sábado, 18 de julho de 2015
Memorial do Convento
José Saramago
Apesar de ter sido trazida da Áustria já há dois anos, especialmente para gerar o
sucessor ao trono de D. João V, rei de Portugal, a rainha D. Maria Ana Josefa parece não conseguir engravidar. Sendo o rei um símbolo de virilidade, ela é quem é considerada infértil e, consequentemente, a única culpada pelo fato de o rei ainda não ter tido herdeiros. Quando, ao cair da
noite, o rei se prepara para ir ao quarto da rainha para mais uma tentativa,
chega ao palácio D. Nuno da Cunha, bispo inquisidor, acompanhado de um
velho frade franciscano, Antônio de S. José, que propõe uma solução para o problema do rei. Diz o frade que a rainha
engravidaria assim que o rei prometesse construir um convento para os frades da
ordem dos franciscanos na vila de Mafra. Feita a promessa, o casal real vai finalmente
para o quarto.
Depois de consumado o ato sexual, rei e rainha dormem e sonham
cada um com seus próprios desejos, suas diferentes fantasias: ela sonha que tem um
encontro amoroso com seu cunhado, o Infante D. Francisco, enquanto o rei sonha
que seu pênis está se transformando em árvore e, logo em seguida, em colunas do
convento que ele prometera construir para os franciscanos.
Em tom irônico, o narrador revela suspeitas de que, antes mesmo da
promessa, talvez a rainha já estivesse grávida e que talvez o padre o já sabia disso. Em todo caso, se a concepção da rainha ocorresse, o fato seria visto
como mais um entre os vários milagres tradicionalmente relacionados à ordem de São Francisco. Diz-se, por exemplo, que um tal
frei Miguel da Anunciação, mesmo depois de morto, conservara seu corpo intacto durante
dias, atraindo, desde então, uma grande quantidade de devotos para sua igreja. Em outra ocasião, a imagem de Santo Antônio, que vigiava uma igreja franciscana,
locomovera-se até à janela, onde ladrões tentavam entrar, passando-lhes assim um
grande susto. E do convento de S. Francisco de Xabregas conta-se que, certa
vez, suas lâmpadas tinham sido roubadas, e logo depois foram encontradas,
como se por acaso, num mosteiro de jesuítas. A gravidez da rainha foi atribuída ao poder milagroso de Santo Antônio ou, segundo outros, à ameaça que um frade velho fizera contra a imagem
do santo, acusando o protetor de descuido.
Passado o "entrudo", como de
costume, durante a quaresma as ruas se encheram de gente que fazia cada um suas
penitências. Segundo a tradição, a quaresma era a única época em que as mulheres podiam percorrer
as igrejas sozinhas e assim gozar de uma rara liberdade que lhes permitia até mesmo de se encontrarem com seus amantes
secretos. Porém, D. Maria Ana não podia gozar dessas liberdades pois, além de ser rainha, agora se encontrava grávida. Assim, tendo ido para a cama cedo,
consolou-se em sonhar outra vez com D. Francisco, seu cunhado. Passada a
quaresma, todas as mulheres retornaram para a reclusão de suas casas.
Em contraste com os conflitos da família real está a história de Baltasar Mateus, um homem de 26 anos,
conhecido como "o Sete-Sóis". Baltasar dirige-se a Lisboa, caminhando pela estrada
real, depois de ter sido soldado e perdido a mão esquerda em uma batalha contra a Espanha,
para decidir a quem pertenceria o trono espanhol. Com um que lhe servia de mão e um espigão de ferro que funcionava como uma arma,
Baltasar pede esmola em Évora e, a caminho de Lisboa, mata um ladrão que havia tentado assaltá-lo. Não sabendo ainda se ficaria em Lisboa ou se
continuaria viagem em direção a Mafra, onde ainda viviam seus pais, Baltasar anda pelas
ruas da capital e conhece João Elvas, com quem, junto a outros mendigos, vai passar a noite
num "telheiro abandonado". Antes de dormir, cada um conta histórias de crimes que ocorreram na cidade, os
quais são comparados às mortes que alguns deles presenciaram na guerra.
Não somente por causa da gravidez de cinco meses, mas também por estar de luto pela morte de seu irmão, a rainha Maria Ana deixa de frequentar o grande auto-de-fé na praça do Rossio em Lisboa, evento muito popular,
que já há dois anos não ocorria. Ali seriam castigados pela Inquisição diversos casos de heresia.
Entre os condenados pelo Santo Ofício, um é focalizado com maior destaque. É Sebastiana Maria de Jesus, acusada de ser
feiticeira e cristã-nova. Sebastiana, durante alguns parágrafos, torna-se a narradora da história.
Sebastiana Maria de Jesus tem uma filha de 19 anos: Blimunda,
jovem de poderes sobrenaturais, que assiste à procissão ao lado do padre Bartolomeu Lourenço. Perto dela está um homem, Baltasar Mateus, o Sete-Sóis, a quem ela se dirige e cujo nome procura
saber. Voltando a sua casa, Blimunda leva consigo o padre e deixa a porta
aberta para que o recém-conhecido também possa entrar. Depois de o padre sair,
Blimunda convida Baltasar para que fique morando em sua casa, pelo menos até que ele tivesse que voltar a Mafra. No dia
seguinte, ao acordar, Blimunda, sem abrir os olhos, come um pedaço de pão e promete a Baltasar que nunca o olharia
"por dentro". Começa aqui a fiel e duradoura amizade entre os três personagens que se contrapõem aos personagens da família real, heróis da historiografia oficial. Inicia-se também a relação amorosa entre Baltasar e Blimunda, que ocupará o centro da narrativa.
Ao encontrar-se com o padre Bartolomeu Lourenço, que estava procurando usar sua influência no palácio para conseguir dinheiro. Baltasar fica
sabendo que o padre era conhecido como "o Voador", por ter criado uma
máquina a qual todos ridicularizam, chamando de "a
passarola". Baltasar aceita o convite do padre para ser seu ajudante no projeto
de construir a tal "máquina de voar", mas enquanto não chega o dinheiro para o material necessário, fica trabalhando em um açougue.
Enquanto isso, no palácio, para decepção do rei, a rainha dá à luz uma menina, Maria Xavier Francisca
Leonor Bárbara, que é batizada por sete bispos. Apesar de o frade Antônio de S. José já ter morrido quando do nascimento da criança, a promessa do rei de construir o convento
seria mantida.
Baltasar, que sempre dormia no lado
direito da enxerga, procura saber por que Blimunda sempre comia pão ao acordar, antes mesmo de abrir os
olhos. Ele já tinha tentado descobrir o mistério através do padre Bartolomeu Lourenço que, apesar de conhecer a verdadeira razão, não a quis revelar, dizendo apenas que voar
é um mistério pequeno se comparado de Blimunda.
Certa manhã, tentando desvendar esse mistério de uma vez por todas, Baltasar esconde
o pão de Blimunda que, ao acordar, começa a procurá-lo desesperadamente. Finalmente, depois
de receber o pão das mãos de Baltasar, Blimunda revela que tem o
poder de "olhar por dentro das pessoas", o que podia fazer somente quando
estava em jejum. No dia seguinte, para provar-lhe seu poder (ou infortúnio), Blimunda, ainda em jejum, sai à rua com Baltasar, evitando olhá-lo, já que antes tinha prometido não "olhá-lo por dentro". Dentre as coisas
que vê, Blimunda descreve a gravidez de uma
mulher, o que existe no subsolo, o órgão sexual de um jovem, apodrecido por doença venérea, e até mesmo uma moeda enterrada no chão.
