sábado, 19 de maio de 2018
CONTOS DE ENSINAMENTO
Os contos populares da tradição oral são narrativas ancestrais
que vêm resistindo à passagem do tempo. No Brasil, convivem contos de tradição
dos diferentes povos indígenas e africanos, de povos orientais e os de tradição
européia (estes mais divulgados pela mídia impressa, cinematográfica e
virtual). São estudiosos do conto da tradição oral brasileira Câmara Cascudo e
Silvio Romero, entre outros. De gêneros variados, possuem certas
características que os aproximam e outras que os distanciam, permitindo
diferentes classificações. A organização mais comum é a que reúne os contos
populares da tradição oral em uma só categoria, “contos de fadas”, ignorando
que esses últimos receberam essa designação por terem fadas em seus enredos.
Mas, ao serem analisados por estudiosos, os contos populares, em geral, foram
classificados de formas mais complexas. Um dos agrupamentos mais importantes é
o de Aarne-Thompson; outros, dos formalistas russos, entre eles Wladimir Propp.
As classificações
dos contos da tradição oral, porém, embora valiosas para ampliar a compreensão
de sua natureza e importância, costumam apresentar certa rigidez própria das
tipologias e não podem ser consideradas verdades absolutas, uma vez que alguns
temas, por exemplo – como o da menina e o lobo, “escapam” das classificações
por terem sido contados de diferentes jeitos, ou seja, em diferentes gêneros.
Mas olhá-los por meio dessas análises produzidas com cuidado e intenção
investigadora, ainda que marcada por uma fixidez excessiva, permite que se
perceba a riqueza da cultura oral. É inegável que os numerosos estudos e
classificações contribuem para isso.
Hoje vamos abrir
espaço para os chamados “contos de ensinamento”, importante grupo de contos da
tradição oral de todas as regiões da Terra. Como contos da tradição oral, têm
em comum com os maravilhosos e os de fadas a antiguidade, comprovada pelas
inúmeras pesquisas de estudiosos no assunto, a falta de autor determinado, a
transmissão boca a boca através das gerações. O que os particulariza é a
intenção: sua finalidade principal não é divertir, é ensinar.
Atualmente, esses
contos (como todos da tradição oral) são, muitas vezes, classificados como
pertencentes à literatura infantil. Se os analisarmos com mais cuidado, veremos
que eles, em sua origem, eram destinados a ouvintes de todas as idades. Isso
fica fácil de entender quando lembramos que, antes do século XIX, não havia
essa divisão rígida que temos hoje em “mundo das crianças” e “mundo dos
adultos”, com os diferentes artigos de consumo (os materiais e os culturais)
divididos entre públicos bem definidos. Até essa época, em sociedades
ocidentais ou orientais, as crianças das classes populares não eram apartadas
dos adultos em situações de trabalho, diversão ou convívio familiar. É claro
que os mais velhos passavam ensinamentos tradicionais para os mais jovens, como
tendemos a fazer ainda hoje, mesmo que de modos diversos, mas a distância entre
gerações não era tão espacialmente determinada; o convívio entre velhos,
adultos e crianças era próximo, os nascimentos e as mortes não eram tratados de
forma “higienizada” como o são atualmente: nascimentos e mortes não são coisas
“da casa” são coisas do espaço hospitalar e subordinados ao cuidado médico. Os
acontecimentos da vida eram partilhados no convívio próximo e cotidiano.
Nesse ambiente
onde a maioria não tinha acesso à escolarização, a eletricidade chegava a
poucos lugares e ainda não tinha diminuído os mistérios da noite, e a internet
– nosso grande oráculo - não era sequer imaginada, a conversa era o meio mais
usual para o acesso aos conhecimentos acumulados. As reuniões nas famílias ou
em grupos sociais maiores, sempre eram animadas por contadores que guardavam na
memória as narrativas mais significativas para a transmissão da história e das
tradições de seu povo, entre eles os contos de ensinamento. Eram ocasiões de
grande envolvimento dos ouvintes, era nelas que se aprendia sobre a vida. E os
contos eram o instrumento, nesse momento eles ganhavam uma vida que não podemos
reviver pelas versões escritas. Como diz o historiador Robert Darton, um
estudioso do assunto, não há como recuperar os dispositivos gestuais e de
entonação usados na época por meio das frias páginas escritas.
Embora não
possamos recriá-los como eram, não deixam de ser, ainda hoje, encantadores e
poderosos, mesmo para os ouvintes adultos. Há contos de ensinamento originários
do mundo todo. São muito conhecidos aqueles que valorizam o esforço e a
esperteza dos fracos contra os fortes e poderosos (como Pequeno polegar,
João e Maria, O pequeno Alfaiate, João e o pé de feijão, Aladin
e a Lâmpada maravilhosa, etc.) e os que alertavam contra os perigos do
mundo (como Chapeuzinho Vermelho, Barba Azul etc.).
Como todos os
demais contos da tradição oral, as versões que conhecemos hoje resultam da
passagem por diferentes países e são influenciadas por suas versões escritas.
