"Olhai para os lírios do campo, como eles crescem; não trabalham, nem fiam. E eu vos digo que nem mesmo Salomão, em toda a sua glória, se vestiu como qualquer deles".

domingo, 29 de setembro de 2013

Regras para a acentuação gráfica

Acentuação gráfica

Quando utilizamos a linguagem oral, pronunciamos os sons com um maior ou menor grau de intensidade. Isto nos permite distinguir a sílaba tônica de uma palavra: a-ba-ca-xi.

Sílaba tônica é a que se destaca das demais por ser pronunciada com maior força expiatória.

Para reconhecer a sílaba tônica de uma palavra, imagine que a está gritando para alguém a certa distância. Normalmente, prolonga-se a sílaba tônica: Fer-NAAAN-do; ES-PEEE-re.

Sílabas átonas são aquelas que se caracterizam por uma pronúncia mais fraca: a-ba-ca-xi.

De acordo com a posição da sílaba tônica, os vocábulos de mais de uma sílaba são classificados em:
§  oxítonos: se a sílaba tônica é a última: sa-bi-á, Ca-xam-bu, cho-rar;
§  paroxítonos: se a sílaba tônica é a penúltima: -cil, es-pe-lho, ca-be-lei-rei-ro;
§  proparoxítonos: se a sílaba tônica é a antepenúltima: lâm-pa-da, hi-po--ta-mo, -pi-do.

Na linguagem escrita, muitas vezes somos obrigados a indicar a sílaba tônica, o que fazemos com a utilização do acento gráfico agudo [´] ou circunflexo [^].

São acentuados os vocábulos oxítonos terminados em:
a(s):    cajá, está, fubá, gambá, maracujá, será, xará, ás, aliás, ananás;
e(s):    até, café, jacaré, através, pajés, bebê, dendê, Tietê, você, camponês, freguês, inglês;
o(s):    avó, mocotó, jiló, avô, metrô, avós, retrós, bisavôs, borderôs, propôs;
em:     porém, armazém, também, alguém;
ens:    vinténs, parabéns.

Incluem-se nessa regra:
      a)    as formas verbais seguidas dos pronomes átonos:
acusá-lo, chamá-lo, considerar-se-á, atendê-lo, socorrê-lo, conhecê-lo.

      b)    os monossílabos tônicos terminados em:
a(s): chá, já, hás; e(s): fé, crê, vê, pés, três; o(s): pó, nós, sós, pôs.

      c)    os verbos ter e vir apenas no plural:
ele tem, eles têm; ele vem, eles vêm.

      d)    a terceira pessoa do plural do presente do indicativo dos verbos derivados de ter e vir leva acento circunflexo; a terceira pessoa do singular leva acento agudo:
ele detém, ela obtém, isto convém, ele intervém; eles detêm, elas obtêm, tais coisas não convêm, eles intervêm.

      e)    se formar hiato, o i ou o u será acentuado:
juízes, faísca, saí, Jacareí, Piauí, Itaú, baú.

      f)     os ditongos abertos éu, éi e ói quando são a sílaba tônica de vocábulos oxítonos e monossílabos tônicos:
anéis, batéis, fiéis, papéis, rói, herói(s), remói, sóis, corrói, réu, povaréu.

*Obs.- o i ou o u não será acentuado quando formar sílaba com l, m, n, r, z: Raul, ruim, ainda, ruir, juiz; ou quando constituir o primeiro elemento de um ditongo: saiu, anuidade. O i dos hiatos não recebe acento quando estiver seguido de nh: rainha.

São acentuados os vocábulos paroxítonos terminados em: um, uns, i, is, us, l, n, r, x, ã, ãs, ão, ãos, ons, ps, ei, eis:
álbum, fórum, médium, álbuns, médiuns, biquíni, dândi, júri, táxi, jóquei, Clóvis, lápis, tênis, bônus, ônus, Vênus, vírus, admissível, cônsul, fácil, imóvel, inviolável, túnel, cânon, elétron, hífen [hifens, no plural, não tem acento], Nílton, alúmen, açúcar, caráter, César, éter, revólver, córtex, Félix, Fênix, látex, tórax, ímã, órfã, ímãs, órfãs, acórdão, bênção, órgão, bênçãos, órgãos, elétrons, bíceps, fórceps, tríceps, vôlei, fáceis, imóveis, túneis, úteis, variáveis.

Incluem-se nessa regra os ditongos orais (seguidos ou não de s): páscoa, glória.

*Obs.- Não se acentuam os prefixos terminados em i e em r: semi-hospitalar, super-homem etc. Os paroxítonos terminados em ditongo nasal representado graficamente por em, ens não recebem acentos: falem, hifens, itens.

São acentuados todos os vocábulos proparoxítonos:
lágrima, fôlego, sábado, pássaro, matemática, gramática, protótipo, vítima, acréscimo, índice, próximo, médico, código, exército, gênero, público, sílaba, xícara, capítulo, décimo, parágrafo.


Exercícios para fixação
Nas frases abaixo, acentue as palavras corretamente:

      a)    O juri se valeu do carater irrepreensível do consul.
      b)    A geleira Bering, no Alasca, é a maior da America do Norte, mas esta derretendo rapidamente. (Isto É)
      c)    O juiz perdeu seus niqueis no taxi.   
      d)    O automovel era um conversivel bege, reluzente de metais cromados. (Érico Veríssimo)
      e)    Fizemos um album do grupo que participou do campeonato de volei.
       f)     Foi muito util o estudo sobre o virus da tuberculose que fizemos aqui.
      g)    O transplante do orgão foi bem-sucedido.
      h)   Cana-de-açucar se escreve com hifen.