Enquanto no palácio nascia D. Pedro, segundo filho da família real, e o rei viajava a Mafra para
escolher o lugar onde seria erguido o convento monumental, Baltasar e Blimunda mudam-se
para a abegoaria na quinta do duque de Aveiro, amigo do rei, em S. Sebastião da Pedreira. Além de proporcionar-lhe o lugar de trabalho, o
rei, que se interessara pelo projeto do padre como uma criança se interessa por um brinquedo novo, com
sua amizade e influência protegia o padre das garras da Inquisição que, caso viesse a saber dos projetos do
padre, teria motivos suficientes para acusá-lo de heresia.
Na quinta do duque de Aveiro, Padre
Bartolomeu, com a ajuda de Baltasar e Blimunda, prossegue na construção da passarola. Decide, então, partir à Holanda, onde dizem que os sábios conhecem os mistérios da alquimia e a natureza do éter, o único elemento que, segundo ele, estava
faltando para que sua invenção fosse concluída.
Baltasar e Blimunda, depois que o padre parte, decidem
mudar-se para Mafra, terra natal de Baltasar. Antes de partir, o casal decide
assistir, ao invés de mais um auto-de-fé que seria realizado na praça do Rossio, a uma outra festa popular, a
tourada. Assim como os autos-de-fé, as touradas sempre terminavam com um forte
cheiro de carne queimada, proveniente do churrasco realizado no final da. Ao
chegar à casa da família em Mafra, acompanhado de Blimunda, Baltasar é recebido por sua mãe, Marta Maria, já que João Francisco, seu pai, estava trabalhando no
campo. Baltasar fica sabendo que sua única irmã, Inês Antônia, estava casada com Álvaro "Pedreiro" Diogo. Dos dois
filhos desse casal, apenas um sobreviveria, sendo que o outro morreria ao
atingir a mesma idade em que o infante D. Pedro, filho de D. João V, também morreria, anos mais tarde.
Baltasar fala à família de suas intenções de ficar morando com a mulher em Mafra. A
família acolhe bem Blimunda, depois de se certificar de que ela não era judia ou cristã-nova, o que não era completamente verdade. O pai informa
ao filho recém-chegado de que abrira mão de suas terras na Vela, pois elas haviam
sido desapropriadas para a construção do convento, uma obra monumental que,
segundo acreditavam, traria muitos empregos para os moradores da região, especialmente para o cunhado de Baltasar,
que era pedreiro. Baltasar vai visitar as obras do convento e, ao retornar,
encontra Blimunda conversando com Maria Marta, de quem a jovem se tornaria
companheira e ajudante, enquanto Baltasar iria trabalhar com o pai no cultivo
de terras que não lhes pertenciam.
Encontrando-se o rei bastante enfermo, seu irmão aproveita as perspectivas que lhe são favoráveis e revela à rainha seu interesse em tornar-se seu marido
e o novo rei. O infante D. Francisco declara saber que é objeto dos sonhos da rainha, numa conversa
que seria a primeira entre tantas que finalmente acabariam por destruir o
desejo original que ela experimentara. Mesmo depois de recuperada a saúde do rei, seus antigos sonhos nunca teriam
aquele mesmo encanto de antigamente, já que ela tem plena consciência de que sua condição de mulher e rainha mudaria pouco, fosse
ela casada com um ou outro irmão.
Voltando da Holanda, onde estivera por três anos, o padre Bartolomeu Lourenço dirige-se à quinta de S. Sebastião da Pedreira, encontrando a albegoaria
abandonada. Algumas semanas depois, parte em direção a Coimbra, de onde conta retornar já "doutor em cânones". Antes, porém, decide visitar o casal amigo em Mafra,
onde, ao chegar, encontra um pároco, Francisco Gonçalves, que lhe oferece um quarto para ficar
hospedado. Em conversa com Blimunda e Baltasar, o padre Bartolomeu conta-lhes o
que descobrira na Holanda, ou seja, que ao contrário do que se pensa, o éter não é uma substância que possa ser encontrada pelas artes da
alquimia, mas que, antes de subir ao céu, o éter existe dentro das pessoas, pois nada
mais é do que a "vontade" de cada um. Assim, o padre pede a
Blimunda que olhe dentro das pessoas e encontre essa "vontade", que é como uma nuvem fechada. E que, cada vez que
percebesse a vontade de alguém escapando, que ela a capturasse usando um frasco contendo âmbar, que é a substância que atrai o éter.
Em Mafra, pela primeira vez Blimunda comunga conforme manda os
ensinamentos da igreja católica, ou seja, em jejum. Ao fazê-lo, vê na hóstia uma nuvem fechada, o que muito a
impressiona. Já tendo o padre ido para Coimbra há algum tempo, o casal decide partir de volta à quinta, assim que passassem as festividades
de inauguração dos alicerces do convento, cujas primeiras pedras seriam
colocadas pelas mãos do próprio rei.
Dias antes da inauguração dos alicerces, uma grande tempestade de
vento, comparável ao "sopro de Adamastor" _ derruba a igreja de
madeira construída especialmente para a cerimônia. Sabendo do acidente, o rei começa a distribuir moedas de ouro, e distribui
ainda mais quando os pedreiros voltam ao trabalho e reconstroem a igreja em
dois dias, de modo que o que era catástrofe passou a ser visto como milagre. No
primeiro dia de festividades, a inauguração foi feita em cerimônias restritas a poucos convidados e, no dia
seguinte, (ou seja, a 17 de novembro de 1717, seis anos depois de o rei ter
feito sua promessa), realizou-se uma grande festa pública.
De volta à quinta do Duque de Aveiro, Baltasar
desmonta a passarola que, abandonada, encontrava-se com a estrutura enferrujada
e os panos cheios de mofo. Pouco tempo depois chega o padre, que logo quer
saber quantas vontades Blimunda já recolhera. Ao ouvir que até então havia apenas trinta
"vontades" na garrafa, o padre lhe diz que eram necessárias pelo menos duas mil. Baltasar
continua trabalhando na "máquina de voar"
enquanto padre Bartolomeu vai constantemente a Coimbra, a fim de concluir seus
estudos. Quando volta definitivamente para Lisboa, o padre fica conhecendo o músico Domenico Scarlatti, napolitano de 35
anos, professor particular de música da infanta D.
Maria Bárbara que, a essas alturas, já tem nove anos de idade. O encontro dos
dois homens estimula uma discussão sobre o poder extraordinário da música e a essência da verdade, comparando-se finalmente
a música do italiano com a oratória do padre. Em outra ocasião, o padre e o compositor se encontram e
juntos vão à S. Sebastião da Pedreira, onde o padre revela seu
segredo ao músico e apresenta-lhe a "trindade
terrestre", composta por ele, o amigo e ajudante Baltasar e sua
companheira Blimunda.
