segunda-feira, 21 de abril de 2014
Curiosidade é uma coceira nas ideias
Eu estava com a cabeça quente. Queria descansar,
parar de pensar. Para parar de pensar, nada melhor que trabalhar com as mãos.
Peguei minha caixa de ferramentas, a serra circular e a furadeira e fui para o
terceiro andar, onde guardo os meus livros.
Iria fazer umas estantes. As tábuas já estavam
lá. Nem bem comecei a trabalhar de carpinteiro e fui interrompido com a chegada
da faxineira. Com ela, sua filhinha de sete anos, Dionéia. Carinha redonda,
sorriso mostrando os dentes brancos, trancinhas estilo afro. O que era de se
esperar para uma menina da idade dela era que ficasse com a mãe. Não ficou.
Preferiu ficar comigo, vendo o que eu fazia. Por que ela fez isso? Curiosidade.
Curiosidade é uma coceira que dá nas ideias... Aquelas ferramentas e o que eu
estava fazendo a fascinavam. Queria aprender.
"O que é isso que você tem na mão?",
ela perguntou. "É uma trena", respondi. "Para que serve a
trena?", ela continuou. "A trena serve para medir. Preciso de uma
tábua de 1,20 m. Assim, vou medir 1,20 m. Veja!"
Puxei a lâmina da trena e lhe mostrei os números.
Ela olhou atentamente. "Você já sabe os números?", perguntei.
"Sei", ela respondeu. Continuei: "Veja esses números sobre os
risquinhos. O espaço entre esses risquinhos mais compridos é um centímetro. Um
metro tem cem centímetros, cem desses pedacinhos. Veja que, de dez em dez
centímetros, o número aparece escrito em vermelho. É que, para facilitar, os centímetros
são amarrados em pacotinhos de dez. Um metro é feito com dez pacotinhos de dez
centímetros. E 1,20 m são dez desses pacotinhos, para fazer um metro, mais
dois, para completar os 20 centímetros que faltam". Marquei 1,20 m na
tábua com um lápis e me preparei para cortá-la.
Assim se iniciou uma das mais alegres
experiências de aprendizagem que tive na vida. A Dionéia queria saber de tudo.
Não precisei fazer uso de nenhum artifício para que ela estivesse motivada. O
que a movia era o fascínio daquilo que eu estava fazendo e das ferramentas que
eu estava usando. Seus olhos e pensamentos estavam coçando de curiosidade. Ela
queria aprender para se curar da coceira... Os gregos diziam que a cabeça
começa a pensar quando os olhos ficam estupidificados diante de um objeto.
Pensamos para decifrar o enigma da visão. Pensamos para compreender o que
vemos. E as perguntas se sucediam. Para que serve o esquadro? Como é que as
serras serram? Por que é que a serra gira quando se aperta o botão? O que é a
eletricidade?
Lembrei-me de Joseph Knecht, o mestre supremo da
ordem monástica Castália, do livro "O Jogo das Contas de Vidro", de
Hermann Hesse. Velho, ao final de sua carreira, no topo da hierarquia dos
saberes, ele se viu acometido por um enfado sem remédio com tudo aquilo e
passou a sentir uma grande nostalgia. Ele queria descer da sua posição para
fazer uma coisa muito simples: educar uma criança, uma única criança, que ainda
não tivesse sido deformada pela escola. Pois ali estava eu, vivendo o sonho de
Joseph Knecht: a Dionéia, que ainda não fora deformada pela escola. Seu rosto
estava iluminado pela curiosidade e pelo prazer de entrar num mundo que não
conhecia.
Lembrei-me de Aristóteles em
"Metafísica": "Todos os homens têm, por natureza, um desejo de
conhecer: uma prova disso é o prazer das sensações, pois, fora até de sua
utilidade, elas nos agradam por si mesmas, e, mais que todas as outras, as
visuais...".
Acho que ele errou. Isso não é verdade para os
adultos. Os adultos já foram deformados. Acho que ele estaria mais próximo da
verdade se tivesse dito: "Todos os homens, enquanto são crianças, têm, por
natureza, desejo de conhecer...".
Para as crianças, o mundo é um vasto parque de
diversões. As coisas são fascinantes, provocações ao olhar. Cada coisa é um
convite.
Aí a Dionéia sumiu. Pensei que ela tivesse
voltado para a mãe. Engano. Alguns minutos depois ela voltou. Estivera
examinando uma coleção de livros. "Sabe aqueles livros, todos de capa
parecida? Os três primeiros livros estão de cabeça para baixo." Retruquei:
"Pois ponha os livros de cabeça para cima!".