Por conta de serem atualmente, tratadas como literatura infantil, e porque
vivemos a divisão da sociedade em adultos (que tudo podem ver e saber) e crianças
(cuja mente não pode ser contaminada pelas maldades do mundo), as versões mais
recentes são abrandadas, mais românticas, em relação às primeiras que foram
escritas e que, provavelmente, são mais próximas da tradição oral. As primeiras
versões escritas continuam influenciando, é claro, as atuais. São elas a de
Perrault, no século XVII, na França, a dos irmãos Grimm, no século XIX na
Alemanha e as de Andersen, também no século XIX, na Dinamarca. Além das
escritas, no século XX houve versões gravadas em discos e fitas e versões
cinematográficas.
Os contos de
ensinamento são um material rico que desperta o interesse dos estudiosos.
Podemos encontrar correntes diversas que revelam perspectivas de diferentes
campos de estudo:
• Há os que vêem
neles elementos psicológicos¹ revelados na simbologia que pode se atribuir aos
personagens, aos elementos da paisagem às cores etc., úteis na análise
psicanalítica.
• Existem os que
os estudam como documentos históricos² que revelam, de forma crua, fatos
realmente vividos e retratados nos contos como advertência e como indicação de
atitudes que devem ser tomadas como proteção à vida.
• Muitos foram
analisados pelas formas que tomaram quando foram utilizados como ensinamentos
filosóficos³, morais e religiosos.
Alguns povos ainda
muito ligados aos ensinamentos da tradição oral estão recolhendo, mais
recentemente, contos que ainda circulam oralmente para registrá-los por meio da
escrita. Veja alguns lançamentos editoriais recentes:
• Contos
recolhidos da tradição oral africana por Nelson Mandela, Meus contos africanos,
livro publicado no Brasil pela editora Martins Fontes;
• Contos recolhidos da tradição de povos indígenas brasileiros,
por Daniel Munduruku e Heloisa Prieto, Antologia de contos indígenas de
ensinamento, publicado pela editora Salamandra.
¹ Entre os estudiosos da psicologia que estudaram os símbolos
nos chamados contos de fadas estão Bruno Betelheim, de linha freudiana, autor
do conhecido Psicanálise dos contos de fadas, publicado pela editora Paz
e Terra, e Marie Louise Von Franz, de linha junguiana, autora de alguns livros
sobre o assunto, entre eles A interpretação do conto de fadas, publicado
pela editora Paulus.
² Entre os historiadores que estudaram os contos populares de
ensinamento está Robert Darton, que escreveu O grande massacre de gatos e
outros episódios da história cultural francesa, livro publicado pela
editora Graal.
³ Entre os contos de tradição filosófico-religiosa oriental
estão os do personagem Nasrudin. Veja um dos contos em http://www.releituras.com/nasrudin_menu.asp
Heloisa Amaral
http://escrevendo.cenpec.org.br
..
domingo, 18 de fevereiro de 2018
O retrato oval
O castelo onde meu criado aventurara-se
a forçar nossa entrada, em vez de permitir que eu passasse a noite, ferido como
eu estava, ao relento, era uma daquelas construções lúgubres e grandiosas que há
tempos debruçam-se por sobre os Apeninos, não apenas de fato como na imaginação
da sra. Radcliffe. O lugar dava a impressão de ter sido abandonado havia pouco
tempo, em caráter temporário. Instalamo-nos em um dos aposentos menores e mais
humildes. O quarto ficava em um torreão afastado. A decoração era sofisticada,
mas antiga e maltratada pelo tempo. As paredes estavam cobertas por tapeçarias
e ornadas com troféus de armas; ademais, havia um número incomum de pinturas
modernas muito agradáveis com molduras de arabescos dourados. Essas pinturas,
que pendiam não apenas das paredes amplas, mas também de inúmeros recônditos
que arquitetura bizarra do palácio fazia necessários ‒ essas pinturas, talvez
em virtude de um delírio incipiente, despertaram-lhe um profundo interesse, de
modo que solicitei a Pedro que fechasse as pesadas cortinas daquele cômodo ‒
uma vez que já era noite ‒, que
acendesse os pavios de um candelabro alto que estava junto à cabeceira da minha
cama e que abrisse, tanto quanto possível, as cortinas franjadas de veludo
negro que envolviam a cama. Fiz esse pedido para que eu pudesse me entregar se
não ao sono, pelo menos à contemplação daqueles quadros e à leitura de um
pequeno tomo encontrado sobre o travesseiro, que se propunha a fazer críticas a
eles e a descrevê-los.
Por muito ‒ muito tempo eu li ‒ e
concentrado, absorto, eu contemplava. As horas passaram céleres e agradáveis
até que a meia-noite escura se instaurou. A posição do candelabro aborrecia-me
e, preferindo fazer um esforço a importunar meu criado, que dormia, estiquei o
braço e ajustei-o de modo a obter mais luz sobre o livro.
Mas esse ato teve consequências de todo
inesperadas. Os raios de inúmeras velas (pois havia muitas) iluminaram um nicho
do quarto que até então permanecera envolto na densa sombra de uma das colunas
da cama. E assim vi, iluminado, um quadro que até então me passara
despercebido. Era o retrato de uma menina em que despontavam os primeiros
sinais de mulher. Observei a pintura por alguns instantes e logo fechei os
olhos. O que me despertou esse impulso era algo que a princípio eu mesmo não
compreendia. Mas, enquanto as pálpebras permaneciam-me fechadas, vasculhei meus
pensamentos em busca de motivos para fechá-las. Um movimento impulsivo deu-me
tempo para pensar ‒ para ter certeza de que os olhos não me haviam logrado ‒
para serenar meus devaneios e lançar à tela um olhar mais sóbrio e mais
preciso. Passados alguns instantes, olhei mais uma vez para o retrato.
