"Olhai para os lírios do campo, como eles crescem; não trabalham, nem fiam. E eu vos digo que nem mesmo Salomão, em toda a sua glória, se vestiu como qualquer deles".

sábado, 18 de julho de 2015

Memorial do Convento

José Saramago

Apesar de ter sido trazida da Áustria já há dois anos, especialmente para gerar o sucessor ao trono de D. João V, rei de Portugal, a rainha D. Maria Ana Josefa parece não conseguir engravidar. Sendo o rei um símbolo de virilidade, ela é quem é considerada infértil e, consequentemente, a única culpada pelo fato de o rei ainda não ter tido herdeiros. Quando, ao cair da noite, o rei se prepara para ir ao quarto da rainha para mais uma tentativa, chega ao palácio D. Nuno da Cunha, bispo inquisidor, acompanhado de um velho frade franciscano, Antônio de S. José, que propõe uma solução para o problema do rei. Diz o frade que a rainha engravidaria assim que o rei prometesse construir um convento para os frades da ordem dos franciscanos na vila de Mafra. Feita a promessa, o casal real vai finalmente para o quarto.
Depois de consumado o ato sexual, rei e rainha dormem e sonham cada um com seus próprios desejos, suas diferentes fantasias: ela sonha que tem um encontro amoroso com seu cunhado, o Infante D. Francisco, enquanto o rei sonha que seu pênis está se transformando em árvore e, logo em seguida, em colunas do convento que ele prometera construir para os franciscanos.
Em tom irônico, o narrador revela suspeitas de que, antes mesmo da promessa, talvez a rainha já estivesse grávida e que talvez o padre o já sabia disso. Em todo caso, se a concepção da rainha ocorresse, o fato seria visto como mais um entre os vários milagres tradicionalmente relacionados à ordem de São Francisco. Diz-se, por exemplo, que um tal frei Miguel da Anunciação, mesmo depois de morto, conservara seu corpo intacto durante dias, atraindo, desde então, uma grande quantidade de devotos para sua igreja. Em outra ocasião, a imagem de Santo Antônio, que vigiava uma igreja franciscana, locomovera-se até à janela, onde ladrões tentavam entrar, passando-lhes assim um grande susto. E do convento de S. Francisco de Xabregas conta-se que, certa vez, suas lâmpadas tinham sido roubadas, e logo depois foram encontradas, como se por acaso, num mosteiro de jesuítas. A gravidez da rainha foi atribuída ao poder milagroso de Santo Antônio ou, segundo outros, à ameaça que um frade velho fizera contra a imagem do santo, acusando o protetor de descuido.
Passado o "entrudo", como de costume, durante a quaresma as ruas se encheram de gente que fazia cada um suas penitências. Segundo a tradição, a quaresma era a única época em que as mulheres podiam percorrer as igrejas sozinhas e assim gozar de uma rara liberdade que lhes permitia até mesmo de se encontrarem com seus amantes secretos. Porém, D. Maria Ana não podia gozar dessas liberdades pois, além de ser rainha, agora se encontrava grávida. Assim, tendo ido para a cama cedo, consolou-se em sonhar outra vez com D. Francisco, seu cunhado. Passada a quaresma, todas as mulheres retornaram para a reclusão de suas casas.
Em contraste com os conflitos da família real está a história de Baltasar Mateus, um homem de 26 anos, conhecido como "o Sete-Sóis". Baltasar dirige-se a Lisboa, caminhando pela estrada real, depois de ter sido soldado e perdido a mão esquerda em uma batalha contra a Espanha, para decidir a quem pertenceria o trono espanhol. Com um que lhe servia de mão e um espigão de ferro que funcionava como uma arma, Baltasar pede esmola em Évora e, a caminho de Lisboa, mata um ladrão que havia tentado assaltá-lo. Não sabendo ainda se ficaria em Lisboa ou se continuaria viagem em direção a Mafra, onde ainda viviam seus pais, Baltasar anda pelas ruas da capital e conhece João Elvas, com quem, junto a outros mendigos, vai passar a noite num "telheiro abandonado". Antes de dormir, cada um conta histórias de crimes que ocorreram na cidade, os quais são comparados às mortes que alguns deles presenciaram na guerra.
Não somente por causa da gravidez de cinco meses, mas também por estar de luto pela morte de seu irmão, a rainha Maria Ana deixa de frequentar o grande auto-de-fé na praça do Rossio em Lisboa, evento muito popular, que já há dois anos não ocorria. Ali seriam castigados pela Inquisição diversos casos de heresia.
Entre os condenados pelo Santo Ofício, um é focalizado com maior destaque. É Sebastiana Maria de Jesus, acusada de ser feiticeira e cristã-nova. Sebastiana, durante alguns parágrafos, torna-se a narradora da história.
Sebastiana Maria de Jesus tem uma filha de 19 anos: Blimunda, jovem de poderes sobrenaturais, que assiste à procissão ao lado do padre Bartolomeu Lourenço. Perto dela está um homem, Baltasar Mateus, o Sete-Sóis, a quem ela se dirige e cujo nome procura saber. Voltando a sua casa, Blimunda leva consigo o padre e deixa a porta aberta para que o recém-conhecido também possa entrar. Depois de o padre sair, Blimunda convida Baltasar para que fique morando em sua casa, pelo menos até que ele tivesse que voltar a Mafra. No dia seguinte, ao acordar, Blimunda, sem abrir os olhos, come um pedaço de pão e promete a Baltasar que nunca o olharia "por dentro". Começa aqui a fiel e duradoura amizade entre os três personagens que se contrapõem aos personagens da família real, heróis da historiografia oficial. Inicia-se também a relação amorosa entre Baltasar e Blimunda, que ocupará o centro da narrativa.
Ao encontrar-se com o padre Bartolomeu Lourenço, que estava procurando usar sua influência no palácio para conseguir dinheiro. Baltasar fica sabendo que o padre era conhecido como "o Voador", por ter criado uma máquina a qual todos ridicularizam, chamando de "a passarola". Baltasar aceita o convite do padre para ser seu ajudante no projeto de construir a tal "máquina de voar", mas enquanto não chega o dinheiro para o material necessário, fica trabalhando em um açougue.
Enquanto isso, no palácio, para decepção do rei, a rainha dá à luz uma menina, Maria Xavier Francisca Leonor Bárbara, que é batizada por sete bispos. Apesar de o frade Antônio de S. José já ter morrido quando do nascimento da criança, a promessa do rei de construir o convento seria mantida.
Baltasar, que sempre dormia no lado direito da enxerga, procura saber por que Blimunda sempre comia pão ao acordar, antes mesmo de abrir os olhos. Ele já tinha tentado descobrir o mistério através do padre Bartolomeu Lourenço que, apesar de conhecer a verdadeira razão, não a quis revelar, dizendo apenas que voar é um mistério pequeno se comparado de Blimunda. Certa manhã, tentando desvendar esse mistério de uma vez por todas, Baltasar esconde o pão de Blimunda que, ao acordar, começa a procurá-lo desesperadamente. Finalmente, depois de receber o pão das mãos de Baltasar, Blimunda revela que tem o poder de "olhar por dentro das pessoas", o que podia fazer somente quando estava em jejum. No dia seguinte, para provar-lhe seu poder (ou infortúnio), Blimunda, ainda em jejum, sai à rua com Baltasar, evitando olhá-lo, já que antes tinha prometido não "olhá-lo por dentro". Dentre as coisas que vê, Blimunda descreve a gravidez de uma mulher, o que existe no subsolo, o órgão sexual de um jovem, apodrecido por doença venérea, e até mesmo uma moeda enterrada no chão.
