileiros, uma função política: em torno deles confraternizavam as camadas sociais, retemperando a solidariedade nacional. Para tal congraçamento contribuíam ainda outras instituições: a convivência no Fórum, praça central onde se desenvolviam as atividades governamentais (judiciárias, legislativas e administrativas); a frequência ao Campo de Marte; e o boletim noticioso.
A zona periférica ampliou-se. Sila estendeu o pomerium, as fronteiras sagradas, incorporando a Roma cidades italianas, e então ela deixou de ser um pequeno Estado-cidade, como houve tantos na Antiguidade.
E Roma era, sim, populosa. As divergências a respeito são abismais. Engel admite uma média: entre seiscentos mil e um milhão de habitantes, ao tempo de Augusto. A verdade é que a população variava muito. Tornou-se cosmopolita, a ponto de surgir a classe dos Cavaleiros, classe aristocrática, quase toda de libertos.
Na época de Nero, Roma tinha quatorze bairros periféricos, dos quais dez destruídos no famigerado incêndio.
Sob Augusto, havia cinco milhões de cidadãos romanos, e a população do Império era de cinquenta milhões de habitantes, sendo oito milhões nas Gálias e cinco milhões na Síria.
Para comparação, citaremos: a Republica de Veneza, com cento e quarenta mil habitantes, e seu império com dois milhões e meio; e Portugal, nos grandes descobrimentos, possuía dois milhões e meio de habitantes. E Roma ficou riquíssima. Graças aos tributos recebidos; e aos tesouros alocados; e aos presentes ofertados; e aos saques efetuados. E mercê̂ do seu intenso comércio (inclusive com o Oriente), servido por bancos e armazéns.
Toda essa grandeza material era simples reflexo, decorrência da excelência das Instituições Romanas. Instituições civis, políticas, militares.

Referência:
MONTESQUIEU, Charles de Secondat, Baron de, 1689- 1755 Considerações sobre as causas da grandeza dos romanos e da sua decadência / Montesquieu ; introdução, tradução e notas de Pedro Vieira Mota. — 2. ed. rev. — São Paulo: Saraiva, 2005.


sábado, 6 de maio de 2017

App para escolas

Aplicativo conecta professores e alunos

Estudantes e educadores brasileiros podem se cadastrar no Remind pelo https://www.remind.com, a ferramenta de comunicação gratuita que é sucesso no mundo. Usado por cerca de 1 milhão de professores e 17 milhões de pais e alunos somente nos Estados Unidos, Remind chegou ao Brasil graças à iniciativa da Fundação Lemann, que lançou a versão em português do aplicativo. O Remind estimula o engajamento dos pais na educação dos filhos, além de facilitar a comunicação dos professores com seus alunos.

Para desenvolver a ferramenta, os fundadores do Remind perguntaram para 200 professores o que eles esperavam de um aplicativo para sala de aula. A resposta? Um jeito simples de aumentar o engajamento de pais e responsáveis na vida escolar dos filhos. “A Fundação Lemann acredita muito nesse engajamento como forma de melhorar a Educação e, por isso, lança o Remind, para que pais brasileiros possam se envolver de maneira rápida, segura e eficiente”.


De acordo com um estudo conduzido pela Universidade de Harvard, em média, a comunicação entre professores e a família aumentaram as chances de os alunos concluírem os deveres de casa em 42% e reduziram o número de vez em que os professores precisaram redirecionar a atenção dos alunos para a tarefa principal em 25%. A comunicação entre responsável e professor é fundamental para o sucesso do aluno e o Remind pode assisti-lo nessa área.

segunda-feira, 1 de maio de 2017

Como nossos pais

  
Belchior



Não quero lhe falar
Meu grande amor
Das coisas que aprendi
Nos discos
Quero lhe contar como eu vivi
E tudo o que aconteceu comigo

Viver é melhor que sonhar
Eu sei que o amor
É uma coisa boa
Mas também sei
Que qualquer canto
É menor do que a vida
De qualquer pessoa

Por isso cuidado, meu bem
Há perigo na esquina
Eles venceram e o sinal
Está fechado pra nós
Que somos jovens

Para abraçar meu irmão
E beijar minha menina na rua
É que se fez o meu lábio
O meu braço e a minha voz

Você me pergunta
Pela minha paixão
Digo que estou encantado
Como uma nova invenção
Vou ficar nesta cidade
Não vou voltar pro sertão
Pois vejo vir vindo no vento
O cheiro da nova estação
E eu sinto tudo na ferida viva
Do meu coração

Já faz tempo
E eu vi você na rua
Cabelo ao vento
Gente jovem reunida
Na parede da memória
Esta lembrança
É o quadro que dói mais

