sexta-feira, 21 de abril de 2017
O QUE É COMUNICAÇÃO?
Rivaldo
Chinem
Comunicação
é como futebol, todo mundo pensa que entende e dá palpite. Nesse campo,
quando a confusão se instala, quebram-se as regras, e os atores, ao entrar em
cena, dão caneladas, cotoveladas, e o jogo passa a ser um completo vale-tudo.
A
comunicação, mais do que um bem social, é também um direito fundamental e
humano que nasce na própria sociedade e precisa ser garantido para que
diversas vozes sejam ouvidas. Trata-se de um serviço público dirigido à
elevação moral e cultural da sociedade.
A
palavra comunicação deriva do latim communicare,
cujo significado é tornar comum, partilhar, associar, trocar opiniões,
conferenciar.
Communicatio tem o sentido de
participação, em interação, em troca de mensagem, em emissão ou recebimento
de informação nova. Assim, como se vê, implica participação.
Calcula-se
que o homem tenha aprendido a falar há cerca de 30 mil a 50 mil anos.
Provavelmente, começou imitando o som de tudo o que o cercava. E, hoje, são
falados em torno de 5 mil idiomas no mundo – número que já foi maior,
chegando a 10 mil.
Para a
sabedoria popular, comunicação não é o que você diz, é o que o outro
entende.
John
Dewey, pedagogo norte-americano, afirmou:
A comunicação
é o processo da participação da experiência para que se torne patrimônio
comum. Ela modifica a disposição mental das duas partes associadas. A
sociedade não só continua a existir pela transmissão, pela comunicação,
como também se pode perfeitamente dizer que ela é transmissão e
comunicação.
Na
Grécia, há 2.500 anos, as notícias eram levadas por mensageiros, que
percorriam enormes distâncias. O primeiro noticiário surgiu em Roma, em 59
a.C., e chamava-se Acta Diurna. E as
primeiras revistas apareceram na Europa no século XVI.
Os
meios de informação desempenham uma função determinante para a
politização da opinião pública, e, nas democracias constitucionais, têm
capacidade de exercer um controle crítico sobre os órgãos dos três poderes:
Legislativo, Executivo e Judiciário.
Os
meios de comunicação social têm um papel importante de transmitir
informação e ajudar no processo de criação da cidadania. Isso demanda,
necessariamente, liberdade.
O
direito à informação e à comunicação vem sendo proclamado como fundamental
desde as primeiras declarações de direitos do século XVIII. Está escrito no
artigo 11 da Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, publicada em 26
de agosto de 1789, na França, que: “A livre comunicação das ideias e das
opiniões é um dos mais preciosos direitos do homem”.
Depois,
veio a Declaração Universal dos Direitos Humanos, adotada e proclamada pela
Resolução n. 217 da Assembleia Geral das Nações Unidas, de 10 de dezembro
de 1948, artigo 19:
Toda pessoa tem
direito à liberdade de opinião e expressão; este direito inclui a liberdade
de, sem interferência, ter opiniões e de procurar, receber e transmitir
informações e ideias por quaisquer meios e independentemente de fronteiras.
No
Brasil, a Constituição Federal de 1988 trata de liberdade de expressão e do
acesso à informação no seu artigo 5o. E no artigo 220 afirma:
“A
manifestação do pensamento, a criação, a expressão e a informação, sob
qualquer forma, processo ou veículo, não sofrerão qualquer restrição, observado
o disposto nesta Constituição”.
Além
da área que pretendem cobrir, o jornalista, o publicitário e o relações
públicas devem se dedicar ao conhecimento da natureza da comunicação, essa
indústria que se avolumou exponencialmente a partir das três últimas
décadas. É preciso investigar como se formam o sentido e o significado da
comunicação, como o sujeito desenvolve convicções; aprofundar o advento do
inconsciente na comunicação; entre outros temas.
Um
profissional de comunicação, esteja ele de que lado estiver, não pode ser
zen como os filósofos do Oriente. Monges recolhidos transmitem a imagem de que
são homens serenos, comedidos, sempre em paz – esse não é o caso de quem
trabalha com a comunicação, umbilicalmente ligada à informação, pois a
comunicação é muito dinâmica, muda a toda hora e exige pessoas que
acompanhem essas mudanças.
O
impacto social da atividade do jornalismo decorre da importância de sua
função, que é transmitir, de forma clara e objetiva, o que se acabou de ver
e ouvir.
