"Olhai para os lírios do campo, como eles crescem; não trabalham, nem fiam. E eu vos digo que nem mesmo Salomão, em toda a sua glória, se vestiu como qualquer deles".

terça-feira, 29 de maio de 2018

Como escrever resenhas

Todos que passam pelos bancos escolares acabam se deparando com a necessidade de fazer uma resenha — um dos tipos de trabalhos mais solicitados pelos professores.
Como um gênero textual, uma resenha é um texto em forma de síntese que expressa a opinião do autor sobre um determinado fato cultural, que pode ser um livro, um filme, peças teatrais, exposições, shows etc. O objetivo da resenha é guiar o leitor pelo emaranhado da produção cultural que cresce a cada dia e que tende a confundir até os mais familiarizados com todo esse conteúdo.
Como uma síntese, a resenha deve ir direto ao ponto, mesclando momentos de pura descrição com momentos de crítica direta. O resenhista que conseguir equilibrar perfeitamente esses dois pontos terá escrito a resenha ideal.  No entanto, sendo um gênero necessariamente breve, é perigoso recorrermos ao erro de sermos superficiais demais. Nosso texto precisa mostrar ao leitor as principais características do fato cultural, sejam elas boas ou ruins, mas sem esquecer de argumentar em determinados pontos e nunca usar expressões como “Eu gostei” ou “Eu não gostei”, pois essa é uma característica o texto científico, aquele usado em TCC e artigos científicos.
A resenha deve possuir as mesmas qualidades de estilo imprescindíveis a todo texto escrito, como: simplicidade, clareza, concisão, propriedade vocabular, precisão vocabular, objetividade e impessoalidade. Além disso, a resenha deve apresentar imparcialidade, atitude científica e privilegiar o essencial. Veja seguir.
Imparcialidade
Seja na defesa ou no ataque, o resenhista deve julgar as ideias da obra sem paixão, devendo posicionar-se criticamente como um juiz e apresentar tanto os aspectos positivos quanto os negativos da obra, sem defender ou lado ou outro devido a motivos externos à obra (amizade com o autor, imposição de editoras, professores, colegas, etc.)
Cientificidade
A resenha, assim como todo trabalho acadêmico, deve ter cunho científico — veja mais sobre TCC, por exemplo. Ou seja, estar em conformidade com as exigências de objetividade e impessoalidade.
Privilegiar o essencial
Você deve falar apenas do que é mais importante na obra, pois seu leitor raramente estará interessado em muitos detalhes ou em partes menos importantes. Devido a isso é necessário respeitar o tempo que ele está reservando para ler seu texto.
Quanto aos tipos de resenha, a mais conhecida delas é a resenha acadêmica, que apresenta moldes bastante rígidos, responsáveis pela padronização dos textos científicos. Ela, por sua vez, também se subdivide em resenha crítica, descritiva e temática.
Na resenha acadêmica crítica, os oito passos a seguir formam um guia ideal para uma produção completa:
1.    Identifique a obra: coloque os dados bibliográficos essenciais do livro ou artigo que você vai resenhar;
2.    Apresente a obra: situe o leitor descrevendo em poucas linhas todo o conteúdo do texto a ser resenhado;
3.    Descreva a estrutura: fale sobre a divisão em capítulos, em seções, sobre o foco narrativo ou até, de forma sutil, o número de páginas do texto completo;
4.    Descreva o conteúdo: Aqui sim, utilize de 3 a 5 parágrafos para resumir claramente o texto resenhado;
5.    Analise de forma crítica: Nessa parte, e apenas nessa parte, você vai dar sua opinião. Argumente baseando-se em teorias de outros autores, fazendo comparações ou até mesmo utilizando-se de explicações que foram dadas em aula. É difícil encontrarmos resenhas que utilizam mais de 3 parágrafos para isso, porém não há um limite estabelecido. Dê asas ao seu senso crítico.
