domingo, 4 de maio de 2014
Dificuldades ortográficas e gramaticais da língua portuguesa
1ª AULA DE LÍNGUA PORTUGUESA
Há ou a
Emprega-se:
a
·
Ideia de tempo futuro
Ex.:
Daqui a pouco teremos uma grande decisão de futebol.
·
Ideia de distância
Ex.: O teatro
fica a 5 quilômetros da escola.
·
Na expressão a tempo quando significa em
tempo
Ex.: Ele
chegou a tempo de tomar o ônibus.
há
·
Ideia de tempo passado (pode ser
substituído por faz)
Ex.: Há duas semanas que não o vejo.
ATIVIDADES
Complete
com há ou a:
1. Há dias
que não vou pescar.
2. Ele mergulhou a três metros de profundidade.
3. Daqui a alguns anos, os homens ainda se lembrarão do bate papo e das
conversas informais que, há muito
tempo, vem sendo importantes formas de comunicação.
4. Você se referiu, há dias, as
diferenças entre a linguagem escrita e a falada, dizendo que, só a alguns anos, começaram a ser,
realmente estudadas de modo científico.
5. Acredita-se que, de hoje a alguns anos, os homens terão uma
comunicação mais pessoal como há
muito deixaram de ter.
6. Há
séculos a preocupação do homem tem sido superar os limites do tempo e do espaço:
daqui a algum tempo, tenho certeza,
o homem voltará a sentir a necessidade de uma comunicação mais pessoal.
7. Há
uma semana que não leio jornais, daqui a pouco tentarei ler alguns números
atrasados.
8. A cidade fica a dez quilômetros daqui, parando tanto,
não chegaremos a tempo de ver o
espetáculo que começará daqui a 40
minutos.
9. O acidente ocorreu a poucos metros daqui, há uns dez minutos. Daqui a
pouco chegará a polícia.
10. Há tempo
não trabalho tanto quanto agora.
AONDE ou ONDE?
Aonde é empregado com verbos de
movimento: ir, chegar, levar.
Onde é empregado com verbos que
não indiquem movimento.
Ex.: Aonde você foi?
Onde você se hospedou?
ATIVIDADES
1- Onde estão as crianças?
2- Aonde você foi tão tarde?
3- Aonde levaremos o casal?
4- Onde fica a rua Direita?
5- Elas gostam
do apartamento onde moram.
6- Aonde foste com tanta pressa?
7- Ainda não
sei onde ficaremos hospedados.
8- Aonde levaremos este material?
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VIAGEM ou VIAJEM
Viagem é substantivo. Viajem é o verbo no presente do
subjuntivo.
Ex.:
Espero que você faça uma boa viagem.
Viajem bastante enquanto vocês podem!
ATIVIDADES
I –
Complete com viagem ou viajem:
1- Minha
última viagem de ônibus foi
maravilhosa.
2- Desejo que
vocês viajem confortavelmente.
3- Tivemos
alguns problemas durante a viagem.
4- Não creio
que eles ainda viajem.
5- Filha, como
foi a viagem?
6- Espero que
vocês viajem em paz.
7- Minha
última viagem foi tumultuada.
8- Acredito
que eles viajem bem cedo.
II
– Construa frases empregando viagem ou viajem
Eu tenho feito muitas
viagens de negócios.
Ele se despediu rápido, mas
desejou que vocês viajem tranquilamente.
3ª AULA DE LÍNGUA PORTUGUESA
ESTE, ESSE ou AQUELE
Os pronomes este(a), estes(as),
isto referem-se a seres próximos ao falante (emissor, aquele que fala).
Ex.: Este livro
aqui, na minha opinião, é ótimo.
Os
pronomes esse(a), esses(as), isso referem-se a seres
próximos ao ouvinte (longe do emissor ou falante).
Ex.:
Onde compraste sua gravata, Pedro?
Os
pronomes aquele(a), aqueles(as), aquilo referem-se a seres
distantes do falante e do ouvinte.
Ex.: Você conhece aquele homem lá?
I – Empregue este, esse,
aquele, flexionado ou não:
1- Veja aquela casinha lá no alto do morro.
2- Este meu cachorrinho de estimação é uma
graça, disse Carlinhos.
3- Onde compraste
esse brinquedo, Rodrigo.
4- Amigo, aquele senhor de pé, lá na frente, é
meu tio.
5- Filha, aonde
vais com esse pacote?
6- Esta revista aqui, na minha opinião,
está muito boa.
7- Você conhece aquela criança lá?
8- Essa revista que você está lendo é interessante?
9- Sim, esta revista é ótima.
10-
É aquela
que você leu ontem?