Enquanto no palácio nascia D. Pedro, segundo filho da família real, e o rei viajava a Mafra para escolher o lugar onde seria erguido o convento monumental, Baltasar e Blimunda mudam-se para a abegoaria na quinta do duque de Aveiro, amigo do rei, em S. Sebastião da Pedreira. Além de proporcionar-lhe o lugar de trabalho, o rei, que se interessara pelo projeto do padre como uma criança se interessa por um brinquedo novo, com sua amizade e influência protegia o padre das garras da Inquisição que, caso viesse a saber dos projetos do padre, teria motivos suficientes para acusá-lo de heresia.
Na quinta do duque de Aveiro, Padre Bartolomeu, com a ajuda de Baltasar e Blimunda, prossegue na construção da passarola. Decide, então, partir à Holanda, onde dizem que os sábios conhecem os mistérios da alquimia e a natureza do éter, o único elemento que, segundo ele, estava faltando para que sua invenção fosse concluída.
Baltasar e Blimunda, depois que o padre parte, decidem mudar-se para Mafra, terra natal de Baltasar. Antes de partir, o casal decide assistir, ao invés de mais um auto-de-fé que seria realizado na praça do Rossio, a uma outra festa popular, a tourada. Assim como os autos-de-fé, as touradas sempre terminavam com um forte cheiro de carne queimada, proveniente do churrasco realizado no final da. Ao chegar à casa da família em Mafra, acompanhado de Blimunda, Baltasar é recebido por sua mãe, Marta Maria, já que João Francisco, seu pai, estava trabalhando no campo. Baltasar fica sabendo que sua única irmã, Inês Antônia, estava casada com Álvaro "Pedreiro" Diogo. Dos dois filhos desse casal, apenas um sobreviveria, sendo que o outro morreria ao atingir a mesma idade em que o infante D. Pedro, filho de D. João V, também morreria, anos mais tarde.
Baltasar fala à família de suas intenções de ficar morando com a mulher em Mafra. A família acolhe bem Blimunda, depois de se certificar de que ela não era judia ou cristã-nova, o que não era completamente verdade. O pai informa ao filho recém-chegado de que abrira mão de suas terras na Vela, pois elas haviam sido desapropriadas para a construção do convento, uma obra monumental que, segundo acreditavam, traria muitos empregos para os moradores da região, especialmente para o cunhado de Baltasar, que era pedreiro. Baltasar vai visitar as obras do convento e, ao retornar, encontra Blimunda conversando com Maria Marta, de quem a jovem se tornaria companheira e ajudante, enquanto Baltasar iria trabalhar com o pai no cultivo de terras que não lhes pertenciam.
Encontrando-se o rei bastante enfermo, seu irmão aproveita as perspectivas que lhe são favoráveis e revela à rainha seu interesse em tornar-se seu marido e o novo rei. O infante D. Francisco declara saber que é objeto dos sonhos da rainha, numa conversa que seria a primeira entre tantas que finalmente acabariam por destruir o desejo original que ela experimentara. Mesmo depois de recuperada a saúde do rei, seus antigos sonhos nunca teriam aquele mesmo encanto de antigamente, já que ela tem plena consciência de que sua condição de mulher e rainha mudaria pouco, fosse ela casada com um ou outro irmão.
Voltando da Holanda, onde estivera por três anos, o padre Bartolomeu Lourenço dirige-se à quinta de S. Sebastião da Pedreira, encontrando a albegoaria abandonada. Algumas semanas depois, parte em direção a Coimbra, de onde conta retornar já "doutor em cânones". Antes, porém, decide visitar o casal amigo em Mafra, onde, ao chegar, encontra um pároco, Francisco Gonçalves, que lhe oferece um quarto para ficar hospedado. Em conversa com Blimunda e Baltasar, o padre Bartolomeu conta-lhes o que descobrira na Holanda, ou seja, que ao contrário do que se pensa, o éter não é uma substância que possa ser encontrada pelas artes da alquimia, mas que, antes de subir ao céu, o éter existe dentro das pessoas, pois nada mais é do que a "vontade" de cada um. Assim, o padre pede a Blimunda que olhe dentro das pessoas e encontre essa "vontade", que é como uma nuvem fechada. E que, cada vez que percebesse a vontade de alguém escapando, que ela a capturasse usando um frasco contendo âmbar, que é a substância que atrai o éter.
Em Mafra, pela primeira vez Blimunda comunga conforme manda os ensinamentos da igreja católica, ou seja, em jejum. Ao fazê-lo, vê na hóstia uma nuvem fechada, o que muito a impressiona. Já tendo o padre ido para Coimbra há algum tempo, o casal decide partir de volta à quinta, assim que passassem as festividades de inauguração dos alicerces do convento, cujas primeiras pedras seriam colocadas pelas mãos do próprio rei.
Dias antes da inauguração dos alicerces, uma grande tempestade de vento, comparável ao "sopro de Adamastor" _ derruba a igreja de madeira construída especialmente para a cerimônia. Sabendo do acidente, o rei começa a distribuir moedas de ouro, e distribui ainda mais quando os pedreiros voltam ao trabalho e reconstroem a igreja em dois dias, de modo que o que era catástrofe passou a ser visto como milagre. No primeiro dia de festividades, a inauguração foi feita em cerimônias restritas a poucos convidados e, no dia seguinte, (ou seja, a 17 de novembro de 1717, seis anos depois de o rei ter feito sua promessa), realizou-se uma grande festa pública.
De volta à quinta do Duque de Aveiro, Baltasar desmonta a passarola que, abandonada, encontrava-se com a estrutura enferrujada e os panos cheios de mofo. Pouco tempo depois chega o padre, que logo quer saber quantas vontades Blimunda já recolhera. Ao ouvir que aentão havia apenas trinta "vontades" na garrafa, o padre lhe diz que eram necessárias pelo menos duas mil. Baltasar continua trabalhando na "máquina de voar" enquanto padre Bartolomeu vai constantemente a Coimbra, a fim de concluir seus estudos. Quando volta definitivamente para Lisboa, o padre fica conhecendo o músico Domenico Scarlatti, napolitano de 35 anos, professor particular de música da infanta D. Maria Bárbara que, a essas alturas, já tem nove anos de idade. O encontro dos dois homens estimula uma discussão sobre o poder extraordinário da música e a essência da verdade, comparando-se finalmente a música do italiano com a oratória do padre. Em outra ocasião, o padre e o compositor se encontram e juntos vão à S. Sebastião da Pedreira, onde o padre revela seu segredo ao músico e apresenta-lhe a "trindade terrestre", composta por ele, o amigo e ajudante Baltasar e sua companheira Blimunda.
Depois da partida do italiano que, tendo prometido que voltaria trazendo seu cravo e o tocaria para o casal e para a passarola, o padre Bartolomeu Lourenço começa a trabalhar em um sermão que estava preparando para a festa do Corpo de Deus. Nesse sermão, que a princípio receberia a aprovação e até mesmo a admiração dos padres e censores do Santo Ofício, o padre questiona os fundamentos da doutrina cristã da trindade divina.
Sabendo de uma epidemia de febre amarela que, trazida do Brasil, se alastrava por Lisboa e já matara quatro mil pessoas em três meses, o padre Bartolomeu pede a Blimunda que aproveite a ocasião para recolher as vontades que se desprendem do peito dos moribundos. Blimunda faz o que o padre lhe pedira e, no final da epidemia, consegue recolher as duas mil vontades necessárias para fazer voar a "passarola". O casal acaba se tornando conhecido em Lisboa, por sempre andar pela cidade sem medo da epidemia.
Depois de cumprida a tarefa, Blimunda fica doente e, durante toda sua convalescença, o músico Scarlatti vai tocar-lhe cravo, o que contribui para a restauração de sua saúde.