Fonte:
MEDEIROS, João Bosco. Português instrumental. 8ª ed. – São Paulo: Atlas, 2009. (Adaptado)
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quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Bolsa de valores


Ultimamente muitos amigos têm estado preocupados com as oscilações negativas das bolsas de valores pelo mundo afora. Os investimentos na bolsa de valores, constituem por si próprios, atividade financeira de nível arriscadíssimo, e devem ser objetos de estudos tanto quanto às possibilidades de ganhos como as de perdas. Veja a narrativa a seguir e entenda como tudo funciona:
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Tempos atrás, na época da colonização do oeste americano, diz-se que chegou para o lugar um negociante de cavalos que estava comprando todos os cavalos selvagens que lhe trouxessem. A cada cavalo pagava a quantia de dez dólares. Depois de algum tempo, quando já havia comprado uma enorme quantidade animais e a oferta começava a minguar, o negociante aumentou o preço a ser pago por cada cavalo, passando a ofertar quinze dólares por animal. E assim, a cada vez que o negócio começava a esmorecer, aumentava o preço dos animais e aguçava a cobiça dos caçadores que se punham a caçar mais cavalos. Vinte, trinta, quarenta dólares. Os cavalos praticamente não eram mais encontrados na região e já custavam cinquenta dólares, quando o negociante anunciou que sairia de viagem para capitalizar mais recursos, deixando um assistente em seu lugar. O assistente estaria incumbido de pagar os mesmos cinquenta dólares a quem lhe trouxesse um cavalo selvagem. Entretanto, assim que o patrão se ausentou, o assistente resolveu espalhar a notícia que estava vendendo alguns cavalos a 35 dólares cada, e quem sigilosamente lhe comprasse os cavalos, poderia vendê-los novamente ao negociante pelo valor de cinquenta dólares quando este retornasse da viagem. Muitas pessoas começaram a comprar os cavalos ao preço de trinta e cinco dólares... Compraram todos os cavalos que o assistente colocou à venda, e também todos os demais que estivessem disponíveis na região. Depois de um certo tempo, porém, o assistente também desapareceu, e nunca mais nem o negociante e tampouco o assistente foram vistos por aquelas bandas.
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Moral da história? Que cada leitor entenda como deva proceder com cuidado redobrado e malícia aguçada em determinadas aplicações financeiras...
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quarta-feira, 25 de setembro de 2013

A Catedral




Entre brumas, ao longe, surge a aurora,
O hialino orvalho aos poucos se evapora,
Agoniza o arrebol.
A catedral ebúrnea do meu sonho
Aparece na paz do céu risonho
Toda branca de sol.

E o sino canta em lúgubres responsos:
"Pobre Alphonsus! Pobre Alphonsus!"

O astro glorioso segue a eterna estrada.
Uma áurea seta lhe cintila em cada
Refulgente raio de luz.
A catedral ebúrnea do meu sonho,
Onde os meus olhos tão cansados ponho,
Recebe a benção de Jesus.

E o sino clama em lúgubres responsos:
"Pobre Alphonsus! Pobre Alphonsus!"

Por entre lírios e lilases desce
A tarde esquiva: amargurada prece
Põe-se a luz a rezar.
A catedral ebúrnea do meu sonho
Aparece na paz do céu tristonho
Toda branca de luar.

E o sino chora em lúgubres responsos:
"Pobre Alphonsus! Pobre Alphonsus!"

O céu e todo trevas: o vento uiva.
Do relâmpago a cabeleira ruiva
Vem acoitar o rosto meu.
A catedral ebúrnea do meu sonho
Afunda-se no caos do céu medonho
Como um astro que já morreu.

E o sino chora em lúgubres responsos:
"Pobre Alphonsus! Pobre Alphonsus!"


Análise do poema

            Afonso Henriques da Costa Guimarães (Ouro Preto/MG, 1870 – Mariana/MG, 1921). Aos 18 anos, assiste à “difícil partida” de sua noiva Constança; o amor por Constança estará presente em toda sua vida e obra poética. Aos 27, formado em direito, casa-se; anos depois é nomeado juiz em Mariana/MG, de onde não mais sairia.

            Segundo um dos maiores poeta simbolista francês, Paul Verlaine, disse no poema “Arte Poética”, que “antes de tudo, a música preza/ portanto, o ímpar. Só cabe usar/ o que é mais vago e solúvel no ar/ sem nada em si que pousa ou pesa.” Fica evidente a presença da música logo nos primeiros versos e da vaguidade. Em “entre brumas, ao longe, surge a aurora./ o hialismo orvalho aos poucos se evapora.”, percebe-se palavras ligadas ao amanhecer ou à claridade. Isso significa a vaga lembrança em sonho com a amada, Constança, note que no final do segundo verso da primeira estrofe, a lembrança “aos poucos se evapora”, ou seja, o poeta volta-se para a realidade, que é como se ele fosse acordar, porém custa para que isso aconteça; pois é a única forma de ter contato com ela. Observe também que no final da estrofe o sino canta, este representa o estado da alma do poeta que está feliz, mas, ao mesmo tempo, está triste; feliz por ter boas lembranças e vivê-las em sonho e triste por saber que está morta.

            Nota-se em “pobre Alphonsus! Pobre Alphonsus!” que uma espécie de coro ou sua própria consciência está cantando aos “ouvidos da alma” a realidade. Na terceira estrofe, percebe que enquanto se acorda do sonho (este é o único meio de aproximar-se de ambas as mulheres, Constança e a virgem Maria, esta cujo poeta era devoto, comparava àquela pela semelhança da pureza, virgindade, etc. e daí o amor aparece sempre espiritualizado) e a visão da amada “segue a eterna estrada”. Constança é representada pela catedral ebúrnea tanto na primeira como nas estrofes seguintes (e essa repetição representa a presença constante da amada em seus sonhos); ela “aparece, na paz do céu risonho/ toda branca de sol” e depois “recebe a benção de Jesus”. Porém a consciência do poeta agora clama e não mais canta, vê-se uma gradação emocional, uma tensão.

            “Por entre lírios e lilases desce/ a tarde esquiva: amargurada prece/ põe-se a luz a rezar”, esses versos refere-se também à Constança e neles o poeta enaltece a figura da amada que até a natureza tem reverência por ela. “A catedral do meu sonho/ aparece, na paz do céu tristonho/ toda branca de luar”; ela continua com todas as características como bela, pura, perfeita etc., todavia a concepção utópica dele muda “céu tristonho”, alguma coisa começou a entrar em desequilíbrio. Outrora tudo era perfeito, pois era como estivesse sonhando e no sonho o irreal torna-se real. Então, isso o leva ao desespero, porque queria ficar com ela, mas esse mundo vai se desfazendo à medida que vai se acordando. A tensão aumenta cada vez mais e “o sino chora” ou o estado da alma do poeta desfaz-se levando-o à catarse.