Minha dor é perceber
Que apesar de termos
Feito tudo, tudo, tudo
Tudo o que fizemos
Ainda somos os mesmos
E vivemos
Ainda somos os mesmos
E vivemos
Como os nossos pais

Nossos ídolos
Ainda são os mesmos
E as aparências, as aparências
Não enganam, não
Você diz que depois deles
Não apareceu mais ninguém

Você pode até dizer
Que eu estou por fora
Ou então
Que eu estou enganando

Mas é você
Que ama o passado
E que não vê
É você
Que ama o passado
E que não vê
Que o novo sempre vem

E hoje eu sei, eu sei
Que quem me deu a ideia
De uma nova consciência
E juventude
Está em casa
Guardado por Deus
Contando os seus metais

Minha dor é perceber
Que apesar de termos
Feito tudo, tudo, tudo
Tudo o que fizemos
Ainda somos
Os mesmos e vivemos
Ainda somos
Os mesmos e vivemos
Ainda somos
Os mesmos e vivemos
Como os nossos pais


domingo, 30 de abril de 2017

O modelo comunicativo de Roman Jacobson


Um dos modelos mais utilizados por professores de português para explicar a comunicação humana nasceu — quem diria? — na matemática. Tudo começou em 1948, quando o matemático e engenheiro elétrico Claude Shannon publicou um artigo chamado “Uma teoria matemática da comunicação”. Shannon era pesquisador dos Laboratórios Bell, ligados à gigante norte-americana das computações AT&T, e buscava maneiras de tornar mais eficientes os telégrafos e aparelhos de telefonia da época. Sua grande preocupação era evitar o ruído, isto é, as interferências que prejudicavam a perfeita transmissão da mensagem entre um aparelho e outro.
No ano seguinte, a teoria de Shannon foi publicada em um livro com prefácio de Warren Weaver, outro matemático e engenheiro. Weaver — que também era um ótimo relações-públicas — enviou um exemplar da obra a Roman Jakobson, renomado linguista de origem russa que lecionava na Universidade de Harvard. O linguista ficou fascinado com a nova teoria e considerou que ela também se aplicava à comunicação humana. Nascia, assim, a versão mais clássica do modelo comunicativo, divulgada por Jakobson nos anos 1960 e comunicação humana estão presentes seis elementos:
De acordo com esse modelo, em qualquer ato de comunicação humana estão presentes seis elementos:
·           mensagem — o conjunto de informações que se quer transmitir;
·           emissor ou remetente — aquele de quem parte a mensagem;
·           receptor ou destinatário —aquele a quem se destina a mensagem;
·         código — um sistema de signos que emissor e receptor precisam compartilhar, total ou parcialmente, para que haja a comunicação;
·           canal ou contato — o meio físico pelo qual emissor e receptor se comunicam;
·           o referente ou contexto — o assunto da mensagem, aquilo a que ela se refere.
Assim, por exemplo, se você enviar um torpedo a um amigo convidando-o para uma festa, a mensagem será o conteúdo do torpedo, ou seja, o conjunto de palavras que o compõem. O emissor será você, e o receptor, seu amigo. O código será a língua portuguesa, o canal será o celular e o referente será a festa, pois é a ela que a mensagem se refere.
Se você preferir fazer o convite pessoalmente, quase todos os elementos permanecerão inalterados, quase todos os elementos permanecerão inalterados — exceto o canal, que passará a ser o ar, pelo qual sua voz se propagará. Vale lembrar, ainda, que, em um evento comunicativo dinâmico como a conversa face a face, emissor e receptor trocam o tempo todo de posição, de acordo com aquele que está falando ou ouvindo em cada momento.
Vamos a outro exemplo, imagine que você esteja dirigindo por uma estrada e depare com uma placa [com o desenho de uma ponte em que as metades inclinam liberando o rio para a navegação de embarcações]. Neste caso, o emissor é o órgão responsável pelo controle do trânsito, os receptores são você e os demais motoristas. O canal é a placa em si, o código é o conjunto dos sinais de trânsito do país e a mensagem — expressa segundo os símbolos desse código — é “ponte móvel adiante”. Por fim, o referente é a ponte em questão; não qualquer uma, mas especificamente aquela que se encontra adiante, na estrada. Observe que se o receptor não conhecer o código (as placas de trânsito do país), não saberá interpretar a mensagem. Daí termos afirmado que emissor e receptor precisam compartilhar o código, ainda que parcialmente.

Adaptado:
GUIMARÃES, Thelma de Carvalho. Comunicação e linguagem. São Paulo: Pearson, 2012.