11-
Veja aquele
carro lá! Parece um modelo importado.
4ª AULA DE LÍNGUA PORTUGUESA
MAL = antônimo de bem
MAU = antônimo de bom
Ex.: A
menina dançou mal.
Estou num mau dia.
Observação:
Mau é sempre adjetivo. Modifica o substantivo.
Ex.:
Menino mau
Menina má
Mal pode ser advérbio (modo), substantivo ou conjunção (subordinativa adverbial temporal).
Ex.:
João fala mal. (advérbio)
A preguiça é um mal.
(substantivo)
Mal chegamos em casa, começou a chover. (conjunção)
ATIVIDADES
I - Complete
com mau ou mal.
1- Ele tem
fama de ser um mau caráter.
2- O paciente
chegou muito mal ao pronto socorro.
3- Infelizmente
tivemos um mau começo.
4- Minha filha
foi mal nas provas.
5- Não pense mal das pessoas.
6- Ele tem
sido um mau aluno.
II - Complete
com mau, maus, má, más, mal ou males, usando:
(1)
adjetivo (2) advérbio (3) substantivo (4) conjunção
1- Fiz um mau (1) negócio.
2- O filme
começou mal (4) chegamos no cinema.
3- Muitos
professores leem pouco e escrevem mal (2).
4- Você teve
uma má (1) ideia quando me propôs
deixar a cidade.
5- A
ignorância é o pior dos males (3).
6- Deixe de
ser má (1), menina.
7- João é de
índole má (2).
8- Mal (4) entrei na sala, todos cobraram
a promessa.
CESSÃO, SEÇÃO OU SESSÃO
Cessão é o ato de ceder.
Ex.: O governador fez a cessão
de um terreno aos sem-terra.
Seção é repartição.
Ex.: Você encontra isso na seção de roupas.
Sessão é a reunião de pessoas para um determinado fim.
Ex.: A primeira sessão de cinema começa às duas horas.
ATIVIDADES
I – Complete, empregando cessão, sessão ou seção:
1 – A cessão de direitos já foi entregue a nós.
2 – Hoje não haverá sessão de teatro.
3 – Na seção de eletrodomésticos você encontra o fogão.
4 – Houve uma sessão espírita naquela casa.
5 – Antes de morrer, fez a cessão de todos os seus bens.
6 – Em cada seção desta firma, há um chefe.
7 – Na Câmara dos
Deputados, realizou-se uma importantíssima sessão
para debates sobre projeto de lei referente à cessão de terrenos a empresários estrangeiros.
6ª AULA DE LÍNGUA PORTUGUESA
PORQUE, POR QUE, PORQUÊ, POR QUÊ
1 – Porque
é empregado em frases declarativas, isto é, como conjunção coordenativa explicativa ou conjunção subordinativa
causal.
Ex.: Venha, porque sua mãe precisa de você. (conjunção coord.
explicativa).
Não compareci à reunião porque estava
viajando. (conj. subordinativa
causal).
Obs.: - Porque é conj. coord. explicativa
quando, normalmente, aparece depois do verbo no imperativo.
2 – Por
que é empregado:
a) em frases interrogativas
(advérbio interrogativo).
Ex.: Por que você está
atrasado?
b) em frases declarativas, no
sentido de a razão pela qual, o motivo pelo qual.
Ex.: Não sabemos por que ela está aborrecida.
c) no sentido de pelo(a) qual,
pelos(as) quais.
Ex.: Esta foi a razão por que
não estive presente.
3 – Por quê é empregado nos mesmos casos
anteriores, mas no final das frases.
Ex.: Você não saiu mais cedo. Por quê?
Ele foi demitido sem saber por
quê.
4
– Porquê é empregado como conjunção substantiva (acompanhado de artigo)
no sentido de motivo.
Ex.: Não
sei o porquê da sua atitude.
Vamos
discutir os porquês destes problemas.
ATIVIDADES
I – Complete com porque,
porquê, por que ou por quê.
1 – Se
estão noivos, por que não se casam?
2 – Ele só
falou porque havia clima para isso.
3 – Não
fomos ao jogo porque choveu.
4 – O
espetáculo foi interrompido por quê?
5 – Por que o espetáculo foi interrompido?
6 – O
espetáculo foi interrompido porque
um dos atores sentiu-se mal.
7 – Não
sabemos por que o espetáculo foi
interrompido.
8 –
Ignora-se o porquê da interrupção do
espetáculo.
7ª AULA DE LÍNGUA PORTUGUESA
MAS, MÁS ou MAIS
Mas é conjunção e significa porém, todavia.
Ex.: O rapaz é culto, mas
pouco simpático.