            Por conseguinte, “o céu é todo trevas: o vento uiva./ do relâmpago a cabeleira ruiva/ vem açoitar o rosto meu”; nesses versos, o poeta acorda ou sua consciência e aquela reminiscência logo se evapora. Ela “afunda-se no caos do céu tristonho/ como um astro que já morreu”; “e o sino geme em lúgubres responsos:/ “Pobre Alphonsus! Pobre Alphonsus!” Além do que já foi dito, esses versos mostram a autocompaixão do poeta no badalar do sino.

            O sino, este grande referencial estampado nos versos do poema, conduz os interlocutores para uma leitura em que se evidenciam as quatro fases de um dia (madrugada, manhã, tarde e noite), entretanto, o que também se pode inferir é que o poeta procurou contemplar as quatro cerimônias que ocorrem numa igreja. Numa leitura mais criteriosa e menos apressada podemos observar os relatos e descrições de um dia de ”batismo”, de “primeira comunhão”, de ”casamento” e, por fim, os de um “funeral”. A oração letal (lúgubres responsos) palavras sempre presentes entre as estrofes principais indicam que o próprio Alphonsus já profetizava um final para a purgação que não tardaria a chegar.

Interaja com o vídeo:

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terça-feira, 24 de setembro de 2013

Eu e você

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Eu a conheço há muito tempo.
Desde o início do sempre.
Mas somente agora a encontrei
e tão rápida a felicidade me apossou.

Acreditas em alma gêmea?
Daquelas que sempre existiram.
Tenho certeza de que somos assim,
Um para o outro e para o amor.

Isso não é uma substância fugaz...
É parte de um todo sem fim.
Coexistimos em meio a uma multidão,
mas nasci só para ter você para mim.




(Juarez Firmino)
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sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Estrela minha

A cortina se abre
e eu acordo para o palco.

Você vem
e além da tua voz,
tudo é um único e profundo silêncio,
com um olhar compenetrado
ouço até a tua respiração.

Você está linda,
muito linda,
linda, linda, linda...
Lindíssima.

E a cortina se fecha.

O espetáculo termina.
Porém, o sonho continua
e eu não posso acordar.



(Juarez Firmino)
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quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Sobre o uso das redes sociais na internet

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O passado vai nos condenar

No mundo físico, você sempre pode mudar. Pode mudar de cidade, de aparência, de estilo, de profissão, de opinião. Na internet, não é assim: tudo o que você já fez ou diz fica gravado para sempre. Cada vez mais, usamos a rede para nos relacionarmos uns com os outros. Isso está gerando uma massa de dados tão grande, cobrindo tantos detalhes de nossas vidas, que no futuro será muito difícil de controlar – e poderá nos comprometer. “Nunca mais escreva [na internet] nada que você não queira ver estampado na capa de um jornal”, advertem Cohen e Schmidt, autores do livro The New Digital Age.
A internet não esquece nada. E isso afetará a vida de todo mundo. Se uma criança chamar uma colega de “gorda” na rede, por exemplo, poderá manchar a própria reputação pelo resto da vida – pois todo mundo poderá saber que, um dia, ela praticou bullying. Inclusive potenciais empregadores, que poderão deixar de contratá-la. Uma foto ou comentário poderão trazer consequências por muito tempo. Schmidt diz que a internet deveria ter um botão “delete”, que permitisse apagar para sempre eventuais erros que cometamos online. Isso é muito difícil, pois alguém sempre poderá ter copiado a informação que queremos ver sumir. Mas surgirão empresas especializadas em gerenciar nossa reputação online, prometendo controlar ou eliminar informações de que não gostamos, e empresas de seguro virtual, que vão oferecer proteção contra roubo de identidade virtual e difamação na internet. “A identidade online será algo tão valioso que até surgirá um mercado negro, em que as pessoas poderão comprar identidades reais ou inventadas”, dizem os autores.
O fim do esquecimento terá consequências profundas – que, para o Google, incluirão até a escolha do nome das pessoas. Alguns casais batizarão seus filhos com nomes bem diferentes, que não sejam comuns, e registrarão esses nomes nas redes sociais antes mesmo do nascimento da criança, tudo para que ela se destaque. Outros preferirão nomes comuns e genéricos, como “José Carlos”, que sejam muito frequentes e tornem mais difícil identificar a pessoa, permitindo que se esconda na multidão e mantenha algum grau de privacidade online.


(Anna Carolina Rodrigues – Superinteressante, junho, 2013. Adaptado)
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sábado, 24 de agosto de 2013

A reforma pelo jornal


A Reforma pelo jornal

Texto-fonte:
Obra Completa, Machado de Assis,
Rio de Janeiro: Nova Aguilar, V.III, 1994.

Publicado originalmente em O Espelho , Rio de Janeiro, 23/10/1859.

  
Houve uma coisa que fez tremer as aristocracias, mais do que os movimentos populares; foi o jornal. Devia ser curioso vê-las quando um século despertou ao clarão deste fiat humano; era a cúpula de seu edifício que se desmoronava.
Com o jornal eram incompatíveis esses parasitas da humanidade, essas fofas individualidades de pergaminho alçado e leitos de brasões. O jornal que tende à unidade humana, ao abraço comum, não era um inimigo vulgar, era uma barreira...  de papel, não, mas de inteligências, de aspirações.
É fácil prever um resultado favorável ao pensamento democrático. A imprensa, que encarnava a ideia no livro, expendi eu em outra parte, sentia-se ainda assim presa por um obstáculo qualquer; sentia-se cerrada naquela esfera larga mas ainda não infinita; abriu pois uma represa que a impedia, e lançou-se uma noite aquele oceano ao novo leito aberto: o pergaminho será a Atlântida submergida.

Por que não?

Todas as coisas estão em gérmen na palavra, diz um poeta oriental. Não é assim? O verbo é a origem de todas as reformas.

Os hebreus, narrando a lenda do Gênesis, dão à criação da luz a precedência da palavra de Deus. É palpitante o símbolo. O fiat repe­tiu-se em todos caos, e, coisa admirável! sempre nasceu dele alguma luz.