Ela saiu e logo depois voltou. "Já pus os
livros de cabeça para cima." E acrescentou: "Sabe de uma coisa? O
livro com o número 38 está fora do lugar". Aí aconteceu comigo: fui eu
quem ficou estupidificado... Ela, que não sabia escrever, já sabia os números.
E sabia mais, que os números indicavam uma ordem.
Fiquei a imaginar o que acontecerá com a Dionéia quando, na escola, os seus
olhinhos curiosos serão subtraídos do fascínio das coisas do mundo que a cerca
e vão ser obrigados a seguir aquilo a que os programas obrigam. Será possível
aprender sem que os olhos estejam fascinados pelo objeto misterioso que os
desafia?
Pois sabe de uma coisa? Acho que vou fazer com a
Dionéia aquilo que Joseph Knecht tinha vontade de fazer...
Rubem Alves, 80, é educador, psicanalista, escreve histórias para
crianças e crônicas para adultos. Alguns de seus principais livros são: "O
Médico", "Por uma Educação Romântica" (ambos da editora Papirus)
e "Livro sem Fim" (Loyola).
quinta-feira, 27 de março de 2014
O homem que viu o lagarto comer seu filho
Era uma noite de terça-feira, e
eles viam televisão deitados na cama. Quase uma da manhã, estava quente. Ele
levantou-se para tomar água. A casa silenciosa, moravam num bairro tranquilo.
Não havia ruídos, poucos carros. Ao passar pelo quarto das crianças, resolveu
entrar. Empurrou a porta e encontrou o bicho comendo o menino mais velho, de
três anos e meio. Era semelhante a um lagarto e, na penumbra, pareceu verde.
Paralisado, não sabia se devia entrar e tentar assustar o animal, para que ele
largasse a criança. Ou se devia recuar e pedir auxílio. Ele não sabia a força
do bicho, só adivinhava que devia ser monstruosamente forte. Ao menos, forte
demais para ele, franzino funcionário. E meio míope, ainda por cima. Se
acendesse a luz do corredor, poderia verificar melhor que tipo de animal era.
Mas não se tratava de identificar a raça e sim de salvar o menino. Ele tinha a
impressão de que as duas pernas já tinham sido comidas, porque os lençóis
estavam empapados de sangue. E a calça do pijama estava estraçalhada sob as
garras horrendas do bicho repulsivo. Como é que uma coisa assim tinha entrado
pela casa adentro? Bem que ele avisava a mulher para trancar portas. Ela
esquecia, nunca usava o pega ladrão. Qualquer dia, em vez de um bicho, haveria
um homem roubando tudo, a televisão colorida, o liquidificador, as coleções de
livros com capas douradas, os abajures feitos com asas de borboletas, tão
preciosos. Pensou em verificar as portas, se estavam trancadas. Porém, percebeu
um movimento no animal, como se ele tentasse subir para a cama. Talvez tivesse
comido mais um pedaço do menino. Precisava intervir. Como? Dando tapinhas nas
costas do lagarto — não lagarto? Não tinha antas em casa e o cunhado sempre
dizia que era coisa necessária. Nunca se sabia o que ia acontecer. Ali estava a
prova. Queria ver a cara do cunhado, quando contasse. Não ia acreditar e ainda
apostaria duas cervejas como tal animal não existia. Pode, um lagartão entrar
em casa através de portas fechadas e comer crianças? Olhou bem. Comer crianças
não era normal, nem certo. Devia ser uma visão alucinada qualquer. Não era, O
bicho mastigava o que lhe pareceu um bracinho e o funcionário teve um instante
d ternura ao pensar naqueles braços que o abraçavam tanto, quando chegava do
emprego à noite. Urna faca de cozinha poderia ser útil? Mas quanto o bicho o
deixaria se aproximar, sem perigo para ele, o homem? Tinha de impedir o lagarto
de chegar à cabeça. Ao menos isso precisava salvar. Não conseguia dar um passo,
sentia-se pregado à porta. Preocupava-se. Todavia não se sentia culpado. Era
uma situação nova para ele. E apavorante. Como reagir diante de coisas novas e
apavorantes? Não sabia. Preferia não ter visto o lagarto, encontrar a cama
vazia, as roupas manchadas de sangue. Pensaria em sequestro ou coisas assim que
lia nos jornais. Sequestro o intrigaria, uma vez que ganhava pouco mais de dois
salários mínimos e não tinha acertado na loteria esportiva. Era apenas um
funcionário dos correios que entregava cartas o dia todo e por isso tinha
varizes nas pernas. Se gritasse, o lagarto iria embora? Continuou pensando nas
coisas que podia fazer, até que a mulher chamou, uma, duas vezes. Depois ela
gritou e ele recuou, sempre atento para saber quanto o bicho tinha comido do
filho. À medida que recuou perdeu a visão do quarto. Sentindo-se aliviado, pelo
que não via. A mulher chamava e ele pensou: o menino não chorou, não deve ter
sofrido. Voltou ao quarto ainda com esperança de salvá-lo pela manhã e decidiu
nada dizer à mulher. Apagaram a luz, ele se ajeitou, cochilou. Acordou sentindo
um cheiro ruim e quando abriu os olhos viu sobre seu peito a pata, parecida com
a do lagarto. Paralisado, não sabia se devia tentar as sustar o animal, ou
tentar sair da cama e pedir auxílio. Pelo peso da pata, o bicho devia ser
monstruosamente forte. Ao menos, forte demais para ele, franzino funcionário.
