"Olhai para os lírios do campo, como eles crescem; não trabalham, nem fiam. E eu vos digo que nem mesmo Salomão, em toda a sua glória, se vestiu como qualquer deles".

quinta-feira, 30 de abril de 2009

acesse o TWITTER

Você já conhece o twitter? Trata-se de um poderoso comunicador instantâneo em que o usuário pode enviar mensagens de uma maneira rápida e prática. Apesar de estar estruturado no idioma inglês, é muito fácil de utilizar. Acesse o https://twitter.com/ e experimente essa nova fabulosa ferramenta.


Um fraterno e caloroso abraço!!!
http://twitter.com/JuarezFrmno

Como se relacionar com colegas de trabalho

Algumas dicas de relacionamento que podem salvar sua pele e sua carreira no local de trabalho:

1. Seja sempre cordial, mas evite intimidades com os colegas de trabalho e também com o seu chefe. A não ser que vocês sejam amigos, evite comentar assuntos pessoais, como brigas em casa, problemas com dinheiro ou algo do gênero. Manter uma postura profissional evita problemas futuros e deixa você menos suscetível a fofocas no ambiente de trabalho.

2. Saiba diferenciar a hora de trabalhar da hora de conversar. Nada errado em encontrar um colega no corredor ou no café e comentar sobre o ultimo filme que você viu e adorou. Mas não entre na sala dele, no horário de trabalho, para contar em detalhes como foi seu final de semana. Isso atrapalha.

3. Nada mais insuportável do que aquele colega de trabalho que vive reclamando de tudo. Pois bem, não seja você o chato do ambiente. Evite reclamar, falar mal dos colegas, do chefe ou da empresa onde você trabalha.

4. Não seja inconveniente: Nada de se intrometer onde não é chamado, se oferecer para ir almoçar com um grupo sem ser convidado, perguntar ao seu colega quanto ele ganha, contar piadas sem graça no meio de uma reunião, insistir em chamar um colega pelo apelido que ele detesta e outras atitudes típicas de um “mala sem alça”.

5. Fofoca: Mantenha-se o mais longe possível dela. Não faça comentários maldosos sobre seus colegas, subordinados ou superiores. Não comente a vida pessoal dos outros e, se ouvir algo do gênero, morda a língua antes de passar adiante. A fofoca no ambiente de trabalho pode causar danos às pessoas que são alvo dos comentários. E o pior, quase sempre injustamente. Observação importante: Nunca seja um fofoqueiro passivo, pois se este não existisse a fofoca também não existiria, portanto, quando alguém lhe vier dizer algo que não condiz com o bom relacionamento do local de trabalho, invente um motivo para não permitir que tal comentário possa fluir.

