"Olhai para os lírios do campo, como eles crescem; não trabalham, nem fiam. E eu vos digo que nem mesmo Salomão, em toda a sua glória, se vestiu como qualquer deles".

quarta-feira, 29 de julho de 2015

Classificação dos Advérbios

O advérbio é uma classe de palavra invariável que funciona, fundamentalmente, como modificador do verbo. Pode, também, modificar um adjetivo e outro advérbio.

a) modificador do verbo
As crianças nunca saem sozinhas.
Paulo lavou o carro rapidamente.

b) modificador do adjetivo
Maria é extremamente bondosa.
As suas ideias estão bem elaboradas.

c) modificador de outro advérbio
Ele fala muito depressa.
Ela fez tudo bem devagar.

Às vezes, o advérbio pode modificar uma oração inteira ou, até mesmo, um substantivo:
Infelizmente nada pôde ser feito por João.
Somente Paulo se recusou a colaborar.

Os advérbios exprimem circunstâncias de tempo, lugar, modo, dúvida etc. Exemplos:
Fomos ao cinema ontem.
Eles moram aqui.
Todos caminharam silenciosamente.
Talvez eu viaje de avião.


* Os advérbios classificam-se de acordo com as circunstâncias que expressam. Há, na língua portuguesa, sete tipos de advérbio:

1. de afirmação
sim, certamente, realmente, efetivamente, deveras, incontestavelmente etc.

2. de dúvida
talvez, quiçá, possivelmente, provavelmente, acaso, porventura etc.

3. de intensidade
bastante, bem, assaz, mais, menos, muito, pouco, demais etc.

4. de lugar
aqui, lá, aí, acolá, abaixo, acima, adiante, além, aquém, atrás, defronte, dentro, fora, perto, longe, onde etc.

5. de modo
bem, mal, assim, depressa, devagar, melhor, pior etc.

NOTA
São também advérbios de modo quase todos os advérbios terminados em -mente: delicadamente, negligentemente, rapidamente, suavemente etc.

6. de negação
não, nunca, jamais

7. de tempo
agora, hoje, ontem, anteontem, amanhã, cedo, tarde, jamais, nunca, logo, sempre, outrora, presentemente, raramente etc.


Comentários sobre a Literatura Barroca no Brasil


Os ciclos de ocupação da terra sucederam-se em consonância com as possibilidades demográficas e os interesses econômicos. Do litoral para o interior foram se definindo manchas de povoamento que originaram ilhas culturais. Estas, segundo Viana Moog, foram sementes da literatura regionalista que se faz presente ao longo de toda a história literária do país.
Nesta primeira fase é sensível a presença da Europa: Ibéria, no barroco; Itália, no arcadismo; francesa, no iluminismo (ver Século das Luzes). Define-se, ainda, a mediação da metrópole na transposição de valores estéticos do arcadismo e iluminismo. As manifestações literárias dos três primeiros séculos brasileiros respondem, antes de tudo, ao problema da expansão ultramarina. A Carta de Pero Vaz de Caminha, oficializando para Portugal a posse das terras brasileiras, e o Diário de Navegação de Pero Lopes e Martim Afonso de Souza (1530) podem ser incluídos na Literatura de Viagens, gênero definido ao longo do século XV, em Portugal.
O processo expansionista desdobra-se na colonização. Vencido o mar, começa a preocupação com a terra desconhecida que significava um desafio, pois, aparentemente, era indomesticável. Logo surgiram propostas para a possível resistência, agressividade e inconquistabilidade do índio. Esta preocupação manifesta-se na necessidade de registrar informações, organizar elencos e catálogos. Por estes motivos são importantes os Textos de Informação, entre os quais se inserem Tratado da terra do Brasil (1570) e História da província de Santa Cruz (1576), de Pero de Magalhães Gandavo; Narrativa epistolar e o tratado da terra e gente do Brasil (1587), de Gabriel Soares; Diálogo das grandezas do Brasil (1618), de Ambrósio Fernandes Brandão; Diálogo sobre a conversão do gentio, do padre Manuel da Nóbrega; História do Brasil (1627), de frei Vicente de Salvador e os três primeiros séculos das Cartas jesuíticas.
Estes textos descrevem a terra, os costumes silvícolas e revelam a expectativa do colonizador em encontrar ouro e prata. Já os textos jesuíticos, mesmo os literários, de poesia ou teatro, têm como pano de fundo a preocupação missionária, alimentada pelo clima proporcionado pelas resoluções do Concílio de Trento. Esta realidade é facilmente identificada na obra do padre, poeta e dramaturgo José de Anchieta (1534-1597), autor de autos pastoris, entre eles, o Auto representativo da festa de São Lourenço (1583), e de poemas em metros breves, de tradição medieval espanhola e portuguesa, entre os quais se destacam Santíssimo Sacramento e A Santa Inês.
O teatro liga-se aos vilancicos ibéricos, centrando-se no antagonismo entre anjos e demônios, bem e mal, vício e virtude. Nos poemas épicos, Anchieta mostra a influência de Virgílio. O polilinguismo de muitas poesias e autos expressa uma atitude adaptativa ao meio. A palavra escrita ajustava-se à nova realidade, tentando inculcar valores portugueses e cristãos na população autóctone e mestiça que começava a se constituir. Estes primeiros escritos, feitos no Brasil e sobre o Brasil, de acordo com critérios estéticos vigentes no ocidente, desvendam relações com estilos de vida e arte. São importantes por conterem uma literatura de imaginação, possível raiz do mito ufanista que se projeta através do tempo até a contemporaneidade.
Esteticamente, as criações literárias dos três primeiros séculos são barrocas, neoclássicas e arcádicas. A organização da prosa identifica-se com o barroco no processo de identificação ilusória e sensorial, expresso nos jogos de palavras, trocadilhos e enigmas. Conceitualismo e cultismo, na melhor tradição cultural ibérica, misturam o mitológico ao descritivo, a alegoria ao realismo, o patético ao satírico, o idílico ao dramático. A literatura brasileira nasceu com o barroco, pelas mãos jesuíticas. Neste trabalho merecem destaque o padre Antônio Vieira, Bento Teixeira, Gregório de Matos, Manuel Botelho de Oliveira, secundados por frei Manuel de Santa Maria Itaparica, padre Simão de Vasconcelos, frei Manuel Calado, Francisco de Brito Freire. Quando não integrantes da Companhia de Jesus, muitos destes autores foram educados pelos jesuítas, nos colégios ao lado das igrejas, em aulas de letras e humanidades, focos de transmissão da cultura metropolitana. Nelas, escoava-se a tradição portuguesa da retórica, base da formação intelectual e literária, preocupada em ensinar a falar e escrever com persuasão e beleza. Projetava-se, também, a postura intelectual da imitação de modelos, realizada nos escritos destes primeiros autores, em variados graus que vão da inspiração à glosa e tradução.
Nesta primeira fase, a literatura brasileira segue o ritmo lusitano do tempo. A obra do jesuíta, catequista e orador sacro Antônio Vieira (1608-1697) sincretiza marcas europeias, portuguesas e brasileiras. Os 15 volumes de Sermões são de particular interesse para nossa literatura, principalmente o Sermão do primeiro domingo da Quaresma (1653) que versava sobre a extinção do escravismo índio e o Sermão XIV do rosário (1633), sobre os escravos negros. Na História do futuro, Antônio Vieira escreve um tratado sobre o profetismo onde defende a mística do 5º Império do Mundo, que seria português, com sede no Brasil. Beirando a heterodoxia, este texto obrigou seu autor a explicar-se ante o Tribunal do Santo Ofício. Maior orador sacro do Brasil, o padre Antônio Vieira era um barroco. Sua oratória é prolixa, cheia de alegorias nas quais revela a argúcia de seu raciocínio.
Bento Teixeira (1561-1600), cristão-novo português, nascido no Porto e morador em Pernambuco, escreveu a Prosopopeia, exaltando o terceiro donatário da Capitania de Pernambuco, Jorge de Albuquerque Coelho. Obra barroca, calcada em Os Lusíadas, exalta o herói estoico cristão, realçando valores como o heroísmo, a estirpe, o poder, a glória, a honra, a riqueza, o saber e as virtudes. Inspira-se na terra e tem um caráter eminentemente social e individual. Criação diretamente estruturada pela realidade permite a realização, num plano imaginário, de uma coerência jamais atingida pelo autor, cripto-judeu, no plano real.
Gregório de Matos (1838-1696), natural da Bahia, cria uma poética composta de poemas líricos, religiosos e satíricos, nos quais retrata o Brasil com pessimismo realista, mesclado de obscenidades. Pela temática e técnica estilística, é a mais forte expressão individual do barroco na colônia. Manifestação da mestiçagem cultural, Gregório de Matos coloca em seus escritos antíteses, equívocos e jogos de palavras, transpostos dos modelos de Góngora e Quevedo. Sua obra é marcada pelos dualismos: religiosidade e sensualismo, misticismo e erotismo, valores terrenos e aspirações espirituais.
Manoel Botelho de Oliveira (1838-1711), publicou Musica do Parnaso (1705), dividido em quatro coros de rimas portuguesas, castelhanas, italianas e latinas, com seu descante cômico reduzido em duas comédias: Hay amigo para amigos e Amor, Engaños y Celos. Poeta-literato segue os modelos de Marino Góngora e, em seu processo estilístico, destacam-se a analogia e a acentuação dos contrastes.
Frei Manoel de Santa Maria (1704-1768), escreveu uma epopeia sacra, Eustáquidos (1769), imitação dos épicos, e um poema, Descrição da cidade da Ilha de Itaparica. Simão de Vasconcelos produziu uma obra de edificação religiosa em que se distingue a Vida do venerável padre José de Anchieta (1672).
Frei Manuel Calado (1584–1654), inspira-se na defesa da terra contra invasores estrangeiros para criar Valeroso Lucideno (1648). De autoria de Francisco Brito Freire é A Nova Lusitânia (1675). Nesta primeira fase não se deve estranhar o teor das manifestações literárias. Primeiro, pela fragilidade da vida intelectual na colônia, fato compreensível uma vez que a colonização foi um fenômeno burguês, com caráter empresarial, visando à produção e o lucro no comércio do açúcar. Não havia público para a produção literária, nem interesse nela, em um meio acrítico e desinteressado da vida cultural. No entanto, não houve deseuropeização: as estruturas do mundo que se erigia eram genuinamente portuguesas, embora passíveis de adoçamentos. As manifestações literárias foram, pois, desdobramentos da literatura portuguesa que, por sua vez, ainda não tinha desenvolvido, perfeitamente, os gêneros literários. Salvo raras exceções, a literatura barroca produzida na colônia acabou sendo de qualidade inferior. A própria obra de Anchieta, a mais alta expressão do barroco no seu tempo, não teve valor estético de primeira grandeza.