Quem
faz a opção pelo jornalismo não pode esperar um serviço com horários muito
definidos e carga de trabalho bem distribuída, porque o dia a dia da
informação se torna uma implacável corrida contra o relógio. É necessário
rapidez para flagrar a notícia no local e no momento em que ela acontece e
transferi-la de forma inteligível para a tela do computador.
O
profissional de imprensa trabalha para uma poderosa indústria, que foi se
modernizando no decorrer do tempo, até se transformar em principal formadora
da opinião pública. Ele tem como função a apuração, geração, controle e
veiculação das informações conforme as necessidades, os interesses e as
expectativas tanto da sociedade quanto da empresa para a qual trabalha. Por
isso, conhecimento da realidade que o cerca – um profissional da comunicação
deve estudar para compreender o seu público e ser mais útil a ele –, domínio
no uso da linguagem, curiosidade intelectual, rapidez e observação cuidadosa
dos fatos são características imprescindíveis para o jornalista.
Principalmente porque não basta apenas informar, ele terá também de comentar
e interpretar a notícia quando for necessário.
Houve
um tempo em que a difusão de textos, sons e imagens era atividade exclusiva de
grandes empresas capazes de arcar com custos altíssimos de impressão,
filmagem, gravação e transporte. Essa época ficou para trás.
Nos
últimos anos, enquanto os computadores barateavam os processos de produção e
edição, os blogs, páginas pessoais e ferramentas de compartilhamento de
dados fizeram de qualquer usuário da internet um produtor potencial de
conteúdo. Uma verdadeira quebra de monopólio, que forçou as empresas de
mídia a repensarem o relacionamento com seus leitores, espectadores, ouvintes,
e internautas, hoje marcado por uma aproximação cada vez mais crescente.
Com os
papéis de emissor e receptor mais embolados do que nunca, a imprensa deixou de
ser fonte única de notícias e análises sobre os fatos e viu parte de seus
anunciantes migrar para outros setores.
Para
entender melhor a mídia, é preciso compreender que cada veículo elege um
público-alvo e uma linha editorial, aspectos que podem ser apreendidos no
acompanhamento regular e atento do conteúdo e da estética de cada veículo.
Os
editoriais, espaços em que os veículos expressam suas posições acerca de
temas atuais, dão pistas mais explícitas sobre a linha de cada um. Então, o
desconhecimento desses aspectos pode resultar em erros primários para a fonte,
como se expressar em linguagem incompatível com o público-alvo do veículo ou
adotar enfoques destoantes da linha editorial.
Uma
expressão bastante comum na atualidade, a parceria, traduz um enfoque útil na
compreensão do relacionamento da mídia com a fonte e/ou organização. Ambas
têm interesse na divulgação, mas de ângulos de visão diversos, que podem
se tornar convergentes: a mídia se interessa pela geração de fatos
noticiosos capazes de interessar ao seu público, enquanto a organização se
interessa em divulgar sua atuação, de forma a posicionar sua imagem diante
desse mesmo público.
A
imprensa independente, portanto, enquanto posicionada em competição com
órgãos do Poder Público, foi definida como o quarto poder.
Thomas
Jefferson, presidente dos Estados Unidos entre 1801 e 1808, disse: “Caso eu
tivesse que decidir se deveríamos ter um governo sem jornais ou jornais sem
governo, não hesitaria um instante em preferir a segunda opção”.
A
liberdade de imprensa não é, a rigor, um poder no sentido constitucional,
mas, antes de tudo, o fundamento da legitimidade dos poderes delegados.
Considerada como direta explicação da liberdade do pensamento e da
discussão, a liberdade ou informação é fundamental para um correto exercício
dos poderes democráticos e constitui, portanto, um direito que não deve ser
atribuído, mas garantido. Trata-se de uma liberdade que não é externa ao
Estado democrático nem a ele subordinada, mas histórica e conceitualmente
ligada à sua formação, tanto que os atentados contra o Estado democrático
são, em muitos casos, atentados contra a liberdade de informação.
Pode-se
destacar dois tipos de formas de divulgação de qualquer informação: o mais
antigo é a mídia impressa (ou escrita), que engloba jornais, revistas,
mensagens afixadas em lugares públicos, folhetos, boletins, mural e outdoor. O mais recente e
surpreendentemente instantâneo é a web, a grande rede mundial de computadores.
