quarta-feira, 29 de julho de 2015
Classificação dos Advérbios
O advérbio
é uma classe de palavra invariável que funciona, fundamentalmente, como
modificador do verbo. Pode, também, modificar um adjetivo e outro advérbio.
a) modificador do verbo
As crianças nunca saem sozinhas.
Paulo lavou o carro rapidamente.
b) modificador do
adjetivo
Maria é extremamente bondosa.
As suas ideias estão bem elaboradas.
c) modificador de outro
advérbio
Ele fala muito depressa.
Ela fez tudo bem devagar.
Às vezes, o advérbio
pode modificar uma oração inteira ou, até mesmo, um substantivo:
Infelizmente nada
pôde ser feito por João.
Somente Paulo
se recusou a colaborar.
Os advérbios exprimem
circunstâncias de tempo, lugar, modo, dúvida etc. Exemplos:
Fomos ao cinema ontem.
Eles moram aqui.
Todos caminharam silenciosamente.
Talvez eu viaje de
avião.
* Os advérbios classificam-se de
acordo com as circunstâncias que expressam. Há, na língua portuguesa, sete
tipos de advérbio:
1. de afirmação
sim,
certamente, realmente, efetivamente, deveras, incontestavelmente etc.
2. de dúvida
talvez,
quiçá, possivelmente, provavelmente,
acaso, porventura etc.
3. de intensidade
bastante,
bem, assaz, mais, menos, muito, pouco, demais etc.
4. de lugar
aqui, lá, aí,
acolá, abaixo,
acima, adiante, além, aquém, atrás, defronte, dentro, fora, perto, longe, onde
etc.
5. de modo
bem, mal,
assim, depressa, devagar, melhor, pior etc.
NOTA
São
também advérbios de modo quase todos
os advérbios terminados em -mente: delicadamente, negligentemente, rapidamente,
suavemente etc.
6. de negação
não, nunca,
jamais
7. de tempo
agora,
hoje, ontem, anteontem, amanhã, cedo, tarde, jamais, nunca, logo, sempre,
outrora, presentemente, raramente etc.
Comentários sobre a Literatura Barroca no Brasil
Os
ciclos de ocupação da terra sucederam-se em consonância com as possibilidades
demográficas e os interesses econômicos. Do litoral para o interior foram se
definindo manchas de povoamento que originaram ilhas culturais. Estas, segundo
Viana Moog, foram sementes da literatura regionalista que se faz presente ao
longo de toda a história literária do país.
Nesta
primeira fase é sensível a presença da Europa: Ibéria, no barroco; Itália, no
arcadismo; francesa, no iluminismo (ver Século das Luzes). Define-se,
ainda, a mediação da metrópole na transposição de valores estéticos do
arcadismo e iluminismo. As manifestações literárias dos três primeiros séculos
brasileiros respondem, antes de tudo, ao problema da expansão ultramarina. A Carta
de Pero Vaz de Caminha, oficializando para Portugal a posse das terras
brasileiras, e o Diário de Navegação de Pero Lopes e Martim Afonso de
Souza (1530) podem ser incluídos na Literatura de Viagens, gênero definido ao
longo do século XV, em Portugal.
O
processo expansionista desdobra-se na colonização. Vencido o mar, começa a
preocupação com a terra desconhecida que significava um desafio, pois,
aparentemente, era indomesticável. Logo surgiram propostas para a possível
resistência, agressividade e inconquistabilidade do índio. Esta preocupação
manifesta-se na necessidade de registrar informações, organizar elencos e
catálogos. Por estes motivos são importantes os Textos de Informação, entre
os quais se inserem Tratado da terra do Brasil (1570) e História da
província de Santa Cruz (1576), de Pero de Magalhães Gandavo; Narrativa
epistolar e o tratado da terra e gente do Brasil (1587), de Gabriel Soares;
Diálogo das grandezas do Brasil (1618), de Ambrósio Fernandes Brandão; Diálogo
sobre a conversão do gentio, do padre Manuel da Nóbrega; História do
Brasil (1627), de frei Vicente de Salvador e os três primeiros séculos das Cartas
jesuíticas.
Estes
textos descrevem a terra, os costumes silvícolas e revelam a expectativa do
colonizador em encontrar ouro e prata. Já os textos jesuíticos, mesmo os
literários, de poesia ou teatro, têm como pano de fundo a preocupação missionária,
alimentada pelo clima proporcionado pelas resoluções do Concílio de Trento.
Esta realidade é facilmente identificada na obra do padre, poeta e dramaturgo
José de Anchieta (1534-1597), autor de autos pastoris, entre eles, o Auto
representativo da festa de São Lourenço (1583), e de poemas em metros
breves, de tradição medieval espanhola e portuguesa, entre os quais se destacam
Santíssimo Sacramento e A Santa Inês.
O
teatro liga-se aos vilancicos ibéricos, centrando-se no antagonismo entre anjos
e demônios, bem e mal, vício e virtude. Nos poemas épicos, Anchieta mostra a
influência de Virgílio. O polilinguismo de muitas poesias e autos expressa uma
atitude adaptativa ao meio. A palavra escrita ajustava-se à nova realidade,
tentando inculcar valores portugueses e cristãos na população autóctone e
mestiça que começava a se constituir. Estes primeiros escritos, feitos no
Brasil e sobre o Brasil, de acordo com critérios estéticos vigentes no
ocidente, desvendam relações com estilos de vida e arte. São importantes por
conterem uma literatura de imaginação, possível raiz do mito ufanista que se
projeta através do tempo até a contemporaneidade.
Esteticamente,
as criações literárias dos três primeiros séculos são barrocas, neoclássicas e
arcádicas. A organização da prosa identifica-se com o barroco no processo de
identificação ilusória e sensorial, expresso nos jogos de palavras, trocadilhos
e enigmas. Conceitualismo e cultismo, na melhor tradição cultural ibérica,
misturam o mitológico ao descritivo, a alegoria ao realismo, o patético ao
satírico, o idílico ao dramático. A literatura brasileira nasceu com o barroco,
pelas mãos jesuíticas. Neste trabalho merecem destaque o padre Antônio Vieira,
Bento Teixeira, Gregório de Matos, Manuel Botelho de Oliveira, secundados por
frei Manuel de Santa Maria Itaparica, padre Simão de Vasconcelos, frei Manuel
Calado, Francisco de Brito Freire. Quando não integrantes da Companhia de
Jesus, muitos destes autores foram educados pelos jesuítas, nos colégios ao
lado das igrejas, em aulas de letras e humanidades, focos de transmissão da
cultura metropolitana. Nelas, escoava-se a tradição portuguesa da retórica,
base da formação intelectual e literária, preocupada em ensinar a falar e
escrever com persuasão e beleza. Projetava-se, também, a postura intelectual da
imitação de modelos, realizada nos escritos destes primeiros autores, em
variados graus que vão da inspiração à glosa e tradução.
