"Olhai para os lírios do campo, como eles crescem; não trabalham, nem fiam. E eu vos digo que nem mesmo Salomão, em toda a sua glória, se vestiu como qualquer deles".

domingo, 4 de maio de 2014

Dificuldades ortográficas e gramaticais da língua portuguesa

1ª AULA DE LÍNGUA PORTUGUESA

ou a

Emprega-se:
a    
·        Ideia de tempo futuro
                     Ex.:  Daqui a pouco teremos uma grande decisão de futebol.

·        Ideia de distância
Ex.:  O teatro fica a 5 quilômetros da escola.

·        Na expressão a tempo quando significa em tempo
Ex.:  Ele chegou a tempo de tomar o ônibus.
·        Ideia de tempo passado (pode ser substituído por faz)
Ex.: Há duas semanas que não o vejo.


ATIVIDADES

Complete com há ou a:

1.      dias que não vou pescar.

2.      Ele mergulhou a três metros de profundidade.

3.      Daqui a alguns anos, os homens ainda se lembrarão do bate papo e das conversas informais que, muito tempo, vem sendo importantes formas de comunicação.

4.      Você se referiu, há dias, as diferenças entre a linguagem escrita e a falada, dizendo que, só a alguns anos, começaram a ser, realmente estudadas de modo científico.

5.      Acredita-se que, de hoje a alguns anos, os homens terão uma comunicação mais pessoal como muito deixaram de ter.

6.      séculos a preocupação do homem tem sido superar os limites do tempo e do espaço: daqui a algum tempo, tenho certeza, o homem voltará a sentir a necessidade de uma comunicação mais pessoal.

7.      uma semana que não leio jornais, daqui a pouco tentarei ler alguns números atrasados.

8.      A cidade fica a dez quilômetros daqui, parando tanto, não chegaremos a tempo de ver o espetáculo que começará daqui a 40 minutos.

9.      O acidente ocorreu a poucos metros daqui, uns dez minutos.     Daqui a pouco chegará a polícia.

10.  tempo não trabalho tanto quanto agora.


2ª AULA DE LÍNGUA PORTUGUESA


AONDE ou ONDE?

Aonde é empregado com verbos de movimento:  ir, chegar, levar.
Onde é empregado com verbos que não indiquem movimento.

Ex.:   Aonde você foi?
         Onde você se hospedou?

ATIVIDADES

1-  Onde estão as crianças?
2-  Aonde você foi tão tarde?
3-  Aonde levaremos o casal?
4-  Onde fica a rua Direita?
5-  Elas gostam do apartamento onde moram.
6-  Aonde foste com tanta pressa?
7-  Ainda não sei onde ficaremos hospedados.
8-  Aonde levaremos este material?

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VIAGEM ou VIAJEM

Viagem é substantivo.   Viajem é o verbo no presente do subjuntivo.

Ex.:   Espero que você faça uma boa viagem.
         Viajem bastante enquanto vocês podem!

ATIVIDADES

I – Complete com viagem ou viajem:

1-  Minha última viagem de ônibus foi maravilhosa.
2-  Desejo que vocês viajem confortavelmente.
3-  Tivemos alguns problemas durante a viagem.
4-  Não creio que eles ainda viajem.
5-  Filha, como foi a viagem?
6-  Espero que vocês viajem em paz.
7-  Minha última viagem foi tumultuada.
8-  Acredito que eles viajem bem cedo.

II – Construa frases empregando viagem ou viajem

Eu tenho feito muitas viagens de negócios.
Ele se despediu rápido, mas desejou que vocês viajem tranquilamente.


3ª AULA DE LÍNGUA PORTUGUESA


ESTE, ESSE ou AQUELE

Os pronomes este(a), estes(as), isto referem-se a seres próximos ao falante (emissor, aquele que fala).
Ex.:  Este livro aqui, na minha opinião, é ótimo.

Os pronomes esse(a), esses(as), isso referem-se a seres próximos ao ouvinte (longe do emissor ou falante).
Ex.:  Onde compraste sua gravata, Pedro?

Os pronomes aquele(a), aqueles(as), aquilo referem-se a seres distantes do falante e do ouvinte.
Ex.: Você conhece aquele homem lá?


ATIVIDADES


I – Empregue este, esse, aquele, flexionado ou não:

1-    Veja aquela casinha lá no alto do morro.

2-    Este meu cachorrinho de estimação é uma graça, disse Carlinhos.

3-    Onde compraste esse brinquedo, Rodrigo.

4-    Amigo, aquele senhor de pé, lá na frente, é meu tio.

5-    Filha, aonde vais com esse pacote?

6-    Esta revista aqui, na minha opinião, está muito boa.

7-    Você conhece aquela criança lá?

8-    Essa revista que você está lendo é interessante?

9-    Sim, esta revista é ótima.

10-          É aquela que você leu ontem?

11-          Veja aquele carro lá! Parece um modelo importado.


4ª AULA DE LÍNGUA PORTUGUESA


MAL = antônimo de bem
MAU   = antônimo de bom

Ex.:  A menina dançou mal.
         Estou num mau dia.

Observação:
Mau é sempre adjetivo.  Modifica o substantivo.
         Ex.: Menino mau
                 Menina má

Mal pode ser advérbio (modo), substantivo ou conjunção (subordinativa adverbial temporal).

         Ex.: João fala mal. (advérbio)
                A preguiça é um mal. (substantivo)
       Mal chegamos em casa, começou a chover. (conjunção)

ATIVIDADES


I -      Complete com mau ou mal.