A história é a crônica da palavra. Moisés, no deserto; Demóstenes, nas guerras helênicas; Cristo, nas sinagogas da Galileia; Huss, no púlpito cristão; Mirabeau, na tribuna republicana; todas essas bocas eloquentes, todas essas cabeças salientes do passado, não são senão o fiat multiplicado levantado em todas as confusões da humanidade. A história não é um simples quadro de acontecimentos; é mais, é o verbo feito livro.

Ora pois, a palavra, esse dom divino que fez do homem simples matéria organizada, um ente superior na criação, a palavra foi sem­pre uma reforma. Falada na tribuna é prodigiosa, é criadora, mas é o monólogo; escrita no livro, é ainda criadora, é ainda prodigiosa, mas é ainda o monólogo; esculpida no jornal, é prodigiosa e cria­dora, mas não é o monólogo, é a discussão.

E o que é a discussão?

A sentença de morte de todo o status quo, de todos os falsos princípios dominantes. Desde que uma coisa é trazida à discussão, não tem legitimidade evidente, e nesse caso o choque da argumentação é uma probabilidade de queda.

Ora, a discussão, que é a feição mais especial, o cunho mais vivo do jornal, é o que não convém exatamente à organização desigual e sinuosa da sociedade.

Examinemos.

A primeira propriedade do jornal é a reprodução amiudada, é o derramamento fácil em todos os membros do corpo social. Assim, o operário que se retira ao lar, fatigado pelo labor quotidiano, vai lá encontrar ao lado do pão do corpo, aquele pão do espírito, hóstia social da comunhão pública. A propaganda assim é fácil; a discussão do jornal reproduz-se também naquele espírito rude, com a diferença que vai lá achar o terreno preparado. A alma torturada da individualidade ínfima recebe, aceita, absorve sem labor, sem obstá­culo aquelas impressões, aquela argumentação de princípios, aquela arguição de fatos. Depois uma reflexão, depois um braço que se ergue, um palácio que se invade, um sistema que cai, um princípio que se levanta, uma reforma que se coroa.

Malévola faculdade — a palavra!

Será ou não o escolho das aristocracias modernas, este novo molde do pensamento e do verbo?

Eu o creio de coração. Graças a Deus, se há alguma coisa a espe­rar é a das inteligências proletárias, das classes ínfimas; das supe­riores, não.

As aristocracias dissolvem-se, diz um eloquente irmão d'armas. É a verdade. A ação democrática parece reagir sobre as castas que se levantam no primeiro plano social. Os próprios brasões já se humanizam mais, e alguns jogam na praça sem notarem que começam a confundir-se com as casacas do agiota.

Causa riso.

Tremem, pois, tremem com este invento que parece abranger os séculos — e rasgar desde já um horizonte largo às aspirações cívicas, às inteligências populares.

E se quisessem suprimi-lo? Não seria mau para eles; o fechamento da imprensa, e a supressão da sua liberdade, é a base atual do pri­meiro trono da Europa.

Mas como! cortar as asas de águia que se lança no infinito, seria uma tarefa absurda, e, desculpem a expressão, um cometimento par­vo. Os pergaminhos já não são asas de Ícaro. Mudaram as cenas; o talento tem asas próprias para voar; senso bastante para aquilatar as culpas aristocráticas e as probidades cívicas.

Procedem estas ideias entre nós? Parece que sim. É verdade que o jornal aqui não está à altura da sua missão; pesa-lhe ainda o último elo. Às vezes leva a exigência até à letra maiúscula de um título de fidalgo.

Cortesania fina, em abono da verdade!

Mas, não importa! eu não creio no destino individual, mas aceito o destino coletivo da humanidade. Há um polo atraente e fases a atravessar. — Cumpre vencer o caminho a todo o custo; no fim há sempre uma tenda para descansar, e uma relva para dormir.

terça-feira, 30 de julho de 2013

O que muda. O que não muda.

O Novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa.

Alfabeto

1.       Incorporação, no alfabeto da língua portuguesa, das letras K, Y e W.
Antes do acordo
Darwin, Wagner, Kuwait, km, kg, Yeda, Ely, byroniano, Franklin, Kant, taylorista, Kwanza, malawiano, KLM, Watt, Kardec, Klepler, Washington, WWW, kart, yoga.
A partir do acordo
Darwin, Wagner, Kuwait, km, kg, Yeda, Ely, byroniano, Franklin, Kant, taylorista, Kwanza, malawiano, KLM, Watt, Kardec, Klepler, Washington, WWW, kart, yoga.

Observação: antes do acordo, as letras K, Y e W não faziam parte do alfabeto do português, aparecendo em casos especiais (abreviaturas e estrangeirismos); a partir do acordo passam a vigorar oficialmente em nosso alfabeto.

2.       Manutenção ou simplificação, nos nomes próprios hebraicos de tradição bíblica, dos dígrafos finais -ch, -ph e -th pronunciados.
Antes do acordo
Baruch, Enoch, Moloch, Loth, Ziph.
A partir do acordo
Baruch ou Baruc, Enoch ou Enoc, Moloch ou Moloc, Loth ou Lot, Ziph ou Zif.

3.       Eliminação ou adaptação, nos nomes próprios hebraicos de tradição bíblica, dos dígrafos finais -ch, -ph e -th mudos e de alguns pronunciados.
Antes do acordo
Joseph ou José, Nazareth ou Nazaré, Judith ou Judite, Beth ou Bete, Ruth ou Rute.
A partir do acordo
José, Nazaré, Judite, Bete, Rute.

Observação: evidentemente, para efeito legal, deve permanecer a ortografia dos nomes próprios registrados em Cartório de Registro Civil.


4.       Manutenção ou eliminação, em antropônimos e topônimos consagrados pelo uso, das consoantes finais.
Antes do acordo
David ou Davi, Jacob ou Jacó, Madrid ou Madri, Job ou Jó, Josafat ou Josafá.
A partir do acordo
David ou Davi, Jacob ou Jacó, Madrid ou Madri, Job ou Jó, Josafat ou Josafá.

Observação: a intenção dessa regra é apenas consagrar um uso já comum na ortografia portuguesa, embora ainda não tivesse sido definida antes do acordo.