segunda-feira, 27 de julho de 2015

Semântica

Signo
Significante e significado

Signo é uma unidade linguística que consiste na combinação de um conceito, denominado significado, e de uma imagem acústica, denominada significante.
A palavra caneta, sequência dos grafemas c a n e t a, é o significante, e a ideia do instrumento em forma de tubo com o qual se escreve a tinta é o conceito ou significado.
Saussure (1969) estabelece que o signo une não uma coisa e uma palavra, mas um conceito e uma imagem acústica, isto é, significado e significante. O significado é a informação (ideia ou conteúdo) comunicada, enquanto o significante é a parte sensível do signo, aquilo que se vê ou ouve.
O signo é sempre criado pelo falante no seu grupo social e somente após ter sido assimilado pela sua comunidade, ao ser socializado, passa realmente a existir, adquire significação real.

Símbolo
Outra entidade linguística que devemos mencionar é o símbolo. Este, por um certo processo de analogia, representa outra entidade: a cruz é o símbolo da cristandade, a estrela de Davi é o símbolo do judaísmo, a balança é o símbolo da justiça e o vermelho é o símbolo do perigo. Simbolizar significa representar o real e, consequentemente, determinar uma relação de significação entre duas coisas. O símbolo é, pois, toda e qualquer representação de uma realidade por outra.
O símbolo existe e é formado partindo-se de um certo grau de analogia inferido ou detectado, estabelecendo-se uma associação entre duas entidades.
O símbolo é com frequência confundido com o signo ou tomado com valor de significante. Saussure (1969) já previra o possível mal-entendido entre signo e símbolo, ao afirmar que, enquanto no primeiro a relação significante/significado é totalmente arbitrária, no último existe sempre um rudimento de ligação natural entre o significante e o significado.
É importante observar que o significado é um reflexo objetivo de um sistema de relações e associações num dado momento e numa determinada comunidade.

Denotação
Denotação é o sentido lexical de um termo. Trata-se da significação lexical ou primeira de uma palavra com a qual nos deparamos ao consultar o dicionário.