1-  Ele tem fama de ser um mau caráter.
2-  O paciente chegou muito mal ao pronto socorro.
3-  Infelizmente tivemos um mau começo.
4-  Minha filha foi mal nas provas.
5-  Não pense mal das pessoas.
6-  Ele tem sido um mau aluno.

II -     Complete com mau, maus, má, más, mal ou males, usando:
         (1) adjetivo      (2) advérbio      (3) substantivo      (4) conjunção

1-  Fiz um mau (1) negócio.
2-  O filme começou mal (4) chegamos no cinema.
3-  Muitos professores leem pouco e escrevem mal (2).
4-  Você teve uma (1) ideia quando me propôs deixar a cidade.
5-  A ignorância é o pior dos males (3).
6-  Deixe de ser (1), menina.
7-  João é de índole (2).
8-  Mal (4) entrei na sala, todos cobraram a promessa.


5ª AULA DE LÍNGUA PORTUGUESA

CESSÃO, SEÇÃO OU SESSÃO

Cessão é o ato de ceder.
Ex.:  O governador fez a cessão de um terreno aos sem-terra.

Seção é repartição.
Ex.: Você encontra isso na seção de roupas.

Sessão é a reunião de pessoas para um determinado fim.
Ex.: A primeira sessão de cinema começa às duas horas.



ATIVIDADES

I – Complete, empregando cessão, sessão ou seção:


1 – A cessão de direitos já foi entregue a nós.
2 – Hoje não haverá sessão de teatro.
3 – Na seção de eletrodomésticos você encontra o fogão.
4 – Houve uma sessão espírita naquela casa.
5 – Antes de morrer, fez a cessão de todos os seus bens.
6 – Em cada seção desta firma, há um chefe.
7 – Na Câmara dos Deputados, realizou-se uma importantíssima sessão para debates sobre projeto de lei referente à cessão de terrenos a empresários estrangeiros.



6ª AULA DE LÍNGUA PORTUGUESA

PORQUE, POR QUE, PORQUÊ, POR QUÊ

1 – Porque é empregado em frases declarativas, isto é, como conjunção coordenativa    explicativa ou conjunção subordinativa causal.
Ex.: Venha, porque sua mãe precisa de você. (conjunção coord. explicativa).
              Não compareci à reunião porque estava viajando. (conj. subordinativa causal).

Obs.: - Porque é conj. coord. explicativa quando, normalmente, aparece depois do verbo no imperativo.

2 – Por que é empregado:

a)     em frases interrogativas (advérbio interrogativo).
Ex.: Por que você está atrasado?

b)    em frases declarativas, no sentido de a razão pela qual, o motivo pelo qual.
Ex.: Não sabemos por que ela está aborrecida.

c)     no sentido de pelo(a) qual, pelos(as) quais.
Ex.: Esta foi a razão por que não estive presente.

3 – Por quê é empregado nos mesmos casos anteriores, mas no final das frases.
       Ex.: Você não saiu mais cedo.  Por quê?
               Ele foi demitido sem saber por quê.

4 – Porquê é empregado como conjunção substantiva (acompanhado de artigo) no sentido de   motivo.
      Ex.: Não sei o porquê da sua atitude.
             Vamos discutir os porquês destes problemas.


ATIVIDADES

I – Complete com porque, porquê, por que ou por quê.

1 – Se estão noivos, por que não se casam?
2 – Ele só falou porque havia clima para isso.
3 – Não fomos ao jogo porque choveu.
4 – O espetáculo foi interrompido por quê?
5 – Por que o espetáculo foi interrompido?
6 – O espetáculo foi interrompido porque um dos atores sentiu-se mal.
7 – Não sabemos por que o espetáculo foi interrompido.
8 – Ignora-se o porquê da interrupção do espetáculo.



7ª AULA DE LÍNGUA PORTUGUESA

MAS, MÁS ou MAIS

Mas é conjunção e significa porém, todavia.
Ex.: O rapaz é culto, mas pouco simpático.

Más é adjetivo e significa ruins.
Ex.: Não devemos andar com más companhias.

Mais pode ser advérbio e quer dizer aumento.
Ex.: Estuda mais e serás aprovado.

Mais pode ser substantivo e quer dizer o restante.
Ex.: Por hoje é só, o mais fica para amanhã.

Mais pode ser preposição e quer dizer em companhia de.
Ex.: Meu tio mais sua filha estão vindo para cá.


ATIVIDADES

I – Complete com mas, más ou mais:

01 – Elas são más companheiras de trabalho.
02 – Papai foi a livraria, mas não encontrou todos os livros.
03 – Leia mais e você escreverá melhor.
04 – Eu não acredito em más ideias.
05 – É mais fácil criticar do que fazer.
06 – Ela era bondosa, mas não demonstrava isso.
07 – O seu boletim apresentava notas boas e más.
08 – Os índios trouxeram más/mais notícias para nós.
09 – Mas minha filha, por que você não fez o trabalho?
10 – O mais dos dias, ele acorda muito tarde.
11 – Papai mais seu irmão pensa assim.
12 – A vida é dura, mas é maravilhosa.
13 – Suas más atitudes tornaram-no um homem sem amigos.
  

II – Crie algumas frases, utilizando mas, más e mais.

·        Ele é um aluno extrovertido, mas estuda com seriedade.
·        Quem anda em companhia de pessoas más, está propício a praticar o mal.
·        Você quer receber mais, quer um salário maior, então qualifique-se. Estude mais.



