"Olhai para os lírios do campo, como eles crescem; não trabalham, nem fiam. E eu vos digo que nem mesmo Salomão, em toda a sua glória, se vestiu como qualquer deles".

domingo, 14 de fevereiro de 2010

A beleza salvará mesmo o mundo?

Paulo Timm

“O poeta nos permite desfrutar nossas próprias fantasias, sem censura, sem pudor.” (Sigmund Freud)

Recomenda o velho ditado que, se não tens nada a dizer, fiques calado. Afinal, se a fala é de prata, o calar é ouro fino. Conselho importante para se ter presente nas reuniões sociais, mas inviável para quem vive de fazer-se ouvir. Não falo do viver como instância material, mas como substância existencial, sem a qual um escritor, poeta, romancista ou cronista se exila de si e morre de inanição. Mas o que dizer diante de tanta miséria humana, exposta aos olhos do mundo na tragédia do Haiti? Como compatibilizar uma consciência iluminista com a vitória de um aliado de Pinochet no Chile? Dá para suportar a edição de mais um Big Brother Brasil na Rede Globo, sobre o qual convergirão os indicadores de audiência, estimulando as outras redes com programas similares?

Não sei não… Folheio livros, releio meus arquivos eletrônicos, verdadeiro porta-jóias de minhas leituras diárias, arrisco-me a comentar uma entrevista de Willian Faulkner na qual ele abre o jogo sobre o segredo dramático de seus romances… Querem saber?

Trata-se da trindade da consciência. Uma “santíssima trindade” laica que iria influenciar gerações inteiras de escritores, chegando até nosso imortal Gabriel Garcia Marques, que nele se inspirou. Os romances de Faulkner, segundo ele, giram em torno de três personagens chaves, detentores de três tipos de consciência: os que nada sabem – e porque não sabem, pouco se importam e nada fazem –; os que sabem e não se importam – que são os cínicos –, que locupletam nosso universo político; e os que sabem e se importam – que são os que carregam as mazelas do mundo, Zilda Arns entre eles, como outrora Luther King e tantos outros abnegados. Com base nesses personagens Faulkner diz que o escritor está sempre tentando criar “pessoas verossímeis em situações comoventes e críveis, da maneira mais comovente” de forma a expor a vida em movimento, pois é no movimento da vida que as pessoas vivem. A vida é movimento, diz ele, e o movimento está ligado ao que faz com que o homem se mova, que é a ambição, o poder, o prazer”. E adverte: “Qualquer tempo em que um Homem possa dedicar à moralidade ele tem que arrancar à força do movimento do qual faz parte. Sua consciência moral é a maldição que ele tem que aceitar dos deuses de modo a obter deles o direito de sonhar.”

Me pergunto: Alguém tem culpa pelo que ocorre no Haiti? Quem sabia e nada fez para mudar o curso de um destino trágico? Quem sabia, tentou fazer e não conseguiu? E não pergunto pelos que nem sabiam e nada fizeram, porque deles é Reino de Deus… Basta-lhes a felicidade do simples jogo da vida, escapando-lhes o direito de sonhar…. E quanto ao Chile, de quem é a culpa pela vitória de Piñeros? E como o mundo civilizado permite reedições sistemáticas do Big Brother por todos os seus países…?

Volto ao Romance.Nele me refugio. Com efeito, ainda não se conseguiu, mesmo com o desenvolvimento considerável das Ciências Humanas no Século XX, nada comparável ao Romance como Teoria da Existência Humana. E, assim, continuamos no pólo da sensibilidade, antena da beleza, para entender o Homem. Mas por que, então, tanto (esforço) à verdade e tão pouco à beleza se ela, a verdade, é tão inatingível? Leon Tolstoi alimentou tantos sonhos em sucessivas gerações russas para, afinal, confiná-las, sob o condomínio da verdade administrada pelo marxismo soviético, à depressão dos Gulags. Dostoievski, no seu encalço, acreditava que só a beleza salvaria o mundo. E apostou nisso criando as mais belas páginas de literatura mundial. Salvou alguma coisa? Ou, simplesmente, não conseguiu sensibilizar aquele maravilhoso povo, suficientemente, para o primado da beleza sobre a verdade…?

Sempre o Romance… Tecendo o fio de existências humanas grandiosas mas incompletas, sem direito à História, cativa da razão.

Longe da nossa tradição ocidental, marcada por Shakespeare, e o corolário de romancistas , desde Crétien de Troyers, com Lancelot e Tomas Malory, no Sec. XV, passando no século seguinte aos épicos de Cervantes , Mme. Lafaeyete e Daniel Defoe, para fechar-se num prodigioso ciclo de “folhetins” inaugurado por Goethe, em 1796, com o histórico “Os anos de aprendizagem de W. Meister”, seguido dos grandes “fleuves” de Honoré de Balzac – “A Comédia Humana” – e Émile Zola, Rougon Marquart, num imenso fluxo que desembocaria no início do século XX em James Joyce, Romain Rolland, Roger Martin Du Gard e Sartre, Milan Kundera nos fala dos formadores de consciências do lado oriental da Europa, evidenciando também sua importância para este, que foi o memorável autor da “Insustentável leveza do (de) ser”:

“Musil e Hermann Brock sobrecarregaram o homem com responsabilidades enormes. Eles o viam como a suprema síntese intelectual. O último lugar onde o homem ainda questiona o mundo como um todo. Estavam convencidos de que o romance tinha um tremendo poder sintético, que ele podia ser fantasia, aforismo e ensaio. Tudo ao mesmo tempo.O objeto específico daquilo que Brock gostava de chamar “conhecimento novelístico” é a existência. A meu ver, a palavra “poli-histórico” deve ser definida como aquilo que reune todo artifício e toda forma de conhecimento de modo a lançar luz sobre a existência”.

Será que as novas gerações estão lendo esses autores com a mesma sofreguidão com que nós o fazíamos. E descobrindo o universo da natureza com os livros equivalentes de Julio Verne, H.G.Wells, Arthur Clarck, Arthur Koestler? Ou estão apenas embalados na fantasmagoria de Harry Potter e Paulo Coelho?

Não sei…

Mas pelo sim, pelo não, vale a pena insistir na beleza como caminho da salvação, senão do mundo, dos nossos pobres espíritos massacrados por tantas e sucessivas verdades. E quem sabe o espírito reanimado não seja o caminho da reconciliação. “Minha pátria é minha língua”, insistia Fernando Pessoa, deleitando-se com as palavras que dançavam nos seus versos propiciando-lhe momentos de verdadeiro êxtase.


* PAULO TIMM é Economista, Pós Graduado ESCOLATINA, U. do Chile – Ex Presidente do Conselho de Economia DF, Professor da UnB –paulotimm@hotmail.com Publicado em Via Política e na Coluna do Timm.

http://literaturapolitica.wordpress.com/2010/02/10/a-beleza-salvara-mesmo-o-mundo/

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