quarta-feira, 29 de abril de 2009

O mediador e o labirinto


Autora: Dileta Delmanto

“... ninguém pensou que o livro e labirinto eram um único objeto.”
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(Jorge Luis Borges, O jardim de veredas que se bifurcam)
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Em 1941, o escritor argentino Jorge Luis Borges escreveu o famoso conto Biblioteca de Babel (1) em que fala de uma biblioteca infindável, que contém todos os textos já escritos e por escrever. Nela toda informação do mundo está à disposição de todos, mas seu acervo é tão vasto que distinguir algo de valor do que é inútil ou incorreto é praticamente impossível. Por isso, o narrador, um dos bibliotecários, busca incessantemente alguém que, tendo a chave que decifre seus misteriosos volumes, consiga justificar o sentido de sua existência. Dentre as várias interpretações do conto, uma é a que o considera uma grande metáfora em que mundo e literatura se confundem. De um lado, porque ler um texto é atribuir-lhe sentido; de outro, porque a própria realidade pode ser considerada como uma grande biblioteca cheia de textos à espera de quem os decifre.
Em outro de seus contos, Funes, o memorioso,(2) o mesmo autor narra a história de um homem que depois de um acidente adquiriu a capacidade de se lembrar de absolutamente tudo. Nada, nenhum detalhe, escapava de sua incrível memória. “Sabia as formas das nuvens austrais do amanhecer do trinta de abril de mil oitocentos e oitenta e dois e podia compará-las na lembrança aos veios de um livro encadernado em couro que vira somente uma vez....” Porém, por tudo recordar, era incapaz de pensar, de produzir idéias gerais, de compreender, por exemplo, que o cão que vira “às três e catorze era o mesmo que o cão das três e quarto”, tantas eram as particularidades, as diferenças que captava e memorizava. Sua vida se tornou um tormento porque não sabia o que fazer com tantas informações, porque não conseguia aplicá-las ao mundo que o cercava.
Em ambos, Borges lida com a metáfora do conhecimento, incompreensível e inútil se excede nossa capacidade de absorção e de compreensão (3). No primeiro, a biblioteca é inútil porque ninguém consegue decifrar seu conteúdo; no segundo, o personagem, por não conseguir selecionar as informações, é incapaz de entender o mundo. Os dois textos nos permitem refletir a respeito da era da informação em que vivemos, na qual a onipresença da mídia e o excesso de informação oprimem e confundem. “TV, rádio, jornais, internet, fax e celulares se combinam numa tensa alquimia, que torna tudo descontínuo e fragmentado. A incessante mudança de contextos torna a realidade das informações e imagens praticamente inassimilável. Em frações de segundos, a TV passa das cenas de um desastre ecológico de proporções globais para um programa de auditório, em que a tolice e o ridículo disputam a fama instantânea"(4).
A internet, em particular, permite acesso nunca visto a milhões e milhões de documentos on line, potencialmente muito úteis a qualquer indivíduo. Mas, sua infindável memória não escolhe o que retém. Não se filtra nada, não há seleção da qualidade da informação, nem sempre é possível discriminar sua origem, portanto, encontrar informação e garantir sua validade, reconhecer o que é significativo e o que é irrelevante, distinguir o que é verdadeiro do que é falso, não é tarefa fácil.
Nesse quadro, não basta colocar as pessoas em contato com a informação, embora essa seja a primeira condição. É preciso incentivá-las a realizarem descobertas, orientá-las a fazerem escolhas, a efetuarem análises e sínteses, enfim, apresentar diferentes possibilidades para a construção do conhecimento e gerar condições para o estabelecimento de articulação entre informações e conexões múltiplas.
Portanto, nessa moldura ganha relevo o papel do mediador (seja ele professor, um adulto leitor mais experiente, um orientador de leitura, um familiar, um bibliotecário ou um colega mais capaz) para estimular nos mais jovens uma ampla gama de aprendizagem, para provê-los da orientação e do apoio necessários para que se tornem aptos tanto a pesquisar e interagir de forma crítica e autônoma como a conseguir avanços em relação ao gosto.