Depois da partida do italiano que, tendo prometido que
voltaria trazendo seu cravo e o tocaria para o casal e para a passarola, o
padre Bartolomeu Lourenço começa a trabalhar em um sermão que estava preparando para a festa do
Corpo de Deus. Nesse sermão, que a princípio receberia a aprovação e até mesmo a admiração dos padres e censores do Santo Ofício, o padre questiona os fundamentos da
doutrina cristã da trindade divina.
Sabendo de uma epidemia de febre amarela que, trazida do
Brasil, se alastrava por Lisboa e já matara quatro mil pessoas em três meses, o padre Bartolomeu pede a Blimunda
que aproveite a ocasião para recolher as vontades que se desprendem do peito dos
moribundos. Blimunda faz o que o padre lhe pedira e, no final da epidemia,
consegue recolher as duas mil vontades necessárias para fazer voar a
"passarola". O casal acaba se tornando conhecido em Lisboa, por
sempre andar pela cidade sem medo da epidemia.
Depois de cumprida a tarefa, Blimunda fica doente e, durante
toda sua convalescença, o músico Scarlatti vai tocar-lhe cravo, o que contribui para a
restauração de sua saúde.
Estando as vontades recolhidas e a máquina de voar já pronta, nada falta para que o invento do
padre seja testado. Além disso, o rei já não pode fazer nada para que o Duque de
Aveiro lhes empreste a quinta onde trabalham. O padre, que andava receoso do
Santo Ofício, vai ao palácio se certificar da proteção e amizade do rei, mas volta aflito, pois
descobrira que o Santo Ofício já estava a sua procura. Assim, só lhe resta propor ao casal que os três terminem rapidamente o projeto e juntos
fujam na "máquina de voar". Assim, depois de retirarem
o telhado da abegoaria e colocarem tudo o que possuem dentro da máquina, deixando para trás apenas o cravo de Domenico Scarlatti, a
"passarola" enfim levanta voo. Scarlatti, que chegara à quinta a tempo de ver a máquina subir aos ares, senta-se ao cravo e
toca uma música, antes de lançar o instrumento ao fundo de um poço.
Depois de passarem despercebidos sobre a cidade de Lisboa, os
três sobrevoam a vila de Mafra, onde várias pessoas veem a máquina voadora, julgando ser uma aparição do Espírito Santo. Encontrando dificuldades para
controlar a máquina, finalmente a fazem aterrissar, graças à iniciativa de Blimunda de segurar junto a
seu peito as duas esferas contendo as "vontades".
No dia seguinte, o casal impede o padre, que se encontrava
aflito de emoção ou de medo, de atar fogo à máquina. Mas não podem impedir que ele parta sozinho mata
adentro, para nunca mais voltar. Blimunda e Baltasar escondem a máquina sob a ramagem e partem na mesma direção tomada pelo padre, até chegarem, depois de alguns dias, a Mafra,
onde uma procissão celebrava o milagre que o povo acreditava ter presenciado.
Ali, Baltasar, a exemplo de tantos outros moradores locais, começa a trabalhar nas obras do convento, cuja dimensão e quantidade de homens que emprega muito o
impressionam, apesar de achar o ritmo com que se desenvolve demasiado lento.
Chegam notícias do terremoto de Lisboa, que foi seguido de inaudita
tempestade. Apesar dos estragos causados por ambos os desastres,
implementaram-se os negócios de vários setores da sociedade e, em particular, da igreja, que frequentemente se aproveitava das catástrofes para alimentar a religiosidade popular.
Dois meses depois de terem chegado a Mafra, Baltasar decide
voltar ao Monte Junto, onde haviam deixado a máquina de voar. Ele a encontra no mesmo
lugar, mas necessitando de alguns reparos. A partir de então, ele faria visitas frequentes ao local, cuidando da manutenção da máquina, sempre com uma certa esperança de reencontrar o padre. Algum tempo
depois, Domenico Scarlatti chega a Mafra, onde fora visitar as obras do
convento, ficando hospedado na casa de um visconde. Ao se cruzarem na rua,
Blimunda e Scarlatti, tentando evitar as suspeitas dos moradores, que poderiam
achar estranho duas pessoas de níveis sociais tão diferentes se conhecerem, conversam às escondidas. O músico trazia a notícia da morte do padre Bartolomeu de Gusmão em Toledo, Espanha, para onde ele havia fugido
no dia 19 de novembro, o dia da tempestade em Lisboa. Em seguida, enquanto no palácio o rei medita sobre suas riquezas,
celebra-se em Mafra uma missa para um grande número de trabalhadores.
A construção do convento exige esforços colossais e causa muitas vítimas. Um dos eventos mais penosos foi o
transporte, da vila de Pêro Pinheiro até a vila de Mafra, de uma imensa pedra,
destinada a ser a laje de uma varanda sobre o pórtico da igreja. Seiscentos homens e um
grande número de bois foram utilizados na
empreitada, que durou oito dias, durante os quais não faltaram acidentes fatais. Um dos casos
mais dramáticos foi o do trabalhador Francisco
Marques, que acabou esmagado sob uma roda de um carro de bois.
Depois de quase quatro anos em Mafra,
Blimunda pela primeira vez pede a Baltasar para acompanhá-lo em uma de suas visitas periódicas ao Monte Junto. Depois de lá chegarem, resolvem passar a noite para
que, ao amanhecer, Blimunda, ainda em jejum, se certificasse de que as vontades
ainda estavam guardadas dentro de cada uma das duas esferas. Enquanto isso, na
residência real, D. João V manifesta seu desejo de construir uma
Basílica em Portugal como a de S. Pedro em
Roma. Para dar conta do projeto gigantesco, o rei chama o arquiteto alemão João Frederico Ludovice (ou Ludwig), que o
dissuade da ideia, com o argumento de que o rei não viveria o suficiente para ver a obra
concluída. Convencido, o rei decide então ampliar a dimensão do projeto do convento de Mafra, de modo
que, ao invés de 80, coubessem nele 300 frades, o que
muito agrada ao provincial dos franciscanos da Arrábida. O projeto é, sem dúvida, ambicioso demais para os recursos
do reino, o que se reflete em conversa, imaginada pelo narrador, entre o rei e
o almoxarife ou guarda-livros.
Finalmente, o rei decide que a sagração da basílica deveria ser realizada dois anos mais tarde,
no dia vinte e dois de outubro de 1730, quando ele completasse 41 anos,
estivesse ou não a obra concluída. Com a ampliação do projeto, tornara-se necessário que se recrutasse um grande número de trabalhadores, dentre os quais
muitos seriam levados a fazer o trabalho contra a própria vontade, o que causaria grande tristeza
a muitas famílias de toda a região. Simultaneamente, as famílias reais de Portugal e de Espanha logo se
preparariam, em 1729, para se unirem através de dois casamentos.