Conotação
Conotação é o sentido figurado ou subjacente, muitas vezes de teor subjetivo, que um termo pode apresentar, num determinado contexto, paralelamente à sua significação usual. A palavra frio, por exemplo, admite leituras diferentes de acordo com o contexto. Observe:
a) O café está frio.
b) Ele tem coração frio.
Na oração (a), temos frio no sentido denotativo, quer dizer, privado de calor. Em (b), a palavra frio assume um sentido conotativo, pois significa insensível.


sábado, 25 de julho de 2015

São Bernardo

Graciliano Ramos

A obra São Bernardo, de Graciliano Ramos, apesar de pertencer à Segunda Geração Modernista, cujos propósitos, em prosa, ligam-se à denúncia social, à apresentação questionadora e crítica do Brasil, afasta-se, ao mesmo tempo, da mesma.
Notamos, ao analisar o romance, que, se há denúncia, esta fica em segundo plano. Todo o romance envolve a tensão psicológica de Paulo Honório, que se desenvolverá, aqui, em dois planos: o Paulo Honório narrador e o Paulo Honório personagem.
Paulo Honório causa-nos o "estranhamento" por ser um herói problemático, buscando o entendimento na avaliação de si mesmo. A história é contada num tempo posterior aos fatos, ou seja, Paulo Honório, no passado, vivenciou uma série de experiências, que, agora, num tempo atual (já com cinquenta anos), pretende relatar em livro. Toda a narrativa se envolverá num processo de circularidade e alternâncias: no enredo central, teremos Paulo Honório personagem; na narração, aparecerá o Paulo Honório avaliativo, distante dos fatos, buscando entender a si, ao mundo e até mesmo ao seu processo de criação.
Inicialmente, o narrador explica ao leitor todo o seu processo de escritura, fazendo-o participar da obra. Em todo o primeiro capítulo do livro, Paulo Honório narrador expõe seu projeto de fazer a obra pela "divisão do trabalho". Para tanto, "Padre Silvestre ficaria com a parte moral e as citações latinas; João Nogueira aceitou a ortografia e a sintaxe; prometi ao Arquimedes a composição tipográfica; para a composição literária convidei Lúcio Gomes de Azevedo Gondim, redator e diretor do ‘Cruzeiro’."(p.7).
Percebe-se que, por meio de um processo de metalinguagem, coloca-se o processo da escritura em discussão. Junto com ele, descobrimos que o processo de elaboração é falho ("O resultado foi um desastre."- p. 8), pois mascara seu autor: ele é um homem rústico, e não aquilo que estavam fazendo que ele parecesse (...está pernóstico, está safado, está idiota. Há lá quem fale dessa forma!- p.9).
Desta maneira, Paulo Honório coloca-se como alguém simples, não afeito a técnicas narrativas normalmente consideradas sofisticadas, daí as referências à "língua de Camões". É por isso que assumirá a escritura do romance que tratará de sua história, desde guia de cegos a proprietário da fazenda São Bernardo: narrativa que se pretende escrita de forma rústica para tratar de uma "alma agreste", conforme ele se autoqualifica.
Porém, engana-se o leitor se imagina encontrar um texto desconexo, escrito por alguém que se diz semi-analfabeto; ao contrário, deparamo-nos com um texto, que, em termos de linguagem, poderia, inclusive, ser classificado como clássico: a linguagem é "enxuta", sem preocupação descritiva ou abuso de linguagem figurada; é a nítida preferência pelo substantivo, pela informação direta, aproximando-se de uma linguagem referencial, bastante afastada daquilo que chamaríamos, tradicionalmente, de poético. Neste sentido, poderíamos fazer uma comparação com Machado de Assis, pois é a mesma preferência pela análise psicológica, por conseguinte ocupando maior espaço na obra.
É aí que encontramos a iconicidade: é a linguagem reveladora da personagem, ambos agrestes, áridos. Todavia, essa simplicidade toda não nos leva a uma narrativa primitiva, linearmente organizada. O texto é carregado de digressões e processos metalinguísticos.
O narrador quer criar a ilusão de que está escrevendo o texto sem planejamento, sem cálculo prévio, forjando um primitivismo literário num livro de memórias: Paulo Honório narrador conta a história de Paulo Honório personagem. Seu método seria algo semelhante à técnica narrativa impressionista, contando os fatos conforme vão surgindo na memória, daí a "desordem", a falta de linearidade cronológica; por exemplo, ficamos sabendo que o filho de Madalena já havia nascido, porque o narrador o apresenta chorando:

O pequeno berrava como bezerro desmamado. Não me contive: voltei e gritei para d. Glória e Madalena:
- Vão ver aquele infeliz. Isso tem jeito? Aí na prosa, e pode o mundo vir abaixo. A criança esgoelando-se!
Madalena tinha tido um menino. (p.123).

Agora, sem dúvida, um dos pontos mais altos desse processo de digressão é o capítulo 19. Ele é todo digressão: Paulo Honório - já com seus cinquenta anos, em seu tempo presente - interrompe o desenrolar dos fatos para escrever um capítulo fluxo de consciência, que o leitor, que entra em contato com a obra pela primeira vez, só vai entender quando acabar de ler o romance. No auge do seu conflito psicológico, com Madalena já morta, Paulo Honório a vê aproximar-se dele:

- Madalena!
A voz dela me chega aos ouvidos. Não, não é aos ouvido. Também já não a vejo com os olhos." (p. 102).

Ele só a vê em suas lembranças, em sua consciência, mas é como se ela se materializasse diante de si; é aí que ele faz algumas conjecturas sobre ela e ele:

A voz de Madalena continua acariciar-me. Que diz ela? Pede-me naturalmente que mande algum dinheiro a mestre Caetano. Isto me irrita, mas a irritação é diferente das outras, é uma irritação antiga, que me deixa inteiramente calmo. Loucura uma pessoa estar ao mesmo tempo irritada e tranquila. Mas estou assim. Irritado contra quem? Contra mestre Caetano. Não obstante ele ter morrido, acho bom que vá trabalhar.
Mandrião!
A toalha reaparece, mas não sei se é esta toalha sobre que tenho as mãos cruzadas ou a que estava aqui há cinco anos. (p. 102 e 103).

A contradição o assola ("... é uma irritação antiga que me deixa inteiramente calmo."); o desejo de compreender acentua-se, daí as constantes referências às contradições: é o desejo de rever Madalena, mas, simultaneamente, o não entendimento de suas atitudes, o que ainda o irrita, como no passado:

Agitam-se em mim sentimentos inconciliáveis: encolerizo-me e enterneço-me; bato na mesa e tenho vontade de chorar.
Aparentemente, estou sossegado: as mãos continuam cruzadas sobre a toalha e os dedos parecem de pedra. Entretanto ameaço Madalena com o punho. Esquisito. (p. 103).