Na escola, cabe ao professor planejar situações que possam resultar em aprendizagens significativas, propor desafios e contrapontos ao aluno que convive com discursos de todos os tipos e formas, selecionar fontes de pesquisa, apresentar diferentes possibilidades para a construção do conhecimento. É necessário que ele se disponha a auxiliar os alunos a buscar e selecionar informações, organizá-las, elaborá-las, a aplicar e avaliar o conhecimento, contribuindo assim para que identifiquem o que é relevante, reflitam criticamente sobre as informações encontradas e atribuam-lhes significados.
Em outros espaços, em situações de aprendizagens mais espontâneas, o comportamento de leitor mais experiente do mediador poderá ajudar os mais jovens a se interessarem pelo imenso patrimônio cultural acumulado por tantas gerações. Atuando como guia, apoiador, incentivador, poderá aumentar o repertório dos aprendizes; gerar condições e ambiente para o estabelecimento de articulação entre informações; mostrar que ler e escrever, além de promover socialmente e dar acesso à cultura e ao conhecimento, são um modo de relacionar a vida de cada um à realidade na qual se vive. Por meio dele, o jovem poderá ainda descobrir que a escrita é um jogo instigante e a leitura uma fonte inesgotável de prazer e de conhecimento que permite transformar nossa visão do mundo, reavaliar nossos sentimentos e emoções, encontrar respostas para nossos conflitos, conhecer novos mundos sem sair do lugar, viajar no tempo, conhecer culturas e civilizações diferentes das nossas.
No entanto, para atingir tais metas, em um país onde quase 70% dos municípios não têm livrarias (mas 85% têm biblioteca pública) e os provedores de internet chegam cada vez mais rapidamente aos lugares mais afastados, é fundamental o reconhecimento de que estão em jogo diferentes padrões de leitura do mundo e não apenas um. Numa sociedade de comunicação como a em que vivemos, quando um elo é estimulado, toda a cadeia cresce. Explorar a chamada “convergência de mídias”, transformar computadores, programas de TV, músicas, filmes, games, CDs-ROM em objetos de leitura e de estímulo à leitura é essencial tanto para desenvolver capacidades necessárias à compreensão e sobrevivência no século XXI como para levar os jovens à descoberta da importância e do prazer da palavra. Que se pense em quantos começaram a ler depois de assistir ao Sítio do Picapau Amarelo na televisão ou ao Senhor dos Anéis no cinema; quantos tomaram gosto pela escrita graças a uma modalidade nascida na internet: a fanfiction, em que se criam continuações e versões para as aventuras dos personagens preferidos, como Harry Potter...E, talvez, quantos começaram a apreciar grandes escritores como Borges depois de conhecer seus textos na internet...
Retomando nossa epígrafe, é preciso descobrir, como fez o personagem borgiano a respeito do labirinto e do livro, que, dialeticamente, pluralidade de caminhos/ realidade a ser decifrada/ avalanche de informações e conhecimento/ sentido/crescimento são também uma coisa só, são faces de uma mesma e complexa moeda. Mas, como fazê-lo, se “é tão fácil perder-se quando se tem todos os caminhos do mundo a sua disposição” (3)? A ação de mediadores que, com atitudes como as mencionadas anteriormente, ajudam a impedir que o infinito conhecimento disponível em nossa época nos transforme em novos Funes, incapazes de entender a realidade na qual se vive, ou em impotentes “ratos de biblioteca” que se deixam morrer de ignorância nos grandes templos de informações, é uma das possibilidades. A incorporação da internet e dos meios de comunicação à rotina dos que desejam estimular o hábito da leitura e da escrita entre crianças e adolescentes como resposta para aqueles que vêem na rede mundial de computadores e na hegemonia da sociedade visual a morte dos livros e do conhecimento crítico, potencialmente transformador, é outra.
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Notas