6.    Recomende a obra: Você já leu, já resumiu e já deu sua opinião, agora é hora de analisar para quem o texto realmente é útil (se for útil para alguém). Utilize elementos sociais ou pedagógicos, baseie-se na idade, na escolaridade, na renda etc.
7.    Identifique o autor: Cuidado! Aqui você fala quem é o autor da obra que foi resenhada e não do autor da resenha (no caso, você). Fale brevemente da vida e de algumas outras obras do escritor ou pesquisador.
8.    Assine e identifique-se: Agora sim. No último parágrafo você escreve seu nome e fala algo como “Graduando em Letras pela Universidade Federal do ABC”.
Na resenha acadêmica descritiva, os passos são exatamente os mesmos, excluindo-se o passo de número 5. Como o próprio nome já diz, a resenha descritiva apenas descreve, não expõe a opinião o resenhista.
Finalmente, na resenha temática, você fala de vários textos que tenham um assunto (tema) em comum. Os passos são um pouco mais simples:
1.    Apresente o tema: Diga ao leitor qual é o assunto principal dos textos que serão tratados e o motivo por você ter escolhido esse assunto;
2.    Resuma os textos: Utilize um parágrafo para cada texto, diga logo no início quem é o autor e explique o que ele diz sobre aquele assunto;
3.    Conclua: Você acabou de explicar cada um dos textos, agora é sua vez de opinar e tentar chegar a uma conclusão sobre o tema tratado;
4.    Mostre as fontes: Coloque as referências Bibliográficas de cada um dos textos que você usou;
5.    Assine e identifique-se: Coloque seu nome e uma breve descrição do tipo “Graduando em Letras pela Universidade Federal do ABC”.
O outro tipo de resenha é aquele que serve para divulgar uma obra, simplesmente. Ele permite ao leitor tomar conhecimento do livro, filme ou artigo de que trata a resenha e, consequentemente, decidir se deseja lê-lo ou assisti-lo. Esse tipo é muito comum quando referida a uma obra da literatura, o que constituirá uma resenha literária.
Antes de iniciar a produção do texto há alguns passos importantes que você deve considerar para que a qualidade do seu trabalho possa atingir um patamar de excelência.
Passo 1 – Leitura da obra a ser resenhada
Chega a ser ridículo ter que colocar este ponto, mas já vi muita gente fazendo resenhas de livros que nunca leu, de filmes que nunca assistiu ou de palestras às quais não compareceu. Soou familiar? É uma realidade crescente entre os estudantes universitários.
Mas você não pretende ser um desses, certo? Então o primeiro passo é conhecer o objeto que será resenhado. Um detalhe importante: essa sua leitura deve ser rápida, com o objetivo de conhecer a obra como um todo. Portanto, não faça anotações e nem sublinhe nada.
Passo 2 – Releitura
Na primeira leitura que fazemos de qualquer coisa há muitos elementos que passam despercebidos. É nessa etapa que devemos, lentamente, analisar aspectos mais pontuais da obra que será alvo da resenha. Use a técnica de sublinhar, fazer esquemas com as ideias principais (tanto da obra quanto de cada capítulo) e tente estabelecer relações entre tudo isso.
Algo que eu faço e que ajuda muito: fazer perguntas e anotá-las no canto das páginas (se você estiver resenhando um material escrito, claro). Isso força você a pensar sobre o material que tem em mãos.
Passo 3 – Parar para pensar
Você deve para um tempo para pensar sobre tudo, rever suas anotações, formar uma opinião e, quem sabe, até buscar outras fontes que tratem dos mesmos assuntos, para poder fazer contrapontos em seu texto. Se possível, essa pausa deve durar mais de 24h, mas não ultrapasse as 72h para que as ideias não lhe fujam da memória. Faça mais anotações e já tente formular os argumentos que utilizará em seu texto.
Partindo de tudo que foi dito, talvez você já tenha uma boa ideia sobre o que escrever em sua resenha e até mesmo sobre a estrutura que deve seguir. Mas vamos falar especificamente de uma das perguntas que eu mais ouço dos alunos: Como começar uma resenha?