Nesta
primeira fase, a literatura brasileira segue o ritmo lusitano do tempo. A obra
do jesuíta, catequista e orador sacro Antônio Vieira (1608-1697) sincretiza
marcas europeias, portuguesas e brasileiras. Os 15 volumes de Sermões são
de particular interesse para nossa literatura, principalmente o Sermão do
primeiro domingo da Quaresma (1653) que versava sobre a extinção do escravismo
índio e o Sermão XIV do rosário (1633), sobre os escravos negros. Na História
do futuro, Antônio Vieira escreve um tratado sobre o profetismo onde
defende a mística do 5º Império do Mundo, que seria português, com sede no
Brasil. Beirando a heterodoxia, este texto obrigou seu autor a explicar-se ante
o Tribunal do Santo Ofício. Maior orador sacro do Brasil, o padre Antônio
Vieira era um barroco. Sua oratória é prolixa, cheia de alegorias nas quais
revela a argúcia de seu raciocínio.
Bento Teixeira (1561-1600), cristão-novo português,
nascido no Porto e morador em Pernambuco, escreveu a Prosopopeia, exaltando
o terceiro donatário da Capitania de Pernambuco, Jorge de Albuquerque Coelho.
Obra barroca, calcada em Os Lusíadas, exalta o herói estoico cristão, realçando
valores como o heroísmo, a estirpe, o poder, a glória, a honra, a riqueza, o
saber e as virtudes. Inspira-se na terra e tem um caráter eminentemente social
e individual. Criação diretamente estruturada pela realidade permite a
realização, num plano imaginário, de uma coerência jamais atingida pelo autor,
cripto-judeu, no plano real.
Gregório de Matos (1838-1696), natural da Bahia, cria uma
poética composta de poemas líricos, religiosos e satíricos, nos quais retrata o
Brasil com pessimismo realista, mesclado de obscenidades. Pela temática e
técnica estilística, é a mais forte expressão individual do barroco na colônia.
Manifestação da mestiçagem cultural, Gregório de Matos coloca em seus escritos
antíteses, equívocos e jogos de palavras, transpostos dos modelos de Góngora e
Quevedo. Sua obra é marcada pelos dualismos: religiosidade e sensualismo,
misticismo e erotismo, valores terrenos e aspirações espirituais.
Manoel Botelho de Oliveira
(1838-1711), publicou
Musica do Parnaso (1705), dividido em quatro coros de rimas portuguesas,
castelhanas, italianas e latinas, com seu descante cômico reduzido em duas
comédias: Hay amigo para amigos e Amor, Engaños y Celos. Poeta-literato
segue os modelos de Marino Góngora e, em seu processo estilístico, destacam-se
a analogia e a acentuação dos contrastes.
Frei Manoel de Santa Maria (1704-1768), escreveu uma epopeia sacra, Eustáquidos
(1769), imitação dos épicos, e um poema, Descrição da cidade da Ilha de
Itaparica. Simão de Vasconcelos produziu uma obra de edificação religiosa
em que se distingue a Vida do venerável padre José de Anchieta (1672).
Frei Manuel Calado (1584–1654), inspira-se na defesa da
terra contra invasores estrangeiros para criar Valeroso Lucideno (1648).
De autoria de Francisco Brito Freire é A Nova Lusitânia (1675). Nesta
primeira fase não se deve estranhar o teor das manifestações literárias.
Primeiro, pela fragilidade da vida intelectual na colônia, fato compreensível
uma vez que a colonização foi um fenômeno burguês, com caráter empresarial,
visando à produção e o lucro no comércio do açúcar. Não havia público para a
produção literária, nem interesse nela, em um meio acrítico e desinteressado da
vida cultural. No entanto, não houve deseuropeização: as estruturas do mundo
que se erigia eram genuinamente portuguesas, embora passíveis de adoçamentos.
As manifestações literárias foram, pois, desdobramentos da literatura
portuguesa que, por sua vez, ainda não tinha desenvolvido, perfeitamente, os
gêneros literários. Salvo raras exceções, a literatura barroca produzida na
colônia acabou sendo de qualidade inferior. A própria obra de Anchieta, a mais
alta expressão do barroco no seu tempo, não teve valor estético de primeira
grandeza.
segunda-feira, 27 de julho de 2015
Semântica
Signo
Significante e significado
Signo é uma
unidade linguística que consiste na combinação de um conceito, denominado significado, e de uma imagem acústica,
denominada significante.
A palavra
caneta, sequência dos grafemas c a n e t a, é o significante, e a
ideia do instrumento em forma de tubo com o qual se escreve a tinta é o
conceito ou significado.
Saussure
(1969) estabelece que o signo une não uma coisa e uma palavra, mas um conceito
e uma imagem acústica, isto é, significado e significante. O significado é a
informação (ideia ou conteúdo) comunicada, enquanto o significante é a parte
sensível do signo, aquilo que se vê ou ouve.
O signo é
sempre criado pelo falante no seu grupo social e somente após ter sido
assimilado pela sua comunidade, ao ser socializado, passa realmente a existir,
adquire significação real.
Símbolo
Outra
entidade linguística que devemos mencionar é o símbolo. Este, por um certo
processo de analogia, representa outra entidade: a cruz é o símbolo da
cristandade, a estrela de Davi é o símbolo do judaísmo, a balança é o símbolo
da justiça e o vermelho é o símbolo do perigo. Simbolizar significa representar
o real e, consequentemente, determinar uma relação de significação entre duas
coisas. O símbolo é, pois, toda e qualquer representação de uma realidade por
outra.
O símbolo
existe e é formado partindo-se de um certo grau de analogia inferido ou
detectado, estabelecendo-se uma associação entre duas entidades.
O símbolo é
com frequência confundido com o signo ou tomado com valor de significante.
Saussure (1969) já previra o possível mal-entendido entre signo e símbolo, ao
afirmar que, enquanto no primeiro a relação significante/significado é
totalmente arbitrária, no último existe sempre um rudimento de ligação natural
entre o significante e o significado.
É importante
observar que o significado é um reflexo objetivo de um sistema de relações e
associações num dado momento e numa determinada comunidade.
Denotação
Denotação é
o sentido lexical de um termo. Trata-se da significação lexical ou primeira de
uma palavra com a qual nos deparamos ao consultar o dicionário.
Conotação
Conotação é
o sentido figurado ou subjacente, muitas vezes de teor subjetivo, que um termo
pode apresentar, num determinado contexto, paralelamente à sua significação
usual. A palavra frio, por exemplo,
admite leituras diferentes de acordo com o contexto. Observe:
a) O café está frio.
b) Ele tem coração frio.
Na oração
(a), temos frio no sentido
denotativo, quer dizer, privado de calor.
