terça-feira, 26 de julho de 2016
O NOVIÇO
Luis Carlos Martins Pena
O noviço traz basicamente a história de Carlos,
rapaz endiabrado, que é enviado a um convento por decisão de sua tia e
tutora. Não tendo vocação para a vida religiosa, Carlos foge do
convento e dedica-se a desmascarar o ambicioso Ambrósio, segundo
marido de sua tia. A seguir organiza-se a sequência de ações que desenvolvem a essência dessa
narrativa.
A peça inicia-se com Ambrósio Nunes em uma
sala ricamente decorada. Preparando-se para ir à igreja com sua mulher Florência, o personagem
afirma em tom cínico que mudara sua vida de homem pobre em oito anos.
Fora miserável, mas valendo-se de determinação, perspicácia e destituído de qualquer
escrúpulo tornara-se
rico, condição que lhe conferia poder e lhe garantia plena impunidade.
É interrompido por
Florência que lhe
apressa, dizendo que é necessário chegar cedo para sentarem-se nos primeiros bancos e,
assim, poderem assistir confortavelmente à missa de Ramos. Ambrósio, com
delicadeza de fala e gestos, pergunta à esposa como anda o projeto de
encaminhar a enteada Emília para o convento e satisfaz-se com a notícia de que tudo
corre como ele desejaria. Com muita habilidade, Ambrósio enfatiza a ideia de que a herança deixada pelo
primeiro marido de Florência nunca o atraiu, revela que sua paixão sempre foi
espontânea e pura e, de
certo modo, lhe é até um tanto penoso administrar a fortuna do nobre falecido,
no entanto, cabe ao marido zelar pela esposa amada. Desse modo, toma para si a
incumbência de cuidar do
dinheiro.
Florência cede às propostas
aparentemente sinceras do marido e concorda em encaminhar não somente a filha
para o claustro, mas também incentivar seu filho Juca de nove anos para ser frade,
acreditando que dessa maneira estaria proporcionando aos dois uma vida virtuosa
e verdadeiramente feliz. Ambrósio, com a intenção deliberada de controlar toda a situação familiar,
mostra-se preocupado com a possibilidade de Carlos, sobrinho tutelado de Florência, vir a se
revoltar contra o noviciado que lhe fora imposto há seis meses e
causar aborrecimentos ao casal. Encerra-se a conversa. Ambrósio retira-se para
acabar de vestir-se. Florência está a agradecer a Deus o marido que tem, quando Emília entra na sala.
A mãe aproveita o
momento para expor à filha as vantagens que a vida de freira proporciona, Emília chora e,
contrariada, declara não ter inclinação para o claustro. A mãe, insensível à dor da filha,
abandona a sala e sobe ao sótão para aprontar-se para a missa.
Inesperadamente, Carlos, vestido de
frade, entra afobado e conta à Emília que havia fugido do convento, após discussão que acabara com
uma barrigada no Abade Mestre. Irado, manifesta o desejo de ser militar, de
envolver-se em lutas com espadas e não se submeter a jejuns prolongados e a
coros e rezas infindáveis. A moça, comovida, ouve o relato dos martírios sofridos pelo
noviço rebelde e lhe
conta que também ela deverá entrar para um convento. Carlos
revolta-se, declara o seu amor pela prima, acusa severamente Ambrósio de estar
conspirando contra todos. Promete que não descansará enquanto não vingar-se do
velhaco Ambrósio. Em meio à conversa, o garoto Juca, desajeitado em um
hábito de frade,
corre para o colo de Carlos, que percebe claramente o plano do marido da tia:
filhos e enteados dedicados à vida religiosa seriam obrigados a fazer votos de pobreza,
o que garantiria a posse de todos os bens por parte de Ambrósio. Emília e Juquinha
saem da sala.