Há uma série de questões que você deve tentar responder em sua introdução. Veja:
1.    De que trata o livro?
2.    Ele tem alguma característica especial?
3.    De que modo o assunto é abordado?
4.    Qual é a tese do autor?
5.    Qual a intenção do autor?
6.    Que conhecimentos prévios são exigidos para entendê-lo?
7.    A que tipo de leitor se dirige o autor?
8.    O tratamento dado ao tema é compreensível?
9.    O livro foi escrito de modo interessante e agradável?
10.     As ilustrações foram bem escolhidas?
11.     O livro foi bem organizado?
12.     O leitor, que é a quem o livro se destina, irá achá-lo útil?
13.     Comparando essa obra com outras similares e com outros trabalhos do mesmo autor, a que conclusões chegamos?
Evidentemente, você não precisa responder a todas essas questões, sendo elas sugestões que você pode utilizar no início de sua resenha.
Outro ponto em que muitos têm dúvidas é na hora de escrever a conclusão. Esse espaço final da resenha serve para expor sua avaliação geral sobre a obra.
Até aqui você já deve ter discutido os argumentos do autor e como ele os defende, assim como ter avaliado a qualidade e a eficiência de diversos aspectos do livro ou artigo.
Agora é o momento de avaliar o trabalho como um todo, determinando coisas como se o autor conseguiu ou não atingir os objetivos propostos e se a obra contribui de maneira significante para a área de conhecimento da qual faz parte.
Ao escrever a conclusão, você pode considerar as seguintes perguntas:
·       A obra usa graus de objetividade ou subjetividade apropriados à proposta inicial do autor?
·       O autor consegue manter o foco da obra, sem incorrer em excesso de opinião própria ou falta de fontes que comprovem seus argumentos?
·       Em algum momento o autor deixa de considerar aspectos relevantes de sua área, como outros pontos de vista ou teorias contrárias às dele?
·       O autor conseguiu atender aos objetivos a que se propôs ao iniciar a obra?
·       Que contribuições a obra traz para sua área de conhecimento ou grupo específico de leitores?
·       É possível justificar o uso dessa obra no contexto em que foi indicada (uma disciplina da universidade, por exemplo)?
·       Qual o comentário final mais importante que você faria a respeito dessa obra?
·       Você tem sugestões para futuras pesquisas nessa área?
·       De que maneiras ler/assistir essa obra contribuiu para sua formação?
O tamanho do seu texto pode variar muito, principalmente de acordo com o material que você estiver resenhando. Por isso, não há regra quanto ao número de parágrafos, mas se você estiver escrevendo uma resenha para a faculdade, por exemplo, dificilmente você deve pensar em menos do que duas páginas do Word, o que daria entre 6 e 10 parágrafos, aproximadamente.
Quando falamos de textos acadêmicos, pouca coisa muda em relação aos demais tipos de materiais (livros, filmes, palestras, etc.). Você deve considerar, no entanto, que um texto acadêmico deve ser impessoal — seus verbos nunca serão escritos em primeira pessoa (eu, nós).
Portanto, ao resenhar esse tipo de texto, siga as dicas já expostas acima, mas tenha um cuidado ainda maior com a linguagem e atente para as normas da ABNT. Quanto à quantidade de páginas, o tamanho de uma resenha, depende muito da sua fonte. Não há regra fixa, mas tente nunca ficar abaixo das duas páginas do Word.
Concluindo, fazer uma resenha parece muito fácil à primeira vista, mas devemos tomar muito cuidado, pois dependendo do lugar, resenhistas podem fazer um livro mofar nas prateleiras ou transformar um filme em um verdadeiro fracasso.
As resenhas são ainda, além de um ótimo guia para os apreciadores da arte em geral, uma ferramenta essencial para acadêmicos que precisam selecionar quantidades enormes de conteúdo em um tempo relativamente pequeno.