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(1) Ficções, Obras Completas, editora Globo, volume 1. O conto está disponível para leitura em Jorge Luis Borges
(2)idem. Disponível para leitura em
Funes, o memorioso
(3)Frederick Montero, em O conhecimento e a memória, tece reflexão semelhante utilizando o conto Aleph, também de Borges. Disponível em
Filosofia Digital
(4) Tecnologia e suas metáforas, Virgílio Augusto Fernandes Almeida, Diversa, Revista da Universidade de Minas Gerais, nº. 2, 2003, disponível em
Tecnologias e Metáforas

sábado, 25 de abril de 2009

Chega de prosa

Você diz que não me quer
E fica com esse papo de amigo
Não fique brincando de amor
Brincar com o coração é um perigo.

Fica a proclamar tua liberdade
E ignoras quem profundamente te ama
Mas quando a solidão se torna verdade
Retorna sofregamente à minha cama.

No vai e vem desta relação intrigada
Na indiferença da existência humana
Por que tanta conversa mole?

Deixe de lado o orgulho gelado
Fruto de uma superficialidade insana
Quem ama não brinca... Quem brinca não ama!


(Juarez Firmino)

sexta-feira, 24 de abril de 2009

Letramentos no Ensino Médio

O livro "Letramentos no Ensino Médio" lançado no último dia 25, compartilha experiências e sugestões, trazendo relatos de estudantes e professores da rede púbica. Professores podem adquirir gratuitamente.
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O livro “Letramentos no Ensino Médio” pretende abrir um diálogo com professores sobre as práticas de escrita e leitura dos jovens, dentro e fora da escola. Escrito por Ana Paula Corti, Ana Lúcia Souza e Márcia Mendonça, educadoras que trabalham com jovens em projetos da Ação Educativa, o livro compartilha experiências e sugestões, trazendo falas e relatos de estudantes e professores da rede púbica. O objetivo principal é auxiliar professores e educadores das várias disciplinas do Ensino Médio a apoiar o processo de letramento dos adolescentes. Para Valéria Leão de Campos, professora de história da rede pública estadual, “o livro é um instrumento muito bacana para trabalhar a leitura em sala de aula. Mesmo para outras disciplinas que não a de Língua Portuguesa, ele pode apoiar o trabalho de leitura”.
“No lançamento, os professores indicaram que escutar os jovens e conhecer os diferentes universos em que vivem ainda é um desafio e que o livro contribui nessa tarefa”, afirma Ana Paula, assessora do programa Juventude da Ação Educativa. Ela acrescenta “que as muitas tarefas escolares tem como pressuposto que o aluno já sabe realizar a atividade. Alguns exemplos são os resumos e seminários, que na verdade são procedimentos que devem ser ensinados. Isso é algo que o livro traz – como o professor pode auxiliar os alunos na realização de tarefas escolares que são corriqueiras”. A obra também enfatiza a importância da leitura e da escrita como instrumentos de auto-conhecimento para os jovens.
“Os coordenadores e professores que estavam presentes [no lançamento], apesar de terem tido pouco tempo para ler o livro, demonstraram bastante satisfação com a estrutura e as propostas da obra. Vários coordenadores também se mostraram interessados em levar o livro para suas escolas,” afirmou a professora Valéria.
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O Livro lançado recentemente pela Ação Educativa pode ser adquirido gratuitamente por professores da rede púbica. Basta enviar uma solicitação para
anapaula@acaoeducativa.org
Os interessados deverão retirar o material na sede Ação Educativa na Rua General Jardim, 660 – V. Buarque. São Paulo – SP ou custear as despesas de postagem.
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Fonte: http://www.acaoeducativa.org.br/portal/

quinta-feira, 23 de abril de 2009

As redondilhas de Chico Buarque

No final de 93, depois de algum tempo sem gravar, Chico Buarque deu um belo presente de Natal aos brasileiros — o disco Paratodos. Na canção de mesmo nome, a letra diz: “O meu pai era paulista/meu avô, pernambucano/o meu bisavô, mineiro/meu tataravô, baiano...” De imediato, chama a atenção a presença alternada do artigo definido antes do pronome possessivo.
Trocando em miúdos, você deve ter notado que Chico Buarque escreveu “o meu pai”, depois “meu avô”, “o meu bisavô” e, por fim, “meu tataravô”. Por que essa alternância? Isso é correto?
Quem já estudou inglês deve lembrar-se de uma armadilha que os professores preparam para os novatos. Pede-se a tradução de uma frase bem simples, como “O meu carro é vermelho”. É normal que o aluno traduza palavra por palavra e monte algo que em inglês não existe: “The my car is red”.
“The” é artigo, e “my” é possessivo. Em inglês, não se usa artigo antes de possessivo. A frase inglesa é “My car is red”.
E em português? A história é outra. Antes de possessivos, o artigo não é proibido, nem obrigatório. É facultativo. Frases como “Gosto de suas músicas” e “Gosto das suas músicas” São absolutamente corretas e equivalentes.
Conclui-se que gramaticalmente Chico Buarque acertou nos quatro versos. Teria acertado também se tivesse empregado o artigo nos quatro versos, ou em nenhum. Na verdade, por uma questão de paralelismo, de simetria, teria sido melhor adotar procedimento uniforme, não houvesse por trás de tudo isso uma razão maior.
Essa razão é explicada na letra da canção, em versos que dizem: “Foi Antônio Brasileiro/quem soprou esta toada/Que cobri de redondilhas/Pra seguir minha jornada”. A palavra-chave é “redondilha”, verso de cinco ou sete sílabas poéticas. Com cinco sílabas poéticas, a redondilha é menor; com sete, é maior.
Vamos contar as sílabas do primeiro verso: “O/meu/pai/e/ra/pau/lis/ta”. Quantas são? Oito, não? Não, são sete, porque só se conta até a última sílaba tônica do verso. Nesse verso, a última sílaba tônica é “lis”.
Vamos contar as sílabas do segundo verso: “Meu/a/vô/per/nam/bu/ca/no”. Oito? Não, sete. A última tônica é “ca”.
Vamos ao terceiro: “O/meu/bi/sa/vô/mi/nei/ro”. Oito? Sete. Conte até “nei”, última sílaba tônica do verso.
Por fim, o quarto verso: “Meu/ta/ta/ra/vô/bai/a/no”. De novo, sete. Conta-se até “a”, sílaba tônica de “baiano”, última palavra do verso. Se Chico Buarque tivesse empregado o artigo no segundo e no quarto versos, ou se tivesse deixado de empregá-lo no primeiro e no terceiro, a métrica teria sofrido alteração, e simplesmente não haveria redondilhas.
Você sabe quem é o Antônio Brasileiro citado na letra? É simplesmente Antônio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim, o querido Tom Jobim, mestre dos mestres. É claro que Chico não ousaria usar em vão o nome do mestre. A toada toda é coberta de redondilhas. Evoé, Tom Jobim. Evoé, Chico Buarque.