Em (b), a palavra frio assume um
sentido conotativo, pois significa insensível.
sábado, 25 de julho de 2015
São Bernardo
Graciliano Ramos
A obra São Bernardo,
de Graciliano Ramos, apesar de pertencer à Segunda Geração Modernista, cujos
propósitos, em prosa, ligam-se à denúncia social, à apresentação questionadora
e crítica do Brasil, afasta-se, ao mesmo tempo, da mesma.
Notamos, ao analisar o
romance, que, se há denúncia, esta fica em segundo plano. Todo o romance
envolve a tensão psicológica de Paulo Honório, que se desenvolverá, aqui, em
dois planos: o Paulo Honório narrador e o Paulo Honório personagem.
Paulo Honório
causa-nos o "estranhamento" por ser um herói problemático, buscando o
entendimento na avaliação de si mesmo. A história é contada num tempo posterior
aos fatos, ou seja, Paulo Honório, no passado, vivenciou uma série de
experiências, que, agora, num tempo atual (já com cinquenta anos), pretende
relatar em livro. Toda a narrativa se envolverá num processo de circularidade e
alternâncias: no enredo central, teremos Paulo Honório personagem; na narração,
aparecerá o Paulo Honório avaliativo, distante dos fatos, buscando entender a
si, ao mundo e até mesmo ao seu processo de criação.
Inicialmente, o
narrador explica ao leitor todo o seu processo de escritura, fazendo-o
participar da obra. Em todo o primeiro capítulo do livro, Paulo Honório narrador
expõe seu projeto de fazer a obra pela "divisão do trabalho". Para
tanto, "Padre Silvestre ficaria com a parte moral e as citações latinas;
João Nogueira aceitou a ortografia e a sintaxe; prometi ao Arquimedes a
composição tipográfica; para a composição literária convidei Lúcio Gomes de
Azevedo Gondim, redator e diretor do ‘Cruzeiro’."(p.7).
Percebe-se que, por
meio de um processo de metalinguagem, coloca-se o processo da escritura em
discussão. Junto com ele, descobrimos que o processo de elaboração é falho
("O resultado foi um desastre."- p. 8), pois mascara seu autor: ele é
um homem rústico, e não aquilo que estavam fazendo que ele parecesse (...está
pernóstico, está safado, está idiota. Há lá quem fale dessa forma!- p.9).
Desta maneira, Paulo
Honório coloca-se como alguém simples, não afeito a técnicas narrativas
normalmente consideradas sofisticadas, daí as referências à "língua de
Camões". É por isso que assumirá a escritura do romance que tratará de sua
história, desde guia de cegos a proprietário da fazenda São Bernardo: narrativa
que se pretende escrita de forma rústica para tratar de uma "alma
agreste", conforme ele se autoqualifica.
Porém, engana-se o
leitor se imagina encontrar um texto desconexo, escrito por alguém que se diz
semi-analfabeto; ao contrário, deparamo-nos com um texto, que, em termos de
linguagem, poderia, inclusive, ser classificado como clássico: a linguagem é
"enxuta", sem preocupação descritiva ou abuso de linguagem figurada;
é a nítida preferência pelo substantivo, pela informação direta, aproximando-se
de uma linguagem referencial, bastante afastada daquilo que chamaríamos,
tradicionalmente, de poético. Neste sentido, poderíamos fazer uma comparação
com Machado de Assis, pois é a mesma preferência pela análise psicológica, por
conseguinte ocupando maior espaço na obra.
É aí que encontramos a
iconicidade: é a linguagem reveladora da personagem, ambos agrestes, áridos.
Todavia, essa simplicidade toda não nos leva a uma narrativa primitiva,
linearmente organizada. O texto é carregado de digressões e processos
metalinguísticos.
O narrador quer criar
a ilusão de que está escrevendo o texto sem planejamento, sem cálculo prévio,
forjando um primitivismo literário num livro de memórias: Paulo Honório
narrador conta a história de Paulo Honório personagem. Seu método seria algo
semelhante à técnica narrativa impressionista, contando os fatos conforme vão
surgindo na memória, daí a "desordem", a falta de linearidade
cronológica; por exemplo, ficamos sabendo que o filho de Madalena já havia
nascido, porque o narrador o apresenta chorando:
O pequeno
berrava como bezerro desmamado. Não me contive: voltei e gritei para d. Glória
e Madalena:
- Vão ver
aquele infeliz. Isso tem jeito? Aí na prosa, e pode o mundo vir abaixo. A
criança esgoelando-se!
Madalena
tinha tido um menino. (p.123).
Agora, sem dúvida, um
dos pontos mais altos desse processo de digressão é o capítulo 19. Ele é todo
digressão: Paulo Honório - já com seus cinquenta anos, em seu tempo presente -
interrompe o desenrolar dos fatos para escrever um capítulo fluxo de
consciência, que o leitor, que entra em contato com a obra pela primeira vez,
só vai entender quando acabar de ler o romance. No auge do seu conflito
psicológico, com Madalena já morta, Paulo Honório a vê aproximar-se dele:
-
Madalena!
A voz dela
me chega aos ouvidos. Não, não é aos ouvido. Também já não a vejo com os
olhos." (p. 102).
Ele só a vê em suas
lembranças, em sua consciência, mas é como se ela se materializasse diante de
si; é aí que ele faz algumas conjecturas sobre ela e ele:
A voz de
Madalena continua acariciar-me. Que diz ela? Pede-me naturalmente que mande
algum dinheiro a mestre Caetano. Isto me irrita, mas a irritação é diferente
das outras, é uma irritação antiga, que me deixa inteiramente calmo. Loucura
uma pessoa estar ao mesmo tempo irritada e tranquila. Mas estou assim. Irritado
contra quem? Contra mestre Caetano. Não obstante ele ter morrido, acho bom que
vá trabalhar.
Mandrião!
A toalha
reaparece, mas não sei se é esta toalha sobre que tenho as mãos cruzadas ou a
que estava aqui há cinco anos. (p. 102 e 103).
A contradição o assola
("... é uma irritação antiga que me deixa inteiramente calmo."); o
desejo de compreender acentua-se, daí as constantes referências às
contradições: é o desejo de rever Madalena, mas, simultaneamente, o não
entendimento de suas atitudes, o que ainda o irrita, como no passado:
Agitam-se
em mim sentimentos inconciliáveis: encolerizo-me e enterneço-me; bato na mesa e
tenho vontade de chorar.
Aparentemente,
estou sossegado: as mãos continuam cruzadas sobre a toalha e os dedos parecem
de pedra. Entretanto ameaço Madalena com o punho. Esquisito. (p. 103).