Este capítulo traz o mesmo Paulo Honório do final da obra: sozinho, triste, convivendo com seus fantasmas, como o senhor Ribeiro e d. Glória, já distantes no momento presente:

Apesar disso a palestra de seu Ribeiro e d. Glória é bastante clara. A dificuldade seria reproduzir o que eles dizem. É preciso admitir que estão conversando sem palavras. (p.103 e 104).

Todo esse momento do enredo nos revela tanto os conflitos de Paulo Honório quanto a consciência técnica do narrador; afinal, esse fluxo de consciência é extremamente bem feito para alguém que se diz semianalfabeto.
Por conseguinte, enxergamos, por trás de Paulo Honório, o escritor Graciliano Ramos, consciente pleno do processo narrativo, capaz de criar uma "desordem" apenas aparente, reveladora, na verdade, do tempo atual da personagem.
Após o capítulo 19, o texto retoma o seu desenvolvimento normal. É interessante observar que, apesar de o narrador deixar claro que tem consciência de tudo o que se passou, inclusive antecipando fatos, cria o suspense em citações de intensa emoção, como no momento da "despedida" de Madalena, preparando já o seu suicídio, por meio de um diálogo rápido e vigoroso:

- O resto está no escritório, na minha banca. Provavelmente esta folha voou para o jardim quando eu escrevi.
- A quem?
- Você verá. Está em cima da banca. Não é caso para barulho. Você verá.
- Bem.
Respirei. Que fadiga!
- Você me perdoa os desgostos que lhe dei, Paulo?
- Julgo que tive minhas razões.
- Não se trata disso. Perdoa?
Rosnei um monossílabo.
- O que estragou tudo foi esse ciúme. Paulo. (p. 160).


A metalinguagem também tem o papel de apresentar o narrador avaliativo. Paulo Honório coloca-se na posição de quem, além de autoavaliar os dois primeiros capítulos como "inúteis", avalia as atitudes da personagem, com uma visão adiantada dos fatos:
Já viram como perdemos tempo com padecimentos inúteis? Não era melhor que fôssemos como os bois? Bois com inteligência. Haverá estupidez maior que atormentar-se um vivente por gosto? Será? Não será? Para que isso? Procurar dissabores! Será? Não será? (p. 148).
O de que sempre temos certeza é da dúvida de Paulo Honório. Ele é alguém que jamais fechará um raciocínio sequer, como veremos no desfecho.
Todo o foco central da ação desse personagem se liga à posse de São Bernardo e ao relacionamento com Madalena, e até nisso o narrador se utiliza das digressões, numa pretensa "desorganização natural" das lembranças. No capítulo dois, por exemplo, temos exposto seu grande objetivo na vida: "O meu fito na vida foi apossar-me das terras de São Bernardo, construir esta casa, plantar algodão, plantar mamona, levantar a serraria e o descaroçador, introduzir nestas brenhas a pomicultura e a avicultura, adquirir um rebanho bovino regular. " (p.11)
Porém, no capítulo 3, observamos um retrocesso temporal, pois o narrador apresenta-nos a sua história de vida - o menino de origem humilde, que vendia doces para a velha Margarida, e o guia de cegos; a prisão, o aprendizado mínimo da leitura na cadeia e a posterior saída, pensando já em "ganhar dinheiro" (p.13). Tal processo digressivo é flagrante tentativa de autojustificação; Paulo Honório usará de meios pouco lícitos para conseguir São Bernardo (aproveita-se da miséria e vício de Padilha, para conseguir a fazenda por valor baixo); sua infância sofrida, a falta de oportunidades, as dificuldades, tudo para "justificar" suas atitudes e a falta de remorsos.
Na verdade, não se conforma com o descaso de Padilha para com tão boa propriedade; era realmente muito injusto vê-la nas mãos de um farrista, e não em suas mãos, que, como veremos, trabalharão essa terra:
Trabalhava danadamente, dormindo pouco, levantando-se às quatro da manhã, passando dias ao sol, à chuva, de facão, pistola e cartucheira, comendo nas horas de descanso um pedaço de bacalhau assado com um punhado de farinha. (p.29).
Claro que não podemos dizer que o narrador queira envolver, emocionalmente, o leitor. Não há interesse em deixar o leitor penalizado, justificando-se frente a ele, como se o estivesse fazendo frente à sociedade.
Se há alguém frente a que Paulo Honório queira justificar-se, esse alguém é ele mesmo, na busca do autoconhecimento.
A posse de São Bernardo, para ele, será fundamental. Adquiri-la significa adquirir respeito. A criança humilde aprendera que só os poderosos são respeitados, daí a obsessão por ganhar dinheiro, por mandar; nota-se tal procedimento já na posse da fazenda:

Pensei que, em vez de aterrar o charco, era melhor mandar chamar mestre Caetano para trabalhar na pedreira. Mas não dei contraordem, coisa prejudicial a um chefe. (p.28).

Paulo Honório personagem está-se acostumando a ser chefe, daí a necessidade de se impor para ser respeitado. Para isso São Bernardo chegará a ter objetos de que ele sequer se utiliza:
Comprei móveis e diversos objetos que entrei a utilizar com receio, outros que ainda hoje não utilizo, porque não sei para que sirvam. (p.39). Paulo Honório acredita que ter é fundamental. Sendo assim, tudo será válido para conseguir seu objetivo:
A verdade é que nunca soube quais foram os meus atos bons e quais foram os maus. Fiz coisas boas que me trouxeram prejuízo; fiz coisas ruins que deram lucro. E como sempre tive a intenção de possuir as terras de São Bernardo, considerei legítimas as ações que me levaram a obtê-las . (p . 39).
E é por isso que tudo será avaliado pelo valor monetário que possui, até mesmo a velha Margarida:
A velha Margarida mora aqui em São Bernardo, numa casinha limpa, e ninguém a incomoda. Custa-me dez mil-réis por semana, quantia suficiente para compensar o bocado que me deu. (p.12 e 13).
É a isso que Alfredo Bosi, em sua História Concisa da Literatura Brasileira, chamará de "universo do ter", que se amplia a cada atitude sua. A instrução, a cultura, para ele, é uma das coisas mais inúteis – são supérfluas, frente à necessidade maior, que é a da posse. Mesmo assim, chegará a construir uma escola na fazenda, buscando, em troca, "a benevolência do governador" (p.44); assim será também com a igreja ("A escola seria um capital. Os alicerces da igreja eram também capital" - p. 44 e 45).
A filosofia do ter endureceu Paulo Honório. Ao pensar, por exemplo, em relacionamento entre homem e mulher, vê-os como "machos e fêmeas" (p.65).
Por isso, no casamento, buscará, inicialmente, o "herdeiro para São Bernardo", alguém capaz de herdar sua obsessão pelo ter.
Madalena parece adequada. Cogitando a possibilidade de casar-se com ela, imagina, de imediato, a reprodução dos "bons espécimes"; reproduzir filhos não é diferente de reproduzir animais:
Se o casal for bom, os filhos saem bons; se for ruim, os filhos não prestam. A vontade dos pais não tira nem põe. Conheço o meu manual de zootecnia. ( p. 87).
Sendo assim, também acredita que atrairá Madalena, mostrando-lhe o que há em São Bernardo, desde as aves até a extensão das terras.
Chega a, inclusive, colocar a Madalena o casamento como uma espécie de negócio, como algo que lhe possa "garantir o futuro":