Pasquale Cipro Neto

quarta-feira, 22 de abril de 2009

Não está no Aurélio

ABANDONO: Quando a jangada parte e você fica.
ADEUS: O tipo de tchau mais triste que existe.
ADOLESCENTE: Toda criatura que tem fogos de artifício dentro dela.
ARTISTA: Espécie de gente que nunca vai deixar de ser criança.
AUSÊNCIA: Uma falta que fica ali presente.
FOTOGRAFIA: Um pedaço de papel que guarda um pedaço de vida nele.
GELO: Aquilo que a gente sente na espinha quando o amor diz que vai embora.
LEALDADE: Qualidade de cachorro que nem todas as pessoas têm.
LÁGRIMA: Sumo que sai dos olhos quando se espreme um coração.
OUSADIA: Quando o coração diz para a coragem "vá" e a coragem vai mesmo.


e eu acrescento
CORAGEM: Quando você vai, leva um sonoro não, ou pior, sente o descrédito, e mesmo assim não desanima.

terça-feira, 21 de abril de 2009

Laranja

"Porque as pessoas que recebem montes de dinheiro na sua conta bancária, e quase sempre sem o saber, são chamadas de laranjas?"

É muito difícil rastrear a origem de expressões como essa, que parecem surgir trazidas pelo vento. Quase todas as tentativas de explicação terminam caindo em histórias engenhosas e fantásticas, sem a menor base na realidade lingüística. Isso já aconteceu com a tua laranja. Em resposta a um leitor que, como tu, perguntou a razão de chamarmos assim essas pessoas que, sabendo ou não, aparecem como testas-de-ferro em vigarices e maracutaias, um desses "consultórios gramaticais" de jornal veio com a seguinte teoria: na guerra do Vietnã, ficou tristemente famoso o Agente Laranja, herbicida desfolhante utilizado pelos americanos. O tambor de herbicida era laranja, para distingui-lo do tambor de Napalm, cujo efeito incendiário é conhecido por todos. (A esta altura, Maria, deves estar dando tratos à bola para descobrir o que isso teria a ver com os "laranjas" do nosso Brasil dos mensalões e cuecões; espera, que chegaremos lá). Pois conclui a sumidade (cito textualmente): "A nuvem de fumaça. O herbicida produzia uma fumaça amarela. A nuvem vinha na frente dos soldados. Encobria-os. Assim fazem os laranjas da corrupção. Vão na frente. E encobrem o verdadeiro autor de negócios escusos".
Como vês, não passa de uma peça de má ficção. Para começar, jamais se ouviu falar no uso daquele terrível desfolhante como cortina de fumaça, já que ele era extremamente tóxico também para humanos. Além disso, se fosse verdade, o Inglês, com muito mais razão do que o Português, usaria orange como esse sentido de "testa-de-ferro" — só que lá eles chamam de straw-man, que um dicionário jurídico americano define exatamente como definimos o nosso laranja:
"pessoa a quem uma empresa ou um título de propriedade é transferido com o único propósito de esconder o seu verdadeiro dono. Desta forma, o straw-man não tem interesse ou participação real, mas é um mero representante passivo daquele que controla secretamente as atividades."
Como nunca encontrei nada fidedigno sobre a origem dessa expressão brasileira, prefiro atribuí-la, conservadoramente, a um dos significados de "laranja" que tanto o Aurélio quanto o Houaiss registram: "pessoa insignificante, sem importância". Acho que, no início, laranja era usado como usamos o nosso bagrinho. Um cronista de sociedade poderia afirmar, por exemplo, "À festa só compareceram bagrinhos (ou laranjas), sem qualquer expressão social" — gente miúda, sem importância. Daí passou para o jargão policial, com o mesmo sentido de insignificância ("Prendemos três, mas eram todos laranjas"). Não demorou muito, porém (ainda mais no Brasil, em que a corrupção tem mais viço que erva daninha), para se incorporar à figura do laranja uma malícia maior, uma participação mais ativa e consciente do esquema criminoso, uma certa "consciência profissional". O inocente laranja de outrora passou a assumir, com orgulho, a sua atividade, e posso apostar que muita gente por aí anda se apresentando como "Fulano de Tal, laranja — confiável para qualquer tipo de serviço. Dou referências". Deve ser isso; se non è vero...