Este capítulo traz o
mesmo Paulo Honório do final da obra: sozinho, triste, convivendo com seus
fantasmas, como o senhor Ribeiro e d. Glória, já distantes no momento presente:
Apesar disso a palestra de seu Ribeiro e d. Glória
é bastante clara. A dificuldade seria reproduzir o que eles dizem. É preciso
admitir que estão conversando sem palavras. (p.103 e 104).
Todo esse momento do
enredo nos revela tanto os conflitos de Paulo Honório quanto a consciência
técnica do narrador; afinal, esse fluxo de consciência é extremamente bem feito
para alguém que se diz semianalfabeto.
Por conseguinte,
enxergamos, por trás de Paulo Honório, o escritor Graciliano Ramos, consciente
pleno do processo narrativo, capaz de criar uma "desordem" apenas
aparente, reveladora, na verdade, do tempo atual da personagem.
Após o capítulo 19, o
texto retoma o seu desenvolvimento normal. É interessante observar que, apesar
de o narrador deixar claro que tem consciência de tudo o que se passou,
inclusive antecipando fatos, cria o suspense em citações de intensa emoção,
como no momento da "despedida" de Madalena, preparando já o seu
suicídio, por meio de um diálogo rápido e vigoroso:
- O resto
está no escritório, na minha banca. Provavelmente esta folha voou para o jardim
quando eu escrevi.
- A quem?
- Você
verá. Está em cima da banca. Não é caso para barulho. Você verá.
- Bem.
Respirei.
Que fadiga!
- Você me
perdoa os desgostos que lhe dei, Paulo?
- Julgo
que tive minhas razões.
- Não se
trata disso. Perdoa?
Rosnei um
monossílabo.
- O que
estragou tudo foi esse ciúme. Paulo. (p. 160).
A metalinguagem também
tem o papel de apresentar o narrador avaliativo. Paulo Honório coloca-se na
posição de quem, além de autoavaliar os dois primeiros capítulos como
"inúteis", avalia as atitudes da personagem, com uma visão adiantada
dos fatos:
Já viram como perdemos
tempo com padecimentos inúteis? Não era melhor que fôssemos como os bois? Bois
com inteligência. Haverá estupidez maior que atormentar-se um vivente por
gosto? Será? Não será? Para que isso? Procurar dissabores! Será? Não será? (p.
148).
O de que sempre temos
certeza é da dúvida de Paulo Honório. Ele é alguém que jamais fechará um
raciocínio sequer, como veremos no desfecho.
Todo o foco central da
ação desse personagem se liga à posse de São Bernardo e ao relacionamento com
Madalena, e até nisso o narrador se utiliza das digressões, numa pretensa
"desorganização natural" das lembranças. No capítulo dois, por
exemplo, temos exposto seu grande objetivo na vida: "O meu fito na vida
foi apossar-me das terras de São Bernardo, construir esta casa, plantar
algodão, plantar mamona, levantar a serraria e o descaroçador, introduzir
nestas brenhas a pomicultura e a avicultura, adquirir um rebanho bovino
regular. " (p.11)
Porém, no capítulo 3,
observamos um retrocesso temporal, pois o narrador apresenta-nos a sua história
de vida - o menino de origem humilde, que vendia doces para a velha Margarida,
e o guia de cegos; a prisão, o aprendizado mínimo da leitura na cadeia e a
posterior saída, pensando já em "ganhar dinheiro" (p.13). Tal
processo digressivo é flagrante tentativa de autojustificação; Paulo Honório usará
de meios pouco lícitos para conseguir São Bernardo (aproveita-se da miséria e vício
de Padilha, para conseguir a fazenda por valor baixo); sua infância sofrida, a
falta de oportunidades, as dificuldades, tudo para "justificar" suas
atitudes e a falta de remorsos.
Na verdade, não se
conforma com o descaso de Padilha para com tão boa propriedade; era realmente
muito injusto vê-la nas mãos de um farrista, e não em suas mãos, que, como
veremos, trabalharão essa terra:
Trabalhava
danadamente, dormindo pouco, levantando-se às quatro da manhã, passando dias ao
sol, à chuva, de facão, pistola e cartucheira, comendo nas horas de descanso um
pedaço de bacalhau assado com um punhado de farinha. (p.29).
Claro que não podemos
dizer que o narrador queira envolver, emocionalmente, o leitor. Não há
interesse em deixar o leitor penalizado, justificando-se frente a ele, como se
o estivesse fazendo frente à sociedade.
Se há alguém frente a
que Paulo Honório queira justificar-se, esse alguém é ele mesmo, na busca do
autoconhecimento.
A posse de São
Bernardo, para ele, será fundamental. Adquiri-la significa adquirir respeito. A
criança humilde aprendera que só os poderosos são respeitados, daí a obsessão
por ganhar dinheiro, por mandar; nota-se tal procedimento já na posse da
fazenda:
Pensei que, em vez de aterrar o charco, era melhor
mandar chamar mestre Caetano para trabalhar na pedreira. Mas não dei contraordem,
coisa prejudicial a um chefe. (p.28).
Paulo Honório
personagem está-se acostumando a ser chefe, daí a necessidade de se impor para
ser respeitado. Para isso São Bernardo chegará a ter objetos de que ele sequer
se utiliza:
Comprei móveis e
diversos objetos que entrei a utilizar com receio, outros que ainda hoje não
utilizo, porque não sei para que sirvam. (p.39). Paulo Honório acredita que ter
é fundamental. Sendo assim, tudo será válido para conseguir seu objetivo:
A verdade é que nunca
soube quais foram os meus atos bons e quais foram os maus. Fiz coisas boas que
me trouxeram prejuízo; fiz coisas ruins que deram lucro. E como sempre tive a
intenção de possuir as terras de São Bernardo, considerei legítimas as ações
que me levaram a obtê-las . (p . 39).
E é por isso que tudo
será avaliado pelo valor monetário que possui, até mesmo a velha Margarida:
A velha Margarida mora
aqui em São Bernardo, numa casinha limpa, e ninguém a incomoda. Custa-me dez
mil-réis por semana, quantia suficiente para compensar o bocado que me deu.
(p.12 e 13).
É a isso que Alfredo
Bosi, em sua História Concisa da Literatura Brasileira, chamará de
"universo do ter", que se amplia a cada atitude sua. A instrução, a
cultura, para ele, é uma das coisas mais inúteis – são supérfluas, frente à
necessidade maior, que é a da posse. Mesmo assim, chegará a construir uma
escola na fazenda, buscando, em troca, "a benevolência do governador"
(p.44); assim será também com a igreja ("A escola seria um capital. Os
alicerces da igreja eram também capital" - p. 44 e 45).
A filosofia do ter
endureceu Paulo Honório. Ao pensar, por exemplo, em relacionamento entre homem
e mulher, vê-os como "machos e fêmeas" (p.65).
Por isso, no
casamento, buscará, inicialmente, o "herdeiro para São Bernardo",
alguém capaz de herdar sua obsessão pelo ter.