Aí se lembrou que tinha dois sacos de cartas a entregar, era época de Natal e
havia muitos cartões das pessoas para outras pessoas dizendo que estava tudo
bem, felicidades. Tinha que tirar este bicho de cima. Não, hoje não haveria
entregas. Nem amanhã, por muito tempo. O lagarto estava com metade de sua perna
dentro da boca.
O texto acima foi extraído do livro "Os melhores contos de Ignácio de Loyola Brandão", seleção de Deonísio da Silva, Global Editora — São Paulo, 1993, pág. 117.
domingo, 2 de março de 2014
Um caso de concordância nominal
Um substantivo
com dois artigos
Observe o seguinte exemplo:
Será
que tais ocorrências se justificam no âmbito de competência dos recursos especial e extraordinário...?
Trata-se
de mais um caso, bastante especial, de concordância nominal: temos aqui um
substantivo [recurso] e dois adjetivos [especial e extraordinário]. Isso em si não
é nada excepcional, pois a toda hora falamos, por exemplo:
·
jantar fino e gostoso (singular)
·
pessoa amável e correta (singular)
·
pessoas amáveis e corretas (plural)
·
resultados negativos e positivos
(plural).
A
diferença, no caso do exemplo inicial, é que o substantivo está no plural e os
dois adjetivos no singular. Por que é que não se diz “recursos especiais e
extraordinários?” Porque desse modo se passaria a ideia de que todos os
recursos (em discussão naquele momento) seriam especiais e extraordinários,
quando o que se quer transmitir é que há dois tipos de recurso: um especial e
um extraordinário.
Pelas
regras de concordância nominal, quando se tem um substantivo com mais de um
adjetivo, tanto se é possível deixar os adjetivos no singular quanto levá-los
para o plural. Não é uma questão de certo ou errado dizer “os setores direitos
e esquerdos” ou “os setores direito e esquerdo”, por exemplo. Ambas as formas são
gramaticalmente válidas. Mas quando se quer deixar claro, sem sombra de dúvida,
que se está falando de duas coisas distintas (ou seja, a soma de um singular
mais um singular) usa-se a fórmula substantivo
no plural e adjetivos no singular,
ou até mesmo um adjetivo no singular e um no plural, quando for o caso, como
abaixo se exemplifica:
Dê
os valores absoluto e relativo dos algarismos.
O
convênio será firmado com os governos
federal e estaduais.
As
zonas Leste e Oeste foram as mais afetadas em nossa cidade.
A decisão que puniu o servidor deverá ser mantida graças
à autonomia das instâncias penal e administrativa.
Encontram-se
fissuras nos lados direito e esquerdo do edifício.
As
cláusulas resolutivas expressa e tácita operam de pleno direito.
Os
filhos da embaixatriz estudaram as línguas
francesa, inglesa e alemã.
Outras possibilidades:
Na
ocorrência de um substantivo e mais de um adjetivo, também se pode fazer a concordância
de duas outras maneiras:
I – Substantivo no
singular e repetição do artigo:
Os
falsos piratas derrotaram a esquadra brasileira e a argentina.
Dê
o valor absoluto e o relativo dos algarismos.
Eles
estudaram a língua francesa, a inglesa e a alemã.
II
– Substantivo e adjetivos no singular:
Todos
os conflitos devem ser resolvidos na esfera
municipal e estadual.
O
cunho religioso e político dado ao seu pronunciamento
desagradou a muitos.
