"Olhai para os lírios do campo, como eles crescem; não trabalham, nem fiam. E eu vos digo que nem mesmo Salomão, em toda a sua glória, se vestiu como qualquer deles".

quarta-feira, 29 de abril de 2009

O mediador e o labirinto


Autora: Dileta Delmanto

“... ninguém pensou que o livro e labirinto eram um único objeto.”
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(Jorge Luis Borges, O jardim de veredas que se bifurcam)
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Em 1941, o escritor argentino Jorge Luis Borges escreveu o famoso conto Biblioteca de Babel (1) em que fala de uma biblioteca infindável, que contém todos os textos já escritos e por escrever. Nela toda informação do mundo está à disposição de todos, mas seu acervo é tão vasto que distinguir algo de valor do que é inútil ou incorreto é praticamente impossível. Por isso, o narrador, um dos bibliotecários, busca incessantemente alguém que, tendo a chave que decifre seus misteriosos volumes, consiga justificar o sentido de sua existência. Dentre as várias interpretações do conto, uma é a que o considera uma grande metáfora em que mundo e literatura se confundem. De um lado, porque ler um texto é atribuir-lhe sentido; de outro, porque a própria realidade pode ser considerada como uma grande biblioteca cheia de textos à espera de quem os decifre.
Em outro de seus contos, Funes, o memorioso,(2) o mesmo autor narra a história de um homem que depois de um acidente adquiriu a capacidade de se lembrar de absolutamente tudo. Nada, nenhum detalhe, escapava de sua incrível memória. “Sabia as formas das nuvens austrais do amanhecer do trinta de abril de mil oitocentos e oitenta e dois e podia compará-las na lembrança aos veios de um livro encadernado em couro que vira somente uma vez....” Porém, por tudo recordar, era incapaz de pensar, de produzir idéias gerais, de compreender, por exemplo, que o cão que vira “às três e catorze era o mesmo que o cão das três e quarto”, tantas eram as particularidades, as diferenças que captava e memorizava. Sua vida se tornou um tormento porque não sabia o que fazer com tantas informações, porque não conseguia aplicá-las ao mundo que o cercava.
Em ambos, Borges lida com a metáfora do conhecimento, incompreensível e inútil se excede nossa capacidade de absorção e de compreensão (3). No primeiro, a biblioteca é inútil porque ninguém consegue decifrar seu conteúdo; no segundo, o personagem, por não conseguir selecionar as informações, é incapaz de entender o mundo. Os dois textos nos permitem refletir a respeito da era da informação em que vivemos, na qual a onipresença da mídia e o excesso de informação oprimem e confundem. “TV, rádio, jornais, internet, fax e celulares se combinam numa tensa alquimia, que torna tudo descontínuo e fragmentado. A incessante mudança de contextos torna a realidade das informações e imagens praticamente inassimilável. Em frações de segundos, a TV passa das cenas de um desastre ecológico de proporções globais para um programa de auditório, em que a tolice e o ridículo disputam a fama instantânea"(4).
A internet, em particular, permite acesso nunca visto a milhões e milhões de documentos on line, potencialmente muito úteis a qualquer indivíduo. Mas, sua infindável memória não escolhe o que retém. Não se filtra nada, não há seleção da qualidade da informação, nem sempre é possível discriminar sua origem, portanto, encontrar informação e garantir sua validade, reconhecer o que é significativo e o que é irrelevante, distinguir o que é verdadeiro do que é falso, não é tarefa fácil.
Nesse quadro, não basta colocar as pessoas em contato com a informação, embora essa seja a primeira condição. É preciso incentivá-las a realizarem descobertas, orientá-las a fazerem escolhas, a efetuarem análises e sínteses, enfim, apresentar diferentes possibilidades para a construção do conhecimento e gerar condições para o estabelecimento de articulação entre informações e conexões múltiplas.
Portanto, nessa moldura ganha relevo o papel do mediador (seja ele professor, um adulto leitor mais experiente, um orientador de leitura, um familiar, um bibliotecário ou um colega mais capaz) para estimular nos mais jovens uma ampla gama de aprendizagem, para provê-los da orientação e do apoio necessários para que se tornem aptos tanto a pesquisar e interagir de forma crítica e autônoma como a conseguir avanços em relação ao gosto.