Que naquele instante eu o via de modo
objetivo estava além de qualquer dúvida; pois o primeiro clarão das velas sobre
a tela parecia ter dissipado o estupor onírico que aos poucos dominava meus
sentidos e me reconduzido, de sobressalto, à vigília.
O retrato, conforme descrevi, era o de
uma jovem moça. Era um simples busto, executado com a técnica que se costumava
chamar de vignette; o estilo era
muito semelhante ao das famosas cabeças de sully. Os braços, o colo e até mesmo
as pontas do cabelo radiante fundiam-se de modo imperceptível na sombra vaga e
mesmo assim densa que constituía o segundo plano da obra. O quadro ainda tinha
uma moldura oval, dourada com grande esmero e filigranas à mourisca. Como obra
de arte, nada poderia ser mais admirável do que a pintura em si. Mas não fora
nem a execução do trabalho nem a beleza imortal daquele semblante o que me
comovera de maneira tão súbita e tão contundente. Também seria impensável que
minha fantasia, já desperta de seu cochilo, houvesse tomado o retrato por uma
pessoa real. Percebi de imediato que as particularidades da composição, do
estilo vignette e da moldura haveriam
de ter afastado essa ideia no mesmo instante ‒ haveriam de ter impedido que
fosse sequer matéria de consideração. Ocupado com esses pensamentos, permaneci,
talvez por uma hora inteira, meio sentado, meio reclinado, com o olhar fixo no
retrato. Por fim, ao deslindar o segredo de seu efeito, deitei-me. Descobri que
o encanto do quadro residia na perfeição
absoluta da expressão naquele rosto que parecia vivo e que, a princípio
tendo-me assustado, logo pôs-me perplexo, subjugou e aterrorizou-me. Sob a influência de um espanto profundo e
reverencial, recoloquei o candelabro em seu lugar. Com a causa de minha
agitação fora de vista, debrucei-me com avidez sobre o volume que discorria
sobre as pinturas e suas histórias. Ao buscar o número que identificava o
retrato oval, li as obscuras e peculiares palavras que seguem:
“Era uma donzela de rara beleza, e só não
era mais amável do que alegre. Numa hora infeliz ela viu, amou e desposou o
pintor. Ele, arrebatado, estudioso, rigoroso, já tendo a Arte por esposa; ela,
uma donzela de rara beleza, e só não era mais amável do que alegre; toda luz e
sorrisos, brincalhona com os filhotes de corça, amava e apegava-se a tudo;
detestava somente a Arte, que era sua rival; temia apenas a palheta e os
pinceis e outros instrumentos indesejáveis que a privavam de ver o rosto do
amado. Assim, para a moça, era uma coisa terrível ouvir o pintor falar sobre o
desejo de retratar sua jovem esposa. Mas ela era humilde e dócil, e pousou por
semanas a fio em um torreão escuro onde a luz que iluminava a tela vinha apenas
de cima. Mas o pintor comprazia-se naquele trabalho, que se estendia hora após
hora, dia após dia. Ele tinha uma alma apaixonada, indomável, suscetível, e era
dado a devaneios; assim, não percebia
que a terrível luz que se filtrava
pelo torreão solitário abatia a saúde e o ânimo da esposa, que definhava à
vista de todos, menos da sua. Mesmo assim ela seguia sorrindo, sem queixar-se,
porque notava que o pintor (que era muito renomado) sentia um prazer imenso ao
desempenhar a tarefa, e trabalhava dia e noite para retratar a mulher que tanto
o amava, mas que a cada dia ficava mais desanimada e fraca. E na verdade
algumas pessoas que viam o retrato comentavam a semelhança à meia-voz, como se
falassem de um milagre, e de uma prova não só da habilidade do pintor como
também do profundo amor que ele nutria pela modelo que retratava com tanta
maestria. Mas, à medida que o trabalho chegava ao fim, o acesso ao torreão foi
vetado, pois o pintor tomara-se de arrebatamento e mal despregava os olhos da
tela, mesmo que fosse para olhar o rosto da esposa. E ele não percebia que as cores espalhadas sobre a tela vinham das faces
daquela que sentava ao seu lado. E ao cabo de várias semanas, quando faltavam
apenas alguns retoques ‒ uma pincelada nos lábios e um sombreado no olhar ‒, o
ânimo da esposa mais uma vez bruxuleou como a chama do interior do lampião. E
foi dada última pincelada, e logo o sombreado estava completo; então, por um
instante, o pintor ficou em transe diante da obra que executara; mas no momento
seguinte, ainda olhando a pintura, ficou pálido e começou a tremer;
horrorizado, gritou: ‘Isso é a própria Vida!’
e virou para contemplar a amada: Ela
estava morta!”.
Edgar Allan Poe. O gato preto e
outros contos. São Paulo: Hedra, 2008. p. 65-69.