8ª AULA DE LÍNGUA PORTUGUESA

Para eu ou Para mim

* Usa-se para eu e não para mim com verbos no infinitivo (eu deve ser sujeito do verbo no   infinitivo).    Nos demais casos usa-se para mim.

Ex.:  Esse livro é para eu ler?
              Essas balas são para mim?


ATIVIDADES

I – Complete com eu ou mim:

01 – Tenho que ler bastante para eu escrever melhor.
02 – Para mim não há nenhum problema.
03 – Não há desentendimento entre mim e ti.
04 – Percebi que o plano era para eu desistir do jogo.
05 – Não vá sem mim ao cinema.
06 – Sem eu autorizar, ninguém deve entrar nesta sala.
07 – Já houve muitas discussões entre ti e mim.
08 – Para mim, aceitar esta condição é humilhante.
09 – Todos se voltaram contra mim naquela ocasião.
10 – Quanto a mim não faço objeções ao plano.
11 – Acho que eles estão olhando para mim.
12 – Todos aqueles trabalhos são para eu revisar.


Observação:

Os pronomes eu e tu do ponto de vista da gramática normativa do Português culto, não devem ser acompanhada de preposição.   Assim, deve-se escrever:

                        Entre mim e ti não há segredos.

                                      e não

                                  Entre eu e tu

Observe os exercícios 3, 5, 6, 7, 9 e 10 – casos em que a preposição rege os pronomes.

Preposições: - com, contra, de, desde, em, entre, para, perante, sem, sob, sobre, para, a, até, após, perante, por, ante...
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sábado, 26 de abril de 2014

Poema 20, de Pablo Neruda

Poema 20

Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Escrever, por exemplo: “A noite está estrelada,
e tiritam, azuis, os astros, ao longe”.

O vento da noite gira no céu e canta.

Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Eu a quis, e às vezes ela também me quis...

Em noites como esta eu a tive entre os meus braços.
Beijei-a tantas vezes debaixo do céu infinito.

Ela me quis, às vezes eu também a queria.
Como não ter amado os seus grandes olhos fixos.

Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Pensar que não a tenho. Sentir que a perdi.   

Ouvir a noite imensa, mais imensa sem ela.
E cai o verso na alma como na relva o orvalho.

Que importa que meu amor não pudesse guardá-la.
A noite está estrelada e ela não está comigo.
Isso é tudo. Ao longe alguém canta. Ao longe.
Minha alma não se contenta com tê-la perdido.

Como para aproximá-la meu olhar a procura.
Meu coração a procura, e ela não está comigo.

A mesma noite que faz branquear as mesmas árvores.
Nós, os de outrora, já não somos os mesmos.

Já não a quero, é verdade, mas quanto a quis.
Minha voz procurava o vento para tocar o seu ouvido.

De outro. Será de outro. Como antes dos meus beijos.
Sua voz, seu corpo claro. Seus olhos infinitos.

Já não a quero, é verdade. Mas talvez ainda a queira.
É tão curto o amor, e é tão longo o esquecimento.

Porque em noites como esta eu a tive entre os meus braços,
minha alma não se conforma em tê-la perdido.

Ainda que esta seja a última dor que ela me causa,
e estes sejam os últimos versos que eu lhe escrevo.



Pablo Neruda

segunda-feira, 21 de abril de 2014

Análise do conto: A caolha

A caolha
de Júlia Lopes de Almeida
http://juarezfrmno2008sp.blogspot.com.br/2008/11/caolha.html


Elementos estruturais
Quanto ao narrador, o conto apresenta o foco narrativo com o narrador onisciente seletivo. Existem alguns sumários narrativos nesta obra, sendo que o narrador, em 3ª pessoa, não participa do enredo, é predominantemente extradiegético, mas através do discurso indireto livre, consegue externar o ponto de vista das personagens.
Sabendo-se que o enredo não deve ser apenas um resumo, e sim, o conjunto dos fatos (acontecimentos) de uma história, e que toda história tem como começo, meio e fim, o que chega a implicar numa estrutura conflitosa, pode-se afirmar que o enredo se divide nas seguintes partes: exposição, complicação, clímax e desfecho. Na obra em questão, a exposição corresponde à descrição da protagonista e dos ambientes em que ocorrem as cenas, o sofrimento da mulher e de seu filho adolescente. A complicação surge com a paixão de Antonico por uma moça que impôs condições para que pudesse corresponder ao amor recebido. A condição era que o rapaz se afastasse da mãe. Já o clímax se dá quando a protagonista não aceita a situação e se revolta contra a proposta do filho, culminando com a expulsão do jovem e o sofrimento ainda maior entre os dois. Sumarizando, o desfecho está nas linhas finais do conto, quando o filho descobre o verdadeiro motivo da desgraça que sofreu a mãe.
Dentre as personagens que se destacam está a caolha (protagonista) e seu filho Antonico, a moreninha por quem Antonico se apaixonou, e a madrinha. Além destas, podem ser observadas também outras, as personagens secundárias que apenas atuam como figurantes povoando os ambientes descritos. A moreninha, por sua postura desapropriada, pode ser considerada uma antagonista, isto é, uma anti-heroína.
O espaço (horizontal) é predominantemente físico, isto é, os ambientes onde se passam as ações. A humilde casa da protagonista, o colégio, os locais onde Antonico trabalhava. Se dividem em espaços abertos e fechados. São espaços abertos aqueles que retratam ambientes como ruas, jardins, espaços voltados para a natureza, etc. Pode também se falar em espaços psicológicos, nas passagens em que são narradas a reclusão do mundo das personagens, visto que Antonico passava longos intervalos de tempo sem sair de sua casa, uma citação da pequenez do espaço vivido.

