"Olhai para os lírios do campo, como eles crescem; não trabalham, nem fiam. E eu vos digo que nem mesmo Salomão, em toda a sua glória, se vestiu como qualquer deles".

sexta-feira, 17 de abril de 2009

Assaltaram a Gramática

Erika de Souza Bueno
Consultora Pedagógica em Língua Portuguesa do Planeta Educação; Graduanda em Letras pela Universidade Metodista de São Paulo.

As aulas de gramática nas salas de aula de nosso Brasil têm tomado outras formas e nós, profissionais ou estudantes, precisamos entendê-las, uma vez que quaisquer mudanças afetarão diretamente a nossa prática e a formação de nossos alunos. Muitas discussões são feitas acerca do ensino da gramática na escola, uma vez que há algum tempo era natural o estudo exaustivo de definições que só faziam sentido dentro do ambiente escolar, no qual os alunos só decoravam o significado de cada qual na única intenção de tirar uma boa nota na prova e passar para o próximo ano letivo.
Com isso, não fica difícil compreender que os conteúdos não eram transferidos para a vida real e, ao que tudo indica, não eram capazes de fazer de um aluno, um cidadão competente para se posicionar diante de questões da vida real, dentro de sua comunidade ou fora dela.
Por questões como essas serem erguidas, alguns professores chegaram a imaginar que a gramática estava definitivamente abolida das aulas de língua portuguesa, contudo, segundo os Parâmetros Curriculares Nacionais do MEC, não é bem isso que ocorre:
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“... uma prática pedagógica que vai da metalíngua para a língua por meio de exemplificação, exercícios de reconhecimento e memorização de terminologia. Em função disso [de uma prática pedagógica como esta], discute-se se há ou não necessidade de ensinar gramática. Mas essa é uma falsa questão: a questão verdadeira é o que, para que e como ensiná-la.”

Segundo estas diretrizes, o novo olhar para o ensino de gramática que salta aos nossos olhos, não exclui o conteúdo gramatical de língua portuguesa, até porque não há gramática sem língua e nem mesmo língua sem gramática.
O novo olhar mostra-nos, entre outras coisas, uma metodologia eficiente que faz o aluno refletir e identificar diversos gêneros discursivos baseados em textos que realmente façam sentidos para eles, levando em consideração que a competência discursiva de um aluno não se dá de forma desarticulada e, para que este aluno seja capaz de usar a língua em diversas situações, incluindo ele estar ante pessoas e situações que têm mais proximidade do mundo letrado, se faz necessário que a abordagem gramatical se livre de terminologias antiquadas e de preconceitos descabidos, considerando o aluno um falante fluente no seu idioma pátrio.
Observe mais este trecho do PCN do MEC:
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“Afinal, a aula deve ser o espaço privilegiado de desenvolvimento de capacidade intelectual e linguística dos alunos, oferecendo-lhes condições de desenvolvimento de sua competência discursiva. Isso significa aprender a manipular textos escritos variados e adequar o registro oral às situações interlocutivas, o que, em certas circunstâncias, implica usar padrões mais próximos da escrita”.

Sendo assim, o novo olhar para as aulas de gramática nas nossas escolas, não se refere ao abandono da competência escrita, mas a uma nova metodologia de ensino, na qual são considerados os conhecimentos de mundo que o aluno já possui, sendo que toda a abordagem gramatical deve trazer uma linguagem clara sem definições ultrapassadas, livre de preconceitos e mitos. Precisamos nos despir destes, pois defendem, entre outros pontos, a existência de apenas um padrão correto para a fala, estigmatizando pessoas que não se adequam a ele, ao passo que nós, profissionais comprometidos com um ensino não excludente, sabemos que toda a fala está inserida dentro de um contexto e deve ser respeitada nas suas muitas variantes.

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