Assuntos
envolvendo corrupção seriam tratados no âmbito
federal e estadual, assegurou o senador.
Queriam
informação sobre a sua experiência
acadêmica e profissional.
Não
há necessidade de dizer “os cunhos religioso e político” ou “nos ambitos
federal e estadual”. O substantivo no
singular neste caso soa melhor. Contudo, deve-se utilizar o plural sempre que
possa haver ambiguidade ou margem a dúvidas e equívocos. Se se dissesse, por
exemplo, “derrotaram a esquadra
brasileira e argentina”, certamente se poderia pensar que se falava de uma
só esquadra, formada tanto por brasileiros como por argentinos. Não se tratando
de futebol, é até possível...
Fonte:
(Adaptado do
livro) PIACENTINI, Maria Tereza de Queiroz. Não
tropece na língua: lições e curiosidades do português brasileiro. Curitiba:
Bonijuris, 2012.
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domingo, 9 de fevereiro de 2014
O texto empresarial moderno no contexto contemporâneo
A modernização de estilo e de
linguagem das correspondências empresariais aconteceu a partir de um momento
histórico específico, o final dos anos 1970, como resultado de um contexto
econômico em que a disputa por uma fatia do mercado mundial se tornou muito
mais competitiva.
Uma das estratégias que passou a ser
utilizada mundialmente foi a redação de informações de maneira mais objetiva.
Com a necessidade de trabalhar na direção da qualidade e da fidelidade dos
clientes, tornou-se importante discriminar os procedimentos e padrões
utilizados no dia a dia, especificando-os em linguagem clara e sem duplicidade
de sentido, de forma a minimizar o retrabalho e acelerar o intervalo de tempo
entre os fatos e as ações.
Alguém pode argumentar que um texto
mal escrito não representa perda financeira substancial para uma empresa.
Entretanto, vejamos a seguir o que pode ocorrer quando circulam documentos
deste tipo.
§
Desmotivação para a leitura: não se lê mais o texto todo, faz-se apenas uma leitura perpendicular,
ou seja, passam-se os olhos para ver do que se trata.
§
Privilégio da troca oral de
informações: na linguagem oral não há garantias
de que a mensagem será transmitida com fidedignidade e, com frequência, ocorre
falta de clareza das informações principais. Neste tipo de comunicação é comum
não se observar a necessidade em verificar de que modo a mensagem está sendo
compreendida e repassada aos demais destinatários. Da mesma maneira, torna-se
mais fácil o descomprometimento com prazos e metas.
§
Falta de credibilidade: uma vez que a transparência é um dos valores mais prezados em nossos
dias, é preciso ter em mente que uma mensagem mal elaborada, ambígua ou
obscura, pode comprometer a credibilidade de uma área ou de toda a empresa
diante de seus clientes, sejam eles internos ou externos.
§
Retrabalho: o retrabalho ocorre tanto para o emissor quanto para o receptor da
mensagem. Há casos de empresas que precisaram de seis meses para operar um
recadastramento, quando o tempo inicial previsto era de apenas um mês. Tudo
isso porque um memorando estava escrito de maneira inadequada.
§
Conflitos internos constantes: a falta de clareza tende a gerar interpretações equívocas e perigosos
erros de comunicação, o que pode levar a desagregação ― algo contrário à sinergia
positiva necessária ao sucesso de qualquer ambiente profissional.
§
Ineficiência para novos negócios: o poder de persuasão de um texto é seriamente comprometido pela
ocorrência de equívocos, o que pode resultar em perdas de lucratividade.
É muito provável que a perda gerada
por falhas na transmissão de informações não possa ser mensurada em termos
estritamente financeiros, mas, com certeza, o prejuízo econômico provocado pelo
desgaste dessas falhas é substancial.
Conclui-se então que, em tempos de
mercados mundiais e de luta por sobrevivência na era da globalização, não basta
apenas investir em informação e tecnologia, mas naquilo que, dentro da
sociedade humana, tem valor de troca: a comunicação.
Em termos empresariais, essa
comunicação tem valores bem definidos: a clareza e a objetividade das
informações proporcionam e impulsionam a fidedignidade das mensagens e a
agilidade das decisões, molas da sobrevivência e do lucro.
O
princípio fundamental do texto empresarial
A comunicação empresarial, diferentemente
do texto jornalístico e do literário, tem como seu principio fundamental gerar
uma resposta objetiva àquilo que é transmitido. Ou seja, gerar uma ação. Não podemos
esquecer que existem diferenças entre os textos jornalísticos, literários e empresariais,
sendo que o jornalístico tem como objetivo levar a informação, o literário,
causar emoção, e o empresarial, conforme já mencionado, gerar uma ação.