Restos do carnaval
Não, não deste último carnaval. Mas não sei por que este me transportou
para a minha infância e para as quartas-feiras de cinzas nas ruas mortas onde
esvoaçavam despojos de serpentina e confete. Uma ou outra beata com um véu
cobrindo a cabeça ia à igreja, atravessando a rua tão extremamente vazia que se
segue ao carnaval. Até que viesse o outro ano. E quando a festa já ia se
aproximando, como explicar a agitação que me tomava? Como se enfim o mundo se
abrisse de botão que era em grande rosa escarlate. Como se as ruas e praças do
Recife enfim explicassem para que tinham sido feitas. Como se vozes humanas
enfim cantassem a capacidade de prazer que era secreta em mim. Carnaval era
meu, meu.
No entanto, na realidade, eu dele
pouco participava. Nunca tinha ido a um baile infantil, nunca me haviam
fantasiado. Em compensação deixavam-me ficar até umas 11 horas da noite à porta
do pé de escada do sobrado onde morávamos, olhando ávida os outros se
divertirem. Duas coisas preciosas eu ganhava então e economizava-as com avareza
para durarem os três dias: um lança-perfume e um saco de confete. Ah, está se
tornando difícil escrever. Porque sinto como ficarei de coração escuro ao
constatar que, mesmo me agregando tão pouco à alegria, eu era de tal modo
sedenta que um quase nada já me tornava uma menina feliz.
E as máscaras? Eu tinha medo, mas
era um medo vital e necessário porque vinha de encontro à minha mais profunda
suspeita de que o rosto humano também fosse uma espécie de máscara. À porta do
meu pé de escada, se um mascarado falava comigo, eu de súbito entrava no
contato indispensável com o meu mundo interior, que não era feito só de duendes
e príncipes encantados, mas de pessoas com o seu mistério. Até meu susto com os
mascarados, pois, era essencial para mim.
Não me fantasiavam: no meio das preocupações com
minha mãe doente, ninguém em casa tinha cabeça para carnaval de criança. Mas eu
pedia a uma de minhas irmãs para enrolar aqueles meus cabelos lisos que me
causavam tanto desgosto e tinha então a vaidade de possuir cabelos frisados
pelo menos durante três dias por ano. Nesses três dias, ainda, minha irmã
acedia ao meu sonho intenso de ser uma moça – eu mal podia esperar pela saída
de uma infância vulnerável – e pintava minha boca de batom bem forte, passando
também ruge nas minhas faces. Então eu me sentia bonita e feminina, eu escapava
da meninice.
Mas houve um carnaval diferente dos outros. Tão
milagroso que eu não conseguia acreditar que tanto me fosse dado, eu, que já
aprendera a pedir pouco. É que a mãe de uma amiga minha resolvera fantasiar a
filha e o nome da fantasia era no figurino Rosa. Para isso comprara folhas e
folhas de papel crepom cor-de-rosa, com as quais, suponho, pretendia imitar as
pétalas de uma flor. Boquiaberta, eu assistia pouco a pouco à fantasia tomando
forma e se criando. Embora de pétalas o papel crepom nem de longe lembrasse, eu
pensava seriamente que era uma das fantasias mais belas que jamais vira.
Foi quando aconteceu, por simples acaso, o
inesperado: sobrou papel crepom, e muito. E a mãe de minha amiga – talvez
atendendo a meu apelo mudo, ao meu mudo desespero de inveja, ou talvez por pura
bondade, já que sobrara papel – resolveu fazer para mim também uma fantasia de
rosa com o que restara de material. Naquele carnaval, pois, pela primeira vez
na vida eu teria o que sempre quisera: ia ser outra que não eu mesma.
Até os preparativos já me deixavam tonta de
felicidade. Nunca me sentira tão ocupada: minuciosamente, minha amiga e eu
calculávamos tudo, embaixo da fantasia usaríamos combinação, pois se chovesse e
a fantasia se derretesse pelo menos estaríamos de algum modo vestidas – à ideia
de uma chuva que de repente nos deixasse, nos nossos pudores femininos de oito
anos, de combinação na rua, morríamos previamente de vergonha – mas ah! Deus
nos ajudaria! não choveria! Quanto ao fato de minha fantasia só existir por
causa das sobras de outra, engoli com alguma dor meu orgulho que sempre fora
feroz, e aceitei humilde o que o destino me dava de esmola.
Mas por que exatamente aquele carnaval, o único de
fantasia, teve que ser tão melancólico?
De manhã cedo no domingo eu já estava de cabelos enrolados para que até de tarde o frisado pegasse bem. Mas os minutos não passavam, de tanta ansiedade. Enfim, enfim! chegaram três horas da tarde: com cuidado para não rasgar o papel, eu me vesti de rosa.
De manhã cedo no domingo eu já estava de cabelos enrolados para que até de tarde o frisado pegasse bem. Mas os minutos não passavam, de tanta ansiedade. Enfim, enfim! chegaram três horas da tarde: com cuidado para não rasgar o papel, eu me vesti de rosa.
Muitas coisas que me aconteceram tão piores que
estas, eu já perdoei. No entanto essa não posso sequer entender agora: o jogo
de dados de um destino é irracional? É impiedoso. Quando eu estava vestida de
papel crepom todo armado, ainda com os cabelos enrolados e ainda sem batom e
ruge – minha mãe de súbito piorou muito de saúde, um alvoroço repentino se
criou em casa e mandaram-me comprar depressa um remédio na farmácia. Fui
correndo vestida de rosa – mas o rosto ainda nu não tinha a máscara de moça que
cobriria minha tão exposta vida infantil – fui correndo, correndo, perplexa,
atônita, entre serpentinas, confetes e gritos de carnaval. A alegria dos outros
me espantava.