O tempo, aparentemente se enquadrando nos moldes da escola literária do Realismo, não é citado explicitadamente na narrativa, entretanto o leitor pode pressupor que historicamente este seja apontado como sendo o final do século XIX ou as primeiras décadas do século XX, seja pelas expressões que nos remete para a referida época, e também pela falta de citações que indiquem tratar-se de algum período mais afastado da contemporaneidade. Quanto ao tempo de duração dos acontecimentos, pode-se dizer que é de aproximadamente 20 anos, visto que relata os fatos desde que a idade do rapaz ainda criança de colo, até a idade em que ele pensa em se casar.
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Curiosidade é uma coceira nas ideias


Eu estava com a cabeça quente. Queria descansar, parar de pensar. Para parar de pensar, nada melhor que trabalhar com as mãos. Peguei minha caixa de ferramentas, a serra circular e a furadeira e fui para o terceiro andar, onde guardo os meus livros.
Iria fazer umas estantes. As tábuas já estavam lá. Nem bem comecei a trabalhar de carpinteiro e fui interrompido com a chegada da faxineira. Com ela, sua filhinha de sete anos, Dionéia. Carinha redonda, sorriso mostrando os dentes brancos, trancinhas estilo afro. O que era de se esperar para uma menina da idade dela era que ficasse com a mãe. Não ficou. Preferiu ficar comigo, vendo o que eu fazia. Por que ela fez isso? Curiosidade. Curiosidade é uma coceira que dá nas ideias... Aquelas ferramentas e o que eu estava fazendo a fascinavam. Queria aprender.
"O que é isso que você tem na mão?", ela perguntou. "É uma trena", respondi. "Para que serve a trena?", ela continuou. "A trena serve para medir. Preciso de uma tábua de 1,20 m. Assim, vou medir 1,20 m. Veja!"
Puxei a lâmina da trena e lhe mostrei os números. Ela olhou atentamente. "Você já sabe os números?", perguntei. "Sei", ela respondeu. Continuei: "Veja esses números sobre os risquinhos. O espaço entre esses risquinhos mais compridos é um centímetro. Um metro tem cem centímetros, cem desses pedacinhos. Veja que, de dez em dez centímetros, o número aparece escrito em vermelho. É que, para facilitar, os centímetros são amarrados em pacotinhos de dez. Um metro é feito com dez pacotinhos de dez centímetros. E 1,20 m são dez desses pacotinhos, para fazer um metro, mais dois, para completar os 20 centímetros que faltam". Marquei 1,20 m na tábua com um lápis e me preparei para cortá-la.
Assim se iniciou uma das mais alegres experiências de aprendizagem que tive na vida. A Dionéia queria saber de tudo. Não precisei fazer uso de nenhum artifício para que ela estivesse motivada. O que a movia era o fascínio daquilo que eu estava fazendo e das ferramentas que eu estava usando. Seus olhos e pensamentos estavam coçando de curiosidade. Ela queria aprender para se curar da coceira... Os gregos diziam que a cabeça começa a pensar quando os olhos ficam estupidificados diante de um objeto. Pensamos para decifrar o enigma da visão. Pensamos para compreender o que vemos. E as perguntas se sucediam. Para que serve o esquadro? Como é que as serras serram? Por que é que a serra gira quando se aperta o botão? O que é a eletricidade?
Lembrei-me de Joseph Knecht, o mestre supremo da ordem monástica Castália, do livro "O Jogo das Contas de Vidro", de Hermann Hesse. Velho, ao final de sua carreira, no topo da hierarquia dos saberes, ele se viu acometido por um enfado sem remédio com tudo aquilo e passou a sentir uma grande nostalgia. Ele queria descer da sua posição para fazer uma coisa muito simples: educar uma criança, uma única criança, que ainda não tivesse sido deformada pela escola. Pois ali estava eu, vivendo o sonho de Joseph Knecht: a Dionéia, que ainda não fora deformada pela escola. Seu rosto estava iluminado pela curiosidade e pelo prazer de entrar num mundo que não conhecia.
Lembrei-me de Aristóteles em "Metafísica": "Todos os homens têm, por natureza, um desejo de conhecer: uma prova disso é o prazer das sensações, pois, fora até de sua utilidade, elas nos agradam por si mesmas, e, mais que todas as outras, as visuais...".
Acho que ele errou. Isso não é verdade para os adultos. Os adultos já foram deformados. Acho que ele estaria mais próximo da verdade se tivesse dito: "Todos os homens, enquanto são crianças, têm, por natureza, desejo de conhecer...".
Para as crianças, o mundo é um vasto parque de diversões. As coisas são fascinantes, provocações ao olhar. Cada coisa é um convite.
Aí a Dionéia sumiu. Pensei que ela tivesse voltado para a mãe. Engano. Alguns minutos depois ela voltou. Estivera examinando uma coleção de livros. "Sabe aqueles livros, todos de capa parecida? Os três primeiros livros estão de cabeça para baixo." Retruquei: "Pois ponha os livros de cabeça para cima!".
Ela saiu e logo depois voltou. "Já pus os livros de cabeça para cima." E acrescentou: "Sabe de uma coisa? O livro com o número 38 está fora do lugar". Aí aconteceu comigo: fui eu quem ficou estupidificado... Ela, que não sabia escrever, já sabia os números. 
E sabia mais, que os números indicavam uma ordem. Fiquei a imaginar o que acontecerá com a Dionéia quando, na escola, os seus olhinhos curiosos serão subtraídos do fascínio das coisas do mundo que a cerca e vão ser obrigados a seguir aquilo a que os programas obrigam. Será possível aprender sem que os olhos estejam fascinados pelo objeto misterioso que os desafia?
Pois sabe de uma coisa? Acho que vou fazer com a Dionéia aquilo que Joseph Knecht tinha vontade de fazer...