5.       Substituição, sempre que possível, dos topônimos estrangeiros por formas vernáculas correspondentes.
Antes do acordo
Anvers ou Antuérpia, Milano ou Milão, Zürich ou Zurique, München ou Munique, Bordeaux ou Bordéus, Génève ou Genebra, Torino ou Turim, London ou Londres, Shangai ou Xangai, Nova York ou Nova Iorque, Lion ou Lião, Quebec ou Quebeque.
A partir do acordo
Antuérpia, Milão, Zurique, Munique, Bordéus, Genebra, Turim, Londres, Xangai, Nova Iorque, Lião, Quebeque.

Observação: os topônimos grafados na forma original, isto é, com a grafia estrangeira, são muito mais comuns no Brasil do que em Portugal, devendo haver, a partir do acordo, uma unificação em favor das formas vernáculas. Topônimos que não possuem, tradicionalmente, correspondente no vernáculo devem manter sua grafia original: Washington, Los Angeles, Buenos Ares, Zagreb etc.

Letras maiúsculas e minúsculas

1.       Emprego da letra minúscula nos nomes de meses, estações do ano e dias da semana.
Antes do acordo
Janeiro, Fevereiro, Março, Abril, Maio, Junho, Julho, Agosto, Setembro, Outubro, Novembro, Dezembro, Primavera, Verão, Outono, Inverno, Segunda, Terça, Quarta, Quinta, Sexta, Sábado, Domingo.
A partir do acordo
janeiro, fevereiro, março, abril, maio, junho, julho, agosto, setembro, outubro, novembro, dezembro, primavera, verão, outono, inverno, segunda, terça, quarta, quinta, sexta, sábado, domingo.

2.       Emprego da letra minúscula nos nomes dos pontos cardeais.
Antes do acordo
Norte, Sul, Leste, Oeste, Sudeste, Nordeste, Noroeste, Sueste.
A partir do acordo
norte, sul, leste, oeste, sudeste, nordeste, noroeste, sueste.

3.       Emprego facultativo da letra minúscula nos vocábulos que compõem uma citação bibliográfica, com exceção do primeiro vocábulo e daqueles obrigatoriamente grafados com maiúscula.
Antes do acordo
Memórias Póstumas de Brás Cubas, Grande Sertão: Veredas, Casa-Grande e Senzala, O Crime do Padre Amaro, O Espírito das Leis, Em Busca do Tempo Perdido, A Montanha Mágica, Crime e Castigo, O Crepúsculo dos Deuses.
A partir do acordo
Memórias Póstumas de Brás Cubas ou Memórias póstumas de Brás Cubas, Grande Sertão: Veredas ou Grande sertão: veredas, Casa-Grande e Senzala ou Casa-grande e senzala, O Crime do Padre Amaro ou O crime do Padre Amaro, O Espírito das Leis ou O espírito das leis, Em Busca do Tempo Perdido ou Em busca do tempo perdido, A Montanha Mágica ou A montanha mágica, Crime e Castigo ou Crime e castigo, O Crepúsculo dos Deuses ou O crepúsculo dos deuses.

4.       Emprego facultativo de minúscula nas formas de tratamento e reverência (axiônimos), bem como em nomes sagrados e que designam crenças religiosas (hagiônimos).
Antes do acordo
Santa Isabel, Doutor Carlos Ferreira, Papa João Paulo II, Governador Mário Covas, Senhor Roberto, Excelentíssimo Senhor Reitor, Vossa Reverendíssima.
A partir do acordo
Santa Isabel ou santa Isabel, Doutor Carlos Ferreira ou doutor Carlos Ferreira, Papa João Paulo II ou papa João Paulo II, Governador Mário Covas ou governador Mário Covas, Senhor Roberto ou senhor Roberto, Excelentíssimo Senhor Reitor ou excelentíssimo senhor reitor, Vossa Reverendíssima ou vossa reverendíssima.

5.       Emprego facultativo de minúscula nos nomes que designam domínios do saber e formas afins.
Antes do acordo
Português, Educação Física, História do Brasil, Arte Medieval, Linguística, Arquitetura, História da América, Geografia Humana, Química Quântica, Astrofísica, Biologia Marinha, Cultura Geral, Informática, Pintura, Artes Plásticas, Letras Clássicas e Vernáculas.
A partir do acordo
Português ou português, Educação Física ou educação física, História do Brasil ou história do Brasil, Arte Medieval ou arte medieval, Linguística ou linguística, Arquitetura ou arquitetura, História da América ou história da América, Geografia Humana ou geografia humana, Química Quântica ou química quântica, Astrofísica ou astrofísica, Biologia Marinha ou biologia marinha, Cultura Geral ou cultura geral, Informática ou informática, Pintura ou pintura, Artes Plásticas ou artes plásticas, Letras Clássicas e Vernáculas ou letras clássicas e vernáculas.

6.       Emprego facultativo de maiúscula inicial em categorizações de logradouros públicos, templos e edifícios.
Antes do acordo
Rua do Ouvidor, Estrada das Figueiras, Edifício Copan, Igreja do Rosário, Palácio do Governo, Túnel Rebouças, Rodovia Castelo Branco, Bairro da Mooca.
A partir do acordo
Rua do Ouvidor ou rua do Ouvidor, Estrada das Figueiras ou estrada das Figueiras, Edifício Copan ou edifício Copan, Igreja do Rosário ou igreja do Rosário, Palácio do Governo ou palácio do Governo, Túnel Rebouças ou túnel Rebouças, Rodovia Castelo Branco ou rodovia Castelo Branco, Bairro da Mooca ou bairro da Mooca.


Acentuação

1.       Eliminação do sinal de diérese intitulado trema, no -u seguido de g ou q e antes de -e ou -i.
Antes do acordo
lingüiça, agüentar, freqüente, conseqüência, cinqüenta, subseqüente, cinqüentenário, iniqüidade, eqüestre, lingüística, quinqüênio, antiqüíssimo, argüição, enxágüe.
A partir do acordo
linguiça, aguentar, frequente, consequência, cinquenta, subsequente, cinquentenário, iniquidade, equestre, linguística, quinquênio, antiquíssimo, arguição, enxágue.

2.       Eliminação do acento agudo nos ditongos abertos -ei, -oi, das palavras paroxítonas.
Antes do acordo
idéia, assembléia, hebréia, Coréia, paranóico, jibóia, heróico, Galiléia, apóio.
A partir do acordo
ideia, assembleia, hebreia, Coreia, paranoico, jiboia, heroico, Galileia, apoio.