Na correspondência empresarial, o
documento é sempre redigido para um cliente (interno ou externo) visando a uma
resposta dele. Se o cliente der a resposta que se espera, o texto foi eficaz;
se não, o texto tem de ser obrigatoriamente repensado e reescrito.
Não são poucos os casos empresariais
em que uma rápida providência que deveria resultar de uma mensagem demorou
meses só por causa de um texto mal escrito. Também não são raras as situações em
que relatórios são lidos e suas informações, embora importantíssimas, passam
completamente despercebidas pelo destinatário.
Imaginemos o caso de uma grande
empresa que precisasse alertar seus credenciados sobre várias mudanças —
algumas fundamentais, outras nem tanto. Na estruturação da carta, no entanto,
as informações secundárias acabaram obtendo tanto destaque que os credenciados
não valorizaram as principais. A consequência direta desse texto mal escrito seria
o atendimento parcial ao que foi solicitado, gerando posteriormente um gasto extraordinário
de tempo com telefonemas explicativos.
A
eficácia do texto
A eficácia do texto empresarial
moderno equivale à força da retórica clássica. Na Antiguidade, o discurso
retórico continha uma função expressiva e persuasiva consagrada pelos oradores.
Hoje em dia, o meio empresarial gasta fortunas em marketing direto,
esquecendo-se de usar em seu texto recursos que se configuram como arma
preciosa no relacionamento com o cliente, seja ele interno ou externo.
Há que se perceber, antes que seja
tarde demais, como o simples e-mail cotidiano funciona como instrumento de
endomarketing, reforçando ou conferindo novos rumos à cultura da empresa.
O texto escrito deve ser percebido
como um instrumento relacionado à função estratégica empresarial, intervindo
diretamente em três grandes dimensões: na cultura da empresa, no aspecto
motivacional e no econômico.
Características
do texto empresarial
Ao escrever a clientes, responder a solicitações,
passar informações sobre diversos assuntos, subsidiar informações para a tomada
de decisões, o texto deve apresentar frases curtas com um vocabulário simples e
formal.
Nem o vocabulário sofisticado nem as
frases longas e rebuscadas contribuem para um rápido entendimento da mensagem,
levando o leitor a um desperdício de tempo, quando não a uma desmotivação
progressiva que acarretará, inconscientemente, a rejeição da mensagem.
Não devemos nos esquecer que a mudança
cultural imposta na linguagem das correspondências reflete também um estilo da
vida moderna, em que a informação valorizada é aquela de mais fácil digestão —
haja vista a grande influencia dos meios de comunicação em massa.
Além disso, você deve reconhecer que
um leitor, por mais inteligente que seja, precisa de tempo para decodificar as
palavras, reconhecer seus sentidos e identificar as relações entre as ideias. Assim,
torna-se evidente que quanto menor o esforço para decodificar o texto, mais o
leitor aprenderá sobre a mensagem.
As características do texto
empresarial moderno são conceituadas conforme a seguir:
Concisão
Concisão significa expressar o máximo
de informações sem repetições e excesso de ideias. Para atingir esse objetivo,
é preciso determinar com precisão as informações realmente relevantes, bem como
avaliar o significado das palavras e expressões utilizadas. O texto bem escrito
e que pretende ser conciso é aquele em que todas as palavras e informações
utilizadas têm uma função significativa.
Objetividade
A objetividade refere-se às ideias
expressas. Em toda situação de comunicação há inúmeras ideias que permeiam a informação,
e todas elas estão, direta ou indiretamente, ligadas ao assunto.
Entretanto, para se expressar com
objetividade, deve-se estar atento para expor ao destinatário as ideias
principais, retirando do texto todas as informações consideradas supérfluas, que
levam o leitor a perder o foco do assunto tratado.
A questão principal, quando se fala
em objetividade, é saber definir quais são as informações relevantes que desejamos
transmitir naquele momento.
Clareza
Segundo o professor Rocha Lima, dois
procedimentos são fundamentais para a obtenção da clareza textual:
§ educar a nossa capacidade de organização mental;
§ aprender a pôr em execução convenientemente o material idiomático.
O motivo pelo qual se considera a
clareza uma das características mais difíceis de ser obtida está no fato de,
para aquele que emite a mensagem, a ideia já estar clara em sua mente. Ou seja,
o emissor julga erroneamente estar se expressando com a necessária clareza,
pois a ideia que está formulando lhe é familiar.