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sábado, 29 de abril de 2017

Introdução à filosofia de Friedrich Nietzsche

OS PENSAMENTOS FUNDAMENTAIS DE NIETZSCHE
Segundo livro

Não há quase uma realidade sobre a qual Nietzsche não teria dito algo: é possível fazer sínteses a partir de seus escritos sobre quase todas as coisas grandes e pequenas, sobre o Estado, a religião, a moral, a ciência, a arte, a música, sobre a natureza, a vida, a doença, sobre trabalho, homem e mulher, amor, casamento, família, sobre povos, épocas, história, personalidades históricas, contemporâneos, sobre as questões derradeiras do filosofar. Essas sínteses podem ter, no caso particular, um peso maior ou menor; em todo caso, a correta compreensão das manifestações singulares depende da posse dos traços fundamentais de seus movimentos de pensamento e do saber em torno dos conteúdos dominantes.
É possível alcançar os traços fundamentais por dois caminhos: acompanhando a negação ilimitada e apreendendo o elemento positivo. Mas já na negação nietzschiana está constantemente presente um envolvimento de origens positivas, que se comunicam indiretamente no não; inversamente, na comunicação direta da verdade, está ininterruptamente pronta a contradição, que insere posições aparentemente as mais absolutas no movimento que vem do envolvimento; a não ser que Nietzsche permaneça parado contra a sua essência por um instante em uma fixidez dogmática, que se mostra para ele como uma ruptura e que, de fato, nunca permanece em parte alguma irrestrita.
Vir do negativo para o positivo é, para a própria consciência de Nietzsche, o seu problema até o fim. As coisas não se dão de tal modo que, depois de uma fase da vida meramente crítica, ele estaria um dia de posse de uma nova crença. O tempo inteiro há nele o perigo do nada e o tempo inteiro também a percepção do ser. Ainda por fim, ele contabiliza a si mesmo, juntamente com Burckhardt e Taine, entre os niilistas fundamentais: “apesar de eu mesmo ainda não me encontrar desesperado quanto a encontrar a saída e o buraco por meio do qual se chega a ‘algo’” (para Rohde, 23 de maio de 1887).
Até o colapso encontram-se em uma contradição aguda as sentenças negadores e as positivas: “Por mim, nenhum novo ídolo é erigido... Ídolos (meu termo para os ‘ideais’). E, em contrapartida: “Depois de longos anos... prossigo e procuro fazer também publicamente uma vez mais aquilo, que sempre faço para mim e sempre fiz: a saber, pintar imagens de novos ideais na parede” (14, 351).
Essa contradição é, para ele, a expressão do processo unicamente necessário, depois que “Deus está morto”. Ideais significam para ele ídolos, quando eles passam, mas significam também para ele a verdade, quando são prenhes de futuro. “Quem não encontra mais a grandeza em Deus não a encontra mais em geral – ele precisa negá-la ou criá-la” (12, 329). Nietzsche quer criá-la: “Vós o denominais a autodecomposição de Deus: mas trata-se apenas de sua troca de pele... vós deveis revê-lo em breve uma vez mais, para além do bem e do mal” (12, 329).
Aquilo que aparece para a consciência de Nietzsche e em seu agir fático como duas coisas, negar e afirmar, decompor e criar, aniquilar e produzir, torna-se um problema inverídico, quando a resposta afirmadora é esperada no mesmo plano no qual vige o juízo negador: no plano da concepção racional e de sua enunciabilidade compreensível para qualquer um.
O universal racional é como tal crítico e negativo, isto é, o entendimento por si é decompositor; positivamente, só a historicidade do ser irrepresentável, não universal, é que se encontra por si mesma e ligada com o seu fundamento, que não permanece, contudo, velado, mas desprovido de essência, quando ele não traz a si mesmo para a clareza por meio do entendimento. Essa intelecção profunda de Schelling, que o conduziu à cisão de sua filosofia negativa e positiva, não foi possuída por Nietzsche, mas Nietzsche a seguiu inconscientemente. A negação enquanto a aparição do conceber racional é ela mesma afirmação a serviço da historicidade. Essa historicidade, em contrapartida, enunciando-se, entra na esfera do racional e decai, assim, no ser dito do movimento. O racional é apenas respectivamente como um racional por meio de um outro e vale apenas em relações; o histórico vive a partir de si mesmo e entra em comunicações do tornar-se si mesmo.
Sem a amplitude da filosofia negativa não há nenhuma filosofia positiva. Só no purgatório do racional, o homem pode verdadeiramente perceber a sua historicidade positiva. Essa historicidade só chega a falar por meio do racional, com o qual ela de qualquer modo apreende indiretamente o seu elemento historicamente originário. O positivo como fundamento da historicidade da existência movimenta-se, por isto, em todas as direções da racionalidade, entregando-se a elas totalmente, mas conduzindo-as e mantendo-se coeso a partir da origem histórica própria, que não pode saber a si mesma, mas só se clarifica sem intenção na universalidade do que há para ser sabido e por ele produzido.