Rubem Alves, 80, é educador, psicanalista, escreve histórias para crianças e crônicas para adultos. Alguns de seus principais livros são: "O Médico", "Por uma Educação Romântica" (ambos da editora Papirus) e "Livro sem Fim" (Loyola).

quinta-feira, 27 de março de 2014

O homem que viu o lagarto comer seu filho


Era uma noite de terça-feira, e eles viam televisão deitados na cama. Quase uma da manhã, estava quente. Ele levantou-se para tomar água. A casa silenciosa, moravam num bairro tranquilo. Não havia ruídos, poucos carros. Ao passar pelo quarto das crianças, resolveu entrar. Empurrou a porta e encontrou o bicho comendo o menino mais velho, de três anos e meio. Era semelhante a um lagarto e, na penumbra, pareceu verde. Paralisado, não sabia se devia entrar e tentar assustar o animal, para que ele largasse a criança. Ou se devia recuar e pedir auxílio. Ele não sabia a força do bicho, só adivinhava que devia ser monstruosamente forte. Ao menos, forte demais para ele, franzino funcionário. E meio míope, ainda por cima. Se acendesse a luz do corredor, poderia verificar melhor que tipo de animal era. Mas não se tratava de identificar a raça e sim de salvar o menino. Ele tinha a impressão de que as duas pernas já tinham sido comidas, porque os lençóis estavam empapados de sangue. E a calça do pijama estava estraçalhada sob as garras horrendas do bicho repulsivo. Como é que uma coisa assim tinha entrado pela casa adentro? Bem que ele avisava a mulher para trancar portas. Ela esquecia, nunca usava o pega ladrão. Qualquer dia, em vez de um bicho, haveria um homem roubando tudo, a televisão colorida, o liquidificador, as coleções de livros com capas douradas, os abajures feitos com asas de borboletas, tão preciosos. Pensou em verificar as portas, se estavam trancadas. Porém, percebeu um movimento no animal, como se ele tentasse subir para a cama. Talvez tivesse comido mais um pedaço do menino. Precisava intervir. Como? Dando tapinhas nas costas do lagarto — não lagarto? Não tinha antas em casa e o cunhado sempre dizia que era coisa necessária. Nunca se sabia o que ia acontecer. Ali estava a prova. Queria ver a cara do cunhado, quando contasse. Não ia acreditar e ainda apostaria duas cervejas como tal animal não existia. Pode, um lagartão entrar em casa através de portas fechadas e comer crianças? Olhou bem. Comer crianças não era normal, nem certo. Devia ser uma visão alucinada qualquer. Não era, O bicho mastigava o que lhe pareceu um bracinho e o funcionário teve um instante d ternura ao pensar naqueles braços que o abraçavam tanto, quando chegava do emprego à noite. Urna faca de cozinha poderia ser útil? Mas quanto o bicho o deixaria se aproximar, sem perigo para ele, o homem? Tinha de impedir o lagarto de chegar à cabeça. Ao menos isso precisava salvar. Não conseguia dar um passo, sentia-se pregado à porta. Preocupava-se. Todavia não se sentia culpado. Era uma situação nova para ele. E apavorante. Como reagir diante de coisas novas e apavorantes? Não sabia. Preferia não ter visto o lagarto, encontrar a cama vazia, as roupas manchadas de sangue. Pensaria em sequestro ou coisas assim que lia nos jornais. Sequestro o intrigaria, uma vez que ganhava pouco mais de dois salários mínimos e não tinha acertado na loteria esportiva. Era apenas um funcionário dos correios que entregava cartas o dia todo e por isso tinha varizes nas pernas. Se gritasse, o lagarto iria embora? Continuou pensando nas coisas que podia fazer, até que a mulher chamou, uma, duas vezes. Depois ela gritou e ele recuou, sempre atento para saber quanto o bicho tinha comido do filho. À medida que recuou perdeu a visão do quarto. Sentindo-se aliviado, pelo que não via. A mulher chamava e ele pensou: o menino não chorou, não deve ter sofrido. Voltou ao quarto ainda com esperança de salvá-lo pela manhã e decidiu nada dizer à mulher. Apagaram a luz, ele se ajeitou, cochilou. Acordou sentindo um cheiro ruim e quando abriu os olhos viu sobre seu peito a pata, parecida com a do lagarto. Paralisado, não sabia se devia tentar as sustar o animal, ou tentar sair da cama e pedir auxílio. Pelo peso da pata, o bicho devia ser monstruosamente forte. Ao menos, forte demais para ele, franzino funcionário. Aí se lembrou que tinha dois sacos de cartas a entregar, era época de Natal e havia muitos cartões das pessoas para outras pessoas dizendo que estava tudo bem, felicidades. Tinha que tirar este bicho de cima. Não, hoje não haveria entregas. Nem amanhã, por muito tempo. O lagarto estava com metade de sua perna dentro da boca.