Estando as vontades recolhidas e a máquina de voar já pronta, nada falta para que o invento do padre seja testado. Além disso, o rei já não pode fazer nada para que o Duque de Aveiro lhes empreste a quinta onde trabalham. O padre, que andava receoso do Santo Ofício, vai ao palácio se certificar da proteção e amizade do rei, mas volta aflito, pois descobrira que o Santo Ofício já estava a sua procura. Assim, só lhe resta propor ao casal que os três terminem rapidamente o projeto e juntos fujam na "máquina de voar". Assim, depois de retirarem o telhado da abegoaria e colocarem tudo o que possuem dentro da máquina, deixando para trás apenas o cravo de Domenico Scarlatti, a "passarola" enfim levanta voo. Scarlatti, que chegara à quinta a tempo de ver a máquina subir aos ares, senta-se ao cravo e toca uma música, antes de lançar o instrumento ao fundo de um poço.
Depois de passarem despercebidos sobre a cidade de Lisboa, os três sobrevoam a vila de Mafra, onde várias pessoas veem a máquina voadora, julgando ser uma aparição do Espírito Santo. Encontrando dificuldades para controlar a máquina, finalmente a fazem aterrissar, graças à iniciativa de Blimunda de segurar junto a seu peito as duas esferas contendo as "vontades".
No dia seguinte, o casal impede o padre, que se encontrava aflito de emoção ou de medo, de atar fogo à máquina. Mas não podem impedir que ele parta sozinho mata adentro, para nunca mais voltar. Blimunda e Baltasar escondem a máquina sob a ramagem e partem na mesma direção tomada pelo padre, até chegarem, depois de alguns dias, a Mafra, onde uma procissão celebrava o milagre que o povo acreditava ter presenciado. Ali, Baltasar, a exemplo de tantos outros moradores locais, começa a trabalhar nas obras do convento, cuja dimensão e quantidade de homens que emprega muito o impressionam, apesar de achar o ritmo com que se desenvolve demasiado lento. Chegam notícias do terremoto de Lisboa, que foi seguido de inaudita tempestade. Apesar dos estragos causados por ambos os desastres, implementaram-se os negócios de vários setores da sociedade e, em particular, da igreja, que frequentemente se aproveitava das catástrofes para alimentar a religiosidade popular.
Dois meses depois de terem chegado a Mafra, Baltasar decide voltar ao Monte Junto, onde haviam deixado a máquina de voar. Ele a encontra no mesmo lugar, mas necessitando de alguns reparos. A partir de então, ele faria visitas frequentes ao local, cuidando da manutenção da máquina, sempre com uma certa esperança de reencontrar o padre. Algum tempo depois, Domenico Scarlatti chega a Mafra, onde fora visitar as obras do convento, ficando hospedado na casa de um visconde. Ao se cruzarem na rua, Blimunda e Scarlatti, tentando evitar as suspeitas dos moradores, que poderiam achar estranho duas pessoas de níveis sociais tão diferentes se conhecerem, conversam às escondidas. O músico trazia a notícia da morte do padre Bartolomeu de Gusmão em Toledo, Espanha, para onde ele havia fugido no dia 19 de novembro, o dia da tempestade em Lisboa. Em seguida, enquanto no palácio o rei medita sobre suas riquezas, celebra-se em Mafra uma missa para um grande número de trabalhadores.
A construção do convento exige esforços colossais e causa muitas vítimas. Um dos eventos mais penosos foi o transporte, da vila de Pêro Pinheiro até a vila de Mafra, de uma imensa pedra, destinada a ser a laje de uma varanda sobre o pórtico da igreja. Seiscentos homens e um grande número de bois foram utilizados na empreitada, que durou oito dias, durante os quais não faltaram acidentes fatais. Um dos casos mais dramáticos foi o do trabalhador Francisco Marques, que acabou esmagado sob uma roda de um carro de bois.
Depois de quase quatro anos em Mafra, Blimunda pela primeira vez pede a Baltasar para acompanhá-lo em uma de suas visitas periódicas ao Monte Junto. Depois de lá chegarem, resolvem passar a noite para que, ao amanhecer, Blimunda, ainda em jejum, se certificasse de que as vontades ainda estavam guardadas dentro de cada uma das duas esferas. Enquanto isso, na residência real, D. João V manifesta seu desejo de construir uma Basílica em Portugal como a de S. Pedro em Roma. Para dar conta do projeto gigantesco, o rei chama o arquiteto alemão João Frederico Ludovice (ou Ludwig), que o dissuade da ideia, com o argumento de que o rei não viveria o suficiente para ver a obra concluída. Convencido, o rei decide então ampliar a dimensão do projeto do convento de Mafra, de modo que, ao invés de 80, coubessem nele 300 frades, o que muito agrada ao provincial dos franciscanos da Arrábida. O projeto é, sem dúvida, ambicioso demais para os recursos do reino, o que se reflete em conversa, imaginada pelo narrador, entre o rei e o almoxarife ou guarda-livros.
Finalmente, o rei decide que a sagração da basílica deveria ser realizada dois anos mais tarde, no dia vinte e dois de outubro de 1730, quando ele completasse 41 anos, estivesse ou não a obra concluída. Com a ampliação do projeto, tornara-se necessário que se recrutasse um grande número de trabalhadores, dentre os quais muitos seriam levados a fazer o trabalho contra a própria vontade, o que causaria grande tristeza a muitas famílias de toda a região. Simultaneamente, as famílias reais de Portugal e de Espanha logo se preparariam, em 1729, para se unirem através de dois casamentos.
De fato, a "troca das princesas" uniria, em 1729, as famílias reais de Portugal e Espanha, segundo um acordo que já havia sido concluído havia quatro anos. Mariana Vitória, da Espanha, de 11 anos, seria trazida a Portugal para que se casasse com o infante D. Pedro, enquanto Maria Bárbara, de 17 anos, seria levada a Espanha para unir-se a Fernando, dois anos mais novo que a noiva. Assim, uma comitiva leva a família real até a fronteira dos dois países, sobre o rio Caia, em Elvas, passando por Mafra. Na região de Mafra, os trabalhadores, que à força são levados às obras do convento, chamam a atenção da princesa e por um momento lhe despertam compaixão. Além da coincidência entre o nascimento da princesa e a promessa do rei de construir o convento de Mafra, no nível popular, duas outras histórias convergem. João Elvas, que conhecera Baltasar em Lisboa logo depois da guerra, acompanha, junto a um grupo de pedintes, a comitiva à fronteira onde está situada sua cidade natal. Ao conversar com um certo Julião Mau-Tempo, que menciona a enorme pedra transportada até Mafra, João Elvas lembra-se do ex-soldado, seu amigo Baltasar, com quem o interlocutor havia trabalhado.
Em 1730, pouco mais de um ano depois da "troca das princesas", a basílica do convento seria enfim consagrada, mesmo estando as obras, tanto as da basílica como as do convento, ainda longe de serem concluídas. Várias estátuas de santos desfilam pelas ruas e são transportadas até o local onde seriam instaladas. Blimunda e Baltasar resolvem ver as imagens dos santos Segundo acreditam, os santos passariam a noite conversando pela última vez, antes de serem isolados em seus nichos, na basílica.
Ao amanhecer, Baltasar decide ir sozinho ao Monte Junto, verificar o estado da "passarola". Ao tentar fazer os já costumeiros reparos na máquina, Baltasar tropeça e rasga os panos que cobriam as esferas, de modo que quando os raios de sol as atingem, a máquina inesperadamente levanta voo. Blimunda vai procurá-lo no dia seguinte, ao mesmo tempo em que romarias se dirigem à sagração da basílica, mas não encontra seu amado, apenas o espigão de ferro, que ela não hesita em usar quando um frade a tenta violá-la.