Cada um desses meios representa um segmento da mídia como um todo.
Mídia
deriva do inglês medium, que, por
sua vez, se origina do plural, em latim, de medium,
meio. Em português, em um sentido mais amplo, mí- dia significa qualquer meio
de comunicação de massa. Na prática, a palavra mídia já era comumente
usada no setor publicitário. Mídia é o setor da agência de publicidade
responsável pelas tarefas de veiculação do anúncio. Significa escolher o
meio mais adequado para divulgar determinado produto. Para isso, seus
profissionais levam em conta fatores como audiência ou tiragem do veículo, o
número de vezes em que a mensagem vai ser divulgada, preço combinado, área
atingida e duração da campanha.
Formadora
de opinião, a mídia intervém no debate público, defende causas e influencia
percepções, convicções e hábitos. Ela pode ajudar a construir ou destruir
reputações de indivíduos, empresas e instituições. A imprensa auxilia a
formar conceitos e a criar atitudes, bem como tem capacidade de mobilizar os
cidadãos e as instituições para a defesa de causas e interesses.
A
mídia é também uma manifestação espontânea e inconsciente de como as
sociedades querem ver a si mesmas. Portanto, tudo depende da maneira como se
vê o fato (e o olhar é individual), do tempo e das condições disponíveis
para reproduzi-lo ao público – além dos conceitos e contextos culturais,
conscientes ou não, que permeiam todo o processo.
Especialistas
em comunicação calculam que nas grandes cidades são lançadas
aproximadamente 10 mil informações todos os dias. Em outras palavras, somos
bombardeados por símbolos, sinais, todo um emaranhado de códigos que entra
pelos meios de informação do homem de hoje.
COMUNICAÇÃO
EMPRESARIAL
No
mundo corporativo, comunicação é importante para obter excelência e
conquistar eficácia maior na tecnologia empresarial. Não é por acaso que a
marca de um produto vale muitas vezes mais do que todo o arsenal usado para a
sua produção – plantas industriais, móveis e máquinas. No Brasil, temos 350
mil marcas; nos Estados Unidos, o número chega a 1,6 milhão.
Edgar
Morin, o grande teórico francês da comunicação, comenta:
O planeta se
encontra, hoje, dotado de uma textura de comunicações (aviões, telefone,
internet) como nenhuma outra sociedade do passado jamais teve. A nave espacial
Terra é movida por quatro motores associados e, ao mesmo tempo, descontrolados:
ciência, técnica, indústria e capitalismo. A globalização pode ser vista
como a última fase de uma planetarização tecno-econômica. Ao mesmo tempo,
ela pode ser vista como a emergência caótica e desigual de um embrião de
sociedade-mundo. Uma sociedade dispõe de um território que comporta um
sistema de comunicações.
Uma
sociedade inclui sempre uma economia, obviamente. E a economia atual é
mundial, de fato, mas lhe faltam as restrições de uma sociedade organizada
(leis, direito e controle).
Liberdade
e economia têm muitos pontos de identificação. Um exemplo: o historiador e
sociólogo Paul Thompson, professor e pesquisador da Universidade de Essex,
diretor do Arquivo Nacional de Histórias de Vida da Biblioteca Britânica,
consultor da BBC de Londres e autor do livro A voz do passado, contou que um de seus estudos foi sobre a
comunidade de pescadores britânicos. Ele constatou que nas Ilhas Shetland, ao
norte da Inglaterra, os pais nunca batiam nas crianças, o que era muito raro
no fim do século passado. E no oeste da Escócia, todos os recursos eram
exatamente iguais aos das Ilhas Shetland, mas as famílias eram completamente
diferentes: os pais eram muito duros com seus filhos.
No
final das contas, percebeu que a cultura, incluindo a cultura familiar, moldava
a economia. Isso porque, enquanto no oeste escocês a pesca declinava, nas
Ilhas Shetland ia muito bem. As crianças nas ilhas eram criadas com carinho,
eram encorajadas a ser independentes muito cedo, tinham iniciativa, tentavam
novas formas de pescar, descobriam novos lugares para vender os peixes.
As
outras, criadas sob a dominação dos pais, eram ensinadas a seguir ordens e
desencorajadas a fazer algo novo. Aos poucos, isso fez a pesca decair. Como se
vê, educação e informação muitas vezes se confundem.