Madalena parece
adequada. Cogitando a possibilidade de casar-se com ela, imagina, de imediato,
a reprodução dos "bons espécimes"; reproduzir filhos não é diferente
de reproduzir animais:
Se o casal for bom, os
filhos saem bons; se for ruim, os filhos não prestam. A vontade dos pais não
tira nem põe. Conheço o meu manual de zootecnia. ( p. 87).
Sendo assim, também
acredita que atrairá Madalena, mostrando-lhe o que há em São Bernardo, desde as
aves até a extensão das terras.
Chega a, inclusive,
colocar a Madalena o casamento como uma espécie de negócio, como algo que lhe
possa "garantir o futuro":
- O seu
oferecimento é vantajoso para mim, seu Paulo Honório, murmurou Madalena. Muito
vantajoso. Mas é preciso refletir. De qualquer maneira, estou agradecida ao
senhor, ouviu? A verdade é que sou pobre como Job, entende?
- Não fale
assim, menina. E a instrução, a sua pessoa, isso não vale nada? Quer que lhe
diga? Se chegarmos a um acordo, quem faz negócio supimpa sou eu. (p. 90).
Madalena não se
revelará, mais tarde, como alguém que valorize os bens materiais (vemos, por
exemplo, sua dedicação aos pobres e funcionários que viviam na fazenda), o que
torna difícil acreditar que se tenha casado por dinheiro. Porém, não se podem
fazer, por outro lado, colocações fechadas em relação ela; o narrador, em
relação a Paulo Honório, mantém distância mínima, pois se trata de um processo
de desdobramento, mas, em relação à Madalena, a distância é máxima.
Tudo isso significa
que o leitor não tem acesso direto à consciência dela, o que reforça a ambiguidade
- será que não haveria, por parte de Madalena, nenhum interesse financeiro,
nenhuma necessidade de adquirir segurança por meio do casamento? O diálogo
acima transcrito permite essa análise. Para dificultar ainda mais as coisas,
não nos podemos esquecer de que quem conta essa história é Paulo Honório,
diretamente envolvido com ela.
Por conseguinte, o
foco narrativo é dele, o que gera uma visão parcial da história. O próprio
narrador dará subsídios para este tipo de enfoque; vejamos, por exemplo, os
comentários dele sobre a transcrição de um de seus diálogos com d. Glória:
Essa
conversa, é claro, não saiu de cabo a rabo como está no papel. Houve
suspensões, repetições, mal entendidos, incongruências, naturais quando a gente
fala sem pensar que aquilo vai ser lido. Reproduzo o que julgo interessante.
Suprimi diversas passagens, modifiquei outras. O discurso que atirei ao mocinho
do rubi, por exemplo, foi mais enérgico e mais extenso que as linhas chochas
que aqui estão. A parte referente à enxaqueca de d. Glória (a enxaqueca ocupou,
sem exagero, metade da viagem) virou fumaça. Cortei igualmente, na cópia,
numerosas tolices ditas por mim e por d. Glória. Ficaram muitas, as que as
minhas luzes não alcançaram e as que me pareceram úteis. É o processo que
adoto; extraio dos acontecimentos algumas parcelas; o resto é bagaço. (p.77 e 78).
Se ele expurgou seu
diálogo com ela, por que não faria o mesmo em sua conversa com Madalena, ou
mesmo contaria tudo como lhe conviesse?
Mas por que Madalena?
Ela não se revelará como alguém que se harmonize, em nada, com Paulo Honório;
para ele, ela tem defeitos irremediáveis, como, por exemplo, ser culta,
instruída, altruísta, ou pior, escreve artigos:
- Mulher
superior. Só os artigos que publica no Cruzeiro!
Desanimei:
- Ah! Faz
artigos!
- Sim,
muito instruída. Que negócio tem o senhor com ela?
- Eu sei
lá! Tinha um projeto, mas a colaboração no Cruzeiro me esfriou.
Julguei
que fosse uma criatura sensata. (p. 85).
Porém, ele a escolheu.
A justificativa que parece mais lógica é o fato de ela ser exatamente aquilo
que ele não é. Paulo Honório - como já anteriormente citado - busca o respeito
alheio, busca estabilizar-se e ser reconhecido. Uma esposa professora seria
mais respeitável do que qualquer cabocla comum.
De início, ele
imaginou-a como uma menina frágil, fácil de dominar.
Enganou-se: Madalena
tem iniciativa, quer trabalhar, ajuda aos outros sem pedir autorização e não dá
importância às aparências:
Tive, durante uma semana, o cuidado de procurar
afinar a minha sintaxe pela dela, mas não consegui evitar numerosos solecismos.
Mudei de rumo. Tolice. Madalena não se incomodava com essas coisas. Imaginei-a uma
boneca da escola normal. Engano. (p.95).
O protagonista sente
necessidade de adaptar-se a ela, tenta de tudo, porém todas as tentativas são
infrutíferas.
O grande problema é
que as energias que regem a vida dos dois são diferentes: ele é regido pela
posse, pelo ter; ela, pelo ser.
São diretrizes de vida
muito diversas, daí a dificuldade de compreensão de Paulo Honório. A consequência
será um ascendente ciúme; os alvos desses sentimentos serão vários: Padilha,
seu Ribeiro, Gondim, Padre Silvestre, chegando ao ponto de imaginar que o
amante vinha encontrá-la à noite, dentro de sua própria casa ("Três anos
de casado. Fazia exatamente um ano que tinha começado o diabo do ciúme."-
p. 164).
Madalena, apesar de
forte, será destruída por tudo isso. Seu suicídio é o auge disso tudo:
"Arredei-as e estaquei: Madalena estava
estirada na cama, branca, de olhos vidrados, espuma branca nos cantos da boca.
Aproximei-me, tomei-lhe as mãos, duras e frias, toquei-lhe o coração, parado.
Parado. No assoalho havia mancha de líquido e cacos de vidro. (p.165).
E, assim, chegamos ao
momento presente. Justificativas e justificativas... No final, um Paulo Honório
que escreveu um livro e só consegue ter certeza de sua solidão, seu estado de
abandono, sua inutilidade:
“Cinquenta anos”!
Quantas horas inúteis! Consumir-se uma pessoa a vida inteira sem saber para
quê! Comer e dormir como um porco! Como um porco! Levantar-se cedo todas as
manhãs e sair correndo, procurando comida! E depois guardar comida para os
filhos, para os netos, para muitas gerações. Que estupidez! Que porcaria! Não é
bom vir o diabo e levar tudo?" (p.181).