De fato, a "troca das princesas" uniria, em 1729, as
famílias reais de Portugal e Espanha, segundo um acordo que já havia sido concluído havia quatro anos. Mariana Vitória, da Espanha, de 11 anos, seria trazida a
Portugal para que se casasse com o infante D. Pedro, enquanto Maria Bárbara, de 17 anos, seria levada a Espanha
para unir-se a Fernando, dois anos mais novo que a noiva. Assim, uma comitiva
leva a família real até a fronteira dos dois países, sobre o rio Caia, em Elvas, passando
por Mafra. Na região de Mafra, os trabalhadores, que à força são levados às obras do convento, chamam a atenção da princesa e por um momento lhe despertam
compaixão. Além da coincidência entre o nascimento da princesa e a promessa do rei de
construir o convento de Mafra, no nível popular, duas outras histórias convergem. João Elvas, que conhecera Baltasar em Lisboa
logo depois da guerra, acompanha, junto a um grupo de pedintes, a comitiva à fronteira onde está situada sua cidade natal. Ao conversar com
um certo Julião Mau-Tempo, que menciona a enorme pedra transportada até Mafra, João Elvas lembra-se do ex-soldado, seu amigo
Baltasar, com quem o interlocutor havia trabalhado.
Em 1730, pouco mais de um ano depois da "troca das
princesas", a basílica do convento seria enfim consagrada, mesmo estando as
obras, tanto as da basílica como as do convento, ainda longe de serem concluídas. Várias estátuas de santos desfilam pelas ruas e são transportadas até o local onde seriam instaladas. Blimunda e
Baltasar resolvem ver as imagens dos santos Segundo acreditam, os santos
passariam a noite conversando pela última vez, antes de serem isolados em seus
nichos, na basílica.
Ao amanhecer, Baltasar decide ir sozinho
ao Monte Junto, verificar o estado da "passarola". Ao tentar fazer os
já costumeiros reparos na máquina, Baltasar tropeça e rasga os panos que cobriam as
esferas, de modo que quando os raios de sol as atingem, a máquina inesperadamente levanta voo. Blimunda vai procurá-lo no dia seguinte, ao mesmo tempo em
que romarias se dirigem à sagração da basílica, mas não encontra seu amado, apenas o espigão de ferro, que ela não hesita em usar quando um frade a tenta
violá-la.
Blimunda continua a procurar Baltasar durante nove anos,
perambulando por todas as partes do país. Sua jornada termina em Lisboa, em situação semelhante àquela em que conhecera Baltasar. Em 1739, em
um auto-de-fé na praça do Rossio, onze vítimas encontram-se a caminho da fogueira --
inclusive o dramaturgo Antônio José da Silva, "O Judeu". Estava lá também Baltasar, cujo vulto Blimunda vê. Quando Baltasar está para morrer, sua "vontade" se
desprende e é finalmente recolhida dentro do peito de sua amada Blimunda.
O sistema sonoro na língua portuguesa
Fonética e fonologia
O sistema sonoro do português
Fonética
é a parte da gramática que estuda, analisa e classifica os sons de uma língua e
suas articulações.
Fonologia
é o estudo do sistema de sons de uma língua, suas alternâncias, transformações
e modificações.
1. Fonema
O fonema é a
unidade mínima distintiva de som de uma língua. Os fonemas são unidades sonoras
indivisíveis e abstratas, consideradas componentes de uma sílaba. Não são
significativos, porém são distintivos, isto é, diferenciadores de significado.
Muitos vocábulos, ao terem um fonema substituído por outro, apresentam mudanças
semânticas. Observe:
bola gola
pato tato
rapé sapé
2 - O aparelho fonador
Sabemos que
a fala só se efetiva através da produção de um determinado número de sons
vocais articulados pela voz humana.
Os sons da
fala são produzidos diante da ação de certos órgãos do aparelho fonador sobre a
corrente de ar que vem dos pulmões.
Os sons
distintivos da fala só são produzidos de modo adequado quando o aparelho
fonador do indivíduo funciona normalmente.
Os órgãos
que fazem parte do aparelho fonador são: os pulmões, os brônquios e a traqueia,
que fornecem a corrente de ar necessária para a fonação; a laringe, na qual
estão localizadas as cordas vocais, que produzem energia sonora; a faringe, a
úvula (campainha), o palato (céu da boca), a língua, os dentes, os lábios e o
nariz.
3. Fonemas sonoros e surdos
Na linguagem
há fonemas surdos e sonoros. Quando o fluxo de ar chega às cordas vocais pode
encontrá-las retesadas ou relaxadas. Quando retesadas, o ar força a passagem,
fazendo-as vibrar e produzir sons sonoros. Quando relaxadas, o ar tem passagem
livre, sem provocar sua vibração, e os sons produzidos são surdos.
Os fonemas
/b/, /d/, /g/ são sonoros, visto que ocorre a vibração das cordas vocais
durante a realização dos mesmos.
Os fonemas
/p/, /t/, /k/ são surdos, pois as cordas vocais permanecem em repouso durante a
produção dos mesmos.
4. O alfabeto fonético
Sempre
que há necessidade de registro dos fonemas, utilizamos a transcrição fonética.
Existe o Alfabeto Fonético Internacional, que pode ser utilizado para a
transcrição de qualquer língua, com certas adaptações diante do sistema sonoro
peculiar de cada idioma.
Os
fonemas são representados pelas letras do alfabeto ou por certos sinais
diacríticos, mas essa representação não reflete com exatidão o fonema ou sequência
de fonemas que o falante produz durante o ao da fala.
Os
fonemas são indicados entre barras oblíquas. Por exemplo, o fonema /p/ é uma
consoante bilabial, pois para a sua realização há um contato completo dos
lábios.
O
registro dos sons da fala, isto é, a transcrição fonética, é sempre representado
entre colchetes. Por exemplo: a palavra sal é transcrita ['saw] observando-se a
pronúncia corrente da maioria dos brasileiros.
5. O sistema sonoro
O sistema
sonoro do português consiste em oito vogais, duas semivogais e dezenove
consoantes.
a) Vogais são fonemas sonoros produzidos
mediante a livre passagem do ar pela boca. São vogais:
[ a ] má,
fato, pedra
[ ɑ ] cana,
lama, trama
[ ɛ ] ela,
sela, café
[ e ] êxito,
gelo, fazer
[ Ɔ ] cólera,
gola, nó
[ o ] osso,
coluna, tarô
[ i ] isso,
figo, lebre
[ u ] urubu, azul, livro
b) Semivogais são os fonemas sonoros /y/ e
/w/ que, quando juntos de uma vogal, formam com ela uma única sílaba:
[ y ] mãe ['máy], rei ['rey]
[ w ] meu ['mew], quadro ['kwadru]
c) Consoantes são fonemas resultantes do fechamento ou estreitamento
do canal vocal num determinado ponto. São consoantes:
[ b ] bola, aba, sobra
[ d ] dó, lado, saída
[ ɡ ] gato, agora, tango
[ p ] pato, sapato, mapa
[ t ] tecido, lentidão, santo
[ k ] caro, querida, porcaria
[ m ] mãe, amar, camada
[ n ] nada, canoa, ano
[ ŋ ] nhá, vinho, caminho
[ l ] lado, melado, mola
[ λ ] lhe, filhote, malha
[ r ] barato, caro, mar
[ R ] rota, carro, amarrar
[ f ] favor, afável, califa
[ v ] vela, azevinho, úvula
[ s ] sapo, sela, pêssego
[ z ] zero, casa, exato
[ ∫ ] chá, xale, marchar
[ ʒ ] gênero, jarra, manjar
d) Alofones são as variantes de um fonema.