- O seu oferecimento é vantajoso para mim, seu Paulo Honório, murmurou Madalena. Muito vantajoso. Mas é preciso refletir. De qualquer maneira, estou agradecida ao senhor, ouviu? A verdade é que sou pobre como Job, entende?
- Não fale assim, menina. E a instrução, a sua pessoa, isso não vale nada? Quer que lhe diga? Se chegarmos a um acordo, quem faz negócio supimpa sou eu. (p. 90).

Madalena não se revelará, mais tarde, como alguém que valorize os bens materiais (vemos, por exemplo, sua dedicação aos pobres e funcionários que viviam na fazenda), o que torna difícil acreditar que se tenha casado por dinheiro. Porém, não se podem fazer, por outro lado, colocações fechadas em relação ela; o narrador, em relação a Paulo Honório, mantém distância mínima, pois se trata de um processo de desdobramento, mas, em relação à Madalena, a distância é máxima.
Tudo isso significa que o leitor não tem acesso direto à consciência dela, o que reforça a ambiguidade - será que não haveria, por parte de Madalena, nenhum interesse financeiro, nenhuma necessidade de adquirir segurança por meio do casamento? O diálogo acima transcrito permite essa análise. Para dificultar ainda mais as coisas, não nos podemos esquecer de que quem conta essa história é Paulo Honório, diretamente envolvido com ela.
Por conseguinte, o foco narrativo é dele, o que gera uma visão parcial da história. O próprio narrador dará subsídios para este tipo de enfoque; vejamos, por exemplo, os comentários dele sobre a transcrição de um de seus diálogos com d. Glória:

Essa conversa, é claro, não saiu de cabo a rabo como está no papel. Houve suspensões, repetições, mal entendidos, incongruências, naturais quando a gente fala sem pensar que aquilo vai ser lido. Reproduzo o que julgo interessante. Suprimi diversas passagens, modifiquei outras. O discurso que atirei ao mocinho do rubi, por exemplo, foi mais enérgico e mais extenso que as linhas chochas que aqui estão. A parte referente à enxaqueca de d. Glória (a enxaqueca ocupou, sem exagero, metade da viagem) virou fumaça. Cortei igualmente, na cópia, numerosas tolices ditas por mim e por d. Glória. Ficaram muitas, as que as minhas luzes não alcançaram e as que me pareceram úteis. É o processo que adoto; extraio dos acontecimentos algumas parcelas; o resto é bagaço. (p.77 e 78).

Se ele expurgou seu diálogo com ela, por que não faria o mesmo em sua conversa com Madalena, ou mesmo contaria tudo como lhe conviesse?
Mas por que Madalena? Ela não se revelará como alguém que se harmonize, em nada, com Paulo Honório; para ele, ela tem defeitos irremediáveis, como, por exemplo, ser culta, instruída, altruísta, ou pior, escreve artigos:

- Mulher superior. Só os artigos que publica no Cruzeiro!
Desanimei:
- Ah! Faz artigos!
- Sim, muito instruída. Que negócio tem o senhor com ela?
- Eu sei lá! Tinha um projeto, mas a colaboração no Cruzeiro me esfriou.
Julguei que fosse uma criatura sensata. (p. 85).

Porém, ele a escolheu. A justificativa que parece mais lógica é o fato de ela ser exatamente aquilo que ele não é. Paulo Honório - como já anteriormente citado - busca o respeito alheio, busca estabilizar-se e ser reconhecido. Uma esposa professora seria mais respeitável do que qualquer cabocla comum.
De início, ele imaginou-a como uma menina frágil, fácil de dominar.
Enganou-se: Madalena tem iniciativa, quer trabalhar, ajuda aos outros sem pedir autorização e não dá importância às aparências:

Tive, durante uma semana, o cuidado de procurar afinar a minha sintaxe pela dela, mas não consegui evitar numerosos solecismos. Mudei de rumo. Tolice. Madalena não se incomodava com essas coisas. Imaginei-a uma boneca da escola normal. Engano. (p.95).

O protagonista sente necessidade de adaptar-se a ela, tenta de tudo, porém todas as tentativas são infrutíferas.
O grande problema é que as energias que regem a vida dos dois são diferentes: ele é regido pela posse, pelo ter; ela, pelo ser.
São diretrizes de vida muito diversas, daí a dificuldade de compreensão de Paulo Honório. A consequência será um ascendente ciúme; os alvos desses sentimentos serão vários: Padilha, seu Ribeiro, Gondim, Padre Silvestre, chegando ao ponto de imaginar que o amante vinha encontrá-la à noite, dentro de sua própria casa ("Três anos de casado. Fazia exatamente um ano que tinha começado o diabo do ciúme."- p. 164).
Madalena, apesar de forte, será destruída por tudo isso. Seu suicídio é o auge disso tudo:

"Arredei-as e estaquei: Madalena estava estirada na cama, branca, de olhos vidrados, espuma branca nos cantos da boca. Aproximei-me, tomei-lhe as mãos, duras e frias, toquei-lhe o coração, parado. Parado. No assoalho havia mancha de líquido e cacos de vidro. (p.165).

E, assim, chegamos ao momento presente. Justificativas e justificativas... No final, um Paulo Honório que escreveu um livro e só consegue ter certeza de sua solidão, seu estado de abandono, sua inutilidade:
“Cinquenta anos”! Quantas horas inúteis! Consumir-se uma pessoa a vida inteira sem saber para quê! Comer e dormir como um porco! Como um porco! Levantar-se cedo todas as manhãs e sair correndo, procurando comida! E depois guardar comida para os filhos, para os netos, para muitas gerações. Que estupidez! Que porcaria! Não é bom vir o diabo e levar tudo?" (p.181).
A sequência de exclamações é icônica; temos, diante de nós, um homem revoltado, reconhecendo a inutilidade de sua vida. Isso o redime?:

Madalena entrou aqui cheia de bons sentimentos e bons propósitos. Os sentimentos e os propósitos esbarraram com a minha brutalidade e o meu egoísmo. Creio que nem sempre fui egoísta e brutal. A profissão é que me deu qualidades tão ruins. É a desconfiança terrível que me aponta inimigos em toda parte! A desconfiança é também consequência da profissão. (p.181).