Blimunda continua a procurar Baltasar durante nove anos, perambulando por todas as partes do país. Sua jornada termina em Lisboa, em situação semelhante àquela em que conhecera Baltasar. Em 1739, em um auto-de-fé na praça do Rossio, onze vítimas encontram-se a caminho da fogueira -- inclusive o dramaturgo Antônio José da Silva, "O Judeu". Estava lá também Baltasar, cujo vulto Blimunda vê. Quando Baltasar está para morrer, sua "vontade" se desprende e é finalmente recolhida dentro do peito de sua amada Blimunda. 

O sistema sonoro na língua portuguesa

Fonética e fonologia
O sistema sonoro do português

Fonética é a parte da gramática que estuda, analisa e classifica os sons de uma língua e suas articulações.
Fonologia é o estudo do sistema de sons de uma língua, suas alternâncias, transformações e modificações.

1. Fonema
O fonema é a unidade mínima distintiva de som de uma língua. Os fonemas são unidades sonoras indivisíveis e abstratas, consideradas componentes de uma sílaba. Não são significativos, porém são distintivos, isto é, diferenciadores de significado. Muitos vocábulos, ao terem um fonema substituído por outro, apresentam mudanças semânticas. Observe:
bola       gola
pato      tato
rapé      sapé

2 - O aparelho fonador
Sabemos que a fala só se efetiva através da produção de um determinado número de sons vocais articulados pela voz humana.
Os sons da fala são produzidos diante da ação de certos órgãos do aparelho fonador sobre a corrente de ar que vem dos pulmões.
Os sons distintivos da fala só são produzidos de modo adequado quando o aparelho fonador do indivíduo funciona normalmente.
Os órgãos que fazem parte do aparelho fonador são: os pulmões, os brônquios e a traqueia, que fornecem a corrente de ar necessária para a fonação; a laringe, na qual estão localizadas as cordas vocais, que produzem energia sonora; a faringe, a úvula (campainha), o palato (céu da boca), a língua, os dentes, os lábios e o nariz.