Na
vida das organizações, informação também é vital: as empresas precisam
consumir informações dos consumidores e do mercado para poderem se ajustar.
Ao
fabricar um carro, por exemplo, uma indústria precisa saber qual é o gosto do
consumidor, sua tendência, as cores da moda, os tons mais atraentes, a
mecânica mais adequada a cada país. A altura de um carro no Brasil, por
exemplo, deve ser maior do que a altura de um carro na Europa ou nos Estados
Unidos, pois as estradas europeias e norte-americanas são perfeitas, enquanto
as brasileiras nem merecem comentário, tal o número de buracos a cada metro
percorrido. Então, é preciso que o produto se adapte a cada realidade.
A
mídia especializada passou a exigir novos comportamentos e atitudes por parte
das empresas ao apontar erros, ao estimular boas ações. Houve também a
necessidade de se comunicar com os Poderes constituídos.
A
comunicação com os Poderes ganhou intensidade porque as grandes decisões
nacionais começaram a receber tratamento acurado das instituições
políticas. Os lobbies se
estruturaram e abriu-se um nicho profissional: o da articulação e assessoria
política.
O
mercado da comunicação deu oportunidade para os consultores políticos e,
assim, surgiu nas assessorias de comunicação o perfil do diretor de
relações institucionais, com sua atenção voltada para o Congresso Nacional,
o Poder Executivo e o Poder Judiciário. Tudo, no entanto, deve ser feito
segundo uma atuação ética.
ÉTICA NA
COMUNICAÇÃO
A
ética deve estar a serviço da imagem. Multinacionais estão sob pressão de
seus conselheiros para ser e parecer empresas guiadas por princípios éticos.
Grupos de pressão mobilizam do dia para a noite a opinião pública em torno
das questões éticas.
A
ética deixou de ser um artigo de luxo e passou a ser necessidade. Deixou de se
subordinar ao departamento jurídico e à ação de advogados para se tornar
uma questão fundamental e com existência própria na empresa. Ela se tornou
uma atividade corporativa voltada para a reputação da companhia.
Levantamento
feito por especialistas indica que todas as companhias da lista das 500 maiores
da revista Fortune têm códigos de
ética. Esses códigos não indicam necessariamente que as empresas sejam
corretas. A maioria nunca distinguiu a ética do mero cumprimento da lei, da
ação preventiva do departamento jurídico, da auditoria interna, da área de
recursos humanos ou, simplesmente, de comunicação empresarial. Mas a ética
preocupa todos, a começar dos acionistas, mesmo que haja investidores
predadores no mercado.
A
impressão que às vezes se tem é a de que toda essa conversa de ética é
apenas uma cortiça de fumaça para uma forma mais sutil de hipocrisia
empresarial e um investimento na proteção da respeitabilidade dos conselheiros
e dirigentes da empresa. Contudo, os milhões de dólares gastos em ética,
longe de serem mais uma “sacada” dos marqueteiros para melhorar a reputação
das empresas, constituem uma tentativa de criar um clima ou uma cultura de
integridade em seus dirigentes e funcionários.
É necessário
não só desenvolver os itens concretos da transformação produtiva mas também
promover verdadeira mudança cultural, cuja pauta principal é, como se vê, a
ética, o comprometimento com a cidadania, a ecologia, a qualidade de vida, o
respeito aos direitos individuais e coletivos. Para exemplificar, recentemente
o Banco Mundial suspendeu um crédito para um projeto no Nepal para a
construção de uma grande barragem por causa dos protestos de grupos de
ecologistas.
Finalmente,
não se pode esquecer que a rotina das redações, em que se tem cada vez menos
tempo para lançar a notícia, consequência da própria dinâmica da
comunicação e do mundo digital, também limita aprofundamentos.
Nesse
momento, observa-se uma transformação profunda e radical no mundo empresarial
e, consequentemente, na comunicação: graças ao desenvolvimento dos meios de
comunicação, o planeta, formado por cerca de 200 países e com uma
população de 6 bilhões de habitantes, virou uma aldeia global, na qual é
possível saber rapidamente o que acontece em qualquer lugar e a qualquer hora
– o ataque às torres do World Trade Center em Nova York, por exemplo, foi
divulgado para todo o mundo praticamente no mesmo momento em que acontecia.
Surgem
a toda hora novas ideias, novas tecnologias que exigem a tomada de novos rumos.