http://www.sualingua.com.br/01/aviso.htm

O diabo e o granjeiro

Um pobre lavrador precisava construir a casa de sua pequena granja, mas não conseguia realizar esse sonho, pois o que ganhava mal dava para alimentá-lo, junto com sua mulher. Por mais economia que fizesse, não conseguia juntar o necessário para começar a construção.
Um dia, estando a caminhar pelo seu pedaço de chão, mergulhado em tristes pensamentos, deu com um velho esquisito que lhe disse com voz desagradável:
— Pára de preocupar-te, homem. Eu posso resolver o teu problema antes do primeiro canto do galo, amanhã cedo.
— Como assim? — espantou-se o lavrador.
— Tu precisas construir a casa da granja, certo? Pois eu me encarrego de construir e entregar-te essa obra, antes do canto do galo, em troca de uma pequena promessa tua.
— Que promessa? Não tenho nada para te oferecer em troca de tal serviço.
— Não importa: o que quero que me prometas é um bem que tu tens, mas ainda não sabes. É topar ou largar.
O pobre granjeiro pensou com seus botões “o que é que eu tenho a perder?” e, sem hesitar mais, respondeu ao velho que aceitava o trato e fez a promessa.
— Só que quero ver a casa da granja construída, amanhã, antes do canto do galo — observou ele, ainda meio incrédulo.
E voltou correndo para casa, para comunicar à esposa o bom negócio que acabara de fechar.
A pobre mulher ficou horrorizada:
— Tu és um louco, marido! Acabas de prometer àquele velho, que só pode ser o próprio diabo, o nosso primeiro filho, que vai nascer daqui a alguns meses!
O homem, que não sabia da gravidez, pôs as mãos na cabeça, mas não havia mais nada a fazer: o pacto estava selado.
A mulher, porém, que não estava disposta a aceitá-lo, ficou pensando num jeito de frustrar o plano do diabo.
E naquela noite, sem conseguir dormir, ficou o tempo todo escutando apavorada o barulho que o demônio e seus auxiliares infernais faziam, ao construírem a tal obra, com espantosa rapidez.
A noite ia passando, aproximava-se a madrugada.
Mas, pouco antes de o céu clarear, quando faltavam só umas poucas telhas para a conclusão da obra, a atenta mulher do granjeiro pulou da cama e, rápida e ágil, correu até o galinheiro, onde o galo ainda não despertara.
Tomando fôlego, imitou o canto do galo, com tal perfeição que todos os galos da vizinhança, junto com o seu próprio, lhe responderam com um coro sonoro de cocoricós matinais, momentos antes do romper da aurora.
Como um trato com o diabo tem de ser estritamente observado, tanto pela vítima como por ele mesmo, a obra em final de construção teve de ser parada naquele mesmo instante, por quebra de contrato “antes do primeiro canto do galo”.
E o diabo, espumando de raiva por se ver assim ludibriado e espoliado, se mandou de volta para o inferno, junto com seus acólitos, para nunca mais voltar àquele lugar.
Mas a casa da granja permaneceu construída, para alegria do granjeiro, faltando apenas umas poucas telhas que jamais puderam ser colocadas.




BELINKY, Tatiana.
O diabo e o granjeiro. In: Revista Nova Escola,
São Paulo, n. 84, mar. 1995.