Quando horas depois a atmosfera em casa acalmou-se,
minha irmã me penteou e pintou-me. Mas alguma coisa tinha morrido em mim. E,
como nas histórias que eu havia lido sobre fadas que encantavam e desencantavam
pessoas, eu fora desencantada; não era mais uma rosa, era de novo uma simples
menina. Desci até a rua e ali de pé eu não era uma flor, era um palhaço
pensativo de lábios encarnados. Na minha fome de sentir êxtase, às vezes
começava a ficar alegre, mas com remorso lembrava-me do estado grave de minha
mãe e de novo eu morria.
Só horas depois é que veio a salvação. E se
depressa agarrei-me a ela é porque tanto precisava me salvar. Um menino de uns
12 anos, o que para mim significava um rapaz, esse menino muito bonito parou
diante de mim e, numa mistura de carinho, grossura, brincadeira e sensualidade,
cobriu meus cabelos já lisos, de confete: por um instante ficamos nos
defrontando, sorrindo, sem falar. E eu então, mulherzinha de 8 anos, considerei
pelo resto da noite que enfim alguém me havia reconhecido: eu era, sim, uma
rosa.
Clarice Lispector. Felicidade
clandestina. Rio de Janeiro: Rocco, 1998. P. 25-28.
segunda-feira, 29 de janeiro de 2018
O ENIGMA EM PESSOA
Introdução à obra de Fernando
Pessoa
Uma
vida e muitas invenções
Ao escrever
sobre Fernando Pessoa, o poeta mexicano Octavio Paz declara que “os poetas não
têm biografia. Sua obra é sua biografia”. Afirma ainda, que, no caso de Pessoa,
“nada em sua vida é surpreendente ― nada, exceto seus poemas.” Homem de vida pública
modesta, Fernando Pessoa dedicou-se a inventar. Através da poesia, criou outras
vidas, despertando, assim, o interesse por sua própria vida tão pacata.
Tornou-se, portanto, o enigma em pessoa.
Nascido em
Lisboa, no dia 13 de junho de 1888, Fernando Pessoa perdeu o pai aos cinco anos
de idade. Em 1896, a família se transfere, levada pelo segundo marido de sua mãe,
para a cidade de Durban, na África do Sul. Lá, cursa o secundário, cedo
revelando seu pendor para a literatura. Em 1903, ingressa na Universidade do
Cabo.
Fernando
Pessoa, educado em inglês, adquiriu o gosto pela poesia lendo Milton, Byron,
Shelley, Edgar Allan Poe e outros poetas de língua inglesa.
Deixando a família
em Durban, o jovem estudante, que até pensava em inglês, retorna a Portugal.
Fernando Pessoa matricula-se, então, no Curso Superior de Letras, que logo
abandona, e entra em contato com os grandes escritores da língua portuguesa.
Impressiona-se sobremaneira com os sermões do Padre Antônio Vieira (1608-1697)
e particularmente com a obra de Cesário Verde (1855-1886). Em 1908 começa a
trabalhar como tradutor de cartas comerciais para empresas estrangeiras. Deste
emprego modesto tirará o sustento durante toda a vida. Boêmio, encontra-se com
os amigos em cafés, especialmente a "Brasileira do Chiado" para
discutir literatura. Em 1912 conhece o poeta Mário de Sá-Carneiro (1890 -
1916), de quem se tornaria grande amigo. Em Paris, no dia 26 de abril de 1916,
Sá-Carneiro, após escrever cartas angustiadas a Fernando Pessoa, comete o suicídio.
A revista Orpheu, fundada em 1915 por Fernando
Pessoa, Mário de Sá Carneiro, e outros amigos, como Almada Negreiros e Luís de
Montalvor, representa o marco inicial do Modernismo em Portugal.
Após a
notoriedade, nem sempre positiva, adquirida com a publicação de Orpheu, Pessoa
mergulha em anos de relativa obscuridade. Publica um pequeno volume de poemas
em inglês, Antinuos and 35 Sonnets (1918), ensaios e poemas
esporádicos em algumas revistas, funda outras, envolve-se com o ocultismo e a
magia negra, dedica-se ao estudo da astrologia. Em 1934 publica, tomando
dinheiro emprestado, o livro Mensagem,
e com ele participa do prêmio "Antero de Quental". Recebe o prêmio de
Categoria B.
No dia 30 de
novembro de 1935, morre de cirrose hepática. Fernando Pessoa nunca teve, em
vida, o reconhecimento que merecia. Viveu modestamente, em relativa
obscuridade. Em vida, teve apenas dois livros publicados: alguns poemas em inglês
e Mensagem.
Os
heterônimos
Desde cedo,
Fernando Pessoa inventara seus companheiros. Ainda em Durban, imagina os heterônimos
Charles Robert Anon e H. M. F. Lecher. Cria também o especialista em palavras
cruzadas Alexander Search e outras figuras menores. Mas seria no dia 8 de março
de 1914 que os heterônimos começariam a aparecer com toda a força. Neste dia,
Pessoa escreve, de uma só vez, os 49 poemas de O Guardador de Rebanhos, de
Alberto Caeiro.
Como resposta,
escreve também os seis poemas de Chuva Oblíqua, que assina com seu próprio
nome. Logo, inventaria Álvaro de Campos e, em junho do mesmo ano, Ricardo Reis.