E o bom é que tudo isso pode ser aprendido e compartilhado por nós, cidadãos
do mundo.
Também
em nossa vida pessoal, percebe-se o quanto a comunicação é importante,
porque ela ajuda a compreender melhor a visão do outro e a melhorar nossas
relações com a família e os amigos. A comunicação enriquece nossos
conhecimentos e amplia nossa visão do mundo.
Por
sua vez, os comunicadores não são mais repassadores ou recepto- res de
informação, mas, sim, gestores de informação em um processo dinâmico, novo
e desafiador, que tem no relacionamento com a mídia um de seus pilares mais
delicados e evidentes.
Textos
de qualidade, agilidade na apuração e encaminhamento e adequação da
linguagem a cada editoria e veículo garantem que a informação certa chegue
ao público adequado, na hora e na linguagem necessários.
A
informação é vista, cada vez mais, como bem público, ou seja, algo a ser
compartilhado e discutido com a sociedade. Você concorda com isso?
Rivaldo
Chinem é bacharel em Jornalismo pela Faculdade de Comunicação de
Santos. Trabalhou nos jornais
Folha de S.Paulo e O Estado de S.
Paulo, bem como na revista Veja, na TV Gazeta, e na Rádio Tupi.
quarta-feira, 19 de abril de 2017
A VIDA DE SANTO AGOSTINHO
Gareth B. Matthews
Agostinho não se encaixa
facilmente em nossos esboços para entender a história da Filosofia Ocidental.
Suas datas, 354-430 da era cristã, colocam-no perto do fim do que se
convencionou chamar de filosofia antiga, durante o período em que as filosofias
helenísticas do ceticismo, estoicismo e neoplatonismo dominavam a cena
filosófica. De fato, importantes filósofos neoplatônicos, como Simplício e
Filopón, viveram ainda por boa parte do segundo século após a morte de santo
Agostinho. Assim, poderíamos pensar que Agostinho deveria ser agrupado com
eles.
Sem dúvida, Agostinho foi
influenciado pelas principais escolas da filosofia helenística. Em mais de um
momento em sua vida ele foi atraído para o ceticismo da Nova Academia. O
estoicismo também influenciou seu pensamento como os literatos passaram a
enfatizar recentemente. Quanto ao neoplatonismo, o próprio Agostinho reconhece
em suas Confissões1 o papel central que os “livros platônicos [i.e.,
neoplatônicos] traduzidos do grego para o latim” (VII, 9, 13) desempenharam em
seu desenvolvimento filosófico e religioso, inclusive em sua conversão final ao
cristianismo.
Ainda assim, Agostinho não é um
filósofo helenístico. Pelo contrário, é o primeiro filósofo cristão importante.
É também o primeiro filósofo medieval, embora o seu período de vida não
pertença ao que, sob muitos e diversos aspectos, é geralmente designado como
Idade Média. É preferível dizer que ele pertence ao que se pode considerar a
“baixa Antiguidade”. De fato, se não fosse por Agostinho e Boécio (480-524),
pensaríamos naturalmente que a filosofia medieval começou após a “idade das
trevas”, talvez com João Escoto Erígena (810-77), mas mais exatamente com
Anselmo de Cantuária (1033-109), que só nasceu seis séculos após a morte de
santo Agostinho!
Agostinho não apenas não se
enquadra facilmente nas categorias cronológicas através das quais procuramos
entender a história da filosofia ocidental, mas o lugar onde viveu quase toda a
vida também não era onde poderíamos esperar encontrar qualquer pensamento
filosófico importante. Ele nasceu em Tagaste, uma cidade do Norte da África que
hoje se chama Souk Ahras, na Argélia. Ele obteve sua educação superior em
Cartago, que fica ao norte da moderna Tunis, capital da Tunísia. Mas, com
exceção de um ano em Roma (383-4) e cerca de mais seis anos na Itália,
sobretudo em Milão, passou toda a sua existência no Norte de África.
Por fim, Agostinho tornou-se
bispo de Hipona (Hippo Regius, próximo da moderna Bône, ou Annaba, na Argélia),
que é uma cidade litorânea do Norte da África com uma história longa, mas não
particularmente memorável. Hipona era uma urbe muito próspera na época de
Agostinho. Mas nenhuma outra figura conhecida, e certamente nenhum outro
filósofo ou teólogo célebre, tem seu nome associado a Hipona.