domingo, 19 de abril de 2009

Resmungos gramaticais

Sofro de manias e uma delas é de chatear-me com certas expressões, que me parecem erradas
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NÃO TENHO, obviamente, a intenção de aborrecer o leitor com minhas manias. Aliás, se dependesse de mim, só escreveria crônicas divertidas em vez de resmungos, graçolas. Mas é que sofro de manias e uma delas é de chatear-me com certas expressões, que vão se tornando comuns e que me parecem erradas. Está bem, está bem, já sei que não existem erros no uso do idioma, pelos menos, essa é a opinião dos lingüistas, e a última coisa que quero é ser considerado por eles um sujeito ultrapassado e ranheta. Mas que posso fazer? Se o cara, referindo-se à semana em que estamos, diz "essa" em vez de "esta", tenho vontade de lhe mostrar a língua.
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Lembram-se da época em que, a três por dois, usava-se a expressão "a nível de"? Essa é uma expressão espanhola e a pronúncia correta é "nivél", com acento na última sílaba. Não se sabe como nem por que, políticos, jornalistas, deputados, advogados passaram, todos, a usá-la. Começaram dizendo, por exemplo, "a nível de teoria política", depois "a nível de perseguição policial" e chegaram a jóias como "a nível de ração para cachorros". Eu sei que está tudo correto e que eu é que sou um chato de galocha, mas sinto-me aliviado ao ver que a mania passou e já ninguém fala "a nível de". Chego a consolar-me com a suposição de que a língua mesma se encarrega de expurgar esses contrabandos verbais.
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Ainda assim, tenho minhas dúvidas, pois a cada momento ouço pessoas instruídas e inteligentes falarem "isso não significa dizer", o que é uma tradução ruim do inglês. Por que não usam a expressão nossa, legítima e simples "isso não quer dizer"? E a mania agora (já de algum tempo) é usar o verbo postergar em vez de adiar. Você diria a alguém: "aquele nosso almoço vai ter que ser postergado?" Se não falaria assim, não escreva assim, essa é uma boa regra. Mas por que me incomodar com isso, já que ser pernóstico não é o pior dos defeitos?
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Há defeitos piores, claro, e mesmo no terreno do idioma, em que todo tipo de atentado à língua se vê com muita freqüência no nosso dia-a-dia. Como disse, não estou querendo encher a paciência dos leitores, mas já repararam como alguns comentaristas de futebol usam certos verbos? Sabemos que o futebol tem um universo verbal próprio, bastante pitoresco, aliás, contra o qual nada tenho a opor, muito pelo contrário. Acho até divertido quando o pessoal se refere a "essa" bola. Nunca dizem, por exemplo, "ele podia ter chutado a bola" e, sim, ter chutado "essa" bola. O jogador nunca "perdeu a bola" e, sim, "perdeu o domínio". São modos de falar muito pitorescos. O que me incomoda, porém, é quando dizem "Ronaldo machucou". Machucou o que? O pé, o tornozelo? Não, querem dizer que ele "se machucou", mas decretaram o fim do modo reflexivo do verbo machucar. E também do verbo "classificar". Se pretendem dizer que o Corinthians não se classificou para disputar a Taça Libertadores, dizem "o Corinthians não classificou", como se o verbo fosse intransitivo. A origem disso, não sei qual é, se nasce da corriola futebolística paulistana, mas a verdade é que, como falam para milhões de pessoas, terminarão por impor esse uso errado dos verbos ao resto do país. Perde-se alguma coisa? Vai alguém morrer em conseqüência disso? Não... então, só me resta ficar resmungando no meu canto, mesmo porque podem alegar que, no terreno da gramática, a zorra é total. Não se ouve na TV "as milhões de pessoas"? E como explicar por que o advérbio "sobre" passou a ser usado a torto e a direito em frases como "convencer as pessoas sobre a importância da lei" em vez de "da importância da lei" ou "ele discute sobre problemas sociais" em vez de "ele discute problemas sociais"?
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Mas ao folhear um volume de Machado de Assis, deparo-me com a seguinte expressão: "A família Batista foi aposentada em casa de Santos". Como aposentada na casa? Mas logo percebo que ele se refere aos aposentos que constituem uma casa, ou seja, a família Batista passou a ocupar um aposento da casa de Santos e, por isso, ficou "aposentada" ali. Descubro que a acepção atual é que é metafórica e decorrente daquela. E aí minhas convicções de patrulheiro vernacular começam a esvair-se. Continuo a folhear o livro: "o amor da glória", em vez de "o amor à glória", e pior: "a dona não adia da intenção de tomar o que era seu". Não paro de me surpreender: "cabava de nascer", por "acabava", e este uso de "esquecer": "também não me esqueceu o que ele me fez uma tarde".
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Diante disso, meto a língua no saco, se se pode dizer assim.