O texto acima foi extraído do livro "Os melhores contos de Ignácio de Loyola Brandão", seleção de Deonísio da Silva, Global Editora — São Paulo, 1993, pág. 117.

domingo, 2 de março de 2014

Um caso de concordância nominal

Um substantivo com dois artigos

Observe o seguinte exemplo:
Será que tais ocorrências se justificam no âmbito de competência dos recursos especial e extraordinário...?

Trata-se de mais um caso, bastante especial, de concordância nominal: temos aqui um substantivo [recurso] e dois adjetivos [especial e extraordinário]. Isso em si não é nada excepcional, pois a toda hora falamos, por exemplo:

·       jantar fino e gostoso (singular)
·       pessoa amável e correta (singular)
·       pessoas amáveis e corretas (plural)
·       resultados negativos e positivos (plural).

A diferença, no caso do exemplo inicial, é que o substantivo está no plural e os dois adjetivos no singular. Por que é que não se diz “recursos especiais e extraordinários?” Porque desse modo se passaria a ideia de que todos os recursos (em discussão naquele momento) seriam especiais e extraordinários, quando o que se quer transmitir é que há dois tipos de recurso: um especial e um extraordinário.
Pelas regras de concordância nominal, quando se tem um substantivo com mais de um adjetivo, tanto se é possível deixar os adjetivos no singular quanto levá-los para o plural. Não é uma questão de certo ou errado dizer “os setores direitos e esquerdos” ou “os setores direito e esquerdo”, por exemplo. Ambas as formas são gramaticalmente válidas. Mas quando se quer deixar claro, sem sombra de dúvida, que se está falando de duas coisas distintas (ou seja, a soma de um singular mais um singular) usa-se a fórmula substantivo no plural e adjetivos no singular, ou até mesmo um adjetivo no singular e um no plural, quando for o caso, como abaixo se exemplifica:

Dê os valores absoluto e relativo dos algarismos.
O convênio será firmado com os governos federal e estaduais.
As zonas Leste e Oeste foram as mais afetadas em nossa cidade.
A decisão que puniu o servidor deverá ser mantida graças à autonomia das instâncias penal e administrativa.
Encontram-se fissuras nos lados direito e esquerdo do edifício.
As cláusulas resolutivas expressa e tácita operam de pleno direito.
Os filhos da embaixatriz estudaram as línguas francesa, inglesa e alemã.

Outras possibilidades:
Na ocorrência de um substantivo e mais de um adjetivo, também se pode fazer a concordância de duas outras maneiras:
I – Substantivo no singular e repetição do artigo:

Os falsos piratas derrotaram a esquadra brasileira e a argentina.
o valor absoluto e o relativo dos algarismos.
Eles estudaram a língua francesa, a inglesa e a alemã.
II – Substantivo e adjetivos no singular:

Todos os conflitos devem ser resolvidos na esfera municipal e estadual.
O cunho religioso e político dado ao seu pronunciamento desagradou a muitos.
Assuntos envolvendo corrupção seriam tratados no âmbito federal e estadual, assegurou o senador.
Queriam informação sobre a sua experiência acadêmica e profissional.

Não há necessidade de dizer “os cunhos religioso e político” ou “nos ambitos federal e estadual”.  O substantivo no singular neste caso soa melhor. Contudo, deve-se utilizar o plural sempre que possa haver ambiguidade ou margem a dúvidas e equívocos. Se se dissesse, por exemplo, “derrotaram a esquadra brasileira e argentina”, certamente se poderia pensar que se falava de uma só esquadra, formada tanto por brasileiros como por argentinos. Não se tratando de futebol, é até possível...

Fonte:

(Adaptado do livro) PIACENTINI, Maria Tereza de Queiroz. Não tropece na língua: lições e curiosidades do português brasileiro. Curitiba: Bonijuris, 2012.
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domingo, 9 de fevereiro de 2014