A anomalia
da localização de Agostinho em um momento e em um lugar é ainda mais complicada
pela natureza de seu pensamento e sua influência. John Rist escreveu um
importante livro intitulado Augustine: Ancient
Thought Baptized. O que o título escolhido por Rist para o seu livro sugere
é que a filosofia de Agostinho é a filosofia antiga cristianizada. E existe,
por certo, algo muito apropriado nessa caracterização. O que lhe falta, porém,
é o reconhecimento de que na filosofia agostiniana também está contido um novo
começo. O ponto de vista em primeira pessoa na filosofia, o qual mencionei no capítulo
anterior, não se encontra na filosofia antiga. De fato, ele é mais importante
na filosofia moderna, a partir de Descartes, que no fim da filosofia do
medievo. Além disso, o modo como Agostinho se afasta da filosofia antiga é tão
importante quanto o modo como ele recorre à tradição filosófica que herdou.
Por outro lado, houve aspectos
de sua obra em que santo Agostinho mostrou-se um pensador do seu tempo e lugar.
Ele era versado em literatura e retórica latinas, e estava profundamente
envolvido nas controvérsias teológicas da época, tendo contribuído, de fato,
mais que qualquer outra pessoa, para lhes dar forma. Participou do torvelinho
social e político do seu tempo. Assim, dedicou a sua grande obra A cidade de
Deus à indagação sobre se o saque de Roma em 410 teria sido o resultado da
conversão da cidade ao cristianismo. E as hordas vândalas aproximavam-se de
Hipona em 430, quando Agostinho jazia em seu leito de morte.
Entretanto, existem outros
aspectos segundo os quais Agostinho não pertence, em absoluto, a seu tempo e
lugar. Seu estilo confessional de escrever, incluindo suas reflexões sobre sua
própria vida interior, impressiona-nos hoje por seu perfil notavelmente
moderno. Como já sublinhei, suas Confissões são a primeira autobiografia
significativa da literatura ocidental. Sua concepção singularmente cartesiana
da mente, seu modo de elaborar as questões filosóficas suscitadas pela mente,
linguagem e crença religiosa prefiguram o que hoje reputamos ser o pensamento
moderno. Curiosamente para uma pessoa cuja vida transcorreu durante a maior
parte do tempo em um lugar que, sob outros aspectos, é destituído de toda a
importância para nós, ele também é um filósofo para o nosso próprio tempo.
Agostinho era o filho favorito
de Mônica, uma devota cristã, e de Patrício, um pagão até ser batizado em seu
leito de morte. Agostinho tinha um irmão e uma irmã, de quem quase nada
sabemos, e talvez outros irmãos. Era em Agostinho que a família, e
especialmente a mãe, concentravam sua atenção.
Aos 12 anos, foi enviado para a
escola secundária na cidade vizinha de Maudaudos por três anos. Após regressar
a Tagaste por um ano, ele foi em 371 para Cartago, a fim de investir na
educação superior. Agostinho descreve Cartago como um “caldeirão de amores
ilícitos” (III.1.1). Sem dúvida, devia parecer um lugar lascivo e devasso para
um garoto de cidade pequena. Em Cartago, ele não tardou em encontrar uma
amante, que lhe deu um filho, que recebeu o beatifico nome de “Adeodatus”
(“dado por Deus”). Agostinho nunca nos diz o nome de sua amante, mas assevera
ter-lhe sido sempre fiel (IV.2.2).
Para profunda tristeza de
Agostinho, Adeodatus morreu jovem, aos 18 anos. Não sabemos exatamente em que
medida Adeodatus, em sua infância e puberdade, foi importante para seu pai. Mas
o diálogo Do Mestre é testemunho das profundas conversas filosóficas que
Agostinho mantinha com Adeodatus quando adolescente.
Em Cartago, Agostinho estudou a
retórica. Ele nos conta que era o primeiro de sua turma (III.3.6), e podemos
facilmente acreditar nele. De fato, é difícil imaginar que qualquer um dos seus
colegas estudantes, ou mesmo seus professores, fossem nem de longe tão astutos
ou talentosos quanto ele. Foi como estudante em Cartago que descobriu Cícero,
que se tornou o seu principal mentor filosófico. Conta-nos que a leitura de
Hortensius, uma obra que não sobreviveu, mudou sua vida ao seduzi-lo para a
filosofia (III.4.7).