A sequência de exclamações
é icônica; temos, diante de nós, um homem revoltado, reconhecendo a inutilidade
de sua vida. Isso o redime?:
Madalena entrou aqui cheia de bons sentimentos e
bons propósitos. Os sentimentos e os propósitos esbarraram com a minha
brutalidade e o meu egoísmo. Creio que nem sempre fui egoísta e brutal. A
profissão é que me deu qualidades tão ruins. É a desconfiança terrível que me
aponta inimigos em toda parte! A desconfiança é também consequência da
profissão. (p.181).
Enfim, a circularidade
da narrativa acontece: o mesmo Paulo do início, que reconhece, parcialmente,
seu erro, mas a culpa é jogada aos fatores externos. Meio possível de acalmar a
consciência, mas que não elimina a dor do reconhecimento e da perda. Quem
queria acumular bens, mas acumulou perdas: destruiu a si e aos outros.
Assim, Paulo Honório
torna-se apenas um ser humano, não típico espacialmente, mas um ser humano
universal, capaz de refletir, mas incapaz de chegar a respostas definitivas.
Os Sertões
Euclides da Cunha
Esta obra foi dividida em três partes: "A Terra", "O Homem"
e "A Luta".
Euclides iniciou a descrição do sertão baiano em “A Terra”, explicando o
relevo do Planalto Central brasileiro. Depois descreveu a paisagem sertaneja: seca,
dias quentes e noites frias, cheia de árvores sem folhas e espinhentas.
Na segunda parte, o Autor caracterizou os sertanejos e contou a
história de Antônio Conselheiro, líder do arraial de Canudos. Euclides destacou as diferenças do
sertanejo e dos litorâneos, concluindo que os sertanejos estão
isolados da civilização e, portanto, privados de seus bens culturais e materiais.
Antônio Vicente Mendes Maciel (o Conselheiro), líder de
Canudos, foi um reflexo dos sertanejos. Nasceu em Quixeramobim, no Ceará, onde
trabalhou e logo se casou. Quando foi traído pela mulher, resolveu andar pelos
sertões. Após dez anos, Antônio Vicente surgiu como o líder religioso Antônio
Conselheiro.
Muitos sertanejos seguiam Conselheiro em sua peregrinação. Mas
a situação agravou-se quando o líder religioso instalou-se na antiga
fazenda de Canudos. As pessoas vinham de toda parte. O arraial, segundo as
autoridades, era um abrigo de criminosos. Amontoavam-se jagunços
suficientes para compor um batalhão, homens cruéis e
destemidos.
A terceira parte, “A Luta”, retrata o período em que o governo do
Estado da Bahia resolveu organizar uma expedição para desbaratar o arraial de
Canudos. A primeira expedição, liderada pelo Ten. Pires Ferreira, foi enviada em
novembro de 1896. Dispostos estrategicamente, mais preparados e com mais noção do
território e de seus ardis, os jagunços saíram vencedores. A segunda expedição,
comandada pelo major Febrônio de Brito, foi atacada de surpresa e vencida.
Com grande respaldo popular, a terceira expedição,
Expedição Moreira César, partiu de Monte Santo em fevereiro de 1897 e em março
invadiu Canudos. O Cel. Moreira César morreu e a expedição fracassou. Os soldados
debandaram nas caatingas.
A fuga dos soldados restrugiu-se no país inteiro.
A vitória dos jagunços foi considerada um ultraje para a República.
Era uma ameaça de restauração da Monarquia... (os sertanejos nem entendiam as
reformas republicanas: casamento civil, cobrança de impostos e separação entre
Igreja e Estado).
Batalhões de todos os Estados foram mobilizados para destruir Canudos. O
Gen. Artur Oscar liderava-os. Com a ajuda do Tenente-Coronel Siqueira de
Meneses, comandante astucioso, os soldados combateram e venceram, apesar da
repetição dos mesmos erros das expedições anteriores.
A vitória das forças do governo, conseguida após sucessivos reforços,
consolidou-se quando compôs-se a Trincheira Sete de Setembro. Canudos estava cercada, mas
resistiu com fome e sede até 5 de outubro. Os prisioneiros foram degolados.
BIBLIOGRAFIA
ANDRADE, Juan C. P. de. Vida e obra de Euclides da Cunha. São Paulo: [s.n], 2000. Disponível em <http://euclidesite.tripod.com.br>.
Acesso em nov. 2001.
ANDRADE, Olímpio de Sousa. História
e interpretação de 'Os Sertões'. 3. ed. rev. e aum. São Paulo: EDART, 1966.
CUNHA, Euclides da. Os Sertões:
campanha de Canudos. São Paulo: Martin Claret, 2002.
Comédias da vida privada
Luís Fernando Veríssimo
(1997)
Resumo
São 101 crônicas - pequenas estórias sobre as ironias do cotidiano ― humor ― piada, crônicas divididas em 6 capítulos, a
saber:
1. Fidelidade e
infidelidades - 14 crônicas; 2. Encontros e desencontros
- 16 crônicas; 3. Eles e ou Elas -
41 crônicas; 4. Família - 13 crônicas; 5. Pais e Filhos -
5 crônicas; e 6. Metafísicas - 8 crônicas.
1. Fidelidades e Infidelidades
A fidelidade
Em plena
terça-feira, mulher e filhos
descansavam na praia. Chegou o marido e contou que recebera um telefonema anônimo revelando que a esposa tinha um amante surfista. Ela negou e
pediu que ele nunca desconfiasse da fidelidade dela. Ele voltou para Porto
Alegre, pois teria um compromisso no dia seguinte. Mas o compromisso era
naquela noite mesmo: ela se chamava Maitê. Na
verdade, com toda essa história,
conseguira um habeas-corpus preventivo.
Zona Norte, Zona Sul.
Depois de
muito tempo, Vânia aceitou encontrar-se
com Rogério, seu amante, no
apartamento dele. Saiu de casa dizendo que ia a Copacabana fazer compras. Quando
os dois já estavam tirando a roupa,
ouviram um rebuliço no corredor. Em seguida,
batidas na porta. Era a polícia
procurando Gatão, um famoso bandido que morava
no apartamento vizinho e que conseguira fugir. No quarto, os policiais encontram
Vânia seminua. Ela corre
para a cozinha onde Gatão a agarra. Ele exigia um
carro para a fuga. Nesta altura, já
havia repórteres e câmeras de TV por todo lado. Gatão
consegue fugir levando Vânia. Quando ele a liberta,
ela pensa no marido, nos filhos e nos amigos naquele momento já deveriam estar sabendo de tudo. Então, pede ao bandido que a leve junto. Hoje, vive com Gatão em Rezende e jamais o trai.
Outro
final: Vânia chega em casa
preparada para tudo, mas se surpreende com a animação da família por terem visto-a na
televisão.
Infidelidade
Um homem
conta a seu médico que para conseguir
fazer sexo com a sua mulher tinha que pensar em outras mulheres, alguns
objetos... E passado algum tempo, isso já
não adiantava mais. Ele
agora só se excitava quando pensava
numa mulher madura, com o cabelo começando a
ficar grisalho, olhos castanhos... E esta era a sua própria mulher.