Enfim, a circularidade da narrativa acontece: o mesmo Paulo do início, que reconhece, parcialmente, seu erro, mas a culpa é jogada aos fatores externos. Meio possível de acalmar a consciência, mas que não elimina a dor do reconhecimento e da perda. Quem queria acumular bens, mas acumulou perdas: destruiu a si e aos outros.

Assim, Paulo Honório torna-se apenas um ser humano, não típico espacialmente, mas um ser humano universal, capaz de refletir, mas incapaz de chegar a respostas definitivas.

Os Sertões

Euclides da Cunha

Esta obra foi dividida em três partes: "A Terra", "O Homem" e "A Luta".
Euclides iniciou a descrição do sertão baiano em “A Terra”, explicando o relevo do Planalto Central brasileiro. Depois descreveu a paisagem sertaneja: seca, dias quentes e noites frias, cheia de árvores sem folhas e espinhentas.
Na segunda parte, o Autor caracterizou os sertanejos e contou a história de Antônio Conselheiro, líder do arraial de Canudos. Euclides destacou as diferenças do sertanejo e dos litorâneos, concluindo que os sertanejos estão isolados da civilização e, portanto, privados de seus bens culturais e materiais.
Antônio Vicente Mendes Maciel (o Conselheiro), líder de Canudos, foi um reflexo dos sertanejos. Nasceu em Quixeramobim, no Ceará, onde trabalhou e logo se casou. Quando foi traído pela mulher, resolveu andar pelos sertões. Após dez anos, Antônio Vicente surgiu como o líder religioso Antônio Conselheiro.
Muitos sertanejos seguiam Conselheiro em sua peregrinação. Mas a situação agravou-se quando o líder religioso instalou-se na antiga fazenda de Canudos. As pessoas vinham de toda parte. O arraial, segundo as autoridades, era um abrigo de criminosos. Amontoavam-se jagunços suficientes para compor um batalhão, homens cruéis e destemidos.
A terceira parte, “A Luta”, retrata o período em que o governo do Estado da Bahia resolveu organizar uma expedição para desbaratar o arraial de Canudos. A primeira expedição, liderada pelo Ten. Pires Ferreira, foi enviada em novembro de 1896. Dispostos estrategicamente, mais preparados e com mais noção do território e de seus ardis, os jagunços saíram vencedores. A segunda expedição, comandada pelo major Febrônio de Brito, foi atacada de surpresa e vencida.
Com grande respaldo popular, a terceira expedição, Expedição Moreira César, partiu de Monte Santo em fevereiro de 1897 e em março invadiu Canudos. O Cel. Moreira César morreu e a expedição fracassou. Os soldados debandaram nas caatingas.
A fuga dos soldados restrugiu-se no país inteiro. A vitória dos jagunços foi considerada um ultraje para a República. Era uma ameaça de restauração da Monarquia... (os sertanejos nem entendiam as reformas republicanas: casamento civil, cobrança de impostos e separação entre Igreja e Estado).
Batalhões de todos os Estados foram mobilizados para destruir Canudos. O Gen. Artur Oscar liderava-os. Com a ajuda do Tenente-Coronel Siqueira de Meneses, comandante astucioso, os soldados combateram e venceram, apesar da repetição dos mesmos erros das expedições anteriores.
A vitória das forças do governo, conseguida após sucessivos reforços, consolidou-se quando compôs-se a Trincheira Sete de Setembro. Canudos estava cercada, mas resistiu com fome e sede até 5 de outubro. Os prisioneiros foram degolados.

BIBLIOGRAFIA
ANDRADE, Juan C. P. de. Vida e obra de Euclides da Cunha. São Paulo: [s.n], 2000. Disponível em <http://euclidesite.tripod.com.br>. Acesso em nov. 2001.
ANDRADE, Olímpio de Sousa. História e interpretação de 'Os Sertões'. 3. ed. rev. e aum. São Paulo: EDART, 1966.

CUNHA, Euclides da. Os Sertões: campanha de Canudos. São Paulo: Martin Claret, 2002.

Comédias da vida privada

Luís Fernando Veríssimo (1997)

Resumo
São 101 crônicas - pequenas estórias sobre as ironias do cotidiano ― humor ― piada, crônicas divididas em 6 capítulos, a saber:
1. Fidelidade e infidelidades - 14 crônicas; 2. Encontros e desencontros - 16 crônicas; 3. Eles e ou Elas - 41 crônicas; 4. Família - 13 crônicas; 5. Pais e Filhos - 5 crônicas; e 6. Metafísicas - 8 crônicas.

1. Fidelidades e Infidelidades
A fidelidade
Em plena terça-feira, mulher e filhos descansavam na praia. Chegou o marido e contou que recebera um telefonema anônimo revelando que a esposa tinha um amante surfista. Ela negou e pediu que ele nunca desconfiasse da fidelidade dela. Ele voltou para Porto Alegre, pois teria um compromisso no dia seguinte. Mas o compromisso era naquela noite mesmo: ela se chamava Maitê. Na verdade, com toda essa história, conseguira um habeas-corpus preventivo.

Zona Norte, Zona Sul.
Depois de muito tempo, Vânia aceitou encontrar-se com Rogério, seu amante, no apartamento dele. Saiu de casa dizendo que ia a Copacabana fazer compras. Quando os dois já estavam tirando a roupa, ouviram um rebuliço no corredor. Em seguida, batidas na porta. Era a polícia procurando Gatão, um famoso bandido que morava no apartamento vizinho e que conseguira fugir. No quarto, os policiais encontram Vânia seminua. Ela corre para a cozinha onde Gatão a agarra. Ele exigia um carro para a fuga. Nesta altura, já havia repórteres e câmeras de TV por todo lado. Gatão consegue fugir levando Vânia. Quando ele a liberta, ela pensa no marido, nos filhos e nos amigos naquele momento já deveriam estar sabendo de tudo. Então, pede ao bandido que a leve junto. Hoje, vive com Gatão em Rezende e jamais o trai.

Outro final: Vânia chega em casa preparada para tudo, mas se surpreende com a animação da família por terem visto-a na televisão.