O fonema /l/ tem uma variante [ w ] quando ocorre em posição intermediária
não-intervocálica ou em posição final:
alto
['awtu]
mal
['maw]
O fonema /d/
possui a variante regional [ ʤ ]:
dia [`d y a]
sede [`s
ɛ d ʒ i]
O fonema /t/
apresenta a variante regional [ t’ ]:
tipo [`t´i p u ]
sete [`s
ɛ t´ i ]
NOTA
O sinal
diacrítico [ ' ] que aparece nos colchetes indica que a sílaba que se segue é
tônica.
sexta-feira, 17 de julho de 2015
Estudo dos níveis de linguagem
1. Linguagem padrão
A linguagem padrão (ou
culta), utilizada na comunicação formal, é controlada por um conjunto de
hábitos linguísticos praticado por uma comunidade sociocultural privilegiada,
com bom índice de escolarização e acesso aos bens culturais das elites.
Trata-se de um registro marcado pela obediência às normas gramaticais rígidas,
que evidenciam aspectos elaborados da língua. É a linguagem que tem prestígio
junto ao grupo social, servindo de modelo linguístico para a comunidade em
geral.
2. Linguagem coloquial
A linguagem coloquial,
utilizada na comunicação do dia-a-dia, caracteriza-se por uma certa
flexibilidade gramatical e evidencia um aspecto mais simples da língua.
A linguagem coloquial
pode ser dividida em dois tipos: informal e popular. O primeiro, regido pelas
normas linguísticas, revela a linguagem das classes privilegiadas com um índice
maior de educação formal, enquanto o segundo, mais espontâneo, sem a
preocupação de seguir uma gramática disciplinada, é praticado pelas classes
populares da sociedade, com acesso restrito à escolarização e aos bens
culturais da classe dominante.
3. Dialeto
O dialeto é uma
variação regional ou social de uma língua. É uma forma própria de uma língua,
praticada por falantes de uma certa região ou de uma classe social específica,
com diferenças linguísticas na pronúncia, na construção
gramatical e na sintaxe, em como no uso do vocabulário.
Normalmente, o falante
de um dialeto entende um outro dialeto de sua língua. Há, no entanto, casos em
que um dialeto se distancia tanto da linguagem padrão, que se torna difícil
para o falante de outro dialeto entendê-lo, dificultando, assim, a comunicação
entre falantes das duas variedades linguísticas em questão.
4. Gíria
A gíria é uma linguagem
peculiar oriunda de um determinado grupo (social ou profissional) que, por ser
expressiva, normalmente passa a ser utilizada pela comunidade em geral.
Há dois tipos de gíria:
o de domínio técnico (jargão profissional) e o de domínio popular (social). O
jargão é uma linguagem praticada por pessoas que exercem a mesma atividade, por
exemplo, atores, jornalistas, bandidos, prostitutas, enquanto a gíria de domínio
popular é praticada por um certo grupo social.
A gíria nasce pela
mudança de significado de palavras já existentes na língua (fumo, legal,
perua), pela criação de palavras novas (brega, fofoca, mocó) e, até mesmo, por
empréstimos de palavras estrangeiras (boy, cafona, suingue).
5. Linguagem literária
A linguagem literária
está para o escritor assim como as tintas e os pincéis estão para o pintor. É,
pois, a linguagem do artista, variedade linguística que apresenta, normalmente,
bastante rigor em relação às normas prescritas pela gramática.
Em geral, a linguagem
literária revela-se apurada e elegante com características diversas: ordenação
especial do pensamento, clareza de ideias, vocabulário rico, precisamente
selecionado, e estilo requintado. Trata-se de uma linguagem elaborada em função
de uma gama bastante diversificada da experiência humana.
Visto que a escrita não
dispõe dos mesmos recursos da fala, os escritores selecionam elementos
linguísticos – adjetivação e linguagem figurada – que possam imprimir mais
expressividade à linguagem. Muitos autores modernos e contemporâneos registram
em suas obras a linguagem coloquial, numa tentativa de aproximar a linguagem
literária da oralidade.
Diante disso, a
linguagem literária vem se modificando ao longo das décadas e, as vezes, foge
àquelas características tradicionais rígidas. Torna-se uma linguagem mais
flexível e democrática, com o registro de uma outra variedade linguística.
quinta-feira, 16 de julho de 2015
Funções da Linguagem
1. Função emotiva
Na função emotiva
predominam enunciados que expressam, principalmente, a atitude de quem fala com
relação àquilo de que fala. É a função na qual o próprio emissor coloca-se como
foco de atenção da mensagem:
O sono está
perdido. Sinto-me um pouco só. Acho que estou carente. Pego o telefone. Talvez
seja bom falar com alguém. É muito tarde. Vou fazer um suco de amora. Colhi
amoras do quintal da vizinha. Admito que ela é atraente. Acho que vou
convidá-la para um cineminha. Devo acordar cedo, mas o sono não chega. Vou ler
um pouco ou ouvir música. Mozart é relaxante...
2. Função conativa
Na função conativa
predominam os enunciados que visam a atuar sobre o destinatário da mensagem. É
a função que apresenta o receptor como foco de atenção. Um exemplo típico da
linguagem conativa é o texto publicitário, no qual predomina a tentativa de persuasão:
Há quanto tempo
você sonha com um carro importado?
Chegou a sua
vez! Você que é moderno, dinâmico e empreendedor merece o melhor pelo menor
preço.
Você vai se
sentir elegante e seguro com a beleza e a tecnologia o Speed. Venha conhecê-lo
no nosso show room.
3. Função referencial
Na função
referencial predominam as mensagens centradas no referente ou contexto. É a
função que apresenta o referente como foco de atenção. No texto informativo,
jornalístico ou científico, predomina sempre a função referencial. Suas
características são objetividade e clareza:
A II Guerra
foi a guerra da sociedade industrial, no que ela tem de mais avançado e mais
tenebroso. O computador, o avião a jato, o tecido sintético, o radar e o
foguete balístico fora inventados ou desenvolvidos em função do conflito. O
medo de que os nazistas chegassem lá primeiro levou os Estados Unidos a
fabricar a bomba atômica, que seria jogada sobre Hiroshima e Nagasaki para
encerrara guerra com o Japão.
4. Função metalinguística
Na função metalinguística
predominam os enunciados em que o código se constitui objeto de descrição. É a
função na qual o próprio código aparece em destaque. Ocorre metalinguagem
quando um texto discute a linguagem, quando um filme revela implicações técnicas,
artísticas ou pessoais do cinema ou do próprio filme, quando um poema se
concentra na própria criação poética etc. Todo discurso acerca da língua, bem
como as definições dos dicionários ou as regras gramaticais são exemplos
típicos da função metalinguística:
Toda gente
sabe que a língua é variável. Dois indivíduos da mesma geração e da mesma
localidade, que falam precisamente o mesmo dialeto e frequentam os mesmos círculos
sociais, nunca estão propriamente a par de seus hábitos linguísticos. Investigação
minuciosa da fala revelaria inúmeras diferenças de detalhe na escolha do
vocabulário, na estrutura das sentenças, na relativa frequência com que são
usadas certas formas ou combinações de palavras, a pronúncia...