Batem à porta. Rosa entra na sala e com muita
reverência dirige-se a
Carlos, imaginando ser ele um frade. Conta-lhe que está à procura de seu
marido Ambrósio Nunes, que há seis anos a abandonara em Maranguape,
de posse de sua fortuna, a pretexto de investimentos lucrativos em Montevidéu. Sem notícias, ela chegou a
pensar que ele tivesse morrido, mas uma pessoa informara-lhe de que estava o
fujão na corte, e
estava ela ali, no momento, após longa viagem e andanças pelo Rio de Janeiro. Carlos
aproveita-se do engano da mulher e, fingindo ser bom capuchinho, investiga
detalhes da história e recebe, como prova da veracidade dos fatos
relatados, uma cópia da certidão de casamento de Rosa e Ambrósio. Promete ajudá-la e pede-lhe que
aguarde alguns momentos em um quarto da casa. Florência, o marido e a
filha, prontos para saírem, deparam-se com Carlos. Ambrósio cobra de
Carlos obediência. O moço ironicamente desafia o marido da tia
por meio de frases ambíguas, dando a entender que conhecia a história pregressa de
Ambrósio. Este se
enfurece e passa a fazer-lhe exigências. Carlos o toma pelo braço, abre a porta do
quarto e mostra-lhe Rosa. O tio desorganiza-se, corre e arrasta violentamente
para fora da casa mulher e enteada.
Carlos diverte-se com a aflição do cínico tio e expõe à Rosa a atual condição de Ambrósio. A mulher traída não resiste.
Desmaia. Cria-se um alvoroço. Juquinha é chamado a ajudar; apanha um galheteiro,
Carlos a faz cheirar vinagre, azeite, tentando-lhe restituir os sentidos. Em
meio a intensa agitação, ouvem-se meirinhos aproximarem-se. Dirigem-se eles a casa
para efetuarem a prisão do travesso noviço. Carlos faz a mulher acreditar que
Ambrósio é poderoso e que os
oficiais batiam à porta para prendê-la. Propõe a ela que trocassem vestimentas. Rosa
vestiria seu hábito de religioso, e ele, suas vestes de mulher. Desse
modo, estaria ela a salvo da fúria dos meirinhos e ele seria preso em seu lugar. Rosa
ingenuamente aceita a proposta. Juca a encaminha para um quarto. Carlos,
travestido de mulher, recebe dissimuladamente o Mestre de Noviços e os meirinhos.
Faz-se passar por tia do noviço endiabrado, aponta o esconderijo e orienta a maneira
segura de surpreender e prender o sobrinho. Os oficiais entram no quarto,
capturam o falso noviço e o levam para o convento.
Carlos diverte-se imaginando a confusão que aconteceria
quando o Abade percebesse que uma mulher fora presa em seu lugar. Pede a Juca
que ficasse à janela e o avisasse da chegada do padrasto.
Ambrósio, perturbado, invade a sala. Havia
deixado Florência e Emília na igreja. A sua agitação é tamanha que se dirige a Carlos,
pensando ser ele Rosa. O sobrinho aproveita-se do engano e diverte-se,
respondendo às perguntas de Ambrósio como sendo sua primeira esposa.
Chega inclusive a atirar-se aos pés de Ambrósio em pranto exagerado. Nesse
instante, o tratante Ambrósio percebe o equívoco. Irrita-se com o descaramento do
sobrinho, que imediatamente lhe contém a fúria, mostrando a certidão que estava em
seu poder. O tom da cena inverte-se: Ambrósio humilha-se, implora a Carlos que
nada revele à Florência. Dono da situação, o rapaz faz exigências: abandonará o noviciado,
receberá a herança deixada pelo
pai; Emília não será freira, e ele terá o consentimento
para casar-se com a prima. Ambrósio, de joelhos, aceita as imposições e suplica
piedade de Carlos.
Subitamente, Florência e Emília entram na sala
e há novo equívoco: Florência acredita ter
flagrado o marido em traição. Sente-se desgraçada e num assombro se dá conta de que é o sobrinho que
subjuga Ambrósio. Pede explicações para aquela patifaria e,
cinicamente, Carlos afirma que estavam encenando uma comédia para o sábado de Aleluia. A
tia, atônita, ouve ainda o
rapaz trapalhão declarar o acordo que fizera com Ambrósio. Este vai
interrompendo a fala de Carlos com argumentos incontestáveis. Diz à mulher que fora um
erro encaminhá-lo ao convento, pois não se pode impedir que os jovens pudessem
concretizar o amor tão genuíno que sentem. Carlos acrescenta que como prova de
agradecimento cederá metade de seus bens em favor do tio bondoso e lhe entrega
a certidão de casamento
como se entregasse o termo de cessão de parte da fortuna. Ambrósio rasga o papel,
dissimulando total desinteresse pela doação. Florência sente-se abençoada por ter
casado com um homem tão honrado e chega a vangloriar-se da própria capacidade de
distinguir o amante sincero entre tantos pretendentes que tivera logo após a viuvez. Elogia
as qualidades do marido, que insiste não ser merecedor de tanta reverência.