Más é adjetivo e significa ruins.
Ex.: Não devemos andar com más companhias.
Mais pode ser advérbio e quer dizer aumento.
Ex.: Estuda mais e serás
aprovado.
Mais pode ser substantivo e quer dizer o restante.
Ex.: Por hoje é só, o mais
fica para amanhã.
Mais pode ser preposição e quer dizer em companhia de.
Ex.: Meu tio mais sua filha
estão vindo para cá.
ATIVIDADES
I – Complete com mas, más ou mais:
01 – Elas
são más companheiras de trabalho.
02 – Papai
foi a livraria, mas não encontrou
todos os livros.
03 – Leia mais e você escreverá melhor.
04 – Eu não
acredito em más ideias.
05 – É mais fácil criticar do que fazer.
06 – Ela
era bondosa, mas não demonstrava
isso.
07 – O seu
boletim apresentava notas boas e más.
08 – Os
índios trouxeram más/mais notícias
para nós.
09 – Mas minha filha, por que você não fez o
trabalho?
10 – O mais dos dias, ele acorda muito tarde.
11 – Papai mais seu irmão pensa assim.
12 – A vida
é dura, mas é maravilhosa.
13 – Suas más atitudes tornaram-no um homem sem
amigos.
II – Crie algumas frases, utilizando mas, más e
mais.
·
Ele é um aluno extrovertido,
mas estuda com seriedade.
·
Quem anda em companhia de
pessoas más, está propício a praticar o mal.
·
Você quer receber mais, quer
um salário maior, então qualifique-se. Estude mais.
8ª AULA
DE LÍNGUA PORTUGUESA
Para eu ou Para mim
* Usa-se para eu e não para mim com verbos no
infinitivo (eu deve ser sujeito do verbo no infinitivo). Nos demais casos usa-se para mim.
Ex.: Esse
livro é para eu ler?
Essas balas são para mim?
ATIVIDADES
I – Complete
com eu ou mim:
01 – Tenho que ler bastante para eu escrever melhor.
02 – Para mim não há nenhum problema.
03 – Não há desentendimento entre mim e ti.
04 – Percebi que o plano era para eu desistir do jogo.
05 – Não vá sem mim ao cinema.
06 – Sem eu autorizar, ninguém deve entrar
nesta sala.
07 – Já houve muitas discussões entre ti e mim.
08 – Para mim, aceitar esta condição é
humilhante.
09 – Todos se voltaram contra mim naquela
ocasião.
10 – Quanto a mim não faço objeções ao plano.
11 – Acho que eles estão olhando para mim.
12 – Todos aqueles trabalhos são para eu revisar.
Observação:
Os pronomes eu e tu do ponto de vista da
gramática normativa do Português culto, não devem ser acompanhada de
preposição. Assim, deve-se escrever:
Entre mim e ti não há segredos.
e
não
Observe
os exercícios 3, 5, 6, 7, 9 e 10 – casos em que a preposição rege os pronomes.
Preposições: - com, contra, de, desde, em, entre, para,
perante, sem, sob, sobre, para, a, até, após, perante, por, ante...
.
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sábado, 26 de abril de 2014
Poema 20, de Pablo Neruda
Poema 20
Posso escrever os
versos mais tristes esta noite.
Escrever, por exemplo:
“A noite está estrelada,
e tiritam, azuis, os
astros, ao longe”.
O vento da noite gira no
céu e canta.
Posso escrever os
versos mais tristes esta noite.
Eu a quis, e às vezes
ela também me quis...
Em noites como esta eu
a tive entre os meus braços.
Beijei-a tantas vezes
debaixo do céu infinito.
Ela me quis, às vezes eu
também a queria.
Como não ter amado os
seus grandes olhos fixos.
Posso escrever os versos
mais tristes esta noite.
Pensar que
não a tenho. Sentir que a perdi.
Ouvir a noite imensa,
mais imensa sem ela.
E cai o verso na alma
como na relva o orvalho.
Que importa que meu
amor não pudesse guardá-la.
A noite está estrelada
e ela não está comigo.
Isso é tudo. Ao longe
alguém canta. Ao longe.
Minha alma não se contenta
com tê-la perdido.
Como para aproximá-la
meu olhar a procura.
Meu coração a procura,
e ela não está comigo.
A mesma noite que faz
branquear as mesmas árvores.
Nós, os de outrora, já
não somos os mesmos.
Já não a quero, é verdade,
mas quanto a quis.
Minha voz procurava o
vento para tocar o seu ouvido.
De outro. Será de
outro. Como antes dos meus beijos.
Sua voz, seu corpo
claro. Seus olhos infinitos.