Referências:
DIDIO, Lucie. Leitura e Produção de Textos. São Paulo: Atlas, 2013


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sábado, 19 de maio de 2018

CONTOS DE ENSINAMENTO


Os contos populares da tradição oral são narrativas ancestrais que vêm resistindo à passagem do tempo. No Brasil, convivem contos de tradição dos diferentes povos indígenas e africanos, de povos orientais e os de tradição européia (estes mais divulgados pela mídia impressa, cinematográfica e virtual). São estudiosos do conto da tradição oral brasileira Câmara Cascudo e Silvio Romero, entre outros. De gêneros variados, possuem certas características que os aproximam e outras que os distanciam, permitindo diferentes classificações. A organização mais comum é a que reúne os contos populares da tradição oral em uma só categoria, “contos de fadas”, ignorando que esses últimos receberam essa designação por terem fadas em seus enredos. Mas, ao serem analisados por estudiosos, os contos populares, em geral, foram classificados de formas mais complexas. Um dos agrupamentos mais importantes é o de Aarne-Thompson; outros, dos formalistas russos, entre eles Wladimir Propp.
As classificações dos contos da tradição oral, porém, embora valiosas para ampliar a compreensão de sua natureza e importância, costumam apresentar certa rigidez própria das tipologias e não podem ser consideradas verdades absolutas, uma vez que alguns temas, por exemplo – como o da menina e o lobo, “escapam” das classificações por terem sido contados de diferentes jeitos, ou seja, em diferentes gêneros. Mas olhá-los por meio dessas análises produzidas com cuidado e intenção investigadora, ainda que marcada por uma fixidez excessiva, permite que se perceba a riqueza da cultura oral. É inegável que os numerosos estudos e classificações contribuem para isso.
Hoje vamos abrir espaço para os chamados “contos de ensinamento”, importante grupo de contos da tradição oral de todas as regiões da Terra. Como contos da tradição oral, têm em comum com os maravilhosos e os de fadas a antiguidade, comprovada pelas inúmeras pesquisas de estudiosos no assunto, a falta de autor determinado, a transmissão boca a boca através das gerações. O que os particulariza é a intenção: sua finalidade principal não é divertir, é ensinar.
Atualmente, esses contos (como todos da tradição oral) são, muitas vezes, classificados como pertencentes à literatura infantil. Se os analisarmos com mais cuidado, veremos que eles, em sua origem, eram destinados a ouvintes de todas as idades. Isso fica fácil de entender quando lembramos que, antes do século XIX, não havia essa divisão rígida que temos hoje em “mundo das crianças” e “mundo dos adultos”, com os diferentes artigos de consumo (os materiais e os culturais) divididos entre públicos bem definidos. Até essa época, em sociedades ocidentais ou orientais, as crianças das classes populares não eram apartadas dos adultos em situações de trabalho, diversão ou convívio familiar. É claro que os mais velhos passavam ensinamentos tradicionais para os mais jovens, como tendemos a fazer ainda hoje, mesmo que de modos diversos, mas a distância entre gerações não era tão espacialmente determinada; o convívio entre velhos, adultos e crianças era próximo, os nascimentos e as mortes não eram tratados de forma “higienizada” como o são atualmente: nascimentos e mortes não são coisas “da casa” são coisas do espaço hospitalar e subordinados ao cuidado médico. Os acontecimentos da vida eram partilhados no convívio próximo e cotidiano.