Essa relação entre o pensamento e a
linguagem traz como consequência direta uma falta de percepção mais apurada
sobre o próprio enunciado, uma vez que sua leitura está conectada à ideia.
Portanto, o emissor não percebe as falhas ou lacunas de sentido que podem
existir na passagem das ideias para seu corpo material, isto é, para as
palavras.
Um exemplo do que estamos dizendo são
as famosas brincadeiras verbais, muitas delas usadas como apelo de marketing,
do tipo:
Cachorro faz mal à moça!
Na verdade, é um sanduiche cachorro-quente
Vou mandar-lhe um porco pelo meu irmão, que está
bem gordo.
Presume-se que quem esteja gordo seja o porco
Pedro e Paulo vão se separar.
Eles não são casados entre si. Cada um vai separar-se de sua respectiva
mulher
Todas essas frases possuem duplo
sentido e são um problema à clareza. Muitos relatórios e ofícios também contêm
construções semelhantes, além de frases intercaladas, parágrafos longos, orações
excessivamente subordinadas, má colocação na ordem dos termos, excesso de concisão
etc.
Coerência
A coerência diz respeito à conexão entre
as ideias apresentadas no texto. Sem ela, as frases ficam perdidas e sem lógica.
Evidentemente, esta característica não é apenas do texto moderno, mas de toda e
qualquer comunicação escrita ao longo dos tempos. A língua escrita exige um
rigor e uma disciplina de expressão muito maiores do que a língua falada,
obrigando o emissor a expressar-se com harmonia tanto na relação de sentido
entre as palavras quanto no encadeamento de ideias dentro do texto.
Para se obter a adequada conexão de
sentido na relação entre as palavras, é necessário ater-se à significação de
cada uma delas. Por sua vez, o encadeamento lógico do texto se faz
principalmente mediante relações de tempo, espaço, causa e consequência.
Linguagem
adequada
Para que a linguagem de qualquer documento
empresarial seja adequada é preciso levar em conta quem será o destinatário da
mensagem e o assunto a ser tratado.
Como hoje em dia utiliza-se o e-mail
como canal privilegiado para a transmissão de vários tipos de informação,
deve-se tomar muito cuidado para que a linguagem não seja influenciada por este
tipo de canal, resultando em textos descuidados.
É necessário entender que o e-mail é
um meio para que a organização agilize seu fluxo de informações. Entretanto,
como toda mensagem transmitida constitui um documento empresarial, privilegia-se
uma linguagem mais formal.
Obviamente, na circulação de informações
entre colegas de departamento, a formalidade será substituída pela
informalidade, ainda que com os devidos cuidados.
Correção
gramatical
Qual é a imagem transmitida pela
pessoa que fala de maneira errada? E pela empresa que não cuida da linguagem de
seus documentos?
Erros de concordância, verbos mal
utilizados, problemas de acentuação, crases e vírgulas mal colocadas
comprometem a imagem da empresa, uma vez que a linguagem funciona como um
espelho da qualidade dos produtos ou serviços de uma empresa: o mesmo
tratamento dado à linguagem é estendido ao produto ou serviço oferecido ao
cliente.
Fonte: Adaptado do livro Redação empresarial. Miriam Gold. - 4. ed. - São Paulo: Pearson Prentice Hall, 2010
sábado, 1 de fevereiro de 2014
A Presidenta
Presidente ou presidenta?
Para acabar de vez com toda e qualquer dúvida se tem “presidente” ou “presidenta”.
Para acabar de vez com toda e qualquer dúvida se tem “presidente” ou “presidenta”.
Observe:
A presidenta foi estudanta?
No português existem os particípios ativos como derivativos verbais.
O particípio ativo do verbo atacar é atacante, de pedir é pedinte, o de cantar é cantante, o de existir é existente, o de mendicar é mendicante...
Qual é o particípio ativo do verbo ser?
O particípio ativo do verbo ser é ente. Aquele que é: o ente. Aquele que tem entidade.
Assim, quando queremos designar alguém com capacidade para exercer a ação que expressa um verbo, há que se adicionar à raiz verbal os sufixos -ante, -ente ou -inte.
Portanto, a pessoa que preside é PRESIDENTE, e não "presidenta", independentemente do sexo que tenha.
Diz-se: capela ardente, e não capela "ardenta"; se diz estudante, e não "estudanta"; se diz adolescente, e não "adolescenta"; se diz paciente, e não "pacienta".