 













3. Fonemas sonoros e surdos
Na linguagem há fonemas surdos e sonoros. Quando o fluxo de ar chega às cordas vocais pode encontrá-las retesadas ou relaxadas. Quando retesadas, o ar força a passagem, fazendo-as vibrar e produzir sons sonoros. Quando relaxadas, o ar tem passagem livre, sem provocar sua vibração, e os sons produzidos são surdos.
Os fonemas /b/, /d/, /g/ são sonoros, visto que ocorre a vibração das cordas vocais durante a realização dos mesmos.
Os fonemas /p/, /t/, /k/ são surdos, pois as cordas vocais permanecem em repouso durante a produção dos mesmos.

4. O alfabeto fonético
Sempre que há necessidade de registro dos fonemas, utilizamos a transcrição fonética. Existe o Alfabeto Fonético Internacional, que pode ser utilizado para a transcrição de qualquer língua, com certas adaptações diante do sistema sonoro peculiar de cada idioma.
Os fonemas são representados pelas letras do alfabeto ou por certos sinais diacríticos, mas essa representação não reflete com exatidão o fonema ou sequência de fonemas que o falante produz durante o ao da fala.
Os fonemas são indicados entre barras oblíquas. Por exemplo, o fonema /p/ é uma consoante bilabial, pois para a sua realização há um contato completo dos lábios.
O registro dos sons da fala, isto é, a transcrição fonética, é sempre representado entre colchetes. Por exemplo: a palavra sal é transcrita ['saw] observando-se a pronúncia corrente da maioria dos brasileiros.

5. O sistema sonoro
O sistema sonoro do português consiste em oito vogais, duas semivogais e dezenove consoantes.

a) Vogais são fonemas sonoros produzidos mediante a livre passagem do ar pela boca. São vogais:
[ a ]         má, fato, pedra
[ ɑ ]        cana, lama, trama
[ ɛ ]         ela, sela, café
[ e ]         êxito, gelo, fazer
[ Ɔ ]        cólera, gola, nó
[ o ]        osso, coluna, tarô
[  i  ]        isso, figo, lebre
[ u ]        urubu, azul, livro

b) Semivogais são os fonemas sonoros /y/ e /w/ que, quando juntos de uma vogal, formam com ela uma única sílaba:
[ y ]         mãe ['máy], rei ['rey]
[ w ]        meu ['mew], quadro ['kwadru]

c) Consoantes são fonemas resultantes do fechamento ou estreitamento do canal vocal num determinado ponto. São consoantes:
[ b ]        bola, aba, sobra
[ d ]        dó, lado, saída
[ ɡ ]        gato, agora, tango
[ p ]        pato, sapato, mapa
[ t ]        tecido, lentidão, santo
[ k ]        caro, querida, porcaria
[ m ]        mãe, amar, camada
[ n ]        nada, canoa, ano
[ ŋ ]        nhá, vinho, caminho
[ l ]        lado, melado, mola
[ λ ]         lhe, filhote, malha
[ r ]        barato, caro, mar
[ R ]        rota, carro, amarrar
[ f ]        favor, afável, califa
[ v ]         vela, azevinho, úvula
[ s ]         sapo, sela, pêssego
[ z ]         zero, casa, exato
[ ∫ ]         chá, xale, marchar
[ ʒ ]         gênero, jarra, manjar

d) Alofones são as variantes de um fonema. O fonema /l/ tem uma variante [ w ] quando ocorre em posição intermediária não-intervocálica ou em posição final:
alto   ['awtu]
mal   ['maw]

O fonema /d/ possui a variante regional [ ʤ ]:
dia         [`d y a]
sede      [`s ɛ d ʒ i]

O fonema /t/ apresenta a variante regional [ t’ ]:
tipo       [`t´i p u ]
sete       [`s ɛ t´ i ]              



NOTA
O sinal diacrítico [ ' ] que aparece nos colchetes indica que a sílaba que se segue é tônica.



sexta-feira, 17 de julho de 2015

Estudo dos níveis de linguagem

1. Linguagem padrão
A linguagem padrão (ou culta), utilizada na comunicação formal, é controlada por um conjunto de hábitos linguísticos praticado por uma comunidade sociocultural privilegiada, com bom índice de escolarização e acesso aos bens culturais das elites. Trata-se de um registro marcado pela obediência às normas gramaticais rígidas, que evidenciam aspectos elaborados da língua. É a linguagem que tem prestígio junto ao grupo social, servindo de modelo linguístico para a comunidade em geral.

2. Linguagem coloquial
A linguagem coloquial, utilizada na comunicação do dia-a-dia, caracteriza-se por uma certa flexibilidade gramatical e evidencia um aspecto mais simples da língua.

A linguagem coloquial pode ser dividida em dois tipos: informal e popular. O primeiro, regido pelas normas linguísticas, revela a linguagem das classes privilegiadas com um índice maior de educação formal, enquanto o segundo, mais espontâneo, sem a preocupação de seguir uma gramática disciplinada, é praticado pelas classes populares da sociedade, com acesso restrito à escolarização e aos bens culturais da classe dominante.

3. Dialeto
O dialeto é uma variação regional ou social de uma língua. É uma forma própria de uma língua, praticada por falantes de uma certa região ou de uma classe social específica, com diferenças linguísticas na pronúncia, na construção gramatical e na sintaxe, em como no uso do vocabulário.

Normalmente, o falante de um dialeto entende um outro dialeto de sua língua. Há, no entanto, casos em que um dialeto se distancia tanto da linguagem padrão, que se torna difícil para o falante de outro dialeto entendê-lo, dificultando, assim, a comunicação entre falantes das duas variedades linguísticas em questão.

4. Gíria
A gíria é uma linguagem peculiar oriunda de um determinado grupo (social ou profissional) que, por ser expressiva, normalmente passa a ser utilizada pela comunidade em geral.

Há dois tipos de gíria: o de domínio técnico (jargão profissional) e o de domínio popular (social). O jargão é uma linguagem praticada por pessoas que exercem a mesma atividade, por exemplo, atores, jornalistas, bandidos, prostitutas, enquanto a gíria de domínio popular é praticada por um certo grupo social.

A gíria nasce pela mudança de significado de palavras já existentes na língua (fumo, legal, perua), pela criação de palavras novas (brega, fofoca, mocó) e, até mesmo, por empréstimos de palavras estrangeiras (boy, cafona, suingue).

5. Linguagem literária
A linguagem literária está para o escritor assim como as tintas e os pincéis estão para o pintor. É, pois, a linguagem do artista, variedade linguística que apresenta, normalmente, bastante rigor em relação às normas prescritas pela gramática.