Nesse ambiente onde a maioria não tinha acesso à escolarização, a eletricidade chegava a poucos lugares e ainda não tinha diminuído os mistérios da noite, e a internet – nosso grande oráculo - não era sequer imaginada, a conversa era o meio mais usual para o acesso aos conhecimentos acumulados. As reuniões nas famílias ou em grupos sociais maiores, sempre eram animadas por contadores que guardavam na memória as narrativas mais significativas para a transmissão da história e das tradições de seu povo, entre eles os contos de ensinamento. Eram ocasiões de grande envolvimento dos ouvintes, era nelas que se aprendia sobre a vida. E os contos eram o instrumento, nesse momento eles ganhavam uma vida que não podemos reviver pelas versões escritas. Como diz o historiador Robert Darton, um estudioso do assunto, não há como recuperar os dispositivos gestuais e de entonação usados na época por meio das frias páginas escritas.
Embora não possamos recriá-los como eram, não deixam de ser, ainda hoje, encantadores e poderosos, mesmo para os ouvintes adultos. Há contos de ensinamento originários do mundo todo. São muito conhecidos aqueles que valorizam o esforço e a esperteza dos fracos contra os fortes e poderosos (como Pequeno polegar, João e Maria, O pequeno Alfaiate, João e o pé de feijão, Aladin e a Lâmpada maravilhosa, etc.) e os que alertavam contra os perigos do mundo (como Chapeuzinho Vermelho, Barba Azul etc.).
Como todos os demais contos da tradição oral, as versões que conhecemos hoje resultam da passagem por diferentes países e são influenciadas por suas versões escritas. Por conta de serem atualmente, tratadas como literatura infantil, e porque vivemos a divisão da sociedade em adultos (que tudo podem ver e saber) e crianças (cuja mente não pode ser contaminada pelas maldades do mundo), as versões mais recentes são abrandadas, mais românticas, em relação às primeiras que foram escritas e que, provavelmente, são mais próximas da tradição oral. As primeiras versões escritas continuam influenciando, é claro, as atuais. São elas a de Perrault, no século XVII, na França, a dos irmãos Grimm, no século XIX na Alemanha e as de Andersen, também no século XIX, na Dinamarca. Além das escritas, no século XX houve versões gravadas em discos e fitas e versões cinematográficas.
Os contos de ensinamento são um material rico que desperta o interesse dos estudiosos. Podemos encontrar correntes diversas que revelam perspectivas de diferentes campos de estudo:
• Há os que vêem neles elementos psicológicos¹ revelados na simbologia que pode se atribuir aos personagens, aos elementos da paisagem às cores etc., úteis na análise psicanalítica.
• Existem os que os estudam como documentos históricos² que revelam, de forma crua, fatos realmente vividos e retratados nos contos como advertência e como indicação de atitudes que devem ser tomadas como proteção à vida.
• Muitos foram analisados pelas formas que tomaram quando foram utilizados como ensinamentos filosóficos³, morais e religiosos.
Alguns povos ainda muito ligados aos ensinamentos da tradição oral estão recolhendo, mais recentemente, contos que ainda circulam oralmente para registrá-los por meio da escrita. Veja alguns lançamentos editoriais recentes:
• Contos recolhidos da tradição oral africana por Nelson Mandela, Meus contos africanos, livro publicado no Brasil pela editora Martins Fontes;
• Contos recolhidos da tradição de povos indígenas brasileiros, por Daniel Munduruku e Heloisa Prieto, Antologia de contos indígenas de ensinamento, publicado pela editora Salamandra.