FERREIRA GULLAR

sábado, 18 de abril de 2009

PROBLEMA DE PONTUAÇÃO

O ricaço, nas últimas, escreve o testamento às pressas, esquecendo a pontuação: “deixo meus bens à minha irmã não ao meu sobrinho jamais será paga a conta do alfaiate nada dou aos pobres”.
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O sobrinho pontuou: “Deixo meus bens à minha irmã? Não. Ao meu sobrinho. Jamais será paga a conta do alfaiate. Nada dou aos pobres”.
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A irmã pontuou: “Deixo meus bens à minha irmã. Não ao meu sobrinho. Jamais será paga a conta do alfaiate. Nada dou aos pobres”.
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O alfaiate: “Deixo meus bens à minha irmã? Não. Ao meu sobrinho? Jamais. Será paga a conta do alfaiate. Nada dou aos pobres”.
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Chega um descamisado: “Deixo meus bens à minha irmã? Não. Ao meu sobrinho? Jamais. Será paga a conta do alfaiate? Nada. Dou aos pobres”.

sexta-feira, 17 de abril de 2009

Assaltaram a Gramática

Erika de Souza Bueno
Consultora Pedagógica em Língua Portuguesa do Planeta Educação; Graduanda em Letras pela Universidade Metodista de São Paulo.

As aulas de gramática nas salas de aula de nosso Brasil têm tomado outras formas e nós, profissionais ou estudantes, precisamos entendê-las, uma vez que quaisquer mudanças afetarão diretamente a nossa prática e a formação de nossos alunos. Muitas discussões são feitas acerca do ensino da gramática na escola, uma vez que há algum tempo era natural o estudo exaustivo de definições que só faziam sentido dentro do ambiente escolar, no qual os alunos só decoravam o significado de cada qual na única intenção de tirar uma boa nota na prova e passar para o próximo ano letivo.
Com isso, não fica difícil compreender que os conteúdos não eram transferidos para a vida real e, ao que tudo indica, não eram capazes de fazer de um aluno, um cidadão competente para se posicionar diante de questões da vida real, dentro de sua comunidade ou fora dela.
Por questões como essas serem erguidas, alguns professores chegaram a imaginar que a gramática estava definitivamente abolida das aulas de língua portuguesa, contudo, segundo os Parâmetros Curriculares Nacionais do MEC, não é bem isso que ocorre:
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“... uma prática pedagógica que vai da metalíngua para a língua por meio de exemplificação, exercícios de reconhecimento e memorização de terminologia. Em função disso [de uma prática pedagógica como esta], discute-se se há ou não necessidade de ensinar gramática. Mas essa é uma falsa questão: a questão verdadeira é o que, para que e como ensiná-la.”

Segundo estas diretrizes, o novo olhar para o ensino de gramática que salta aos nossos olhos, não exclui o conteúdo gramatical de língua portuguesa, até porque não há gramática sem língua e nem mesmo língua sem gramática.
O novo olhar mostra-nos, entre outras coisas, uma metodologia eficiente que faz o aluno refletir e identificar diversos gêneros discursivos baseados em textos que realmente façam sentidos para eles, levando em consideração que a competência discursiva de um aluno não se dá de forma desarticulada e, para que este aluno seja capaz de usar a língua em diversas situações, incluindo ele estar ante pessoas e situações que têm mais proximidade do mundo letrado, se faz necessário que a abordagem gramatical se livre de terminologias antiquadas e de preconceitos descabidos, considerando o aluno um falante fluente no seu idioma pátrio.
Observe mais este trecho do PCN do MEC:
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“Afinal, a aula deve ser o espaço privilegiado de desenvolvimento de capacidade intelectual e linguística dos alunos, oferecendo-lhes condições de desenvolvimento de sua competência discursiva. Isso significa aprender a manipular textos escritos variados e adequar o registro oral às situações interlocutivas, o que, em certas circunstâncias, implica usar padrões mais próximos da escrita”.

Sendo assim, o novo olhar para as aulas de gramática nas nossas escolas, não se refere ao abandono da competência escrita, mas a uma nova metodologia de ensino, na qual são considerados os conhecimentos de mundo que o aluno já possui, sendo que toda a abordagem gramatical deve trazer uma linguagem clara sem definições ultrapassadas, livre de preconceitos e mitos. Precisamos nos despir destes, pois defendem, entre outros pontos, a existência de apenas um padrão correto para a fala, estigmatizando pessoas que não se adequam a ele, ao passo que nós, profissionais comprometidos com um ensino não excludente, sabemos que toda a fala está inserida dentro de um contexto e deve ser respeitada nas suas muitas variantes.