O positivo sob a forma do que acaba de ser dito teria, porém, se tornado ele mesmo racional-universal e recaído no plano da decomponibilidade ilimitada. Pois é assim que as coisas precisam se dar na racionalidade, ainda que seja na falsa racionalidade, pois uma racionalidade não compreensiva ganha a palavra e se torna consciente. Sob essa figura como doutrina de uma possibilidade de saber geral é que o positivo se mostra como degradado em suas raízes, porque considerado como o mero entendimento, e, com isto, transformado em algo universal e abstrato; da maneira mais radical possível, quando ela emprega essa doutrina da cisão de filosofia positiva e negativa (ou racional e histórica) para alijar o entendimento e, então, recusa de qualquer modo uma prova racional em enunciados faticamente racionais.
Os nexos apontam o caminho para os conteúdos que dominam Nietzsche: na medida em que Nietzsche expõe francamente a sua positividade, seu conteúdo se torna questionável. Na medida em que ele procede buscando e tentando, ele levanta a pretensão extraordinária de uma existência possível. Nietzsche filosofa em uma situação filosófica nova, criada pelos séculos que lhe foram precedentes.
Uma filosofia ingênua, que pode apresentar Deus e mundo e aí o homem, não vê a cisão entre racionalidade e historicidade; ela pode comunicar os seus conteúdos de uma maneira despreocupadamente direta e de modo imagético e pensante, sem decair necessariamente em um equívoco existencial; e, mais tarde, depois da ruptura da ingenuidade, ela pode satisfazer ainda esteticamente aquele que olha para trás por meio da unilateralidade e da totalidade de sua obra, pode se mostrar pretensiosa por meio da verdade da existência que a sustenta. Todavia, se, depois da ruptura do todo inquestionado de Deus, alma e mundo, se sente e ganha a consciência a cisão entre um universal racional e uma historicidade existencial, então se mostram no primeiro plano do racional as questões da dúvida; em Nietzsche: o que é o homem (primeiro capítulo), o que é a verdade (segundo capítulo), o que significa a história e a era atual (terceiro capítulo). Então, porém, o ser também se revela presente em sua história, e, em verdade, é buscado na vontade de futuro (capítulo 4), como interpretação do mundo por esse instante (quinto capítulo), como unificação mística do ser (sexto capítulo).
Nessas questões da dúvida, o impulso já positivamente preenchedor é, para Nietzsche, o seguinte: o amor ao ser humano nobre, que se desespera com o homem em cada uma de suas figuras efetivas; a seriedade inexorável de uma veracidade, que coloca a própria verdade em questão; o preenchimento com figuras históricas, que desemboca na ausência de sentido e de meta da história.
Nas intervenções positivas, a vontade de futuro se mostra como projeto da grande política, que se enraíza no conceito permanente indeterminado da criação; uma doutrina do mundo da vontade de poder se mostra como a intuição que anima os portadores do contramovimento em relação ao niilismo, intuição essa que, girando em círculo, suspende a si mesma; a experiência do ser se anuncia em estados místicos, enunciando-se, sobretudo, na doutrina do eterno do mesmo, que fracassa no paradoxo.
Reside na essência dos conteúdos revelados em Nietzsche o fato de que eles só se mostram para aquele que vai ao seu encontro a partir de si. Por isto, o pensamento de Nietzsche pode parecer por um lado vazio e, por outro, o mais profundo de todos. Ele é vazio, se quisermos ter algo, que valha e subsista; ele é pleno, se participarmos do seu movimento. Se a própria comoção dos impulsos originários de Nietzsche é vivificada, então os desdobramentos negativos de seu pensamento são mais plenos do que os enunciados positivos que, em sua falsa racionalidade, assumem rapidamente ares de cascas nas quais não há nada. Inversamente, os enunciados positivos talvez consigam por um instante arrebatar, quando eles conseguem ser apreendidos simbolicamente e ser tomados como signos; e, por sua vez, os enunciados negativos podem entediar, quando não parecer haver neles nenhuma imagem e nenhum pensamento criador, quando não parece subsistir nenhum símbolo.
Diferentemente dos maiores filósofos do passado, o que é característico de Nietzsche é o fato de que ele, por meio de suas negações, dá a impressão de ser mais verdadeiro do que por meio de suas posições. Não vem à tona para onde o impulso propriamente dito, mais originário, segue por fim, o impulso cuja verdadeira essência não pôde se subtrair a nenhum leitor sério: Nietzsche abre o espaço, ele destrói os horizontes limitadores; ele não realiza uma crítica que institui limites, como Kant, mas ele ensina a colocar em questão; ele preenche com possibilidades, desperta as forças que animam a postura interior.
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JASPERS, Karl. Introdução à filosofia de Friedrich Nietzsche / Karl Jaspers; tradução Marco Antônio Casanova. 1. ed.  Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2015.