O encontro
Um casal
que havia se separado há pouco tempo, reencontra-se
por acaso num supermercado. Era a primeira vez que se encontravam depois da
separação. Os dois estavam embaraçados. Ele perguntou se ela costumava fazer compras de madrugada.
Ela respondeu que estava lá aquela
hora porque tinha alguns amigos em casa. Ele usou a mesma desculpa quando ela
perguntou sobre ele. Na verdade os dois estavam sozinhos.
Sala de espera
Uma
mulher jovem e muito bonita e um homem com seus quarenta anos encontram-se na
sala de espera do dentista. Os dois interessam-se um pelo outro. Pensam em
falar muita coisa. Mas no fim acabam não dizendo
nada. Aí a enfermeira abre a porta
e diz: - O próximo. E eles nunca mais se
veem.
Cantada
Um homem
e uma mulher tentam "desvendar o mistério"
de onde já se conheciam. Ambos mentem
dizendo que poderia ser em Nice, Nova York, Londres, Paris... Depois de
passarem a noite juntos eles confessam que nunca estiveram nesses lugares. Na
verdade, eles já haviam se conhecido, mas
na praia de Guarapari.
Lixo
Um casal
se encontrava-se na área de serviço do prédio onde morava. Cada um trazia
o seu pacote de lixo. Depois de alguma conversa descobrem que, já há algum tempo, um analisava
o lixo do outro. Sabiam muitas coisas a respeito do outro através do lixo. Ela o convida para jantar camarões. Ele não quer dar trabalho. Ela
diz que rapidamente limpa tudo e põe os
restos fora. No seu lixo ou no meu?
02) Eles &/ou Elas
A comadre
Aquele
veraneio terminou mal. Tudo porque o Itaborá
tinha soltado um omnahnmon! ao ver a comadre Mirna de biquíni fio-dental. Isamara, a esposa exigiu explicações. O compadre Adélio,
deixou passar. Afinal, eram amigos demais e o aluguel da casa já estava pago para um mês. Mas até o fim ficou aquela coisa chata entre os quatro. O Itaborá não podia tossir que todos olhavam
desconfiados.
O Mendoncinha
Um casal
estava tendo uma conversa durante o ato sexual. Falavam que parecia haver
outras pessoas ali com eles naquele momento: pai, mãe, o analista, o superego de cada um... Ela diz que parecia que
Mendoncinha, o seu primeiro namorado, também estava
ali. A reação dele foi imediata: Bota
o Mendoncinha para fora desta cama. (...) Ou sai o Mendoncinha, ou saímos eu e a minha turma!
O brinco
Maurão, às três horas da manhã, liga
para a casa do Russo, querendo falar com a sua esposa, Moira. Russo responde
que ela não está com ele. Maurão
insiste. Não acredita. tinha visto o
Russo comprar um brinco e este apareceu na orelha de Moira. Na verdade, quem
tinha recebido os brincos era Roberto. E era ele que estava deitado com Russo.
Quem fica intrigado, agora, é o próprio Russo. Como os brincos foram parar nas orelhas de Moira?
Roberto explica que dera os brincos a Lise, sua esposa. E concluindo: Lise
deu-os a Moira. - Você acha que a Lise e a Moira...
Flagrante de praia
Uma
mulher bonita está na praia passando óleo para bronzear. Faltavam as costas. Perto dela, um homem lia
jornal. De repente, ela pergunta por que ele estava olhando. Ela diz que nem
olhou para os lados. Ele continua a conversa perguntando se ele não estava pensando em propor-lhe um programa ou caisa parecida. Ele
responde que não. Não queria nenhum envolvimento emocional naquele momento. Perfeito.
Ela levantou-se, caminhou até onde ele
estava, sentou ao seu lado e pediu: - Me passa óleo nas costas?
O homem trocado
O homem
acorda da anestesia e pergunta à enfermeira
se foi tudo bem na operação. Esta dá resposta positiva. Ele estranha, pois a sua vida sempre fora rodeada
de trocas. Trocaram-no na maternidade; no cartório, ao invés de Lauro, escreveram Lírio; na escola pagava por aquilo que não tinha feito; passara no vestibular, mas o computador se enganara
e seu nome não aparecera na lista; contas
telefônicas astronômicas para pagar e ele nem tinha telefone; fora preso por engano.
E agora a sua operação de apendicite tinha sido
um sucesso. A enfermeira
parou de sorrir. - Apendicite? - perguntou, hesitante. - É. A operação era para tirar o apêndice. - Não era para trocar de sexo?
03) Família
A rocha
Dona
Mimosa, aos 100 anos, adquirira uma sólida
autoridade moral sobre a família.
Todos vinham pedir conselhos a ela, sobre educação, aplicação de dinheiro, etc, e tudo
era resolvido por ela. Mas certo dia Dona Mimosa sentiu que o mundo lhe
escapava. - A Berenice vai sair de casa. - Não deixa.
- Não adianta. Ela vai juntar.
- O quê? - Com a Valdirene. - Ah,
bom. Vai morar com uma amiga. - Não. Vão formar um casal. Silêncio. - O
que a senhora acha? Dona Mimosa sentiu que o mundo lhe escapava. Seu nariz não lhe diz mais nada. Era preciso, no entanto, resguardar a
autoridade. Com um esforço, recompôs-se e perguntou: - E e essa Valdirene, tem uma posição?
Reencontro
Frederico
encontra, no elevador, o amigo Parra que não via há vinte anos. Leva-o para seu apartamento e apresenta-o à mulher. Começam a conversar sobre os velhos
tempos. No meio da conversa, Frederico diz que está velho, que a Sandra, já
tinha noivo. Parra disse que sabia. Frederico pergunta se ele
conhece a sua filha. Parra disse que ele era o noivo de Sandra. Os dois começam a discutir e Parra vai embora. A mulher que pegara a conversa
pela metade, não entende nada.
Tios
A
primeira história é sobre tio Paulito. Era um homem quieto que sempre almoçava com a família de
sua irmã. Certo dia, a filha mais moça foi à conferência do Prestes no PT e encontrou o tio Paulito, que se mostrava íntimo do político. No outro dia, tio
Paulito foi o centro da admiração de
todos na mesa do almoço. Já tio Dedé fazia questão de contar a sua vida. Era muito falador. Sempre falava que tinha
feito um filme em Hollywood, aparecia numa cena do filme "Island of
Love". Certo dia, o filme passou na televisão; juntou-se muita gente na casa da família, todos ansiosos para verem o tio Dedé. Mas ele não apareceu. Então, ele pulou da cadeira e bradou aos céus: Cortaram! Cortaram!