O texto empresarial moderno no contexto contemporâneo



A modernização de estilo e de linguagem das correspondências empresariais aconteceu a partir de um momento histórico específico, o final dos anos 1970, como resultado de um contexto econômico em que a disputa por uma fatia do mercado mundial se tornou muito mais competitiva.
Uma das estratégias que passou a ser utilizada mundialmente foi a redação de informações de maneira mais objetiva. Com a necessidade de trabalhar na direção da qualidade e da fidelidade dos clientes, tornou-se importante discriminar os procedimentos e padrões utilizados no dia a dia, especificando-os em linguagem clara e sem duplicidade de sentido, de forma a minimizar o retrabalho e acelerar o intervalo de tempo entre os fatos e as ações.
Alguém pode argumentar que um texto mal escrito não representa perda financeira substancial para uma empresa. Entretanto, vejamos a seguir o que pode ocorrer quando circulam documentos deste tipo.
§   Desmotivação para a leitura: não se lê mais o texto todo, faz-se apenas uma leitura perpendicular, ou seja, passam-se os olhos para ver do que se trata.
§   Privilégio da troca oral de informações: na linguagem oral não há garantias de que a mensagem será transmitida com fidedignidade e, com frequência, ocorre falta de clareza das informações principais. Neste tipo de comunicação é comum não se observar a necessidade em verificar de que modo a mensagem está sendo compreendida e repassada aos demais destinatários. Da mesma maneira, torna-se mais fácil o descomprometimento com prazos e metas.
§   Falta de credibilidade: uma vez que a transparência é um dos valores mais prezados em nossos dias, é preciso ter em mente que uma mensagem mal elaborada, ambígua ou obscura, pode comprometer a credibilidade de uma área ou de toda a empresa diante de seus clientes, sejam eles internos ou externos.
§   Retrabalho: o retrabalho ocorre tanto para o emissor quanto para o receptor da mensagem. Há casos de empresas que precisaram de seis meses para operar um recadastramento, quando o tempo inicial previsto era de apenas um mês. Tudo isso porque um memorando estava escrito de maneira inadequada.
§   Conflitos internos constantes: a falta de clareza tende a gerar interpretações equívocas e perigosos erros de comunicação, o que pode levar a desagregação ― algo contrário à sinergia positiva necessária ao sucesso de qualquer ambiente profissional.
§   Ineficiência para novos negócios: o poder de persuasão de um texto é seriamente comprometido pela ocorrência de equívocos, o que pode resultar em perdas de lucratividade.
É muito provável que a perda gerada por falhas na transmissão de informações não possa ser mensurada em termos estritamente financeiros, mas, com certeza, o prejuízo econômico provocado pelo desgaste dessas falhas é substancial.
Conclui-se então que, em tempos de mercados mundiais e de luta por sobrevivência na era da globalização, não basta apenas investir em informação e tecnologia, mas naquilo que, dentro da sociedade humana, tem valor de troca: a comunicação.
Em termos empresariais, essa comunicação tem valores bem definidos: a clareza e a objetividade das informações proporcionam e impulsionam a fidedignidade das mensagens e a agilidade das decisões, molas da sobrevivência e do lucro.

O princípio fundamental do texto empresarial

A comunicação empresarial, diferentemente do texto jornalístico e do literário, tem como seu principio fundamental gerar uma resposta objetiva àquilo que é transmitido. Ou seja, gerar uma ação. Não podemos esquecer que existem diferenças entre os textos jornalísticos, literários e empresariais, sendo que o jornalístico tem como objetivo levar a informação, o literário, causar emoção, e o empresarial, conforme já mencionado, gerar uma ação.
Na correspondência empresarial, o documento é sempre redigido para um cliente (interno ou externo) visando a uma resposta dele. Se o cliente der a resposta que se espera, o texto foi eficaz; se não, o texto tem de ser obrigatoriamente repensado e reescrito.
Não são poucos os casos empresariais em que uma rápida providência que deveria resultar de uma mensagem demorou meses só por causa de um texto mal escrito. Também não são raras as situações em que relatórios são lidos e suas informações, embora importantíssimas, passam completamente despercebidas pelo destinatário.
Imaginemos o caso de uma grande empresa que precisasse alertar seus credenciados sobre várias mudanças — algumas fundamentais, outras nem tanto. Na estruturação da carta, no entanto, as informações secundárias acabaram obtendo tanto destaque que os credenciados não valorizaram as principais. A consequência direta desse texto mal escrito seria o atendimento parcial ao que foi solicitado, gerando posteriormente um gasto extraordinário de tempo com telefonemas explicativos.

A eficácia do texto

A eficácia do texto empresarial moderno equivale à força da retórica clássica. Na Antiguidade, o discurso retórico continha uma função expressiva e persuasiva consagrada pelos oradores. Hoje em dia, o meio empresarial gasta fortunas em marketing direto, esquecendo-se de usar em seu texto recursos que se configuram como arma preciosa no relacionamento com o cliente, seja ele interno ou externo.
Há que se perceber, antes que seja tarde demais, como o simples e-mail cotidiano funciona como instrumento de endomarketing, reforçando ou conferindo novos rumos à cultura da empresa.
O texto escrito deve ser percebido como um instrumento relacionado à função estratégica empresarial, intervindo diretamente em três grandes dimensões: na cultura da empresa, no aspecto motivacional e no econômico.

Características do texto empresarial

Ao escrever a clientes, responder a solicitações, passar informações sobre diversos assuntos, subsidiar informações para a tomada de decisões, o texto deve apresentar frases curtas com um vocabulário simples e formal.
Nem o vocabulário sofisticado nem as frases longas e rebuscadas contribuem para um rápido entendimento da mensagem, levando o leitor a um desperdício de tempo, quando não a uma desmotivação progressiva que acarretará, inconscientemente, a rejeição da mensagem.
Não devemos nos esquecer que a mudança cultural imposta na linguagem das correspondências reflete também um estilo da vida moderna, em que a informação valorizada é aquela de mais fácil digestão — haja vista a grande influencia dos meios de comunicação em massa.
Além disso, você deve reconhecer que um leitor, por mais inteligente que seja, precisa de tempo para decodificar as palavras, reconhecer seus sentidos e identificar as relações entre as ideias. Assim, torna-se evidente que quanto menor o esforço para decodificar o texto, mais o leitor aprenderá sobre a mensagem.
As características do texto empresarial moderno são conceituadas conforme a seguir:

Concisão
Concisão significa expressar o máximo de informações sem repetições e excesso de ideias. Para atingir esse objetivo, é preciso determinar com precisão as informações realmente relevantes, bem como avaliar o significado das palavras e expressões utilizadas. O texto bem escrito e que pretende ser conciso é aquele em que todas as palavras e informações utilizadas têm uma função significativa.