Felizes, Emília e Carlos
acertam o casamento para dali a quinze dias. Nem bem confirmam o enlace
matrimonial, o Mestre dos Noviços surge para efetuar a prisão do noviço fujão. O religioso
declara enraivecido o constrangimento que passara diante do Abade ao cair
novamente em uma cilada de Carlos, quando levou ao convento uma mulher. Diante
das declarações do Mestre, Ambrósio perturba-se e tenta saber do
paradeiro da tal mulher. Florência desconfia das intenções do marido. A confusão está armada: o Mestre
arrasta o noviço para fora da casa; a tia não consegue impedir
a prisão do sobrinho,
mesmo dizendo que Carlos abandonaria a vida religiosa e que ela mesma diria
isso ao Abade.
O clima na casa é de confusão. Ambrósio mostra-se
atordoado, Florência pede explicações para ter sido levada apressadamente
para a igreja e ter sido lá deixada. Ambrósio rapidamente dissimula a própria aflição. Tenta abraçar a esposa que se
revela arredia, exigindo que se esclareça a identidade da mulher que fora presa
em lugar do sobrinho. Acuado, Ambrósio inventa ser a tal mulher uma antiga
namorada, que não se conformara com o fato de ter ele se casado. Confessa
o erro cometido ao envolver-se na juventude com aquela moça. Diz-lhe, no
entanto, que a causa da separação fora o amor incontido que sentiu desde o primeiro
momento que viu Florência. O discurso amoroso de Ambrósio é interrompido por
Rosa, vestida de frade. Esta, entregando a certidão a Ambrósio, interpõe-se ao casal,
gritando que aquele homem lhe pertencia. Ambrósio corre pela casa, tentando escapar.
Nesse momento, ouve-se a ordem de prisão ao bígamo. Enquanto isso se passa, Florência, estarrecida,
lê a certidão de casamento de
Rosa Lemos e Ambrósio Nunes.
Muda-se o cenário. Florência, recolhida no
quarto de Carlos, para evitar contato com o ambiente em que vivera momentos
felizes ao lado do marido farsante, chora convulsivamente e é confortada pela
filha. Está assim prostrada há oito dias. Nada a anima, nem mesmo os
remédios receitados
por um médico da família. Emília afirma ser
necessário que a mãe reaja e, desse
modo, vingue-se de tanta traição. Florência diz que seu procurador está encaminhando um
mandado de prisão e que quer enviar uma carta ao Abade, explicando-lhe os
fatos e pedindo-lhe o favor de mandar um representante do convento para que ela
se justificasse pessoalmente pelos transtornos causados. Decide, então, que o criado
José fosse o portador
da carta.
Nova surpresa: Carlos mais uma vez
havia fugido do claustro. Apressado, invade os fundos da casa, com o hábito roto e sujo,
as mãos esfoladas,
joelhos machucados. Entra em seu antigo quarto. Ouve a voz do padre-mestre,
esconde-se embaixo da cama em que está deitada a tia. Emília acompanha o
padre até os aposentos onde
está Florência, que acorda
meio atordoada. Estava ele incumbido novamente de efetuar a prisão do noviço indomável. Florência e Emília surpreendem-se
com a notícia de que Carlos tivesse escapado novamente das grades
do convento. Enquanto Florência expõe a sua decisão de livrar Carlos do noviciado, Emília percebe a
presença do amado embaixo
da cama. O padre mestre retira-se da casa, aliviado por não ter mais que se
haver com as diabruras de Carlos.
Florência lamenta-se da tragédia que lhe
acometera. Emília se mostra comovida e comporta-se como se não soubesse o
paradeiro do primo, mesmo este lhe puxando as saias e fazendo-lhes cócegas nas pernas.