Já não a quero, é verdade.
Mas talvez ainda a queira.
É tão curto o amor, e é
tão longo o esquecimento.
Porque em noites como
esta eu a tive entre os meus braços,
minha alma não se
conforma em tê-la perdido.
Ainda que esta seja a
última dor que ela me causa,
e estes sejam os
últimos versos que eu lhe escrevo.
Pablo Neruda
segunda-feira, 21 de abril de 2014
Análise do conto: A caolha
A
caolha
de Júlia Lopes de Almeida
http://juarezfrmno2008sp.blogspot.com.br/2008/11/caolha.html
Elementos estruturais
Quanto ao narrador, o conto apresenta o foco narrativo com o narrador onisciente seletivo. Existem alguns
sumários narrativos nesta obra, sendo que o narrador, em 3ª pessoa, não participa
do enredo, é predominantemente extradiegético, mas através do discurso indireto
livre, consegue externar o ponto de vista das personagens.
Sabendo-se que o enredo não
deve ser apenas um resumo, e sim, o conjunto dos fatos (acontecimentos) de uma
história, e que toda história tem como começo, meio e fim, o que chega a
implicar numa estrutura conflitosa, pode-se afirmar que o enredo se divide nas
seguintes partes: exposição, complicação, clímax e desfecho. Na obra em questão,
a exposição corresponde à descrição da protagonista e dos ambientes em que
ocorrem as cenas, o sofrimento da mulher e de seu filho adolescente. A complicação
surge com a paixão de Antonico por uma moça que impôs condições para que
pudesse corresponder ao amor recebido. A condição era que o rapaz se afastasse
da mãe. Já o clímax se dá quando a protagonista não aceita a situação e se
revolta contra a proposta do filho, culminando com a expulsão do jovem e o
sofrimento ainda maior entre os dois. Sumarizando, o desfecho está nas linhas
finais do conto, quando o filho descobre o verdadeiro motivo da desgraça que
sofreu a mãe.
Dentre as personagens que se
destacam está a caolha (protagonista) e seu filho Antonico, a moreninha por
quem Antonico se apaixonou, e a madrinha. Além destas, podem ser observadas
também outras, as personagens secundárias que apenas atuam como figurantes
povoando os ambientes descritos. A moreninha, por sua postura desapropriada,
pode ser considerada uma antagonista, isto é, uma anti-heroína.
O espaço (horizontal) é predominantemente
físico, isto é, os ambientes onde se passam as ações. A humilde casa da
protagonista, o colégio, os locais onde Antonico trabalhava. Se dividem em
espaços abertos e fechados. São espaços abertos aqueles que retratam ambientes
como ruas, jardins, espaços voltados para a natureza, etc. Pode também se falar
em espaços psicológicos, nas passagens em que são narradas a reclusão do mundo
das personagens, visto que Antonico passava longos intervalos de tempo sem sair
de sua casa, uma citação da pequenez do espaço vivido.
O tempo, aparentemente se enquadrando
nos moldes da escola literária do Realismo, não é citado explicitadamente na
narrativa, entretanto o leitor pode pressupor que historicamente este seja apontado
como sendo o final do século XIX ou as primeiras décadas do século XX, seja
pelas expressões que nos remete para a referida época, e também pela falta de citações
que indiquem tratar-se de algum período mais afastado da contemporaneidade. Quanto
ao tempo de duração dos acontecimentos, pode-se dizer que é de aproximadamente
20 anos, visto que relata os fatos desde que a idade do rapaz ainda criança de
colo, até a idade em que ele pensa em se casar.
.
.
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Curiosidade é uma coceira nas ideias
Eu estava com a cabeça quente. Queria descansar,
parar de pensar. Para parar de pensar, nada melhor que trabalhar com as mãos.
Peguei minha caixa de ferramentas, a serra circular e a furadeira e fui para o
terceiro andar, onde guardo os meus livros.
Iria fazer umas estantes. As tábuas já estavam
lá. Nem bem comecei a trabalhar de carpinteiro e fui interrompido com a chegada
da faxineira. Com ela, sua filhinha de sete anos, Dionéia. Carinha redonda,
sorriso mostrando os dentes brancos, trancinhas estilo afro. O que era de se
esperar para uma menina da idade dela era que ficasse com a mãe. Não ficou.
Preferiu ficar comigo, vendo o que eu fazia. Por que ela fez isso? Curiosidade.
Curiosidade é uma coceira que dá nas ideias... Aquelas ferramentas e o que eu
estava fazendo a fascinavam. Queria aprender.