Cícero era menos um filósofo
original que um cativante apresentador das ideias filosóficas de outros. Foi
principalmente através de Cícero que Agostinho tomou conhecimento do ceticismo
da “Nova Academia”, a sucessora da Academia de Platão, e das concepções dos
estóicos e epicuristas.
Nessa época, Agostinho tentou
ler as Escrituras cristãs “para descobrir como eram” (III.5.9). Mas achou a
Bíblia “indigna de comparação com a elegância ciceroniana”. Entre as questões
suscitadas nele pelo seu estudo da Bíblia, sem dúvida a mais significativa foi
“Qual é a origem do mal?” (III.7.12). Essa questão o perseguiu durante boa
parte da vida.
Em consonância com a sua
preocupação com a origem do mal, Agostinho tornou-se um “ouvinte” maniqueísta,
e como tal permaneceu durante nove anos. Os maniqueístas, uma seita cristã que
prosperou na época, ofereceram pelo menos uma resposta razoavelmente clara para
o Problema do Mal. De acordo com o maniqueísmo, existe um princípio cósmico de
trevas, assim como um princípio da luz. O que experimentamos em nossas vidas é
fruto da guerra entre o Reino da Luz e o Reino das Trevas.
Agostinho também enfrentou uma
profunda perda pessoal durante esse tempo de penetrante exploração filosófica e
religiosa. Ele dedica uma extensa seção do Livro IV de suas Confissões à
descrição da morte de um amigo íntimo, cujo nome não nos é dado, e da depressão
que isso lhe causou. “Os meus olhos o buscavam por toda a parte”, ele escreve,
“e ele não estava lá. Tudo me aborrecia porque nada o continha e ninguém me
avisava: ‘olha, ali vem ele!’, como costumava acontecer quando ele ainda vivia
e regressava após longa ausência. Eu tinha me convertido num vasto problema
para mim mesmo…” (IV.4.9)
Agostinho
iniciou sua carreira como professor de retórica em Cartago em 376, aos 22 anos
de idade. Alguns anos depois ele escreveu o primeiro livro, Do belo e do capaz,
do qual logo se perderia o original (III.13.20). A obra não sobreviveu.
Quando Agostinho tinha 29 anos,
chegou a Cartago um famoso bispo maniqueísta, Fausto. Agostinho nos conta que
esperou nove anos, todo o período de seu aprendizado maniqueísta, para
apresentar ao bispo Fausto suas indagações acerca da fé maniqueísta. Mas o seu
encontro com o famoso homem resultou em uma amarga decepção para Agostinho.
“Quando lhe expus algumas das dúvidas que me perturbavam”, escreve em suas
Confissões, “descobri rapidamente que das artes liberais ele conhecia apenas a
gramática e a literatura, e seu conhecimento nada tinha de extraordinário,
[apenas] convencional. Tinha lido algumas orações de Cícero, pouquíssimos
tratados de Sêneca, algumas poesias e os poucos livros da seita, escritos em um
latim de bom estilo.” (V.6.11)
Mas era só isso – dificilmente o
bastante para prepará-lo para enfrentar as profundas questões de Agostinho.
Este não demorou em perder toda a esperança de que Fausto ou qualquer outro
maniqueísta pudesse resolver as dificuldades que vinha enfrentando com a fé que
adotara.
Em 384,
Agostinho deixou Cartago para ensinar retórica em Roma. Depois de apenas um ano
em Roma, um ano atormentado por doença, mudou-se para Milão, onde assumiu um
cargo de professor a pedido do novo prefeito da cidade. Ambrósio era então o
bispo de Milão e Agostinho começou a ir ouvir os sermões de Ambrósio na
catedral milanesa.
Ambrósio tornou-se o mentor de
Agostinho, que encontrou finalmente no bispo um intelectual à sua altura.
Ambrósio tivera uma bem-sucedida carreira na administração pública imperial
romana, antes de sua conversão ao cristianismo na meia-idade. Impregnado de
erudição no grego clássico, foi o primeiro Doutor Latino da Igreja. Agostinho
não podia ter conhecido alguém como ele em Cartago, e muito menos ainda em
Tagaste.