Em geral, a linguagem literária revela-se apurada e elegante com características diversas: ordenação especial do pensamento, clareza de ideias, vocabulário rico, precisamente selecionado, e estilo requintado. Trata-se de uma linguagem elaborada em função de uma gama bastante diversificada da experiência humana.

Visto que a escrita não dispõe dos mesmos recursos da fala, os escritores selecionam elementos linguísticos – adjetivação e linguagem figurada – que possam imprimir mais expressividade à linguagem. Muitos autores modernos e contemporâneos registram em suas obras a linguagem coloquial, numa tentativa de aproximar a linguagem literária da oralidade.

Diante disso, a linguagem literária vem se modificando ao longo das décadas e, as vezes, foge àquelas características tradicionais rígidas. Torna-se uma linguagem mais flexível e democrática, com o registro de uma outra variedade linguística.



quinta-feira, 16 de julho de 2015

Funções da Linguagem


1. Função emotiva
Na função emotiva predominam enunciados que expressam, principalmente, a atitude de quem fala com relação àquilo de que fala. É a função na qual o próprio emissor coloca-se como foco de atenção da mensagem:

O sono está perdido. Sinto-me um pouco só. Acho que estou carente. Pego o telefone. Talvez seja bom falar com alguém. É muito tarde. Vou fazer um suco de amora. Colhi amoras do quintal da vizinha. Admito que ela é atraente. Acho que vou convidá-la para um cineminha. Devo acordar cedo, mas o sono não chega. Vou ler um pouco ou ouvir música. Mozart é relaxante...

2. Função conativa
Na função conativa predominam os enunciados que visam a atuar sobre o destinatário da mensagem. É a função que apresenta o receptor como foco de atenção. Um exemplo típico da linguagem conativa é o texto publicitário, no qual predomina a tentativa de persuasão:

Há quanto tempo você sonha com um carro importado?
Chegou a sua vez! Você que é moderno, dinâmico e empreendedor merece o melhor pelo menor preço.
Você vai se sentir elegante e seguro com a beleza e a tecnologia o Speed. Venha conhecê-lo no nosso show room.

3. Função referencial
Na função referencial predominam as mensagens centradas no referente ou contexto. É a função que apresenta o referente como foco de atenção. No texto informativo, jornalístico ou científico, predomina sempre a função referencial. Suas características são objetividade e clareza:

A II Guerra foi a guerra da sociedade industrial, no que ela tem de mais avançado e mais tenebroso. O computador, o avião a jato, o tecido sintético, o radar e o foguete balístico fora inventados ou desenvolvidos em função do conflito. O medo de que os nazistas chegassem lá primeiro levou os Estados Unidos a fabricar a bomba atômica, que seria jogada sobre Hiroshima e Nagasaki para encerrara guerra com o Japão.

4. Função metalinguística
Na função metalinguística predominam os enunciados em que o código se constitui objeto de descrição. É a função na qual o próprio código aparece em destaque. Ocorre metalinguagem quando um texto discute a linguagem, quando um filme revela implicações técnicas, artísticas ou pessoais do cinema ou do próprio filme, quando um poema se concentra na própria criação poética etc. Todo discurso acerca da língua, bem como as definições dos dicionários ou as regras gramaticais são exemplos típicos da função metalinguística:

Toda gente sabe que a língua é variável. Dois indivíduos da mesma geração e da mesma localidade, que falam precisamente o mesmo dialeto e frequentam os mesmos círculos sociais, nunca estão propriamente a par de seus hábitos linguísticos. Investigação minuciosa da fala revelaria inúmeras diferenças de detalhe na escolha do vocabulário, na estrutura das sentenças, na relativa frequência com que são usadas certas formas ou combinações de palavras, a pronúncia...

5. Função fática
Na função fática predominam mensagens que têm por objetivo principal iniciar uma conversa, atrair a atenção do receptor, verificar sua atenção, prolongar a comunicação, ou, até mesmo, interrompê-la:

Bom Dia! Como vai você?
Crianças! Atenção por favor!
Vocês estão prestando atenção?
Bem! Diante dos fatos, o que você me recomenda?
Por favor, pare de falar!

São exemplos típicos desta função a linguagem de cumprimentos ou saudações, as primeiras palavras de quem aborda um interlocutor, as tentativas de testar o nível de atenção dos nossos receptores, as primeiras palavras de quem atende ao telefone etc.

6. Função poética
Na função poética predominam os enunciados cuja mensagem se acha centrada em si mesma. É a função na qual a própria mensagem é colocada em destaque:

Amanheceu pela terra
um vento de estranha sombra,
que a tudo declarou guerra.

Paredes ficaram tortas,
animais enlouqueceram
e as plantas caíram mortas.

O pálido mar tão branco
levantava e desfazia
um verde-lívido flanco.

Das linhas claras da areia
fez o vento retorcidas,
rotas, miseráveis teias.

..........

(Cecília Meireles)


* É importante observar que a linguagem, enquanto meio de interação social, normalmente dá ensejo à coexistência de diversas funções numa mesma mensagem, pois elas estão constantemente se inter-relacionando e imbricando, embora, obviamente, haja a predominância de uma das funções, caracterizando, dessa forma, a comunicação.



terça-feira, 14 de julho de 2015

Navio negreiro

Castro Alves - Livros completos
"Navio negreiro"


 
I

'Stamos em pleno mar... Doudo no espaço 
Brinca o luar — dourada borboleta; 
E as vagas após ele correm... cansam 
Como turba de infantes inquieta.

'Stamos em pleno mar... Do firmamento 
Os astros saltam como espumas de ouro... 
O mar em troca acende as ardentias, 
— Constelações do líquido tesouro...

'Stamos em pleno mar... Dois infinitos 
Ali se estreitam num abraço insano, 
Azuis, dourados, plácidos, sublimes... 
Qual dos dous é o céu? qual o oceano?...

'Stamos em pleno mar. . . Abrindo as velas 
Ao quente arfar das virações marinhas, 
Veleiro brigue corre à flor dos mares, 
Como roçam na vaga as andorinhas...

Donde vem? onde vai?  Das naus errantes 
Quem sabe o rumo se é tão grande o espaço? 
Neste saara os corcéis o pó levantam,  
Galopam, voam, mas não deixam traço.

Bem feliz quem ali pode nest'hora 
Sentir deste painel a majestade! 
Embaixo — o mar em cima — o firmamento... 
E no mar e no céu — a imensidade!