"O que é isso que você tem na mão?",
ela perguntou. "É uma trena", respondi. "Para que serve a
trena?", ela continuou. "A trena serve para medir. Preciso de uma
tábua de 1,20 m. Assim, vou medir 1,20 m. Veja!"
Puxei a lâmina da trena e lhe mostrei os números.
Ela olhou atentamente. "Você já sabe os números?", perguntei.
"Sei", ela respondeu. Continuei: "Veja esses números sobre os
risquinhos. O espaço entre esses risquinhos mais compridos é um centímetro. Um
metro tem cem centímetros, cem desses pedacinhos. Veja que, de dez em dez
centímetros, o número aparece escrito em vermelho. É que, para facilitar, os centímetros
são amarrados em pacotinhos de dez. Um metro é feito com dez pacotinhos de dez
centímetros. E 1,20 m são dez desses pacotinhos, para fazer um metro, mais
dois, para completar os 20 centímetros que faltam". Marquei 1,20 m na
tábua com um lápis e me preparei para cortá-la.
Assim se iniciou uma das mais alegres
experiências de aprendizagem que tive na vida. A Dionéia queria saber de tudo.
Não precisei fazer uso de nenhum artifício para que ela estivesse motivada. O
que a movia era o fascínio daquilo que eu estava fazendo e das ferramentas que
eu estava usando. Seus olhos e pensamentos estavam coçando de curiosidade. Ela
queria aprender para se curar da coceira... Os gregos diziam que a cabeça
começa a pensar quando os olhos ficam estupidificados diante de um objeto.
Pensamos para decifrar o enigma da visão. Pensamos para compreender o que
vemos. E as perguntas se sucediam. Para que serve o esquadro? Como é que as
serras serram? Por que é que a serra gira quando se aperta o botão? O que é a
eletricidade?
Lembrei-me de Joseph Knecht, o mestre supremo da
ordem monástica Castália, do livro "O Jogo das Contas de Vidro", de
Hermann Hesse. Velho, ao final de sua carreira, no topo da hierarquia dos
saberes, ele se viu acometido por um enfado sem remédio com tudo aquilo e
passou a sentir uma grande nostalgia. Ele queria descer da sua posição para
fazer uma coisa muito simples: educar uma criança, uma única criança, que ainda
não tivesse sido deformada pela escola. Pois ali estava eu, vivendo o sonho de
Joseph Knecht: a Dionéia, que ainda não fora deformada pela escola. Seu rosto
estava iluminado pela curiosidade e pelo prazer de entrar num mundo que não
conhecia.
Lembrei-me de Aristóteles em
"Metafísica": "Todos os homens têm, por natureza, um desejo de
conhecer: uma prova disso é o prazer das sensações, pois, fora até de sua
utilidade, elas nos agradam por si mesmas, e, mais que todas as outras, as
visuais...".
Acho que ele errou. Isso não é verdade para os
adultos. Os adultos já foram deformados. Acho que ele estaria mais próximo da
verdade se tivesse dito: "Todos os homens, enquanto são crianças, têm, por
natureza, desejo de conhecer...".
Para as crianças, o mundo é um vasto parque de
diversões. As coisas são fascinantes, provocações ao olhar. Cada coisa é um
convite.
Aí a Dionéia sumiu. Pensei que ela tivesse
voltado para a mãe. Engano. Alguns minutos depois ela voltou. Estivera
examinando uma coleção de livros. "Sabe aqueles livros, todos de capa
parecida? Os três primeiros livros estão de cabeça para baixo." Retruquei:
"Pois ponha os livros de cabeça para cima!".
Ela saiu e logo depois voltou. "Já pus os
livros de cabeça para cima." E acrescentou: "Sabe de uma coisa? O
livro com o número 38 está fora do lugar". Aí aconteceu comigo: fui eu
quem ficou estupidificado... Ela, que não sabia escrever, já sabia os números.
E sabia mais, que os números indicavam uma ordem.
Fiquei a imaginar o que acontecerá com a Dionéia quando, na escola, os seus
olhinhos curiosos serão subtraídos do fascínio das coisas do mundo que a cerca
e vão ser obrigados a seguir aquilo a que os programas obrigam. Será possível
aprender sem que os olhos estejam fascinados pelo objeto misterioso que os
desafia?
Pois sabe de uma coisa? Acho que vou fazer com a
Dionéia aquilo que Joseph Knecht tinha vontade de fazer...
Rubem Alves, 80, é educador, psicanalista, escreve histórias para
crianças e crônicas para adultos. Alguns de seus principais livros são: "O
Médico", "Por uma Educação Romântica" (ambos da editora Papirus)
e "Livro sem Fim" (Loyola).
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