¹ Entre os estudiosos da psicologia que estudaram os símbolos nos chamados contos de fadas estão Bruno Betelheim, de linha freudiana, autor do conhecido Psicanálise dos contos de fadas, publicado pela editora Paz e Terra, e Marie Louise Von Franz, de linha junguiana, autora de alguns livros sobre o assunto, entre eles A interpretação do conto de fadas, publicado pela editora Paulus.
² Entre os historiadores que estudaram os contos populares de ensinamento está Robert Darton, que escreveu O grande massacre de gatos e outros episódios da história cultural francesa, livro publicado pela editora Graal.
³ Entre os contos de tradição filosófico-religiosa oriental estão os do personagem Nasrudin. Veja um dos contos em http://www.releituras.com/nasrudin_menu.asp


Heloisa Amaral
http://escrevendo.cenpec.org.br

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domingo, 18 de fevereiro de 2018

O retrato oval



O castelo onde meu criado aventurara-se a forçar nossa entrada, em vez de permitir que eu passasse a noite, ferido como eu estava, ao relento, era uma daquelas construções lúgubres e grandiosas que há tempos debruçam-se por sobre os Apeninos, não apenas de fato como na imaginação da sra. Radcliffe. O lugar dava a impressão de ter sido abandonado havia pouco tempo, em caráter temporário. Instalamo-nos em um dos aposentos menores e mais humildes. O quarto ficava em um torreão afastado. A decoração era sofisticada, mas antiga e maltratada pelo tempo. As paredes estavam cobertas por tapeçarias e ornadas com troféus de armas; ademais, havia um número incomum de pinturas modernas muito agradáveis com molduras de arabescos dourados. Essas pinturas, que pendiam não apenas das paredes amplas, mas também de inúmeros recônditos que arquitetura bizarra do palácio fazia necessários ‒ essas pinturas, talvez em virtude de um delírio incipiente, despertaram-lhe um profundo interesse, de modo que solicitei a Pedro que fechasse as pesadas cortinas daquele cômodo ‒ uma vez que já era noite ‒,  que acendesse os pavios de um candelabro alto que estava junto à cabeceira da minha cama e que abrisse, tanto quanto possível, as cortinas franjadas de veludo negro que envolviam a cama. Fiz esse pedido para que eu pudesse me entregar se não ao sono, pelo menos à contemplação daqueles quadros e à leitura de um pequeno tomo encontrado sobre o travesseiro, que se propunha a fazer críticas a eles e a descrevê-los.
Por muito ‒ muito tempo eu li ‒ e concentrado, absorto, eu contemplava. As horas passaram céleres e agradáveis até que a meia-noite escura se instaurou. A posição do candelabro aborrecia-me e, preferindo fazer um esforço a importunar meu criado, que dormia, estiquei o braço e ajustei-o de modo a obter mais luz sobre o livro.
Mas esse ato teve consequências de todo inesperadas. Os raios de inúmeras velas (pois havia muitas) iluminaram um nicho do quarto que até então permanecera envolto na densa sombra de uma das colunas da cama. E assim vi, iluminado, um quadro que até então me passara despercebido. Era o retrato de uma menina em que despontavam os primeiros sinais de mulher. Observei a pintura por alguns instantes e logo fechei os olhos. O que me despertou esse impulso era algo que a princípio eu mesmo não compreendia. Mas, enquanto as pálpebras permaneciam-me fechadas, vasculhei meus pensamentos em busca de motivos para fechá-las. Um movimento impulsivo deu-me tempo para pensar ‒ para ter certeza de que os olhos não me haviam logrado ‒ para serenar meus devaneios e lançar à tela um olhar mais sóbrio e mais preciso. Passados alguns instantes, olhei mais uma vez para o retrato.
Que naquele instante eu o via de modo objetivo estava além de qualquer dúvida; pois o primeiro clarão das velas sobre a tela parecia ter dissipado o estupor onírico que aos poucos dominava meus sentidos e me reconduzido, de sobressalto, à vigília.