Infidelidade
Um homem conta a seu médico que para conseguir fazer sexo com a sua mulher tinha que pensar em outras mulheres, alguns objetos... E passado algum tempo, isso já não adiantava mais. Ele agora só se excitava quando pensava numa mulher madura, com o cabelo começando a ficar grisalho, olhos castanhos... E esta era a sua própria mulher.

O encontro
Um casal que havia se separado há pouco tempo, reencontra-se por acaso num supermercado. Era a primeira vez que se encontravam depois da separação. Os dois estavam embaraçados. Ele perguntou se ela costumava fazer compras de madrugada. Ela respondeu que estava lá aquela hora porque tinha alguns amigos em casa. Ele usou a mesma desculpa quando ela perguntou sobre ele. Na verdade os dois estavam sozinhos.

Sala de espera
Uma mulher jovem e muito bonita e um homem com seus quarenta anos encontram-se na sala de espera do dentista. Os dois interessam-se um pelo outro. Pensam em falar muita coisa. Mas no fim acabam não dizendo nada. Aí a enfermeira abre a porta e diz: - O próximo. E eles nunca mais se veem.

Cantada
Um homem e uma mulher tentam "desvendar o mistério" de onde já se conheciam. Ambos mentem dizendo que poderia ser em Nice, Nova York, Londres, Paris... Depois de passarem a noite juntos eles confessam que nunca estiveram nesses lugares. Na verdade, eles já haviam se conhecido, mas na praia de Guarapari.

Lixo
Um casal se encontrava-se na área de serviço do prédio onde morava. Cada um trazia o seu pacote de lixo. Depois de alguma conversa descobrem que, já há algum tempo, um analisava o lixo do outro. Sabiam muitas coisas a respeito do outro através do lixo. Ela o convida para jantar camarões. Ele não quer dar trabalho. Ela diz que rapidamente limpa tudo e põe os restos fora. No seu lixo ou no meu?

02) Eles &/ou Elas
A comadre
Aquele veraneio terminou mal. Tudo porque o Itaborá tinha soltado um omnahnmon! ao ver a comadre Mirna de biquíni fio-dental. Isamara, a esposa exigiu explicações. O compadre Adélio, deixou passar. Afinal, eram amigos demais e o aluguel da casa já estava pago para um mês. Mas até o fim ficou aquela coisa chata entre os quatro. O Itaborá não podia tossir que todos olhavam desconfiados.

O Mendoncinha
Um casal estava tendo uma conversa durante o ato sexual. Falavam que parecia haver outras pessoas ali com eles naquele momento: pai, mãe, o analista, o superego de cada um... Ela diz que parecia que Mendoncinha, o seu primeiro namorado, também estava ali. A reação dele foi imediata: Bota o Mendoncinha para fora desta cama. (...) Ou sai o Mendoncinha, ou saímos eu e a minha turma!

O brinco
Maurão, às três horas da manhã, liga para a casa do Russo, querendo falar com a sua esposa, Moira. Russo responde que ela não está com ele. Maurão insiste. Não acredita. tinha visto o Russo comprar um brinco e este apareceu na orelha de Moira. Na verdade, quem tinha recebido os brincos era Roberto. E era ele que estava deitado com Russo. Quem fica intrigado, agora, é o próprio Russo. Como os brincos foram parar nas orelhas de Moira? Roberto explica que dera os brincos a Lise, sua esposa. E concluindo: Lise deu-os a Moira. - Você acha que a Lise e a Moira...

Flagrante de praia
Uma mulher bonita está na praia passando óleo para bronzear. Faltavam as costas. Perto dela, um homem lia jornal. De repente, ela pergunta por que ele estava olhando. Ela diz que nem olhou para os lados. Ele continua a conversa perguntando se ele não estava pensando em propor-lhe um programa ou caisa parecida. Ele responde que não. Não queria nenhum envolvimento emocional naquele momento. Perfeito. Ela levantou-se, caminhou até onde ele estava, sentou ao seu lado e pediu: - Me passa óleo nas costas?

O homem trocado
O homem acorda da anestesia e pergunta à enfermeira se foi tudo bem na operação. Esta dá resposta positiva. Ele estranha, pois a sua vida sempre fora rodeada de trocas. Trocaram-no na maternidade; no cartório, ao invés de Lauro, escreveram Lírio; na escola pagava por aquilo que não tinha feito; passara no vestibular, mas o computador se enganara e seu nome não aparecera na lista; contas telefônicas astronômicas para pagar e ele nem tinha telefone; fora preso por engano. E agora a sua operação de apendicite tinha sido um sucesso. A enfermeira parou de sorrir. - Apendicite? - perguntou, hesitante. - É. A operação era para tirar o apêndice. - Não era para trocar de sexo?

03) Família
A rocha
Dona Mimosa, aos 100 anos, adquirira uma sólida autoridade moral sobre a família. Todos vinham pedir conselhos a ela, sobre educação, aplicação de dinheiro, etc, e tudo era resolvido por ela. Mas certo dia Dona Mimosa sentiu que o mundo lhe escapava. - A Berenice vai sair de casa. - Não deixa. - Não adianta. Ela vai juntar. - O quê? - Com a Valdirene. - Ah, bom. Vai morar com uma amiga. - Não. Vão formar um casal. Silêncio. - O que a senhora acha? Dona Mimosa sentiu que o mundo lhe escapava. Seu nariz não lhe diz mais nada. Era preciso, no entanto, resguardar a autoridade. Com um esforço, recompôs-se e perguntou: - E e essa Valdirene, tem uma posição?

Reencontro
Frederico encontra, no elevador, o amigo Parra que não via há vinte anos. Leva-o para seu apartamento e apresenta-o à mulher. Começam a conversar sobre os velhos tempos. No meio da conversa, Frederico diz que está velho, que a Sandra, já tinha noivo. Parra disse que sabia. Frederico pergunta se ele conhece a sua filha. Parra disse que ele era o noivo de Sandra. Os dois começam a discutir e Parra vai embora. A mulher que pegara a conversa pela metade, não entende nada.

Tios
A primeira história é sobre tio Paulito. Era um homem quieto que sempre almoçava com a família de sua irmã.  Certo dia, a filha mais moça foi à conferência do Prestes no PT e encontrou o tio Paulito, que se mostrava íntimo do político. No outro dia, tio Paulito foi o centro da admiração de todos na mesa do almoço. Já tio Dedé fazia questão de contar a sua vida. Era muito falador. Sempre falava que tinha feito um filme em Hollywood, aparecia numa cena do filme "Island of Love". Certo dia, o filme passou na televisão; juntou-se muita gente na casa da família, todos ansiosos para verem o tio Dedé. Mas ele não apareceu. Então, ele pulou da cadeira e bradou aos céus: Cortaram! Cortaram!