Chega a casa Ambrósio, trajando-se como um frade, seguindo o criado José até o quarto de Florência. Há novo equívoco. Florência imagina ser o
frade o representante que requisitara ao Abade e passa a lhe contar a trama de
que fora vítima. Ambrósio, não suportando ouvir tantas acusações, denuncia-se,
retirando o capuz, revelando, assim, a sua real identidade. Revela à mulher que as
portas da casa estão trancadas e que ninguém poderá lhe socorrer os gritos. Impõe que lhe entregue
dinheiro e joias, enfim, tudo que ela possuísse; caso contrário, só restaria a
alternativa de matá-la. Nesse momento, se esclarece mais um mal-entendido:
José, fiel a Ambrósio, não tinha enviado a
carta ao Abade, na verdade, tinha facilitado os planos de seu patrão.
Florência corre aos gritos pela casa,
esconde-se em um canto coberta por uma colcha. Ambrósio, na correria,
encontra Carlos, puxa-lhe pelo hábito, pensando tratar-se das saias de
Florência. Carlos
revida com uma bofetada. A tia permanece imóvel, coberta por uma colcha. Em
seguida, entram quatro homens armados e o vizinho Jorge que vinha em socorro
aos gritos que da rua se ouviam. Florência diz que um ladrão travestido de
frade tinha invadido a casa, mas já havia fugido. Os homens vasculham a
casa e acabam dando com Carlos, que aos berros, sai debaixo da cama, e,
tentando proteger-se das agressões, mete-se atrás de um armário e o atira ao
chão. O vizinho,
ferido na perna, grita à Florência que o ladrão se escondia no quarto e havia
escapulido por uma porta. Emília desvencilha-se do vizinho, agradece a ajuda e mando-o
embora. Insiste com a mãe que o frade era Carlos. A mãe retruca,
afirmando que era o padrasto.
A tensão aumenta com a chegada de Rosa, que é recebida com certa
amabilidade por Florência. As duas conversam a sós. Lamentam-se da inocência com que se
entregaram ao vilão Ambrósio. Rosa apresenta à Florência a ordem de prisão contra o bígamo e queixa-se
ao saber que Ambrósio há instantes escapara daquela casa. De modo inesperado,
arrebenta-se uma tábua do armário e Ambrósio, quase
asfixiado, põe a cabeça de fora. Ambas as mulheres atacam-no aos socos e
pauladas. O farsante, aos gritos, suplica compaixão às duas esposas.
Entra no quarto Carlos, preso por Jorge
e os soldados. Florência desfaz o engano, dizendo que era seu sobrinho o que
tomavam por ladrão. Ambrósio esconde-se novamente no armário. Rosa,
acompanhada de oficiais de justiça, entrega o mandado lavrado de prisão. O bígamo é retirado do armário e recebe a
sentença de prisão. O Mestre de
Noviços retorna a casa
com a permissão de livrar Carlos do convento. Antes de retirar-se, o
religioso abençoa a futura união de Emília e Carlos. Ambrósio sai
lamentando-se da punição recebida.
O GRANDE MENTECAPTO
Fernando Sabino é autor
contemporâneo dos
mais importantes. Dono de um estilo inconfundível em que ressalta o extremo cuidado com a linguagem, é um especialista em criar situações cômicas de profunda beleza plástica. Sua capacidade descritiva faz com que o leitor, além de se deleitar com a complicação da trama, consiga visualizar a cena criada pelo
narrado. Sua obra é extensa e
inclui principalmente crônicas e
contos. Seus romances ― O Encontro Marcado; O Menino no Espelho; O Grande
Mentecapto ― são fruto de
profunda preparação e
artesanato impecável. Por
isso mesmo cresce a cada dia a importância de sua obra no panorama da atual Literatura Brasileira.
Nesse romance de 1979, o Autor elabora uma trama com a nítida intenção de homenagear as pessoas humildes, simples e puras. Já na epígrafe da narrativa, "Todo aquele, pois, que se fizer pequeno como
este menino, este será o maior no
reino dos céus.".
Nota-se a vontade de elevar os puros, os inocentes e os ingênuos.