Um semi-heterônimo de Pessoa, Bernardo Soares, só em 1982 teve sua obra, O
Livro do Desassossego, composta por fragmentos de prosa poética, publicada.
Álvaro de
Campos e Ricardo Reis, assim como o próprio Pessoa, consideravam-se discípulos
de Alberto Caeiro, mas cada um seguiu os ensinamentos do mestre à sua forma, e
chegaram até a travar uma polêmica muito interessante sobre o fazer poético.
A última frase
de Fernando Pessoa foi escrita em inglês no dia de sua morte: “I know not what tomorrow will bring” ou “Eu
não sei o que o amanhã trará”.
O amanhã trouxe
para Fernando Pessoa uma admiração crescente. Suas obras foram aos poucos sendo
publicadas e ele é considerado hoje, ao lado de Camões, um dos dois maiores
poetas portugueses de todos os tempos.
Nenhum poeta,
em língua portuguesa, obteve tanto prestígio em todo o mundo. O obscuro e
modesto lisboeta tornou-se, assim, um nome importante em todo o mundo. Graças
ao poder da palavra. Graças à magia da poesia.
Pessoa
e os heterônimos
Mais do que
meros pseudônimos, outros nomes com os quais um autor assina sua obra, os heterônimos
são invenções de personagens completos, que têm uma biografia própria, estilos
literários diferenciados, e que produzem uma obra paralela à do seu criador.
Fernando Pessoa criou várias dessas personagens. Três deles foram excelentes
poetas e seus poemas estão nesta antologia, lado a lado com os que Pessoa
assinava com seu próprio nome. Os estudiosos seguem discutindo por que Pessoa
teria criado seus heterônimos. Seria esquizofrenia? Psicografia? Uma grande
piada? Um genial jogo de marketing poético? De certo, sabemos que a genialidade
de Fernando Pessoa é grande demais para caber em um só poeta. Como bem o sintetizou
o seu heterônimo mais atribulado, Álvaro de Campos:
"Quanto
mais eu sinta, quanto mais eu sinta como várias pessoas,
Quanto mais
personalidades eu tiver,
Quanto mais
intensamente, estridentemente as tiver,
Quanto mais
simultaneamente sentir com todas elas,
Quanto mais
unificadamente diverso, dispersadamente atento,
Estiver,
sentir, viver, for,
Mais possuirei
a existência total do universo,
Mais completo
serei pelo espaço inteiro fora."
Além disso,
Fernando Pessoa viveu durante os primórdios do Modernismo, uma época em que a
arte se fragmentava em várias tendências simultâneas, as chamadas Vanguardas:
Futurismo, Cubismo, Expressionismo, Dadaísmo, Surrealismo e muitas outras.
A arte, no
momento da explosão das inúmeras vanguardas modernistas por todo o mundo, também
se dividia e se multiplicava. Fernando Pessoa, introdutor das vanguardas
modernistas em Portugal, ao se dividir, levou a fragmentação da arte moderna às
últimas consequências.
Alberto
Caeiro (1889-1915)
Fernando Pessoa
explicou em detalhes a “vida” de cada um de seus heterônimos. Assim apresenta a
vida do mestre de todos, Alberto Caeiro:
"Nasceu em
Lisboa, mas viveu quase toda a sua vida no campo. Não teve profissão, nem educação
quase alguma, só instrução primária; morreram-lhe cedo o pai e a mãe, e
deixou-se ficar em casa, vivendo de uns pequenos rendimentos. Vivia com uma tia
velha, tia avó. Morreu tuberculoso."
Pessoa cria uma
biografia para Caeiro que se encaixa com perfeição à sua poesia, como podemos
observar nos 49 poemas da série O Guardador de Rebanhos, incluída por inteiro
nesta antologia. Segundo Pessoa, foram escritos na noite de 8 de março de 1914,
de um só fôlego, sem interrupções.
Esse processo
criativo espontâneo traduz exatamente a busca fundamental de Alberto Caeiro:
completa naturalidade.
“Eu não tenho
filosofia: tenho sentidos...
Se falo na
Natureza não é porque saiba o que ela é.
Mas porque a
amo, e amo-a por isso,
Porque quem ama
nunca sabe o que ama
Nem por que
ama, nem o que é amar...”
Caeiro escreve
com a linguagem simples e o vocabulário limitado de um poeta camponês pouco
ilustrado. Pratica o realismo sensorial, numa atitude de rejeição às elucubrações
da poesia simbolista.
Assim,
constantemente opõe à metafísica o desejo de não pensar. Faz da oposição à reflexão
a matéria básica das suas reflexões. Esse paradoxo aproxima-o da atitude
zen-budista de pensar para não pensar, desejar não desejar:
“Metafísica?
Que metafísica têm aquelas árvores?
A de serem verdes
e copadas e de terem ramos
E a de dar
fruto na sua hora, o que não nos faz pensar,
A nós, que não
sabemos dar por elas.
Mas que melhor
metafísica que a delas,
Que é a de não
saber para que vivem
Nem saber que o
não sabem?”
Caeiro
coloca-se, portanto, como inimigo do misticismo, que pretende ver “mistérios” por
trás de todas as coisas. Busca precisamente o contrário: ver as coisas como
elas são, sem refletir sobre elas e sem atribuir a elas significados ou
sentimentos humanos:
“Os poetas místicos
são filósofos doentes,
E os filósofos
são homens doidos.