Um exemplo deste erro grosseiro seria:
"A candidata a presidenta se comporta como uma adolescenta pouco pacienta que imagina ter virado eleganta para tentar ser nomeada representanta. Esperamos vê-la algum dia sorridenta numa capela ardenta, pois esta dirigenta política, dentre tantas outras suas atitudes barbarizentas, não tem o direito de violentar o pobre português, só para ficar contenta".
domingo, 19 de janeiro de 2014
Roteiro para análise de um poema
1º - Leitura;
2º - Vocabulário;
3º - Conteúdo (paráfrase);
4º - Estudo da
morfossintaxe (substantivos, adjetivos, verbos e outras classes gramaticais; orações);
5º - Unidade vocabular
(palavras-chave);
6º - Musicalidade do
poema:
a a)
Ritmo:
―
Rima
―
Silabação
―
Tonicidade
―
aliteração
b b)
Encadeamento
c c)
Eco,
sonância
d d)
Refrão
7º - Estudo das
frases para verificar a capacidade de o autor sintetizar as ideias;
8º - Relação do
poema com a realidade social e estética;
9º - Estruturas sintáticas
repetidas;
10º - Situação do poema
no tempo literário;
11º - Intertextualidade.
domingo, 5 de janeiro de 2014
Entrevista de emprego
Uma das mais comuns situações de diálogo formal.
Uma entrevista de emprego não se configura como a
mais importante e tampouco como única forma de diálogo formal. A mesma situação
poderá ser vivenciada de forma semelhante caso alguém, por exemplo, pleiteie
uma bolsa de estudos, um patrocínio ou oportunidade de estágio. Seja como for,
as orientações que oferecemos aqui podem ser extrapoladas para outros tipos de
diálogo formal, desde que feitas as devidas adaptações.
De modo geral, muitos dos cuidados que devemos ter
numa exposição oral ou num debate valem também para a entrevista de emprego:
chegar com antecedência ao local do encontro, evitar gírias e expressões
coloquiais, tomar cuidado com cacoetes gestuais ou linguísticos, obedecer à
norma padrão, manter uma postura relaxada e natural. Em relação à apresentação
pessoal, todo cuidado é pouco ¾ salvo em
situações excepcionais (como uma empresa conhecida pelo ambiente descontraído),
a roupa deve ser formal, discreta e em tons neutros. Deve ser evitado todo tipo
de excesso, seja no perfume, na maquiagem ou nas joias. Além disso, como você
manterá contato próximo com o entrevistador, é fundamental estar atento ao
asseio, inclusive da barba, das unhas e do cabelo.
Quanto
à preparação para a entrevista, cabe ao candidato:
1.
Aprender sobre a
empresa
¾ entre no site
da organização e estude os tipos de produtos ou serviços que ela oferece, sua
história, missão, valores, estrutura, quantas filiais possui, quais programas
sociais ou ecológicos desenvolve; enfim, tente descobrir o máximo que puder
sobre ela. Na hora da entrevista, o candidato que demonstra estar bem informado
sobre a empresa não apenas denota maior afinidade com ela, como prova ter duas
virtudes que os selecionadores valorizam muito: interesse e iniciativa.
2.
Estudar a
própria trajetória acadêmica e profissional ¾
o mínimo que se espera de um candidato é que ele seja capaz de recontar a
própria vida de maneira coerente. Esteja preparado para explicar por que optou
por sua carreira e, também, por que deixou seu último emprego ou pretende
deixar o atual. Caso tenha sido demitido, seja franco a respeito, sem se fazer
de vítima nem dar importância exagerada ao fato.
Algumas
dicas de especialistas sobre como se comportar durante a entrevista de emprego.
§
Mantenha
o telefone celular desligado;
§
Cumprimente
o entrevistador com um aperto de firme mão. Seja simpático, mas não force um
excesso de intimidade;
§
Não
dê respostas do tipo “sim” ou “não”. Mostre que você consegue articular as
ideias, porém sem estender-se demais;
§
Ouça
com atenção as perguntas do entrevistador e jamais o interrompa;
§
Se
você não tiver uma experiência profissional, enfatize os pontos positivos de
sua formação. Destaque cursos extracurriculares, participação em eventos,
qualquer tipo de vivência que tenha lhe trazido amadurecimento pessoal e
profissional;
§
Se
o entrevistador fizer uma pergunta do tipo “qual é o seu maior defeito?”, evite
clichês, como “o perfeccionismo”. Seja objetivo no reconhecimento do problema e
mencione que medidas você está tomando ou pretende tomar para resolvê-lo. Por
exemplo: se seu inglês é fraco, cite isso como um defeito, mas indique que vai
se matricular em um bom curso;
§
Esteja
preparado para informar sua pretensão salarial. Jamais a justifique com base em
necessidades pessoais (por exemplo, “preciso
ganhar X para poder pagar o aluguel
e a faculdade”), e sim na média do mercado;
§
Jamais
fale mal de ex-empregadores ou ex-colegas;
§
Na
final da entrevista, mostre interesse e disponibilidade para participar das
outras etapas do processo seletivo.