Observação: a acentuação mantém-se nas palavras que apresentam as condições descritas na regra, mas que são oxítonas: anéis, batéis, fiéis, papéis, corrói, herói(s), remói, sóis etc.

3.       Eliminação do acento agudo nas palavras paroxítonas com -i e -u tônicos precedidos de ditongo.
Antes do acordo
cauíla, feiúra, baiúca, boiúno, boiúna, Sauípe, teiídio.
A partir do acordo
cauila, feiura, baiuca, boiuno, boiuna, Sauipe, teiidio.

Observação: a acentuação mantém-se nas palavras que apresentam as condições descritas na regra, mas que são proparoxítonas (maiúsculo, feiíssimo, cheiíssimo) ou possuem -i / -u não precedidos de ditongo (aí, cafeína, saída, saúde, país, viúvo, saístes, saúva). 

4.       Eliminação do acento agudo nas palavras paroxítonas que possuam -u tônico precedido das letras g ou q, seguidas de -e ou -i.[1]
Antes do acordo
averigúe, apazigúe, apazigúem, argúem, argúi, obliqúe, redargúi, redargúem.
A partir do acordo
averigue, apazigue, apaziguem, arguem, argui, oblique, redargui, redarguem.

5.       Eliminação do acento circunflexo nos encontros vocálicos -oo.
Antes do acordo
vôo, enjôo, môo, perdôo, corôo, côo, sôo, abençôo.
A partir do acordo
voo, enjoo, moo, perdoo, coroo, coo, soo, abençoo.

6.       Eliminação do acento circunflexo nos encontros vocálicos -ee.
Antes do acordo
crêem, dêem, lêem, vêem, relêem, revêem, descrêem, antevêem.
A partir do acordo
creem, deem, leem, veem, releem, reveem, descreem, anteveem.

7.       Eliminação dos acentos agudo e circunflexo nas seguintes palavras homógrafas (acento diferencial).
Antes do acordo
para (verbo parar) e para (preposição); péla (verbo pelar), péla (substantivo) e pela (preposição); pólo (substantivo), pôlo (substantivo) e polo (preposição arcaica); pélo (verbo pelar), pêlo (substantivo) e pelo (preposição); pêro (substantivo) e pero (conjunção arcaica); pêra (substantivo), péra (substantivo) e pera (preposição arcaica).
A partir do acordo
para (verbo parar) e para (preposição); pela (verbo pelar), pela (substantivo) e pela (preposição); polo (substantivo), polo (substantivo) e polo (preposição arcaica); pelo (verbo pelar), pelo (substantivo) e pelo (preposição); pero (substantivo) e pero (conjunção arcaica); pera (substantivo), pera (substantivo) e pera (preposição arcaica).

8.       Manutenção dos acentos agudo e circunflexo nas seguintes palavras homógrafas (acento diferencial).
Antes do acordo
pôde (3ª pessoa do singular do pretérito perfeito do indicativo) e pode (3ª pessoa do singular do presente do indicativo); pôr (verbo) e por (preposição); têm (3ª pessoa do plural do presente do indicativo) e tem (3ª pessoa do singular do presente do indicativo); vêm (3ª pessoa do plural do presente do indicativo) e vem; (3ª pessoa do singular do presente do indicativo); abstêm e todos os demais derivados do verbo ter (3ª pessoa do plural do presente do indicativo) e abstém e todos os demais derivados do verbo ter (2ª e 3ª pessoas do singular do presente do indicativo); convêm e todos os demais derivados do verbo vir (3ª pessoa do plural do presente do indicativo) e convém e todos os demais derivados do verbo vir (2ª e 3ª pessoas do singular do presente do indicativo).
A partir do acordo
pôde (3ª pessoa do singular do pretérito perfeito do indicativo) e pode (3ª pessoa do singular do presente do indicativo); pôr (verbo) e por (preposição); e demais formas detalhadas acima.

9.       Emprego facultativo dos acentos agudo e circunflexo nas seguintes palavras homógrafas (acento diferencial).
Antes do acordo
dêmos (1ª pessoa do plural do presente do subjuntivo) e demos (1ª pessoa do plural do pretérito perfeito do indicativo; fôrma (substantivo) e forma (substantivo, 3ª pessoa do singular do presente do indicativo ou 2ª pessoa do singular de imperativo); amámos e demais formas verbais da primeira conjugação (1ª pessoa do plural do pretérito perfeito do indicativo) e amamos e demais formas verbais da primeira conjugação (1ª pessoa do plural do presente do indicativo).
A partir do acordo
dêmos ou demos (1ª pessoa do plural do presente do subjuntivo) e demos (1ª pessoa do plural do pretérito perfeito do indicativo; fôrma ou forma (substantivo) e forma (substantivo, 3ª pessoa do singular do presente do indicativo ou 2ª pessoa do singular de imperativo); amámos e demais formas verbais da primeira conjugação ou amamos e demais formas verbais da primeira conjugação (1ª pessoa do plural do pretérito perfeito do indicativo) e amamos e demais formas verbais da primeira conjugação (1ª pessoa do plural do presente do indicativo).

10.   Emprego facultativo da acentuação nos casos consagrados pelas duas ortografias oficiais.
Antes do acordo
econômico ou económico, acadêmico ou académico, fêmur ou fémur, bebê ou bebé, canapê ou canapé, matinê ou matiné, purê ou puré, judô ou judo, metrô ou metro, sumô ou sumo, Antônio ou António, prêmio ou prémio, gênero ou género, fenômeno ou fenómeno, bônus ou bónus, sêmen ou sémen, Fênix ou Fénix, ônix ou ónix, oxigênio ou oxigénio, sinfônico ou sinfónico, tênis ou ténis, cômico ou cómico, guichê ou guiché.
A partir do acordo
econômico ou económico, acadêmico ou académico, fêmur ou fémur, bebê ou bebé, canapê ou canapé, matinê ou matiné, purê ou puré, judô ou judo, metrô ou metro, sumô ou sumo, Antônio ou António, prêmio ou prémio, gênero ou género, fenômeno ou fenómeno, bônus ou bónus, sêmen ou sémen, Fênix ou Fénix, ônix ou ónix, oxigênio ou oxigénio, sinfônico ou sinfónico, tênis ou ténis, cômico ou cómico, guichê ou guiché.