Porque os
poetas místicos dizem que as flores sentem
E dizem que as
pedras têm alma
E que os rios têm
êxtases ao luar.
Mas as flores,
se sentissem, não eram flores,
Eram gente;
E se as pedras
tivessem alma, eram coisas vivas, não eram pedras;
E se os rios
tivessem êxtases ao luar,
Os rios seriam
homens doentes.”
É importante
lembrar que os poetas simbolistas, que antecederam Fernando Pessoa, estavam
impregnados de forte misticismo, herdado da poesia romântica. Enquanto românticos
e simbolistas carregavam seus poemas de religiosidade, Alberto Caeiro procura,
de forma coerente e lógica, afastar-se da reflexão sobre Deus.
“Pensar em Deus
é desobedecer a Deus,
Porque Deus
quis que o não conhecêssemos,
Por isso se nos
não mostrou...”
Seguindo esta
linha de pensamento religioso, Caeiro escreve um poema muito ousado sobre o
menino Jesus. No poema VIII de O Guardador de Rebanhos, destituído de
santidade, Cristo é representado como uma criança normal: espontânea, levada,
brincalhona e alegre. Nisso, está a religiosidade de Caeiro.
Em perfeita
consonância com sua busca de simplicidade e espontaneidade, Alberto Caeiro
escreve versos livres (sem métrica regular) e brancos (sem rimas).
Ricardo
Reis (1887-1935?)
Se Alberto
Caeiro era um camponês autodidata desprovido de erudição, seu discípulo Ricardo
Reis era um erudito que insistia na defesa dos valores tradicionais, tanto na
literatura quanto na política. De acordo com Pessoa:
"Ricardo
Reis nasceu no Porto. Educado em colégio de jesuítas, é médico e vive no Brasil
desde 1919, pois expatriou-se espontaneamente por ser monárquico. É latinista
por educação alheia, e um semi-helenista por educação própria."
Discípulo de
Caeiro, Reis retoma o fascínio do mestre pela natureza pelo viés do
neoclassicismo. Insiste nos clichês árcades do Locus Amoenus (local ameno) e do Carpe Diem (aproveitar o momento).
Neoclássico,
Reis busca o equilíbrio, a "Aurea Mediocritas" (equilíbrio de ouro) tão
prezada pelos poetas do século XVIII. A busca da espontaneidade de Caeiro
transforma-se em Reis, na procura do equilíbrio contido dos clássicos. Deixa de
ser uma simplicidade natural e passa a ser estudada, forjada através do
intelecto:
“Para ser
grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou
exclui.
Sê todo em cada
coisa. Põe quanto és
No mínimo que
fazes.
Assim como em
cada lago a lua toda
Brilha, porque
alta vive.”
A linguagem de
Ricardo Reis é clássica. Usa um vocabulário erudito e, muito apropriadamente,
seus poemas são metrificados e apresentam uma sintaxe rebuscada.
Os poemas de
Reis são odes, poemas líricos de tom alegre e entusiástico, cantados pelos
gregos, ao som de cítaras ou flautas, em estrofes regulares e variáveis. Nelas,
convida pastoras como Lídia, Neera ou Cloe para desfrutar de prazeres
contemplativos e regrados:
"Prazer,
mas devagar,
Lídia, que a
sorte àqueles não é grata
Que lhe das mãos
arrancam.
Furtivos,
retiremos do horto mundo
Os deprendandos
pomos."
As odes de
Reis, como as de Píndaro, recorrem sempre aos deuses da mitologia grega. Este
paganismo, de caráter erudito, afasta-se da convicção de Alberto Caeiro de que
não se deve pensar em Deus. Para Ricardo Reis, os deuses estão acima de tudo e
controlam o destino dos homens:
"Acima da
verdade estão os deuses.
Nossa ciência é
uma falhada cópia
Da certeza com
que eles
Sabem que há o
Universo.
Álvaro
de Campos (1890-1935?)
Fernando Pessoa nos informa que Álvaro
de Campos:
“Nasceu em
Tavira, teve uma educação vulgar de Liceu; depois foi mandado para a Escócia
estudar engenharia, primeiro mecânica e depois naval.
Numas férias
fez a viagem ao Oriente de onde resultou o Opiário. Agora está aqui em Lisboa
em inatividade."
Como
normalmente acontece com os poetas de carne e osso, o heterônimo Álvaro de
Campos apresenta três fases distintas em sua poesia. De início é influenciado
pelo decadentismo simbolista, depois pelo futurismo e por fim, amargurado,
escreve poemas pessimistas e desiludidos.
No poema Opiário,
o engenheiro Campos, influenciado pelo simbolismo, ainda metrifica e rima.
Escreve quadras, estrofes de quatro versos, de teor autobiográfico e já se
apresenta amargurado e insatisfeito:
"Eu fingi
que estudei engenharia.
Vivi na Escócia.
Visitei a Irlanda.
Meu coração é uma
avozinha que anda
Pedindo esmolas
às portas da alegria."
Campos em
seguida envereda pelo futurismo, adotando um estilo febril, entre as máquinas e
a agitação da cidade, do que resultam poemas como Ode Triunfal:
"À dolorosa
luz das lâmpadas elétricas da fábrica
Tenho febre e
escrevo.