O retrato, conforme descrevi, era o de uma jovem moça. Era um simples busto, executado com a técnica que se costumava chamar de vignette; o estilo era muito semelhante ao das famosas cabeças de sully. Os braços, o colo e até mesmo as pontas do cabelo radiante fundiam-se de modo imperceptível na sombra vaga e mesmo assim densa que constituía o segundo plano da obra. O quadro ainda tinha uma moldura oval, dourada com grande esmero e filigranas à mourisca. Como obra de arte, nada poderia ser mais admirável do que a pintura em si. Mas não fora nem a execução do trabalho nem a beleza imortal daquele semblante o que me comovera de maneira tão súbita e tão contundente. Também seria impensável que minha fantasia, já desperta de seu cochilo, houvesse tomado o retrato por uma pessoa real. Percebi de imediato que as particularidades da composição, do estilo vignette e da moldura haveriam de ter afastado essa ideia no mesmo instante ‒ haveriam de ter impedido que fosse sequer matéria de consideração. Ocupado com esses pensamentos, permaneci, talvez por uma hora inteira, meio sentado, meio reclinado, com o olhar fixo no retrato. Por fim, ao deslindar o segredo de seu efeito, deitei-me. Descobri que o encanto do quadro residia na perfeição absoluta da expressão naquele rosto que parecia vivo e que, a princípio tendo-me assustado, logo pôs-me perplexo, subjugou e aterrorizou-me.  Sob a influência de um espanto profundo e reverencial, recoloquei o candelabro em seu lugar. Com a causa de minha agitação fora de vista, debrucei-me com avidez sobre o volume que discorria sobre as pinturas e suas histórias. Ao buscar o número que identificava o retrato oval, li as obscuras e peculiares palavras que seguem:
“Era uma donzela de rara beleza, e só não era mais amável do que alegre. Numa hora infeliz ela viu, amou e desposou o pintor. Ele, arrebatado, estudioso, rigoroso, já tendo a Arte por esposa; ela, uma donzela de rara beleza, e só não era mais amável do que alegre; toda luz e sorrisos, brincalhona com os filhotes de corça, amava e apegava-se a tudo; detestava somente a Arte, que era sua rival; temia apenas a palheta e os pinceis e outros instrumentos indesejáveis que a privavam de ver o rosto do amado. Assim, para a moça, era uma coisa terrível ouvir o pintor falar sobre o desejo de retratar sua jovem esposa. Mas ela era humilde e dócil, e pousou por semanas a fio em um torreão escuro onde a luz que iluminava a tela vinha apenas de cima. Mas o pintor comprazia-se naquele trabalho, que se estendia hora após hora, dia após dia. Ele tinha uma alma apaixonada, indomável, suscetível, e era dado a devaneios; assim, não percebia que a terrível luz que se filtrava pelo torreão solitário abatia a saúde e o ânimo da esposa, que definhava à vista de todos, menos da sua. Mesmo assim ela seguia sorrindo, sem queixar-se, porque notava que o pintor (que era muito renomado) sentia um prazer imenso ao desempenhar a tarefa, e trabalhava dia e noite para retratar a mulher que tanto o amava, mas que a cada dia ficava mais desanimada e fraca. E na verdade algumas pessoas que viam o retrato comentavam a semelhança à meia-voz, como se falassem de um milagre, e de uma prova não só da habilidade do pintor como também do profundo amor que ele nutria pela modelo que retratava com tanta maestria. Mas, à medida que o trabalho chegava ao fim, o acesso ao torreão foi vetado, pois o pintor tomara-se de arrebatamento e mal despregava os olhos da tela, mesmo que fosse para olhar o rosto da esposa. E ele não percebia que as cores espalhadas sobre a tela vinham das faces daquela que sentava ao seu lado. E ao cabo de várias semanas, quando faltavam apenas alguns retoques ‒ uma pincelada nos lábios e um sombreado no olhar ‒, o ânimo da esposa mais uma vez bruxuleou como a chama do interior do lampião. E foi dada última pincelada, e logo o sombreado estava completo; então, por um instante, o pintor ficou em transe diante da obra que executara; mas no momento seguinte, ainda olhando a pintura, ficou pálido e começou a tremer; horrorizado, gritou: ‘Isso é a própria Vida!’ e virou para contemplar a amada: Ela estava morta!”.