Férias
A família está discutindo sobre onde passar as férias. O pai tenta uma proposta que não seja muito cara. Decidem passar uma semana na praia e outra na serra. Vão a um hotel numa praia ainda não desenvolvida, pois é mais barato. O pai fica o dia inteiro lendo Agatha Christie e falando mal do general. Em seguida, viajam para a serra. O pai permanece no hotel, mas descobre que o general também está hospedado ali. Então anuncia para a família: Vamos passear no mato!

04) Pais e Filhos
Pai não entende nada
A filha pede um biquíni novo para o pai. Este lhe pergunta se ela não tinha comprado um no ano passado. Ela diz que cresceu, que passou de 14 para 15 anos. Enfim, ele deixa a filha comprar um maior. Maior não, pai. Menor!

Suflê de chuchu
Duda viajara para a França sozinha. Os pais estavam aflitos, aqui no Brasil, pois ela nunca fizera nada em casa. Lá, começou a trabalhar de empregada e, às vezes, ligava para seus pais para pedir alguma receita de comida. Duda estava indo bem. Certo dia, a mãe deu a receita errada de um suflê de chuchu, com esperança do fracasso da filha por lá que assim voltaria ao Brasil. Provavelmente Duda foi despedida da casa. Mas dias depois ligou para pedir a letra de uma música ao pai. O pai foi categórico: Diz pra essa menina voltar pra casa. Já.

A bola
Um pai dá uma bola de presente ao filho e esse não se entusiasma muito. Outro dia, o pai vê o menino com um jogo de bola no vídeo game. O pai ainda tenta animar o filho com a bola que lhe dera de presente fazendo embaixadas, mas este mal desvia os olhos da tela. Talvez um manual de instrução fosse uma boa ideia, pensou. Mas em inglês, para a garotada se interessar.

A descoberta
O pai chega de surpresa no apartamento do filho que mora em outra cidade. Este sempre mandava cartas dizendo que precisava de dinheiro para gastar em bebida, som e mulheres. O pa orgulha-se do filho por causa disso. Mas tem uma decepção quando descobre que o filho gastava tudo em materiais para pesquisa, livros e material didático.

O mundo restaurado
Um pai de família adora brincar com os brinquedos das crianças e lembrar da sua infância. Mas os adultos não o entendem; falam e agem num tom muito sério. Mas ele não ouve mais nada. Ergue o Henry Kissinger até os olhos, como se mirasse uma metralhadora, e começa a girar uma manivela invisível do lado do livro. Ao mesmo tempo, com a boca imita o ruído de tiros, e descobre entusiasmado que ainda não perdeu o jeito. O cunhado fica olhando, entre surpreso e divertido, enquanto ele varre a sala com rajadas imaginárias.

05) No Bar
Dezesseis chopes
Estão cinco amigos num bar conversando e bebendo chope. Nos primeiros copos a conversa é normal. Depois passam por vários assuntos diferentes, alguns, já sem qualquer nexo. Nos últimos copos, começam a falar de coisas nostálgicas. Um deles afirma não ser feliz porque nunca teve um canivete decente. Outro levanta-se e diz que teve um bom canivete. Ali está o melhor dos homens, o  homem completo, e eles não sabiam.

Conversas de bar
Dois amigos, sentados num bar, conversam. Era um reencontro e eles relembravam as coisas boas da juventude. Reconhecem que o garçom também tinha sido um grande amigo deles, mas não falam nada. De tudo que Mafra falava Tarol duvidava. Eram inseparáveis, mas viviam brigando. Mafra contava histórias absurdas, impossíveis. Certo dia, os dois foram viajar. Quando voltaram, Mafra contou para a turma que tinha um apito de chamar mulheres e para não desmerecer o amigo, Tarol confirmou, mas revelou que só chamava bagulho.

A mesa
Cinco amigos, cada um com sua família, iam todos os dias a um bar para um chope, mas logo voltavam para casa. Certo dia, um deles jantou lá. Com o tempo os outros foram jantando também. Passado mais um tempo, Gordo (o primeiro que tinha jantado no bar) resolveu dormir por lá. Decidiu, ainda, não sair mais do bar. Os outros gostaram da ideia e também resolveram viver lá, comendo, bebendo e conversando. Os familiares tentam convencê-los a ir para casa, mas estes não dão bola. Já perderam os empregos e certamente não terão dinheiro para pagar a conta, mas é pouco provável que peçam a conta num futuro próximo. O papo está cada vez mais animado.

06) Metafísicas
Borgianas
O narrador estava jogando "xadrez" com Jorge Luís Borges, no escuro. Este ficava contando várias histórias. Ouvia barulho na rua e inventava mais coisas. Também falou do Antigo Egito. Outra vez, jogava xadrez com peças invisíveis e tabuleiro imaginário. Conversavam sobre a importância da experiência para o escritor. Borges não achava importante. Soubera da história de um tigre que tinha entrado na biblioteca de um escritor e que nunca mais saiu de lá. Esse escritor não poderia escrever de maneira convincente sobre o tigre, pois teria que voltar à biblioteca  para pesquisar e isso ele não pode fazer pois tem um tigre na sua biblioteca.

Contículos
Jorge Luís Borges está sonhando, mas pensa que está acordado, pois até fala com dois homens que já tinham morrido. Tinham avisado Sandrinha sobre o mau comportamento do rapaz. Mesmo assim Sandrinha se aproximou. Depois pôde perceber que todos tinham razão.
O desejo da Madre de começar um conto com um palavrão.
Um dia o pai saiu de casa, afirmando que voltaria muito rico e os buscaria. Ele voltou amarrado na balsa todo ensanguentado com uma tabuleta no peito. O filho tem curiosidade de saber o que estava escrito na tabuleta.
Dois fatos que não se relacionam: Marisa abrindo uma lata de pêssego e o desmoronamento do Himalaia.
Encontraram-se 25 anos depois. Um deles chamou o outro de kid. Este diz que não era o kid. O primeiro tem certeza de que ele era o Kid. Agora não é mais.
Maria José casou com José Maria por uma certa fascinação intelectual. Foram muito felizes.

Gravações
No fim do dia, um homem escuta todas as conversas que foram gravadas no seu telefone durante o dia. Espera ansioso pela última. E ouve: Alô, aqui é o Mário. Algum recado para mim?

Conto Erótico

O chefe tenta fazer uma ligação, mas não consegue porque instalaram um novo sistema telefônico. No começo ele pensa que é a secretária falando. Mais tarde descobre que é uma gravação. Tem pensamentos eróticos com a "gravação", pois acha a voz linda.

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