"Olhai para os lírios do campo, como eles crescem; não trabalham, nem fiam. E eu vos digo que nem mesmo Salomão, em toda a sua glória, se vestiu como qualquer deles".

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Dentro da Noite

O conto trata da condição de Rodolfo, que teve encerrado o noivado com Clotilde, quando passou a perturbá-la com a obsessão que tinha de ficar enfiando um alfinete no braço da moça. Com o rompimento do compromisso, o rapaz passa a percorrer os caminhos da noite em busca de outras mulheres para praticar a sua infâmia. Pela maneira que o enredo se desenrola, tem-se a impressão de que a trama relata as impetuosidades dos usuários de drogas injetáveis, algo que em nenhum momento fica devidamente confirmado, o que se sabe, de fato, é que a mania do protagonista soa como um desvario de personalidade, um insano talvez deva ser a denominação apropriada para ser referir à condição da personagem. A cena se passa durante uma viagem de trem, quando encontrou o amigo Justino, a quem confidenciou as amarguras da situação em que se encontrava.
Confira um fragmento do conto no texto a seguir:
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“O rapaz que tinha o olhar desvairado perscrutou o vagão. Não havia ninguém mais - a não ser eu, e eu dormia profundamente... Ele então aproximou-se do sujeito gordo, numa ânsia de explicações.
— Foi de repente, Justino. Nunca pensei! Eu era um homem regular, de bons instintos, com uma família honesta. Ia casar com a Clotilde, ser de bondade a que amava perdidamente. E uma noite estávamos no baile das Praxedes, quando a Clotilde apareceu decotada, com os braços nus. Que braços! Eram delicadíssimos, de uma beleza ingênua e comovedora, meio infantil, meio mulher - a beleza dos braços das Oreadas pintadas por Botticelli, misto de castidade mística e de alegria pagã. Tive um estremecimento. Ciúmes? Não. Era um estado que nunca se apossara de mim: a vontade de tê-los só para os meus olhos, de beijá-los, de acariciá-los, mas principalmente de fazê-los sofrer. Fui ao encontro da pobre rapariga fazendo um enorme esforço, porque o meu desejo era agarrar-lhe os braços, sacudi-los, apertá-los com toda a força, fazer-lhes manchas negras, bem negras, feri-los... Por quê? Não sei, nem eu mesmo sei - uma nevrose! Essa noite passei-a numa agitação incrível. Mas contive-me. Contive-me dias, meses, um longo tempo, com pavor do que poderia acontecer O desejo, porém, ficou, cresceu, brotou, enraizou-se na minha pobre alma. No primeiro instante, a minha vontade era bater-lhe com pesos, brutalmente. Agora a grande vontade era de espetá-los, de enterrar-lhes longos alfinetes, de cosê-los devagarinho, a picadas. E junto de Clotilde, por mais compridas que trouxesse as mangas, eu via esses braços nus como na primeira noite, via a sua forma grácil e suave, sentia a finura da pele e imaginava o súbito estremeção quando pudesse enterrar o primeiro alfinete, escolhia posições, compunha o prazer diante daquele susto de carne que havia de sentir.”
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Dentro da Noite
João do Rio
pt.wikisource.org/.../Dentro_da_noite_(João_do_Rio)

Um comentário:

rafaela disse...
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