Objetividade
A objetividade refere-se às ideias expressas. Em toda situação de comunicação há inúmeras ideias que permeiam a informação, e todas elas estão, direta ou indiretamente, ligadas ao assunto.
Entretanto, para se expressar com objetividade, deve-se estar atento para expor ao destinatário as ideias principais, retirando do texto todas as informações consideradas supérfluas, que levam o leitor a perder o foco do assunto tratado.
A questão principal, quando se fala em objetividade, é saber definir quais são as informações relevantes que desejamos transmitir naquele momento.

Clareza
Segundo o professor Rocha Lima, dois procedimentos são fundamentais para a obtenção da clareza textual:
§  educar a nossa capacidade de organização mental;
§  aprender a pôr em execução convenientemente o material idiomático.
O motivo pelo qual se considera a clareza uma das características mais difíceis de ser obtida está no fato de, para aquele que emite a mensagem, a ideia já estar clara em sua mente. Ou seja, o emissor julga erroneamente estar se expressando com a necessária clareza, pois a ideia que está formulando lhe é familiar.
Essa relação entre o pensamento e a linguagem traz como consequência direta uma falta de percepção mais apurada sobre o próprio enunciado, uma vez que sua leitura está conectada à ideia. Portanto, o emissor não percebe as falhas ou lacunas de sentido que podem existir na passagem das ideias para seu corpo material, isto é, para as palavras.
Um exemplo do que estamos dizendo são as famosas brincadeiras verbais, muitas delas usadas como apelo de marketing, do tipo:

Cachorro faz mal à moça!
Na verdade, é um sanduiche cachorro-quente

Vou mandar-lhe um porco pelo meu irmão, que está bem gordo.
Presume-se que quem esteja gordo seja o porco

Pedro e Paulo vão se separar.
Eles não são casados entre si. Cada um vai separar-se de sua respectiva mulher

Todas essas frases possuem duplo sentido e são um problema à clareza. Muitos relatórios e ofícios também contêm construções semelhantes, além de frases intercaladas, parágrafos longos, orações excessivamente subordinadas, má colocação na ordem dos termos, excesso de concisão etc.

Coerência
A coerência diz respeito à conexão entre as ideias apresentadas no texto. Sem ela, as frases ficam perdidas e sem lógica. Evidentemente, esta característica não é apenas do texto moderno, mas de toda e qualquer comunicação escrita ao longo dos tempos. A língua escrita exige um rigor e uma disciplina de expressão muito maiores do que a língua falada, obrigando o emissor a expressar-se com harmonia tanto na relação de sentido entre as palavras quanto no encadeamento de ideias dentro do texto.
Para se obter a adequada conexão de sentido na relação entre as palavras, é necessário ater-se à significação de cada uma delas. Por sua vez, o encadeamento lógico do texto se faz principalmente mediante relações de tempo, espaço, causa e consequência.

Linguagem adequada
Para que a linguagem de qualquer documento empresarial seja adequada é preciso levar em conta quem será o destinatário da mensagem e o assunto a ser tratado.
Como hoje em dia utiliza-se o e-mail como canal privilegiado para a transmissão de vários tipos de informação, deve-se tomar muito cuidado para que a linguagem não seja influenciada por este tipo de canal, resultando em textos descuidados.
É necessário entender que o e-mail é um meio para que a organização agilize seu fluxo de informações. Entretanto, como toda mensagem transmitida constitui um documento empresarial, privilegia-se uma linguagem mais formal.
Obviamente, na circulação de informações entre colegas de departamento, a formalidade será substituída pela informalidade, ainda que com os devidos cuidados.

Correção gramatical
Qual é a imagem transmitida pela pessoa que fala de maneira errada? E pela empresa que não cuida da linguagem de seus documentos?
Erros de concordância, verbos mal utilizados, problemas de acentuação, crases e vírgulas mal colocadas comprometem a imagem da empresa, uma vez que a linguagem funciona como um espelho da qualidade dos produtos ou serviços de uma empresa: o mesmo tratamento dado à linguagem é estendido ao produto ou serviço oferecido ao cliente.


Fonte: Adaptado do livro Redação empresarial. Miriam Gold. - 4. ed. - São Paulo: Pearson Prentice Hall, 2010




sábado, 1 de fevereiro de 2014

A Presidenta

Presidente ou presidenta?


Para acabar de vez com toda e qualquer dúvida se tem “presidente” ou “presidenta”.

Observe:
A presidenta foi estudanta?

Existe a palavra: PRESIDENTA?

No português existem os particípios ativos como derivativos verbais.
O particípio ativo do verbo atacar é atacante, de pedir é pedinte, o de cantar é cantante, o de existir é existente, o de mendicar é mendicante...
Qual é o particípio ativo do verbo ser?
O particípio ativo do verbo ser é ente. Aquele que é: o ente. Aquele que tem entidade.

Assim, quando queremos designar alguém com capacidade para exercer a ação que expressa um verbo, há que se adicionar à raiz verbal os sufixos -ante, -ente ou -inte.
Portanto, a pessoa que preside é PRESIDENTE, e não "presidenta", independentemente do sexo que tenha.
Diz-se: capela ardente, e não capela "ardenta"; se diz estudante, e não "estudanta"; se diz adolescente, e não "adolescenta"; se diz paciente, e não "pacienta".

Um exemplo deste erro grosseiro seria:
"A candidata a presidenta se comporta como uma adolescenta pouco pacienta que imagina ter virado eleganta para tentar ser nomeada representanta. Esperamos vê-la algum dia sorridenta numa capela ardenta, pois esta dirigenta política, dentre tantas outras suas atitudes barbarizentas, não tem o direito de violentar o pobre português, só para ficar contenta".