11.   Emprego facultativo da acentuação nas formas conjugadas dos verbos terminados em -guar, -quar e -quir.
Antes do acordo
averiguo, averigua, averigúe, enxáguo, enxágua, enxáguam, enxagüe, águo, obliquo, apaziguo, delínque, apropínquo.
A partir do acordo
averiguo ou averíguo, averigua ou averígua, averigue ou averígue, enxáguo ou enxaguo, enxágua ou enxagua, enxáguam ou enxaguam, enxague ou enxágue, águo ou aguo, obliquo ou oblíquo, apaziguo ou apazíguo, delinque ou delínque, apropinquo ou apropínquo.


Hífen

1.       Eliminação do hífen em palavras compostas cuja noção de composição, em certa medida, se perdeu.
Antes do acordo
pará-quedas, manda-chuva, madressilva, girassol, pontapé.
A partir do acordo
paraquedas, mandachuva, madressilva, girassol, pontapé.

2.       Eliminação do hífen em vocábulos derivados por prefixação, cujo prefixo terminar em vogal e o segundo elemento iniciar-se por consoante (com exceção do h).
Antes do acordo
contra-regra, extra-regular, anti-semita, ultra-sonografia, neo-republicano, proto-revolucionário, semi-selvagem, ultra-sensível, supra-renal, contra-senha, co-seno, infra-som, minissaia, eletrossiderurgia, microssistema, microrradiografia, minissérie, contra-senso, proto-satélite, ultra-romântico, ultra-secreto, extra-solar, supra-sumo, micro-cirurgia, semicírculo.
A partir do acordo
contrarregra, extrarregular, antissemita, ultrassonografia, neorrepublicano, protorrevolucionário, semisselvagem, ultrassensível, suprarrenal, contrassenha, cosseno, infrassom, minissaia, eletrossiderurgia, microssistema, microrradiografia, minissérie, contrassenso, protossatélite, ultrarromântico, ultrassecreto, extrassolar, suprassumo, microcirurgia, semicírculo.

3.       Eliminação do hífen em vocábulos derivados por prefixação, cuja vogal final do prefixo é diferente da vogal inicial do segundo elemento.
Antes do acordo
antieconômico, extra-escolar, auto-aprendizado, contra-indicado, intra-ocular, auto-educação, extra-oficial, antiaéreo, co-educação, aeroespacial, auto-estrada, auto-aprendizagem, agroindustrial, hidroelétrico, plurianual, auto-adesivo, contra-exemplo, auto-ajuda, intra-oral, auto-escola, co-editor, contra-oferta, auto-estima, coirmão.
A partir do acordo
antieconômico, extraescolar, autoaprendizado, contraindicado, intraocular, autoeducação, extraoficial, antiaéreo, coeducação, aeroespacial, autoestrada, autoaprendizagem, agroindustrial, hidroelétrico, plurianual, autoadesivo, contraexemplo, autoajuda, intraoral, autoescola, coeditor, contraoferta, autoestima, coirmão.

4.       Eliminação do hífen nas formas conjugadas do verbo haver seguido da preposição de.
Antes do acordo
hei-de ou hei de, há-de ou há de, hão-se ou hão de, havemos-de ou havemos de, haverei-de ou haverei de, haveremos-de ou haveremos de.
A partir do acordo
hei de, há de, hão-se ou hão de, havemos de, haverei de, haveremos de.

Observação: deve-se atentar para o fato de que somente na norma ortográfica lusitana o emprego desse hífen  era obrigatório, uma vez que a norma ortográfica brasileira já dispensava seu uso. 

5.       Manutenção do hífen em palavras compostas por justaposição cujos elementos constituem uma unidade semântica, mas mantêm uma tonicidade própria; e em compostos que designam espécies botânicas e zoológicas.
Antes do acordo
ano-luz, arco-íris, decreto-lei, médico-cirurgião, tenente-coronel, tio-avô, alcaide-mor, amor-perfeito, guarda-noturno, mato-grossense, norte-americano, porto-alegrense, sul-africano, afro-asiático, azul-escuro, luso-brasileiro, primeiro-ministro, segunda-feira, conta-gotas, finca-pé, guarda-chuva, couve-flor, carta-bilhete, vitória-régia, cirurgião-dentista, abaixo-assinado, ave-maria, erva-doce, feijão-verde, formiga-branca, bem-te-vi.
A partir do acordo
ano-luz, arco-íris, decreto-lei, médico-cirurgião, tenente-coronel, tio-avô, alcaide-mor, amor-perfeito, guarda-noturno, mato-grossense, norte-americano, porto-alegrense, sul-africano, afro-asiático, azul-escuro, luso-brasileiro, primeiro-ministro, segunda-feira, conta-gotas, finca-pé, guarda-chuva, couve-flor, carta-bilhete, vitória-régia, cirurgião-dentista, abaixo-assinado, ave-maria, erva-doce, feijão-verde, formiga-branca, bem-te-vi.

Observação: atente-se para o fato de, se comparada com a regra 1, esta se caracteriza como uma das propostas mais polêmicas do acordo, em razão de suas bases não explicitarem os casos em que as mudanças devem ocorrer. Regra 5: “emprega-se o hífen nas palavras compostas por justaposição que não contêm formas de ligação e cujos elementos [...] constituem uma unidade sintagmática e semântica e mantêm acento próprio”. Regra 1: “compostos, em relação aos quais se perdeu, em certa medida, a noção de composição, grafam-se aglutinadamente” (grifo meu).

6.       Manutenção do hífen em vocábulos derivados por prefixação cujo segundo elemento iniciar-se por h.
Antes do acordo
pré-história, semi-hospitalar, geo-história, sub-hepático, anti-higiênico, contra-harmônico, extra-humano, super-homem, ultra-hiperbólico, neo-helênico, pan-helenismo.
A partir do acordo
pré-história, semi-hospitalar, geo-história, sub-hepático, anti-higiênico, contra-harmônico, extra-humano, super-homem, ultra-hiperbólico, neo-helênico, pan-helenismo.

Observação: Com exceção de alguns prefixos como co- (coabitar, coerdeiro) re- (reaver) etc. 