Na linha da novela picaresca ‒ vide o Dom Quixote de La Mancha, de
Cervantes ‒, em que o personagem se desloca por um espaço indefinido, à cata dos conflitos, para resolvê-los heroicamente, Viramundo vive uma sequência de peripécias acontecidas no Estado de Minas Gerais, contracenando com
personagens dos mais variados matizes e comportando-se sempre como o
bem-intencionado, o puro, o ingênuo submetido às
artimanhas e maldades de um mundo que ainda não está de todo
resolvido. Andarilho, louco, despossuído, vagabundo, idealista. Marginal em uma sociedade que não entende e em que não se enquadra, o Viramundo instaura um sentimento
de ternura e de pena por todos aqueles que, em sua simplicidade, sofrem o
descaso, a ironia, a opressão e a prepotência.
Como o Quixote, com a sua amada Dulcinéia, e como Dirceu, com a sua adorada Marília, Viramundo põe em suas
ações
tresvariadas a esperança de
realizar-se emocionalmente com a sua idealizada e inalcançável Marília, filha do governador de Minas Gerais. Sua ilusão alucinada é reforçada pelos
pseudos amigos que o enganam com falsas cartas de amor e incentivam sua loucura
mansa e seu sonho impossível.
Viramundo conhece que o mundo é uma grande metáfora e o
trata com idealismo como se ele fosse real. Consertar o mundo é sua missão e ele se dedica a ela com toda a força de sua decisão, não se deixando abalar pelo insucesso, pelo ridículo, pela violência ou pelo vitupério. Em seu delírio, o
irreal e o real andam de mãos dadas, não há a separação entre o concreto e o abstrato, e por isso o herói não se abala física ou
emocionalmente com nada com que se defronte: não teme os fortes, os violentos; não se assusta com fantasmas e nem com ameaças; aceita resignadamente o que a vida lhe
reserva.
Percebe-se aqui que, além de pícaro,
nosso herói pode ser
considerado como bufão, pois
jacta-se tolamente sobre supostas capacidades de resolver as injustiças e o desacerto do mundo. Não tem qualquer ligação definitiva com a vida; não assume compromissos; é desprezado e usado por aqueles com os quais se relaciona.
A pureza deste aventureiro é a crítica à hipocrisia das relações humanas em um mundo que perdeu o sentido da solidariedade e da
fraternidade. Sua alegria ingênua e desinteressada opõe-se ao jogo bruto dos interesses malferidos, ao conservadorismo e à arrogância. Porta-voz dos loucos, dos mendigos, das prostitutas, o Viramundo
conhece os meandros da enganação e da falsidade dos políticos e dos poderosos.
A crítica à mesmice, ao chavão e ao clichê faz-se
pela presença da paródia a muitos autores e personagens historicamente
conhecidos.
Viramundo não era
conhecido, mas termina por criar fama em razão dos casos incríveis em
que se envolve. Sob a aparência imunda de um mendigo está um sujeito com cultura geral incomum. Sua fala de homem conhecedor
surpreende e sua experiência de
ex-seminarista e ex-militar confunde e admira aqueles com quem convive. Sua
esquisitice e suas respostas prontas a todas as indagações fazem com se acredite tratar-se de um louco
manso e inofensivo.
Outro aspecto interessante é a exploração da temática da loucura. O Autor parece convidar o leitor
a uma reflexão sobre a
origem e o convívio com a
ideia da excentricidade do comportamento humano. Viramundo pode ser considerado
um louco, mas quem não o é? O que a sociedade considera loucura? Como
classificar e tratar os indivíduos que atuam em dissonância com aquilo que se considera normalidade? A sociedade mostrada no
romance está povoada de
tipos que comumente chamamos de loucos: os habitantes de Mariana agem
desvairadamente ao tentar linchar Dona Peidolina; o diretor do hospício é mais estranho que os próprios internos do manicômio; o capitão
Batatinhas é absolutamente
alienado. Há no decorrer
de toda a narrativa o questionamento da fragilidade dos limites entre a sanidade
e a loucura.
No limiar da consumação de sua caminhada, Viramundo mudou. No começo era idealista e cheio dos cometimentos da paixão. Manteve-se assim durante muito tempo até encarar a dura realidade da convivência humana. A série de acontecimentos em que figura como perdedor física e emocionalmente faz com que se desiluda.
