"Olhai para os lírios do campo, como eles crescem; não trabalham, nem fiam. E eu vos digo que nem mesmo Salomão, em toda a sua glória, se vestiu como qualquer deles".

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Os Gêneros Literários

Nos últimos anos, a teoria dos gêneros de discurso inspirada nas reflexões de Bakhtin e outros, vêm alimentando a discussão sobre ensino de língua no Brasil e em outros países. Nessas discussões, são documentos de referência os PCN de Língua Portuguesa para o Ensino Fundamental e Médio. Neles, o conceito de gênero de discurso é discutido para além do que já era conhecido e utilizado na escola até então, ou seja, para além dos gêneros literários. Como os PCN enfatizam a necessidade de diversificar o ensino de gêneros na escola (necessidade que a equipe de trabalho da Olimpíada de Língua Portuguesa Escrevendo o Futuro confirma), o risco que se corre é o de “esquecer” a importância do ensino de literatura para a formação humana.
Pretendemos trazer para discussão, nas próximas semanas, o ensino de gêneros literários. Por isso, consideramos importante retomar a história desse conceito. Encontramos um artigo que explora o assunto com propriedade e linguagem de fácil entendimento, escrito por Helena Parente Cunha e publicado em
Os gêneros literários.
Nesse artigo, a autora retoma o conceito a partir de sua origem, os estudos dos filósofos Platão e Aristóteles na Grécia Antiga, cerca de quinhentos anos Antes de Cristo. Vê-se que a discussão acompanha a História da humanidade desde seus primeiros registros escritos. Esses filósofos foram os primeiros a classificar os gêneros literários, agrupando-os em gêneros narrativos divididos em os épicos e dramáticos. Essa classificação foi discutida e reformulada ao longo de mais de dois mil anos, o que trouxe para seu estudo complexidade e profundidade. Na época do Renascimento (séculos XIV e XVI), estudiosos acrescentaram aos dois grandes gêneros narrativos um terceiro grupo, o dos gêneros líricos, no qual se classificam os gêneros poéticos.
Os resultados desse longo estudo apresentam grandes controvérsias, mas continuam sendo indispensáveis para a compreensão de como podemos organizar o estudo e o ensino dos gêneros literários. De acordo com a autora, é possível continuar usando a antiga classificação se considerarmos que a designação de cada um dos três grupos pode ser vista como substantiva e como adjetiva:
Se adotarmos a divisão tripartida - lírico, épico e dramático - como encaixar nesses três compartimentos a multiplicidade da produção literária? Como classificar certos contos que adotam o procedimento do puro diálogo, peculiar à obra dramática? E certas composições dramáticas onde apenas comparece uma personagem em extenso monólogo? E as obras líricas de cunho narrativo ou em diálogo, ou ainda quando a emoção cede à reflexão? Não teria sentido instituir novas divisões, que cresceriam ilimitadamente, tal a desconcertante diversidade das obras. Como agir diante do impasse? (...) Os substantivos Lírica, Épica e Drama referem-se ao ramo em que se classifica a obra, de acordo com determinadas características formais. Os poemas de breve extensão que expressam estados de alma, se enquadram na Lírica. O relato ou apresentação de uma ação pertence à Épica, enquanto a representação da ação, movida por um dinamismo de tensão, se situa no Drama. Os adjetivos lírico, épico e dramático definem a essência, isto é, os traços característicos da obra, manifestados por seus fenômenos estilísticos.
A autora, em seu artigo, prossegue buscando uma classificação orientadora e indica como pertencentes à Lírica, por exemplo, o soneto, a ode, a balada; como parte da Épica, a epopéia, o romance, a novela, o conto; como parte do drama, a tragédia, a comédia, a tragicomédia e a farsa. No decorrer do artigo, a autora aprofunda especialmente o estudo dos gêneros líricos e épicos. Uma distinção que faz entre eles é que:
As obras líricas resultam da fusão entre o eu e o mundo, ao passo que as épicas se caracterizam primeiramente por um distanciamento entre o sujeito (narrador) e o objeto (mundo narrado). Convém ter em mente que todas as vezes que nos referimos a sujeito, eu, narrador, autor, objeto, mundo, tratamos de entidades fictícias do universo imaginário da obra literária. Enquanto o poeta lírico exprime seus estados de alma, envolvendo-se no que diz, o narrador se coloca numa situação de confronto em relação àquilo que conta. Ao invés da imprecisão de contornos do estado lírico, o mundo se firma e se oferece à perspectiva do narrador como objeto, ou seja, etimologicamente, colocado em frente. A categoria do distanciamento instaura aqui um defrontar objetivo, estranho à essência lírica.
A leitura do artigo completo é interessante para dar fundamento às nossas escolhas de gêneros literários a serem trabalhados na escola.
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Helena Parente Cunha, In http://escrevendo.cenpec.org.br

2 comentários:

Gata disse...

Você é professor de teoria literária?Gostei muito do seu texto, é muito construtivo, estou fazendo o primeiro período de letras com habilitação em português e as vezes me sinto perdida.

shawna disse...

amei o seu texto, estou no primeiro periodo de letras e você me ajudou muito...obrigada por tudo. lú feitosa