7.      Manutenção do hífen em vocábulos derivados por prefixação cuja consoante final do prefixo é r e o segundo elemento também iniciar-se por r; ou com os prefixos circum- e pan- com o segundo elemento iniciado por vogal, m ou n; ou em qualquer condição para alguns prefixos (além-, ex-, sota-, soto-, vice-, vizo-, pós-, pré-, pró-, grã-, grão).
Antes do acordo
hiper-reativo, inter-relacionado, super-resistente, super-requintado; circum-escolar, circum-murado, circum-navegação, pan-africano, pan-mágico, pan-negritude, pan-americano; além-mar, ex-almirante, ex-diretor, ex-hospedeira, ex-presidente, ex-primeiro-ministro, sota-piloto, soto-mestre, vice-presidente, vice-reitor, vizo-rei, pós-graduação, pós-tônico, pré-escolar, pré-natal, pró-africano, pró-europeu, grã-duque, grã-fina, grão-cruz, grão-mestre.
A partir do acordo
hiper-reativo, inter-relacionado, super-resistente, super-requintado; circum-escolar, circum-murado, circum-navegação, pan-africano, pan-mágico, pan-negritude, pan-americano; além-mar, ex-almirante, ex-diretor, ex-hospedeira, ex-presidente, ex-primeiro-ministro, sota-piloto, soto-mestre, vice-presidente, vice-reitor, vizo-rei, pós-graduação, pós-tônico, pré-escolar, pré-natal, pró-africano, pró-europeu, grã-duque, grã-fina, grão-cruz, grão-mestre.

8.       Inclusão do hífen em vocábulos derivados por prefixação cujo prefixo terminar por vogal igual à vogal inicial do segundo elemento.
Antes do acordo
antiinflacionário, arquiinimigo, autoônibus, pseudo-organizado, mega-ação, antiimperialista, microorganismo, antiibérico, supra-auricular, arquiirmandade, autoobservação, semi-interno, microondas, contra-ataque, intra-arterial.
A partir do acordo
Anti-inflacionário, arqui-inimigo, auto-ônibus, pseudo-organizado, mega-ação, anti-imperialista, micro-organismo, anti-ibérico, supra-auricular, arqui-irmandade, auto-observação, semi-interno, micro-ondas, contra-ataque, intra-arterial.

Observação: não se inclui o hífen em palavras indicadas por alguns prefixos como co- (cooptar, coordenar) pre- (preencher, preestabelecer), re- (reembolsar, reerguer) etc.


Letras mudas

1.       Eliminação de consoantes mudas não pronunciadas.
Antes do acordo
acção, baptizar, directo, adoptar, objecção, acto, óptimo, accionar, abstracção, actual, fraccionar, selecção, electricidade, projecto, adopção, Egipto.
A partir do acordo
ação, batizar, direto, adotar, objeção, ato, ótimo, acionar, abstração, atual, fracionar, seleção, eletricidade, projeto, adoção, Egito.

Observação: trata-se de uma regra que tem particular incidência sobre a articulação lusitana, já que não é comum, na grafia brasileira, casos de consoantes mudas não pronunciadas, com exceção do h.

2.       Emprego facultativo de consoantes mudas pronunciadas.
Antes do acordo
facto  ou fato, sector ou setor, carácter ou caráter, amnistia ou anistia, sumptuoso ou suntuoso, excepcional ou excecional, concepção ou conceção, peremptório ou perentório, assumpção ou assunção, aspecto ou aspecto, ceptro ou cetro, corrupto ou corruto, recepção ou receção, subtil ou sutil, amígdala ou amídala, indemnizar ou indenizar, omnipotente ou onipotente, omnisciente ou onisciente, infeccioso ou infecioso, dicção ou dição, decepcionar ou dececionar, súbdito ou súdito, aritmética ou arimética.
A partir do acordo
facto  ou fato, sector ou setor, carácter ou caráter, amnistia ou anistia, sumptuoso ou suntuoso, excepcional ou excecional, concepção ou conceção, peremptório ou perentório, assumpção ou assunção, aspecto ou aspecto, ceptro ou cetro, corrupto ou corruto, recepção ou receção, subtil ou sutil, amígdala ou amídala, indemnizar ou indenizar, omnipotente ou onipotente, omnisciente ou onisciente, infeccioso ou infecioso, dicção ou dição, decepcionar ou dececionar, súbdito ou súdito, aritmética ou arimética.

Grafia de derivados

1.       Uniformização dos sufixos -iano e -iense (em vez de -ano e -ense) em vocábulos derivados de palavras terminadas por -e(s).
Antes do acordo
acreano ou acriano (de Acre), açoriano (de Açores), euclidiano (de Euclides), camoniano (de Camões), cabo-verdiano (de Cabo Verde), sofocliano (de Sófocles), freudiano (de Freud), marciano (de Marte), georgiano (de George), quebequense (de Quebeque), torrense (de Torres), zairense (de Zaire).
A partir do acordo
acriano (de Acre), açoriano (de Açores), euclidiano (de Euclides), camoniano (de Camões), cabo-verdiano (de Cabo Verde), sofocliano (de Sófocles), freudiano (de Freud), marciano (de Marte), georgiano (de George), quebequiense (de Quebeque), torriense (de Torres), zairiense (de Zaire).

2.       Uniformização das terminações átonas -io e -ia (em vez de -eo e -ea) nos substantivos que constituem variações de outros substantivos terminados em vogal.
Antes do acordo
hástia ou hástea, réstia, vestia, béstia.
A partir do acordo
hástia, réstia, vestia, béstia.

3.       Variação da conjugação de verbos terminados em -iar, provenientes de substantivos terminados em -ia ou -io átonos. 
Antes do acordo
negocio (de negócio), premio (de prêmio).
A partir do acordo
negocio ou negoceio (de negócio), premio ou premeio (de prêmio).

Observação: Outros verbos terminados em -iar deverão seguir a conjugação regular (noticiar – noticio, influenciar – influencio, principiar – principio etc.) ou irregular (remediar – remedeio, mediar – medeio, odiar – odeio etc), conforme a tradição.




Fonte:
SILVA, Maurício. O novo acordo da língua portuguesa: o que muda, o que não muda. 2ed. São Paulo: Contexto, 2009.




[1] Para a dupla grafia dos verbos terminados em -uar (averiguar, apaziguar, obliquar etc.), consultar a regra 11.