Escrevo
rangendo os dentes, fera para a beleza disto,
Para a beleza
disto totalmente desconhecida dos antigos."
Desta fase são
também a Ode Marítima e a Saudação a Walt Whitman.
Homenageando o
grande escritor norte-americano, Campos, além de se referir ao conhecido
homossexualismo de Whitman, de que parece comungar, revela uma das mais fortes
influências sobre o seu estilo:
Os poemas de Álvaro
de Campos são marcados pela oralidade e pela prolixidade que se espalha em
versos longos, próximos da prosa. Despreza a rima ou métrica regular. Despeja
seus versos em torrentes de incontrolável desabafo.
A última fase
do heterônimo Álvaro de Campos, em que pontifica o poema Tabacaria, apresenta
um poeta amargurado, refletindo de forma pessimista e desiludida sobre a existência:
"Não sou
nada.
Nunca serei
nada.
Não posso
querer ser nada.
À parte isso,
tenho em mim todos os sonhos do
mundo."
Assim como
Ricardo Reis, também Álvaro de Campos confessa-se discípulo de Alberto Caeiro.
Mas se Reis envereda pelo neoclassicismo ao tentar imitar o mestre, Campos se
revela inquieto e frustrado por não conseguir seguir os preceitos de Caeiro. No
poema que se inicia pelo verso "Mestre, meu mestre querido", dialoga
com Caeiro, revelando toda sua angústia:
"Meu
mestre, meu coração não aprendeu a tua serenidade.
Meu coração não
aprendeu nada.
(...)
A calma que
tinhas, deste-ma, e foi-me inquietação."
Fernando
Pessoa, ele mesmo
A obra que
Fernando Pessoa assinou com seu próprio nome está reunida nos volumes Cancioneiro
e Mensagem.
O Cancioneiro é
composto por poemas líricos, rimados e metrificados, de forte influência
simbolista. É do Cancioneiro um dos poemas mais célebres de Pessoa,
Autopsicografia, em que reflete sobre o fazer poético:
"O poeta é
um fingidor.
Finge tão
completamente
Que chega a
fingir que é dor
A dor que
deveras sente.
E os que leem o
que escreve,
Na dor lida
sentem bem,
Não as duas que
ele teve,
Mas só a que
eles não têm."
O leitor atento
há de perceber que o poeta parte de uma dor sua, real, integral. Só quem sente
uma dor pode fingir outra que não sente. Só quem tem personalidade pode ser
ator. Como Fernando Pessoa. Já os leitores, leem no poema a dor ou o sentimento
que lhes falta e que gostariam de ter.
Sentem-na ao
atribuí-la a poeta.
Mensagem (1934),
foi o único livro em língua portuguesa publicado por Pessoa.
Os poemas do
livro estão organizados de forma a compor uma epopeia fragmentária, em que o
conjunto dos textos líricos acaba formando um elogio de teor épico a Portugal.
Traçando a história do seu país, Pessoa envereda por um nacionalismo místico de
caráter sebastianista.
O livro Mensagem está dividido em três partes: Brasão,
Mar português e O Encoberto.
Na primeira,
conta-se a história das glórias portuguesas. Na segunda, são apresentadas as
navegações e conquistas marítimas de Portugal. Na terceira, é apresentado o
mito sebastianista de retorno de Portugal às épocas de glória.
A primeira
parte de Mensagem, Brasão, se estrutura como o brasão português, que é formado
por dois campos: um apresenta sete castelos, o outro, cinco quinas. No topo do
brasão, estão a coroa e o timbre, que apresenta o grifo, animal mitológico que
tem cabeça de leão e asas de águia. Assim se dividem os poemas desta parte,
remetendo ao brasão de Portugal. Versam sobre as grandes figuras da história de
Portugal, desde Dom Henrique, fundador do Condado Portucalenses, passando por
sua esposa, Dona Tareja, e seu filho, primeiro rei de Portugal, Dom Afonso Henriques,
até o infante Dom Henrique (1394-1460), fundador da Escola de Sagres e grande
fomentador da expansão ultramarina portuguesa, e Afonso de Albuquerque
(1462-1515), dominador português do Oriente. Até o mito de Ulisses, que teria
fundado a cidade de Ulissepona, depois Lisboa, é apresentado:
"O mito é o
nada que é tudo.
O mesmo sol que
abre os céus
É um mito
brilhante e mudo."
A segunda parte, Mar português,
apresenta as principais etapas da expansão ultramarina que levou Portugal a
ocupar um lugar de destaque no mundo durante os séculos XV e XVI:
"E ao
imenso e possível oceano
Ensinam estas
Quinas, que aqui vês,
Que o mar com
fim será grego ou romano:
O mar sem fim é
português."
Já a última
parte, O Encoberto, apresenta o misticismo em torno da figura de Dom Sebastião,
rei de Portugal cuja frota foi dizimada em ataque aos mouros em 1578. Muitas
previsões, como a do sapateiro Bandarra e a do padre Antônio Vieira, preveem o
retorno de Dom Sebastião para resgatar o poderio de Portugal, criando o Quinto
Império, marcando a supremacia de Portugal sobre o mundo:
"Grécia,
Roma, Cristandade,
Europa, os
quatro se vão
Para onde vai
toda idade.
Quem vem viver
a verdade
Que morreu dom Sebastião?"
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