5. Função fática
Na
função fática predominam mensagens que têm por objetivo principal iniciar uma
conversa, atrair a
atenção do receptor, verificar sua atenção, prolongar a comunicação, ou, até
mesmo, interrompê-la:
Bom
Dia! Como vai você?
Crianças!
Atenção por favor!
Vocês
estão prestando atenção?
Bem!
Diante dos fatos, o que você me recomenda?
Por
favor, pare de falar!
São
exemplos típicos desta função a linguagem de cumprimentos ou saudações, as
primeiras palavras de quem aborda um interlocutor, as tentativas de testar o
nível de atenção dos nossos receptores, as primeiras palavras de quem atende ao
telefone etc.
6. Função poética
Na função poética
predominam os enunciados cuja mensagem se acha centrada em si mesma. É a função
na qual a própria mensagem é colocada em destaque:
Amanheceu
pela terra
um vento de
estranha sombra,
que a tudo
declarou guerra.
Paredes
ficaram tortas,
animais
enlouqueceram
e as plantas
caíram mortas.
O pálido mar
tão branco
levantava e
desfazia
um
verde-lívido flanco.
Das linhas
claras da areia
fez o vento
retorcidas,
rotas,
miseráveis teias.
..........
(Cecília
Meireles)
* É
importante observar que a linguagem, enquanto meio de interação social,
normalmente dá ensejo à coexistência de diversas funções numa mesma mensagem,
pois elas estão constantemente se inter-relacionando e imbricando, embora,
obviamente, haja a predominância de uma das funções, caracterizando, dessa
forma, a comunicação.
terça-feira, 14 de julho de 2015
Navio negreiro
Castro Alves - Livros completos
"Navio negreiro"
"Navio negreiro"
I
'Stamos em pleno mar... Doudo no espaço
Brinca o luar — dourada borboleta;
E as vagas após ele correm... cansam
Como turba de infantes inquieta.
Brinca o luar — dourada borboleta;
E as vagas após ele correm... cansam
Como turba de infantes inquieta.
'Stamos em pleno mar... Do firmamento
Os astros saltam como espumas de ouro...
O mar em troca acende as ardentias,
— Constelações do líquido tesouro...
Os astros saltam como espumas de ouro...
O mar em troca acende as ardentias,
— Constelações do líquido tesouro...
'Stamos em pleno mar... Dois infinitos
Ali se estreitam num abraço insano,
Azuis, dourados, plácidos, sublimes...
Qual dos dous é o céu? qual o oceano?...
Ali se estreitam num abraço insano,
Azuis, dourados, plácidos, sublimes...
Qual dos dous é o céu? qual o oceano?...
'Stamos em pleno mar. . . Abrindo as velas
Ao quente arfar das virações marinhas,
Veleiro brigue corre à flor dos mares,
Como roçam na vaga as andorinhas...
Ao quente arfar das virações marinhas,
Veleiro brigue corre à flor dos mares,
Como roçam na vaga as andorinhas...
Donde vem? onde vai? Das naus errantes
Quem sabe o rumo se é tão grande o espaço?
Neste saara os corcéis o pó levantam,
Galopam, voam, mas não deixam traço.
Quem sabe o rumo se é tão grande o espaço?
Neste saara os corcéis o pó levantam,
Galopam, voam, mas não deixam traço.
Bem feliz quem ali pode nest'hora
Sentir deste painel a majestade!
Embaixo — o mar em cima — o firmamento...
E no mar e no céu — a imensidade!
Sentir deste painel a majestade!
Embaixo — o mar em cima — o firmamento...
E no mar e no céu — a imensidade!
Oh! que doce harmonia traz-me a brisa!
Que música suave ao longe soa!
Meu Deus! como é sublime um canto ardente
Pelas vagas sem fim boiando à toa!
Que música suave ao longe soa!
Meu Deus! como é sublime um canto ardente
Pelas vagas sem fim boiando à toa!
Homens do mar! ó rudes marinheiros,
Tostados pelo sol dos quatro mundos!
Crianças que a procela acalentara
No berço destes pélagos profundos!
Tostados pelo sol dos quatro mundos!
Crianças que a procela acalentara
No berço destes pélagos profundos!
Esperai! esperai! deixai que eu beba
Esta selvagem, livre poesia
Orquestra — é o mar, que ruge pela proa,
E o vento, que nas cordas assobia...
..........................................................
Esta selvagem, livre poesia
Orquestra — é o mar, que ruge pela proa,
E o vento, que nas cordas assobia...
..........................................................
Por que foges assim, barco ligeiro?
Por que foges do pávido poeta?
Oh! quem me dera acompanhar-te a esteira
Que semelha no mar — doudo cometa!
Por que foges do pávido poeta?
Oh! quem me dera acompanhar-te a esteira
Que semelha no mar — doudo cometa!
Albatroz! Albatroz! águia do oceano,
Tu que dormes das nuvens entre as gazas,
Sacode as penas, Leviathan do espaço,
Albatroz! Albatroz! dá-me estas asas.
Tu que dormes das nuvens entre as gazas,
Sacode as penas, Leviathan do espaço,
Albatroz! Albatroz! dá-me estas asas.
II
Que importa do nauta o berço,
Donde é filho, qual seu lar?
Ama a cadência do verso
Que lhe ensina o velho mar!
Cantai! que a morte é divina!
Resvala o brigue à bolina
Como golfinho veloz.
Presa ao mastro da mezena
Saudosa bandeira acena
As vagas que deixa após.
Do Espanhol as cantilenas
Requebradas de langor,
Lembram as moças morenas,
As andaluzas em flor!
Da Itália o filho indolente
Canta Veneza dormente,
— Terra de amor e traição,
Ou do golfo no regaço
Relembra os versos de Tasso,
Junto às lavas do vulcão!
Requebradas de langor,
Lembram as moças morenas,
As andaluzas em flor!
Da Itália o filho indolente
Canta Veneza dormente,
— Terra de amor e traição,
Ou do golfo no regaço
Relembra os versos de Tasso,
Junto às lavas do vulcão!
O Inglês — marinheiro frio,
Que ao nascer no mar se achou,
(Porque a Inglaterra é um navio,
Que Deus na Mancha ancorou),
Rijo entoa pátrias glórias,
Lembrando, orgulhoso, histórias
De Nelson e de Aboukir.. .
O Francês — predestinado —
Canta os louros do passado
E os loureiros do porvir!
Que ao nascer no mar se achou,
(Porque a Inglaterra é um navio,
Que Deus na Mancha ancorou),
Rijo entoa pátrias glórias,
Lembrando, orgulhoso, histórias
De Nelson e de Aboukir.. .
O Francês — predestinado —
Canta os louros do passado
E os loureiros do porvir!
Os marinheiros Helenos,
Que a vaga jônia criou,
Belos piratas morenos
Do mar que Ulisses cortou,
Homens que Fídias talhara,
Vão cantando em noite clara
Versos que Homero gemeu ...
Nautas de todas as plagas,
Vós sabeis achar nas vagas
As melodias do céu! ...