Edgar Allan Poe. O gato preto e outros contos. São Paulo: Hedra, 2008. p. 65-69.

Restos do carnaval


Não, não deste último carnaval. Mas não sei por que este me transportou para a minha infância e para as quartas-feiras de cinzas nas ruas mortas onde esvoaçavam despojos de serpentina e confete. Uma ou outra beata com um véu cobrindo a cabeça ia à igreja, atravessando a rua tão extremamente vazia que se segue ao carnaval. Até que viesse o outro ano. E quando a festa já ia se aproximando, como explicar a agitação que me tomava? Como se enfim o mundo se abrisse de botão que era em grande rosa escarlate. Como se as ruas e praças do Recife enfim explicassem para que tinham sido feitas. Como se vozes humanas enfim cantassem a capacidade de prazer que era secreta em mim. Carnaval era meu, meu.
 No entanto, na realidade, eu dele pouco participava. Nunca tinha ido a um baile infantil, nunca me haviam fantasiado. Em compensação deixavam-me ficar até umas 11 horas da noite à porta do pé de escada do sobrado onde morávamos, olhando ávida os outros se divertirem. Duas coisas preciosas eu ganhava então e economizava-as com avareza para durarem os três dias: um lança-perfume e um saco de confete. Ah, está se tornando difícil escrever. Porque sinto como ficarei de coração escuro ao constatar que, mesmo me agregando tão pouco à alegria, eu era de tal modo sedenta que um quase nada já me tornava uma menina feliz.
 E as máscaras? Eu tinha medo, mas era um medo vital e necessário porque vinha de encontro à minha mais profunda suspeita de que o rosto humano também fosse uma espécie de máscara. À porta do meu pé de escada, se um mascarado falava comigo, eu de súbito entrava no contato indispensável com o meu mundo interior, que não era feito só de duendes e príncipes encantados, mas de pessoas com o seu mistério. Até meu susto com os mascarados, pois, era essencial para mim.
Não me fantasiavam: no meio das preocupações com minha mãe doente, ninguém em casa tinha cabeça para carnaval de criança. Mas eu pedia a uma de minhas irmãs para enrolar aqueles meus cabelos lisos que me causavam tanto desgosto e tinha então a vaidade de possuir cabelos frisados pelo menos durante três dias por ano. Nesses três dias, ainda, minha irmã acedia ao meu sonho intenso de ser uma moça – eu mal podia esperar pela saída de uma infância vulnerável – e pintava minha boca de batom bem forte, passando também ruge nas minhas faces. Então eu me sentia bonita e feminina, eu escapava da meninice.
Mas houve um carnaval diferente dos outros. Tão milagroso que eu não conseguia acreditar que tanto me fosse dado, eu, que já aprendera a pedir pouco. É que a mãe de uma amiga minha resolvera fantasiar a filha e o nome da fantasia era no figurino Rosa. Para isso comprara folhas e folhas de papel crepom cor-de-rosa, com as quais, suponho, pretendia imitar as pétalas de uma flor. Boquiaberta, eu assistia pouco a pouco à fantasia tomando forma e se criando. Embora de pétalas o papel crepom nem de longe lembrasse, eu pensava seriamente que era uma das fantasias mais belas que jamais vira.
Foi quando aconteceu, por simples acaso, o inesperado: sobrou papel crepom, e muito. E a mãe de minha amiga – talvez atendendo a meu apelo mudo, ao meu mudo desespero de inveja, ou talvez por pura bondade, já que sobrara papel – resolveu fazer para mim também uma fantasia de rosa com o que restara de material. Naquele carnaval, pois, pela primeira vez na vida eu teria o que sempre quisera: ia ser outra que não eu mesma.
Até os preparativos já me deixavam tonta de felicidade. Nunca me sentira tão ocupada: minuciosamente, minha amiga e eu calculávamos tudo, embaixo da fantasia usaríamos combinação, pois se chovesse e a fantasia se derretesse pelo menos estaríamos de algum modo vestidas – à ideia de uma chuva que de repente nos deixasse, nos nossos pudores femininos de oito anos, de combinação na rua, morríamos previamente de vergonha – mas ah! Deus nos ajudaria! não choveria! Quanto ao fato de minha fantasia só existir por causa das sobras de outra, engoli com alguma dor meu orgulho que sempre fora feroz, e aceitei humilde o que o destino me dava de esmola.
Mas por que exatamente aquele carnaval, o único de fantasia, teve que ser tão melancólico?
De manhã cedo no domingo eu já estava de cabelos enrolados para que até de tarde o frisado pegasse bem. Mas os minutos não passavam, de tanta ansiedade. Enfim, enfim! chegaram três horas da tarde: com cuidado para não rasgar o papel, eu me vesti de rosa.
Muitas coisas que me aconteceram tão piores que estas, eu já perdoei. No entanto essa não posso sequer entender agora: o jogo de dados de um destino é irracional? É impiedoso. Quando eu estava vestida de papel crepom todo armado, ainda com os cabelos enrolados e ainda sem batom e ruge – minha mãe de súbito piorou muito de saúde, um alvoroço repentino se criou em casa e mandaram-me comprar depressa um remédio na farmácia. Fui correndo vestida de rosa – mas o rosto ainda nu não tinha a máscara de moça que cobriria minha tão exposta vida infantil – fui correndo, correndo, perplexa, atônita, entre serpentinas, confetes e gritos de carnaval. A alegria dos outros me espantava.
Quando horas depois a atmosfera em casa acalmou-se, minha irmã me penteou e pintou-me. Mas alguma coisa tinha morrido em mim. E, como nas histórias que eu havia lido sobre fadas que encantavam e desencantavam pessoas, eu fora desencantada; não era mais uma rosa, era de novo uma simples menina. Desci até a rua e ali de pé eu não era uma flor, era um palhaço pensativo de lábios encarnados. Na minha fome de sentir êxtase, às vezes começava a ficar alegre, mas com remorso lembrava-me do estado grave de minha mãe e de novo eu morria.
Só horas depois é que veio a salvação. E se depressa agarrei-me a ela é porque tanto precisava me salvar. Um menino de uns 12 anos, o que para mim significava um rapaz, esse menino muito bonito parou diante de mim e, numa mistura de carinho, grossura, brincadeira e sensualidade, cobriu meus cabelos já lisos, de confete: por um instante ficamos nos defrontando, sorrindo, sem falar. E eu então, mulherzinha de 8 anos, considerei pelo resto da noite que enfim alguém me havia reconhecido: eu era, sim, uma rosa.


Clarice Lispector. Felicidade clandestina. Rio de Janeiro: Rocco, 1998. P. 25-28.