Descobre que as cartas de amor eram falsas; os amigos eram falsos; sua crença era falsa. Por todo lado só encontra sofrimento, opressão, hipocrisia. Está
só, absolutamente só, e a solidão é tudo que lhe resta.
Seu fim é emblemático. Morre vitimado pelo próprio irmão. Paga por um crime que não cometeu. A intertextualidade bíblica é evidente:
compara a trajetória e o
comportamento de Viramundo com a Via-Sacra do Cristo, em todos os sentidos, inclusive
no sacrifício final.
SABINO, Fernando. O Grande Mentecapto. Rio de Janeiro: Record, 44ª edição, 1995.
.
sábado, 28 de maio de 2016
Ignorância e verdade
Ignorar
é não saber alguma coisa. A ignorância pode não ser tão profunda que nem sequer
a percebemos ou a sentimos, isto é, não sabemos que não sabemos, não sabemos
que ignoramos. Em geral, o estado de ignorância se mantém em nós enquanto as
crenças e opiniões que possuímos para viver e agir no mundo se conservam como
eficazes e úteis, de modo que não temos nenhum motivo para duvidar delas,
nenhum motivo para desconfiar delas e, consequentemente, achamos que sabemos
tudo o que há para saber.
A
incerteza é diferente da ignorância porque, na incerteza, descobrimos que somos
ignorantes, que nossas crenças e opiniões parecem não dar conta da realidade,
que há falhas naquilo em que acreditamos e que durante muito tempo nos serviu
como referência para pensar e agir. Na incerteza não sabemos o que pensar, o
que dizer ou o que fazer em certas situações ou diante de certas coisas,
pessoas, fatos, etc. Temos dúvidas, ficamos cheios de perplexidade e somos
tomados pela insegurança.
Outras
vezes, estamos confiantes e seguros e, de repente, vemos ou ouvimos alguma
coisa que nos enchem de espanto e de admiração, não sabemos o que pensar ou o
que fazer com a novidade que vimos ou ouvimos porque as crenças, opiniões e
ideias que possuímos não dão conta do novo. O espanto e a admiração, assim como
antes a dúvida e a perplexidade, nos fazem querer saber o que não sabíamos, nos
fazem querer sair do estado de insegurança ou de encantamento, nos fazem
perceber nossa ignorância e criam o desejo de superar a incerteza.
Quando
isso acontece, estamos na disposição de espírito chamada busca da verdade.
CHAUI,
Marilena. Convite à filosofia.
14 ed. São
Paulo: Ática, 2010.
Comunicação corporal
O corpo é nosso principal meio de comunicação.
Entretanto, a maioria das pessoas, sem ter esta consciência, utilizam-no apenas
para atender as necessidades físicas e emocionais. Da expressão fácil aos
gestos e à postura, são inúmeros os significados transmitidos pela linguagem
corporal, também chamada de comunicação não verbal ou silenciosa.
Existem pesquisas que demonstram que 55% do que
comunicamos é representado por nosso corpo; 38% restantes por nossas qualidades
vocais e apenas 7% por palavras.
Não atentamos para a nossa mímica diária: a imagem
que transmitimos aos outros. Alguém andando com a cabeça baixa e os ombros
caídos, um levantar de sobrancelhas ou mãos apoiando o queixo são mensagens
repletas de significados que podem autenticar ou contradizer a comunicação
verbalizada.
Algumas reflexões:
1) Causar boa impressão nada tem a ver com exaltar
o corpo ou a aparência.
2) A boa aparência não garante uma boa impressão.
3) Uma pessoa apaixonada: seu olhar tem um brilho
especial – o brilho é o corpo “falando” sobre a emoção que está vivendo.
4) Quem está de bem com vida olha de frente para as
pessoas; tem boa postura; o andar firme; tudo revela equilíbrio, tranquilidade,
humildade.
5) Uma pessoa prepotente arrogante, há de se
mostrar assim, pois mantém o “nariz empinado” e olha os outros “de cima para
baixo”. Neste caso, independentemente do traje que o indivíduo usar, tais
características não escaparão a ninguém.