Que a vaga jônia criou,
Belos piratas morenos
Do mar que Ulisses cortou,
Homens que Fídias talhara,
Vão cantando em noite clara
Versos que Homero gemeu ...
Nautas de todas as plagas,
Vós sabeis achar nas vagas
As melodias do céu! ...
III
Desce do espaço imenso, ó águia do oceano!
Desce mais ... inda mais... não pode olhar humano
Como o teu mergulhar no brigue voador!
Mas que vejo eu aí... Que quadro d'amarguras!
É canto funeral! ... Que tétricas figuras! ...
Que cena infame e vil... Meu Deus! Meu Deus! Que horror!
IV
Era um sonho dantesco... o tombadilho
Que das luzernas avermelha o brilho.
Em sangue a se banhar.
Tinir de ferros... estalar de açoite...
Legiões de homens negros como a noite,
Horrendos a dançar...
Negras mulheres, suspendendo às tetas
Magras crianças, cujas bocas pretas
Rega o sangue das mães:
Outras moças, mas nuas e espantadas,
No turbilhão de espectros arrastadas,
Em ânsia e mágoa vãs!
Magras crianças, cujas bocas pretas
Rega o sangue das mães:
Outras moças, mas nuas e espantadas,
No turbilhão de espectros arrastadas,
Em ânsia e mágoa vãs!
E ri-se a orquestra irônica, estridente...
E da ronda fantástica a serpente
Faz doudas espirais ...
Se o velho arqueja, se no chão resvala,
Ouvem-se gritos... o chicote estala.
E voam mais e mais...
E da ronda fantástica a serpente
Faz doudas espirais ...
Se o velho arqueja, se no chão resvala,
Ouvem-se gritos... o chicote estala.
E voam mais e mais...
Presa nos elos de uma só cadeia,
A multidão faminta cambaleia,
E chora e dança ali!
Um de raiva delira, outro enlouquece,
Outro, que martírios embrutece,
Cantando, geme e ri!
A multidão faminta cambaleia,
E chora e dança ali!
Um de raiva delira, outro enlouquece,
Outro, que martírios embrutece,
Cantando, geme e ri!
No entanto o capitão manda a manobra,
E após fitando o céu que se desdobra,
Tão puro sobre o mar,
Diz do fumo entre os densos nevoeiros:
"Vibrai rijo o chicote, marinheiros!
Fazei-os mais dançar!..."
E após fitando o céu que se desdobra,
Tão puro sobre o mar,
Diz do fumo entre os densos nevoeiros:
"Vibrai rijo o chicote, marinheiros!
Fazei-os mais dançar!..."
E ri-se a orquestra irônica, estridente. . .
E da ronda fantástica a serpente
Faz doudas espirais...
Qual um sonho dantesco as sombras voam!...
Gritos, ais, maldições, preces ressoam!
E ri-se Satanás!...
E da ronda fantástica a serpente
Faz doudas espirais...
Qual um sonho dantesco as sombras voam!...
Gritos, ais, maldições, preces ressoam!
E ri-se Satanás!...
V
Senhor Deus dos desgraçados!
Dizei-me vós, Senhor Deus!
Se é loucura... se é verdade
Tanto horror perante os céus?!
Ó mar, por que não apagas
Co'a esponja de tuas vagas
De teu manto este borrão?...
Astros! noites! tempestades!
Rolai das imensidades!
Varrei os mares, tufão!
Quem são estes desgraçados
Que não encontram em vós
Mais que o rir calmo da turba
Que excita a fúria do algoz?
Quem são? Se a estrela se cala,
Se a vaga à pressa resvala
Como um cúmplice fugaz,
Perante a noite confusa...
Dize-o tu, severa Musa,
Musa libérrima, audaz!...
Que não encontram em vós
Mais que o rir calmo da turba
Que excita a fúria do algoz?
Quem são? Se a estrela se cala,
Se a vaga à pressa resvala
Como um cúmplice fugaz,
Perante a noite confusa...
Dize-o tu, severa Musa,
Musa libérrima, audaz!...
São os filhos do deserto,
Onde a terra esposa a luz.
Onde vive em campo aberto
A tribo dos homens nus...
São os guerreiros ousados
Que com os tigres mosqueados
Combatem na solidão.
Ontem simples, fortes, bravos.
Hoje míseros escravos,
Sem luz, sem ar, sem razão. . .
Onde a terra esposa a luz.
Onde vive em campo aberto
A tribo dos homens nus...
São os guerreiros ousados
Que com os tigres mosqueados
Combatem na solidão.
Ontem simples, fortes, bravos.
Hoje míseros escravos,
Sem luz, sem ar, sem razão. . .
São mulheres desgraçadas,
Como Agar o foi também.
Que sedentas, alquebradas,
De longe... bem longe vêm...
Trazendo com tíbios passos,
Filhos e algemas nos braços,
N'alma — lágrimas e fel...
Como Agar sofrendo tanto,
Que nem o leite de pranto
Têm que dar para Ismael.
Como Agar o foi também.
Que sedentas, alquebradas,
De longe... bem longe vêm...
Trazendo com tíbios passos,
Filhos e algemas nos braços,
N'alma — lágrimas e fel...
Como Agar sofrendo tanto,
Que nem o leite de pranto
Têm que dar para Ismael.
Lá nas areias infindas,
Das palmeiras no país,
Nasceram crianças lindas,
Viveram moças gentis...
Passa um dia a caravana,
Quando a virgem na cabana
Cisma da noite nos véus ...
... Adeus, ó choça do monte,
... Adeus, palmeiras da fonte!...
... Adeus, amores... adeus!...
Das palmeiras no país,
Nasceram crianças lindas,
Viveram moças gentis...
Passa um dia a caravana,
Quando a virgem na cabana
Cisma da noite nos véus ...
... Adeus, ó choça do monte,
... Adeus, palmeiras da fonte!...
... Adeus, amores... adeus!...
Depois, o areal extenso...
Depois, o oceano de pó.
Depois no horizonte imenso
Desertos... desertos só...
E a fome, o cansaço, a sede...
Ai! quanto infeliz que cede,
E cai p'ra não mais s'erguer!...
Vaga um lugar na cadeia,
Mas o chacal sobre a areia
Acha um corpo que roer.
Depois, o oceano de pó.
Depois no horizonte imenso
Desertos... desertos só...
E a fome, o cansaço, a sede...
Ai! quanto infeliz que cede,
E cai p'ra não mais s'erguer!...
Vaga um lugar na cadeia,
Mas o chacal sobre a areia
Acha um corpo que roer.
Ontem a Serra Leoa,
A guerra, a caça ao leão,
O sono dormido à toa
Sob as tendas d'amplidão!
Hoje... o porão negro, fundo,
Infecto, apertado, imundo,
Tendo a peste por jaguar...
E o sono sempre cortado
Pelo arranco de um finado,
E o baque de um corpo ao mar...
A guerra, a caça ao leão,
O sono dormido à toa
Sob as tendas d'amplidão!
Hoje... o porão negro, fundo,
Infecto, apertado, imundo,
Tendo a peste por jaguar...
E o sono sempre cortado
Pelo arranco de um finado,
E o baque de um corpo ao mar...
Ontem plena liberdade,
A vontade por poder...