Férias
A família está discutindo sobre onde
passar as férias. O pai tenta uma
proposta que não seja muito cara. Decidem
passar uma semana na praia e outra na serra. Vão a um hotel numa praia ainda não
desenvolvida, pois é mais barato. O pai fica o
dia inteiro lendo Agatha Christie e falando mal do general. Em seguida, viajam para
a serra. O pai permanece no hotel, mas descobre que o general também está hospedado ali. Então anuncia para a família:
Vamos passear no mato!
04) Pais e Filhos
Pai não entende nada
A filha
pede um biquíni novo para o pai. Este
lhe pergunta se ela não tinha comprado um no ano
passado. Ela diz que cresceu, que passou de 14 para 15 anos. Enfim, ele deixa a
filha comprar um maior. Maior não, pai.
Menor!
Suflê de chuchu
Duda
viajara para a França sozinha. Os pais estavam
aflitos, aqui no Brasil, pois ela nunca fizera nada em casa. Lá, começou a trabalhar de
empregada e, às vezes, ligava para seus pais
para pedir alguma receita de comida. Duda estava indo bem. Certo dia, a mãe deu a receita errada de um suflê de chuchu, com esperança do
fracasso da filha por lá que assim voltaria ao
Brasil. Provavelmente Duda foi despedida da casa. Mas dias depois ligou para
pedir a letra de uma música ao pai. O pai foi
categórico: Diz pra essa menina
voltar pra casa. Já.
A bola
Um pai dá uma bola de presente ao filho e esse não se entusiasma muito. Outro dia, o pai vê o menino com um jogo de bola no vídeo game. O pai ainda tenta animar
o filho com a bola que lhe dera de presente fazendo embaixadas, mas este mal
desvia os olhos da tela. Talvez um manual de instrução fosse uma boa ideia, pensou.
Mas em inglês, para a garotada se
interessar.
A descoberta
O pai
chega de surpresa no apartamento do filho que mora em outra cidade. Este sempre
mandava cartas dizendo que precisava de dinheiro para gastar em bebida, som e
mulheres. O pa orgulha-se do filho por causa disso. Mas tem uma decepção quando descobre que o filho gastava tudo em materiais para
pesquisa, livros e material didático.
O mundo restaurado
Um pai de
família adora brincar com os
brinquedos das crianças e lembrar da sua infância. Mas os adultos não o
entendem; falam e agem num tom muito sério. Mas ele
não ouve mais nada. Ergue o
Henry Kissinger até os olhos, como se mirasse uma
metralhadora, e começa a girar uma manivela
invisível do lado do livro. Ao mesmo
tempo, com a boca imita o ruído de
tiros, e descobre entusiasmado que ainda não perdeu
o jeito. O cunhado fica olhando, entre surpreso e divertido, enquanto ele varre
a sala com rajadas imaginárias.
05) No Bar
Dezesseis chopes
Estão cinco amigos num bar conversando e bebendo chope. Nos primeiros
copos a conversa é normal. Depois passam por
vários assuntos diferentes,
alguns, já sem qualquer nexo. Nos últimos copos, começam a
falar de coisas nostálgicas. Um deles afirma não ser feliz porque nunca teve um canivete decente. Outro levanta-se
e diz que teve um bom canivete. Ali está
o melhor dos homens, o homem
completo, e eles não sabiam.
Conversas
de bar
Dois
amigos, sentados num bar, conversam. Era um reencontro e eles relembravam as
coisas boas da juventude. Reconhecem que o garçom também tinha sido um grande
amigo deles, mas não falam nada. De tudo que
Mafra falava Tarol duvidava. Eram inseparáveis, mas
viviam brigando. Mafra contava histórias
absurdas, impossíveis. Certo dia, os dois
foram viajar. Quando voltaram, Mafra contou para a turma que tinha um apito de
chamar mulheres e para não desmerecer o amigo,
Tarol confirmou, mas revelou que só
chamava bagulho.
A
mesa
Cinco
amigos, cada um com sua família, iam
todos os dias a um bar para um chope, mas logo voltavam para casa. Certo dia,
um deles jantou lá. Com o tempo os outros
foram jantando também. Passado mais um tempo,
Gordo (o primeiro que tinha jantado no bar) resolveu dormir por lá. Decidiu, ainda, não sair
mais do bar. Os outros gostaram da ideia e também resolveram viver lá,
comendo, bebendo e conversando. Os familiares tentam convencê-los a ir para casa, mas estes não dão bola. Já perderam os empregos e certamente não terão dinheiro para pagar a conta,
mas é pouco provável que peçam a conta num futuro próximo. O papo está cada vez
mais animado.
06) Metafísicas
Borgianas
O
narrador estava jogando "xadrez" com Jorge Luís Borges, no escuro. Este ficava contando várias histórias. Ouvia barulho na rua
e inventava mais coisas. Também falou
do Antigo Egito. Outra vez, jogava xadrez com peças invisíveis e tabuleiro imaginário. Conversavam sobre a importância da
experiência para o escritor. Borges
não achava importante.
Soubera da história de um tigre que tinha
entrado na biblioteca de um escritor e que nunca mais saiu de lá. Esse escritor não poderia
escrever de maneira convincente sobre o tigre, pois teria que voltar à biblioteca para pesquisar e
isso ele não pode fazer pois tem um
tigre na sua biblioteca.
Contículos
Jorge Luís Borges está sonhando, mas pensa que
está acordado, pois até fala com dois homens que já
tinham morrido. Tinham avisado Sandrinha sobre o mau comportamento
do rapaz. Mesmo assim Sandrinha se aproximou. Depois pôde perceber que todos tinham razão.
O desejo da Madre de começar um
conto com um palavrão.
Um dia o pai saiu de casa,
afirmando que voltaria muito rico e os buscaria. Ele voltou amarrado na balsa
todo ensanguentado com uma tabuleta no peito. O filho tem curiosidade de saber
o que estava escrito na tabuleta.
Dois fatos que não se
relacionam: Marisa abrindo uma lata de pêssego e o
desmoronamento do Himalaia.
Encontraram-se 25 anos
depois. Um deles chamou o outro de kid. Este diz que não era o kid. O primeiro tem certeza de que ele era o Kid. Agora não é mais.
Maria José casou com José Maria por
uma certa fascinação intelectual. Foram muito
felizes.
Gravações
No fim do
dia, um homem escuta todas as conversas que foram gravadas no seu telefone
durante o dia. Espera ansioso pela última. E
ouve: Alô, aqui é o Mário. Algum recado para
mim?
Conto Erótico
O chefe
tenta fazer uma ligação, mas não consegue porque instalaram um novo sistema telefônico. No começo ele
pensa que é a secretária falando. Mais tarde descobre que é uma gravação. Tem pensamentos eróticos com a "gravação",
pois acha a voz linda.
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