Fonte:
GUIMARÃES, Thelma de
Carvalho. Comunicação e linguagem.
São Paulo: Pearson, 2012. (Adaptado)
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segunda-feira, 16 de dezembro de 2013
Campos semânticos e campos léxicos
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Uma das maiores contribuições de
Saussure foi a de mostrar que a palavra não é uma unidade semântica isolada. Ao
procurar relações de aproximação (sinonímia) e de oposição (antonímia), abriu
ele caminho para os estudos da semântica estrutural, notadamente entre
linguistas da Alemanha e da Suíça, a partir das décadas de vinte e trinta,
trazendo a ideia de ligação significativa de certos conjuntos de signos
linguísticos, e.g., grupos de animais
domésticos – cão, cavalo, gato, boi,
que possuem em comum certos atributos (animais, irracionais, vertebrados,
quadrúpedes, domésticos etc.), colocando-os, assim, em um mesmo campo
semântico.
A esta associação de conceitos,
Dubois (1978, p. 366) chama de campo semântico em termos de polissemia. Não
alcança, porém, a aceitação da maioria dos linguistas, estes concordes com
Mattoso Câmara Jr., entendendo que campos semânticos constituem “famílias
ideológicas”.
Compreendido o sentido de campos
semânticos ou campos nocionais, cumpre verificar que cada unidade-membro da
família ideológica possui suas particularidades, vale esclarecer, traços mínimos
de significação que a distingue das demais. Quando se diz canino, equino,
felino, bovino, não se está colocando os signos em um mesmo campo semântico,
pois as especificações referem-se a cada signo, isoladamente. As palavras
unem-se em torno de uma palavra primitiva e a derivação constitui as “famílias
etimológicas”.
Veja-se:
Campo semântico Campo léxico
Indústria Operário
fábrica operacional
operário operariado
empresário operacionalizar
máquina operador
torno operar
metalúrgico operante
têxtil operacionismo
mão-de-obra
operativo
empresarial operoso
salário operosidade
sindicato
Ainda consoante Mattoso Câmara Jr., campos léxicos são famílias de palavras ou palavras cognatas, a saber, palavras que constituem um grupo de derivação incluindo-se a composição prefixal. Como exemplos:
§
Do
latim fiscus-i (cesto de vime, cesto
para dinheiro e, daí, dinheiro público): fisco, fiscal, fiscalista, fiscalizar,
confiscar, confiscação, confiscatório, confiscativo, confiscável.
§
Do
latim pecus-oris (rebanho, gado,
objeto de troca em tempos antigos): pecuária, pecuário, pecuniário, pecúlio,
peculiar, peculato, peculatório, peculador, pegureiro.
§
Do
lati torquere (torqueo, torquis, torsus sum, torsum ou tortum): torto, tortura, torturar, tortuoso, tormento, torculo,
torção, contorção, distorção, extorsão, contorcer, distorcer, extorquir,
retorquir, retorcer, retorção.
§
Do
latim loqui (loquor, locutus sum): loquaz, eloquência, colóquio, solilóquio,
locutor, locução, elocução, alocução, alocutário, interlocutor, perculatário.
§ Do
latim cursare (frequentativo de currere – correr): acorrer, concorrer,
decorrer, discorrer, escorrer, intercorrer, recorrer, socorrer, transcorrer,
curso, concurso, decurso, discurso, incurso, excursão, recurso, transcurso,
socorro.
§ Do
latim puer-i: puerícia, pueril,
puericultura, puérpera, puerperal, puerilidade, puerpério, puerilizar.
§
Do
latim trahere (traho-trahis-traxi-tractum): atração, abstração, contração,
extração, detração, retrair, contrair, subtrair.
FONTE: DAMIÃO, Regina Toledo. Curso de
português jurídico. 10. ed. – 2. Reimpressão. – São Paulo: Atlas, 2008.
(Adaptado).
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