Na escola, cabe ao professor planejar situações que possam resultar em aprendizagens significativas, propor desafios e contrapontos ao aluno que convive com discursos de todos os tipos e formas, selecionar fontes de pesquisa, apresentar diferentes possibilidades para a construção do conhecimento. É necessário que ele se disponha a auxiliar os alunos a buscar e selecionar informações, organizá-las, elaborá-las, a aplicar e avaliar o conhecimento, contribuindo assim para que identifiquem o que é relevante, reflitam criticamente sobre as informações encontradas e atribuam-lhes significados.
Em outros espaços, em situações de aprendizagens mais espontâneas, o comportamento de leitor mais experiente do mediador poderá ajudar os mais jovens a se interessarem pelo imenso patrimônio cultural acumulado por tantas gerações. Atuando como guia, apoiador, incentivador, poderá aumentar o repertório dos aprendizes; gerar condições e ambiente para o estabelecimento de articulação entre informações; mostrar que ler e escrever, além de promover socialmente e dar acesso à cultura e ao conhecimento, são um modo de relacionar a vida de cada um à realidade na qual se vive. Por meio dele, o jovem poderá ainda descobrir que a escrita é um jogo instigante e a leitura uma fonte inesgotável de prazer e de conhecimento que permite transformar nossa visão do mundo, reavaliar nossos sentimentos e emoções, encontrar respostas para nossos conflitos, conhecer novos mundos sem sair do lugar, viajar no tempo, conhecer culturas e civilizações diferentes das nossas.
No entanto, para atingir tais metas, em um país onde quase 70% dos municípios não têm livrarias (mas 85% têm biblioteca pública) e os provedores de internet chegam cada vez mais rapidamente aos lugares mais afastados, é fundamental o reconhecimento de que estão em jogo diferentes padrões de leitura do mundo e não apenas um. Numa sociedade de comunicação como a em que vivemos, quando um elo é estimulado, toda a cadeia cresce. Explorar a chamada “convergência de mídias”, transformar computadores, programas de TV, músicas, filmes, games, CDs-ROM em objetos de leitura e de estímulo à leitura é essencial tanto para desenvolver capacidades necessárias à compreensão e sobrevivência no século XXI como para levar os jovens à descoberta da importância e do prazer da palavra. Que se pense em quantos começaram a ler depois de assistir ao Sítio do Picapau Amarelo na televisão ou ao Senhor dos Anéis no cinema; quantos tomaram gosto pela escrita graças a uma modalidade nascida na internet: a fanfiction, em que se criam continuações e versões para as aventuras dos personagens preferidos, como Harry Potter...E, talvez, quantos começaram a apreciar grandes escritores como Borges depois de conhecer seus textos na internet...
Retomando nossa epígrafe, é preciso descobrir, como fez o personagem borgiano a respeito do labirinto e do livro, que, dialeticamente, pluralidade de caminhos/ realidade a ser decifrada/ avalanche de informações e conhecimento/ sentido/crescimento são também uma coisa só, são faces de uma mesma e complexa moeda. Mas, como fazê-lo, se “é tão fácil perder-se quando se tem todos os caminhos do mundo a sua disposição” (3)? A ação de mediadores que, com atitudes como as mencionadas anteriormente, ajudam a impedir que o infinito conhecimento disponível em nossa época nos transforme em novos Funes, incapazes de entender a realidade na qual se vive, ou em impotentes “ratos de biblioteca” que se deixam morrer de ignorância nos grandes templos de informações, é uma das possibilidades. A incorporação da internet e dos meios de comunicação à rotina dos que desejam estimular o hábito da leitura e da escrita entre crianças e adolescentes como resposta para aqueles que vêem na rede mundial de computadores e na hegemonia da sociedade visual a morte dos livros e do conhecimento crítico, potencialmente transformador, é outra.
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Notas

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(1) Ficções, Obras Completas, editora Globo, volume 1. O conto está disponível para leitura em Jorge Luis Borges
(2)idem. Disponível para leitura em
Funes, o memorioso
(3)Frederick Montero, em O conhecimento e a memória, tece reflexão semelhante utilizando o conto Aleph, também de Borges. Disponível em
Filosofia Digital
(4) Tecnologia e suas metáforas, Virgílio Augusto Fernandes Almeida, Diversa, Revista da Universidade de Minas Gerais, nº. 2, 2003, disponível em
Tecnologias e Metáforas

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