Oh! que doce harmonia traz-me a brisa! 
Que música suave ao longe soa! 
Meu Deus! como é sublime um canto ardente 
Pelas vagas sem fim boiando à toa!

Homens do mar! ó rudes marinheiros, 
Tostados pelo sol dos quatro mundos! 
Crianças que a procela acalentara 
No berço destes pélagos profundos!

Esperai! esperai! deixai que eu beba 
Esta selvagem, livre poesia 
Orquestra — é o mar, que ruge pela proa, 
E o vento, que nas cordas assobia... 
..........................................................

Por que foges assim, barco ligeiro? 
Por que foges do pávido poeta? 
Oh! quem me dera acompanhar-te a esteira 
Que semelha no mar — doudo cometa!

Albatroz!  Albatroz! águia do oceano, 
Tu que dormes das nuvens entre as gazas, 
Sacode as penas, Leviathan do espaço, 
Albatroz!  Albatroz! dá-me estas asas. 

II


Que importa do nauta o berço, 
Donde é filho, qual seu lar? 
Ama a cadência do verso 
Que lhe ensina o velho mar! 
Cantai! que a morte é divina! 
Resvala o brigue à bolina 
Como golfinho veloz. 
Presa ao mastro da mezena 
Saudosa bandeira acena 
As vagas que deixa após.

Do Espanhol as cantilenas 
Requebradas de langor, 
Lembram as moças morenas, 
As andaluzas em flor! 
Da Itália o filho indolente 
Canta Veneza dormente, 
— Terra de amor e traição, 
Ou do golfo no regaço 
Relembra os versos de Tasso, 
Junto às lavas do vulcão!

O Inglês — marinheiro frio, 
Que ao nascer no mar se achou, 
(Porque a Inglaterra é um navio, 
Que Deus na Mancha ancorou), 
Rijo entoa pátrias glórias, 
Lembrando, orgulhoso, histórias 
De Nelson e de Aboukir.. . 
O Francês — predestinado — 
Canta os louros do passado 
E os loureiros do porvir!

Os marinheiros Helenos, 
Que a vaga jônia criou, 
Belos piratas morenos 
Do mar que Ulisses cortou, 
Homens que Fídias talhara, 
Vão cantando em noite clara 
Versos que Homero gemeu ... 
Nautas de todas as plagas, 
Vós sabeis achar nas vagas 
As melodias do céu! ... 

III


Desce do espaço imenso, ó águia do oceano! 
Desce mais ... inda mais... não pode olhar humano 
Como o teu mergulhar no brigue voador! 
Mas que vejo eu aí... Que quadro d'amarguras! 
É canto funeral! ... Que tétricas figuras! ... 
Que cena infame e vil... Meu Deus! Meu Deus! Que horror! 

IV


Era um sonho dantesco... o tombadilho  
Que das luzernas avermelha o brilho. 
Em sangue a se banhar. 
Tinir de ferros... estalar de açoite...  
Legiões de homens negros como a noite, 
Horrendos a dançar...

Negras mulheres, suspendendo às tetas  
Magras crianças, cujas bocas pretas  
Rega o sangue das mães:  
Outras moças, mas nuas e espantadas,  
No turbilhão de espectros arrastadas, 
Em ânsia e mágoa vãs!

E ri-se a orquestra irônica, estridente... 
E da ronda fantástica a serpente  
Faz doudas espirais ... 
Se o velho arqueja, se no chão resvala,  
Ouvem-se gritos... o chicote estala. 
E voam mais e mais...

Presa nos elos de uma só cadeia,  
A multidão faminta cambaleia, 
E chora e dança ali! 
Um de raiva delira, outro enlouquece,  
Outro, que martírios embrutece, 
Cantando, geme e ri!

No entanto o capitão manda a manobra, 
E após fitando o céu que se desdobra, 
Tão puro sobre o mar, 
Diz do fumo entre os densos nevoeiros: 
"Vibrai rijo o chicote, marinheiros! 
Fazei-os mais dançar!..."

E ri-se a orquestra irônica, estridente. . . 
E da ronda fantástica a serpente 
          Faz doudas espirais... 
Qual um sonho dantesco as sombras voam!... 
Gritos, ais, maldições, preces ressoam! 
          E ri-se Satanás!...  

V


Senhor Deus dos desgraçados! 
Dizei-me vós, Senhor Deus! 
Se é loucura... se é verdade 
Tanto horror perante os céus?! 
Ó mar, por que não apagas 
Co'a esponja de tuas vagas 
De teu manto este borrão?... 
Astros! noites! tempestades! 
Rolai das imensidades! 
Varrei os mares, tufão!

Quem são estes desgraçados 
Que não encontram em vós 
Mais que o rir calmo da turba 
Que excita a fúria do algoz? 
Quem são?   Se a estrela se cala, 
Se a vaga à pressa resvala 
Como um cúmplice fugaz, 
Perante a noite confusa... 
Dize-o tu, severa Musa, 
Musa libérrima, audaz!...

São os filhos do deserto, 
Onde a terra esposa a luz. 
Onde vive em campo aberto 
A tribo dos homens nus... 
São os guerreiros ousados 
Que com os tigres mosqueados 
Combatem na solidão. 
Ontem simples, fortes, bravos. 
Hoje míseros escravos, 
Sem luz, sem ar, sem razão. . .

São mulheres desgraçadas, 
Como Agar o foi também. 
Que sedentas, alquebradas, 
De longe... bem longe vêm... 
Trazendo com tíbios passos, 
Filhos e algemas nos braços, 
N'alma — lágrimas e fel... 
Como Agar sofrendo tanto, 
Que nem o leite de pranto 
Têm que dar para Ismael.

Lá nas areias infindas, 
Das palmeiras no país, 
Nasceram crianças lindas, 
Viveram moças gentis... 
Passa um dia a caravana, 
Quando a virgem na cabana 
Cisma da noite nos véus ... 
... Adeus, ó choça do monte, 
... Adeus, palmeiras da fonte!... 
... Adeus, amores... adeus!...

Depois, o areal extenso... 
Depois, o oceano de pó. 
Depois no horizonte imenso 
Desertos... desertos só... 
E a fome, o cansaço, a sede... 
Ai! quanto infeliz que cede, 
E cai p'ra não mais s'erguer!... 
Vaga um lugar na cadeia, 
Mas o chacal sobre a areia 
Acha um corpo que roer.