6) Os gestos e/ou sinais e/ou expressões não devem
ser observados de maneira isolada, mas em associação (ações observadas
isoladamente podem acarretar erros de interpretação). Lembrem-se, as pessoas
olham, ouvem e sentem, somos um todo. Por exemplo, uma pessoa que ao conversar
não faz contato visual com seu interlocutor talvez seja apenas tímida;
interpretado de forma isolada, este gesto poderia indicar que está mentindo.
Corrado Cicotti
Corrado Cicotti
quinta-feira, 12 de maio de 2016
Direitos Humanos e Anistia Internacional
“Corria o ano de 1961. Um jornal
londrino publicou, sob o título ‘Os prisioneiros esquecidos’, o chamamento
feito por um advogado britânico ― Peter Benenson ― de pessoas de diferentes
origens e crenças para um trabalho pacífico e imparcial pela libertação de
milhares de homens e mulheres presos em todo o mundo, apenas por causa de suas
convicções ou por suas origens. Esses presos viriam posteriormente a ser chamados
‘prisioneiros de consciência’, um novo termo que se incorporaria às questões
mundiais.
A fúria de Benenson se
justificava. Pouco antes ele tomara conhecimento de que dois estudantes haviam
sido presos num restaurante de Lisboa e condenados pelo regime de Salazar a
sete anos de prisão... por terem feito um brinde à liberdade! Seu primeiro
impulso foi apresentar um protesto solene à embaixada portuguesa. Mas logo
desistiu, ciente de que manifestações isoladas receberiam apenas o escárnio dos
tiranos. Uma ação assim teria de ser maciça para ser eficaz. Era preciso
mobilizar as pessoas. Era preciso direcionar a indignação dispersa.
Em um mês, mais de mil pessoas
já haviam respondido ao apelo oferecendo ajuda prática. Traduções do artigo
foram publicadas na imprensa de outros países. Em seis meses, Benenson
anunciava que aquele chamamento sumário estava sendo convertido em um movimento
internacional permanente, e afirmava ‘Acreditamos que estes seis primeiros
meses mostraram que em um mundo crescentemente cínico existe uma grande reserva
latente de idealismo a ser impulsionada’.
Nascia a Anistia Internacional
ou Amnesty International, como é
conhecida no país de origem.
Sean Mac Bride, veterano
militante da causa dos direitos humanos, ganhador do Nobel da Paz e morto em
janeiro de 1988, foi um dos fundadores da AI e recorda em
suas memórias que os outros membros da Anistia Internacional já acreditavam que
a melhor maneira de se conhecer uma dada sociedade era verificar quem estava em
suas prisões.
Os novos membros organizaram-se
em grupos. Um trabalho prático para enfrentar a perseguição política que se
iniciou. Sindicalistas eram presos na Espanha, dissidentes padeciam longas
penas na Alemanha Oriental, detidos na África do Sul eram submetidos à
brutalidade e maus-tratos, nos Estados Unidos perseguiam-se ativistas dos
direitos civis, na União Soviética faziam julgamentos políticos. E contra o
silêncio oficial dos governos desencadeou-se uma batalha permanente,
independentemente da ideologia ou da atitude das autoridades que violavam
alguns direitos humanos. Contatavam-se advogados e familiares dos prisioneiros.
Cartas e telegramas eram enviados aos governantes e multiplicavam-se as
denúncias.
Apesar da improvisação e da
modéstia de seus recursos ― o orçamento de 1962 compreendia parcas 7000 libras
esterlinas ―, o movimento tornava-se conhecido. Passou a incomodar governos e,
óbvio, a reação não tardou. O Izvestia, jornal soviético, falou de sabotadores
ideológicos’. E o Departamento de Estado, nos EUA, já no final de 1961, disse
ter provas de que a AI era ‘um complô vermelho’.
Outros, porém, viriam a chama-la
‘uma conspiração de esperança’.”
IODETA, Carlos Alberto.
Direitos Humanos e Anistia Internacional.
In: FESTER, Antonio Carlos
Ribeiro. Direitos Humanos e... São
Paulo:
Brasiliense / Comissão Justiça
e Paz de São Paulo, 1989. P. 59-61.
.
Assinar:
Postagens (Atom)