Hoje... cúm'lo de maldade,
Nem são livres p'ra morrer. .
Prende-os a mesma corrente
— Férrea, lúgubre serpente —
Nas roscas da escravidão.
E assim zombando da morte,
Dança a lúgubre coorte
Ao som do açoute... Irrisão!...
A vontade por poder...
Hoje... cúm'lo de maldade,
Nem são livres p'ra morrer. .
Prende-os a mesma corrente
— Férrea, lúgubre serpente —
Nas roscas da escravidão.
E assim zombando da morte,
Dança a lúgubre coorte
Ao som do açoute... Irrisão!...
Senhor Deus dos desgraçados!
Dizei-me vós, Senhor Deus,
Se eu deliro... ou se é verdade
Tanto horror perante os céus?!...
Ó mar, por que não apagas
Co'a esponja de tuas vagas
Do teu manto este borrão?
Astros! noites! tempestades!
Rolai das imensidades!
Varrei os mares, tufão! ...
Dizei-me vós, Senhor Deus,
Se eu deliro... ou se é verdade
Tanto horror perante os céus?!...
Ó mar, por que não apagas
Co'a esponja de tuas vagas
Do teu manto este borrão?
Astros! noites! tempestades!
Rolai das imensidades!
Varrei os mares, tufão! ...
VI
Existe um povo que a bandeira empresta
P'ra cobrir tanta infâmia e cobardia!...
E deixa-a transformar-se nessa festa
Em manto impuro de bacante fria!...
Meu Deus! meu Deus! mas que bandeira é esta,
Que impudente na gávea tripudia?
Silêncio. Musa... chora, e chora tanto
Que o pavilhão se lave no teu pranto! ...
Auriverde pendão de minha terra,
Que a brisa do Brasil beija e balança,
Estandarte que a luz do sol encerra
E as promessas divinas da esperança...
Tu que, da liberdade após a guerra,
Foste hasteado dos heróis na lança
Antes te houvessem roto na batalha,
Que servires a um povo de mortalha!...
Que a brisa do Brasil beija e balança,
Estandarte que a luz do sol encerra
E as promessas divinas da esperança...
Tu que, da liberdade após a guerra,
Foste hasteado dos heróis na lança
Antes te houvessem roto na batalha,
Que servires a um povo de mortalha!...
Fatalidade atroz que a mente esmaga!
Extingue nesta hora o brigue imundo
O trilho que Colombo abriu nas vagas,
Como um íris no pélago profundo!
Mas é infâmia demais! ... Da etérea plaga
Levantai-vos, heróis do Novo Mundo!
Andrada! arranca esse pendão dos ares!
Colombo! fecha a porta dos teus mares!
Extingue nesta hora o brigue imundo
O trilho que Colombo abriu nas vagas,
Como um íris no pélago profundo!
Mas é infâmia demais! ... Da etérea plaga
Levantai-vos, heróis do Novo Mundo!
Andrada! arranca esse pendão dos ares!
Colombo! fecha a porta dos teus mares!
FIM
segunda-feira, 6 de julho de 2015
A língua é viva segundo Mikhail Bakhtin
A língua é viva
Para o teórico russo Mikhail Bakhtin e seu círculo de estudiosos, a língua
tem vida porque é um diálogo contínuo entre os sujeitos sociais. Isso quer
dizer que ela é tão viva como eu ou você e está sujeita aos processos normais
pelos quais passam todos os seres vivos: há palavras que nascem, palavras que
se modificam (tanto no que querem dizer como na forma da escrita), palavras que
morrem.
Nada mais natural. O estranho é que durante séculos isso não tenha sido considerado
no ensino de língua. Até pouco tempo, o que se ensinava na escola eram os
aspectos normativos da língua, principalmente. E ensinava-se como se eles nunca
tivessem sido mudados e como se nunca fossem mudar novamente. Então, os alunos eram
execrados se esquecessem normas para uso do trema, do hífen. Com essa atitude,
a escola ensinava apenas a norma culta, ou seja, aquela falada pelas elites (em
momentos formais, claro) e abençoada pelos gramáticos. Mas, se a ortografia e a
gramática sofrem mudanças, por que não tratar o erro de forma reflexiva e não punitiva?
Este é um primeiro ponto para reflexão neste momento de mudança da
ortografia. Pode parecer que a luta imensa para ensinar aos meninos a complexa
utilização da acentuação, por exemplo, foi em vão. Os professores mais antigos
passaram décadas exigindo que os alunos acentuassem o que não tem mais acento.
Carregaram água em cestos?
Outro ponto é o da apropriação, por nós adultos, das mudanças que chegam. Certamente,
em nosso processo de aprendizagem, nos esforçamos para aprender coisas que
teremos que esquecer! Aprendemos inutilidades?
Um terceiro ponto é oposto aos anteriores. Trata-se daqueles que se
recusaram a obedecer às normas. Se eles não aprenderam coisas para desaprender,
têm vantagens sobre os que aprenderam?
O assunto dá o que pensar, não só sobre a língua e seu ensino, mas sobre o ensino
em geral em época de mudanças velozes. O que é mesmo que temos que ensinar para
que os alunos tenham aquela tão falada base que possibilite que consigam
prosseguir aprendendo, talvez para sempre, como a vida exige agora?
Muitos já vêm tentando há décadas flexibilizar conteúdos e ensino. O modo
como boa parte dos professores encaram o ensino de gramática e ortografia,
atualmente, por exemplo, mudou de forma radical. Passou-se, muitas vezes, a
considerar a variante da língua falada na região como referência para a
reflexão sobre os “erros”. Correto, desse modo a língua é estudada de acordo
com sua natureza, ou seja, como nascida dos processos de comunicação social e
viva pelo uso contínuo, histórico, do uso desses processos. Adotar esse
procedimento de ensino valoriza a pessoa, o cidadão, qualquer que seja seu modo
de falar.
O problema, às vezes, é ir do oito para o oitenta. Ao deixar de usar a
gramática como camisa de força, pensou-se que a saída era não intervir no que
os alunos escrevem. E essa postura ficou consolidada, principalmente, nas
séries iniciais. Em vez de acolher as hipóteses dos alunos sobre a grafia das
palavras para abrir um diálogo sobre ela, por exemplo, passou-se a aceitá-las
como forma definitiva de grafar as palavras. “Escreva do seu jeito”, dizia-se.
“Use sua criatividade”.
As mudanças na forma de grafar as palavras não podem ser decididas por professores
e alunos na intimidade da sala de aula. Se cada um escrever do seu jeito, a
comunicação pela escrita fica difícil. A cada escrita que nos chega sem um
referencial padrão, temos que fazer um esforço para entendê-la, o que toma
tempo e desgasta. É por essa razão que temos que combinar, num nível amplo, de
nação para nação, como vão ser escritas as palavras. Para facilitar a
comunicação. Para falarmos a mesma língua, mas não uma língua morta e rígida,
uma língua viva que acompanha as mudanças sociais e as reflete.
É dessas mudanças que decorrem as alterações que a língua e seu ensino
sofrem. Como quase sempre são mais profundas do que aparentam ser, é sempre bom
parar para refletir sobre elas. A presente mudança ortográfica é um bom momento
para essa reflexão.
Heloisa Amaral
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