Ontem a Serra Leoa, 
A guerra, a caça ao leão, 
O sono dormido à toa 
Sob as tendas d'amplidão! 
Hoje... o porão negro, fundo, 
Infecto, apertado, imundo, 
Tendo a peste por jaguar... 
E o sono sempre cortado 
Pelo arranco de um finado, 
E o baque de um corpo ao mar...

Ontem plena liberdade, 
A vontade por poder... 
Hoje... cúm'lo de maldade, 
Nem são livres p'ra morrer. . 
Prende-os a mesma corrente 
— Férrea, lúgubre serpente — 
Nas roscas da escravidão. 
E assim zombando da morte, 
Dança a lúgubre coorte 
Ao som do açoute... Irrisão!...

Senhor Deus dos desgraçados! 
Dizei-me vós, Senhor Deus, 
Se eu deliro... ou se é verdade 
Tanto horror perante os céus?!... 
Ó mar, por que não apagas 
Co'a esponja de tuas vagas 
Do teu manto este borrão? 
Astros! noites! tempestades! 
Rolai das imensidades! 
Varrei os mares, tufão! ... 

VI


Existe um povo que a bandeira empresta 
P'ra cobrir tanta infâmia e cobardia!... 
E deixa-a transformar-se nessa festa 
Em manto impuro de bacante fria!... 
Meu Deus! meu Deus! mas que bandeira é esta, 
Que impudente na gávea tripudia? 
Silêncio.  Musa... chora, e chora tanto 
Que o pavilhão se lave no teu pranto! ...

Auriverde pendão de minha terra, 
Que a brisa do Brasil beija e balança, 
Estandarte que a luz do sol encerra 
E as promessas divinas da esperança... 
Tu que, da liberdade após a guerra, 
Foste hasteado dos heróis na lança 
Antes te houvessem roto na batalha, 
Que servires a um povo de mortalha!...

Fatalidade atroz que a mente esmaga! 
Extingue nesta hora o brigue imundo 
O trilho que Colombo abriu nas vagas, 
Como um íris no pélago profundo! 
Mas é infâmia demais! ... Da etérea plaga 
Levantai-vos, heróis do Novo Mundo! 
Andrada! arranca esse pendão dos ares! 
Colombo! fecha a porta dos teus mares!

 FIM

segunda-feira, 6 de julho de 2015

A língua é viva segundo Mikhail Bakhtin

A língua é viva

Para o teórico russo Mikhail Bakhtin e seu círculo de estudiosos, a língua tem vida porque é um diálogo contínuo entre os sujeitos sociais. Isso quer dizer que ela é tão viva como eu ou você e está sujeita aos processos normais pelos quais passam todos os seres vivos: há palavras que nascem, palavras que se modificam (tanto no que querem dizer como na forma da escrita), palavras que morrem.
Nada mais natural. O estranho é que durante séculos isso não tenha sido considerado no ensino de língua. Até pouco tempo, o que se ensinava na escola eram os aspectos normativos da língua, principalmente. E ensinava-se como se eles nunca tivessem sido mudados e como se nunca fossem mudar novamente. Então, os alunos eram execrados se esquecessem normas para uso do trema, do hífen. Com essa atitude, a escola ensinava apenas a norma culta, ou seja, aquela falada pelas elites (em momentos formais, claro) e abençoada pelos gramáticos. Mas, se a ortografia e a gramática sofrem mudanças, por que não tratar o erro de forma reflexiva e não punitiva?
Este é um primeiro ponto para reflexão neste momento de mudança da ortografia. Pode parecer que a luta imensa para ensinar aos meninos a complexa utilização da acentuação, por exemplo, foi em vão. Os professores mais antigos passaram décadas exigindo que os alunos acentuassem o que não tem mais acento. Carregaram água em cestos?
Outro ponto é o da apropriação, por nós adultos, das mudanças que chegam. Certamente, em nosso processo de aprendizagem, nos esforçamos para aprender coisas que teremos que esquecer! Aprendemos inutilidades?
Um terceiro ponto é oposto aos anteriores. Trata-se daqueles que se recusaram a obedecer às normas. Se eles não aprenderam coisas para desaprender, têm vantagens sobre os que aprenderam?
O assunto dá o que pensar, não só sobre a língua e seu ensino, mas sobre o ensino em geral em época de mudanças velozes. O que é mesmo que temos que ensinar para que os alunos tenham aquela tão falada base que possibilite que consigam prosseguir aprendendo, talvez para sempre, como a vida exige agora?
Muitos já vêm tentando há décadas flexibilizar conteúdos e ensino. O modo como boa parte dos professores encaram o ensino de gramática e ortografia, atualmente, por exemplo, mudou de forma radical. Passou-se, muitas vezes, a considerar a variante da língua falada na região como referência para a reflexão sobre os “erros”. Correto, desse modo a língua é estudada de acordo com sua natureza, ou seja, como nascida dos processos de comunicação social e viva pelo uso contínuo, histórico, do uso desses processos. Adotar esse procedimento de ensino valoriza a pessoa, o cidadão, qualquer que seja seu modo de falar.
O problema, às vezes, é ir do oito para o oitenta. Ao deixar de usar a gramática como camisa de força, pensou-se que a saída era não intervir no que os alunos escrevem. E essa postura ficou consolidada, principalmente, nas séries iniciais. Em vez de acolher as hipóteses dos alunos sobre a grafia das palavras para abrir um diálogo sobre ela, por exemplo, passou-se a aceitá-las como forma definitiva de grafar as palavras. “Escreva do seu jeito”, dizia-se. “Use sua criatividade”.
As mudanças na forma de grafar as palavras não podem ser decididas por professores e alunos na intimidade da sala de aula. Se cada um escrever do seu jeito, a comunicação pela escrita fica difícil. A cada escrita que nos chega sem um referencial padrão, temos que fazer um esforço para entendê-la, o que toma tempo e desgasta. É por essa razão que temos que combinar, num nível amplo, de nação para nação, como vão ser escritas as palavras. Para facilitar a comunicação. Para falarmos a mesma língua, mas não uma língua morta e rígida, uma língua viva que acompanha as mudanças sociais e as reflete.
É dessas mudanças que decorrem as alterações que a língua e seu ensino sofrem. Como quase sempre são mais profundas do que aparentam ser, é sempre bom parar para refletir sobre elas. A presente mudança ortográfica é um bom momento para essa reflexão.



Heloisa Amaral