Agostinho
conta que Ambrósio o recebeu paternalmente, e com grandes manifestações de
gentileza. Ele escreveu:
Comecei a gostar dele, a
princípio não como mestre da Verdade – pois jamais esperara encontrá-la na
vossa Igreja [isto é, na Igreja de Deus] –, mas como um ser humano benevolente
comigo. Costumava ouvi-lo com entusiasmo quando pregava ao povo, não com o
espírito que convinha, mas como que para sondar sua eloquência oratória para
ver se merecia a fama de que gozava ou se realmente se exagerava ou diminuía a
fluência de que tanto se falava. Eu ficava suspenso de suas palavras, extasiado
com sua dicção, mas indiferente e escarnecendo até do assunto que ele estava
expondo. O meu prazer concentrava-se na suavidade e no encanto de sua linguagem.
(V.13.23)
Mas não tardou até que Agostinho
fosse conquistado pelo conteúdo dos sermões de Ambrósio, assim como pela
excelência de sua oratória.
A decepção de Agostinho com o
bispo maniqueísta Fausto abalara sua fé no maniqueísmo. Fausto mostrara-se
incapaz de encontrar resposta para as indagações de Agostinho. Em contraste,
Ambrósio era um teólogo de uma ordem inteiramente diferente. Foi ele quem guiou
Agostinho para realizar o seu rompimento crucial com o maniqueísmo e
distanciar-se do pensamento de que, em um momento de desespero poderia sempre,
como o seu mentor, Cícero, adotar a posição de ceticismo acadêmico. Agostinho
tornou-se um catecúmeno na Igreja Católica. Ao descrever esse crucial ponto de
mutação em sua vida, Agostinho atribui especial ênfase à sua dimensão
filosófica. Assim escreveu:
Apliquei, então, energicamente
as minhas faculdades críticas para ver se de alguma forma poderia, com
argumentos decisivos, provar que os maniqueístas estavam errados. Se a minha
inteligência pudesse conceber uma substância espiritual, imediatamente se
apagariam e seriam extirpadas de minha alma todas aquelas invenções. Mas não
podia. Entretanto, quanto mais meditava, avaliando e comparando as teorias
acerca do mundo físico e de toda a ordem natural acessível aos sentidos do
corpo, mais e mais me convenci de que numerosos filósofos sustentavam opiniões
muito mais prováveis que as deles. (V.14.25)
A mãe de Agostinho, Mônica,
acompanhou-o a Milão. Ela também sentiu-se atraída por Ambrósio. E pouco tempo
depois juntaram-se a eles em Milão amigos do Norte de África, incluindo o seu
benfeitor, Romanianus, que tinha ajudado a financiar a educação superior de
Agostinho na África.
Gradualmente, Agostinho começou
a preparar seu abandono dos pressupostos do materialismo filosófico que o
maniqueísmo tinha por tanto tempo reforçado nele. Ao mesmo tempo, voltou-se
para o Problema do Mal, que ele já não conseguia entender, em termos
maniqueístas, como uma consequência do estado de guerra entre o Princípio das
Trevas e o Princípio de Luz. Fosse pelos sermões de Ambrósio ou por sua própria
leitura de Plotino, iniciada em Milão, Agostinho ouviu que “o livre-arbítrio da
vontade é a razão pela qual praticamos o mal e sofremos a justa punição
[imposta por Deus]” (VII.3.5). Contudo, ele dizia que não conseguia entender
essa ideia. Agostinho perguntava-se:
Quem me criou? Não foi o meu
Deus, que é não só bom, mas a suprema Bondade? Donde me veio, então, o impulso
para querer o mal e não querer o bem? Seria para fornecer uma razão que justifique
o fato de eu sofrer uma punição?… Se foi o diabo o responsável, donde foi que
ele veio? E se, por uma decisão de sua vontade perversa, se transformou de anjo
bom que era em diabo, qual é a origem dessa vontade má que dele fez um diabo,
quando um anjo é inteiramente obra de um Criador que é pura bondade?” (VII.3.5)
Aos poucos, Agostinho foi
esmiuçando essas questões e desenvolvendo argumentos contra a posição
maniqueísta que ele havia abandonado. Ajudou-o nessa tarefa a leitura, em
tradução latina, das obras de Plotino e do seu grande discípulo, Porfírio. “Fui
advertido pelos livros platônicos”, ele escreveu, “a recolher-me a mim mesmo e
aos ditames do meu próprio coração.” (VII.10.16) Um resultado foi o que parece
ter sido sua primeira visão mística:
Contigo [Ó Deus] como meu guia,
entrei na minha mais íntima e recôndita cidadela, e recebi forças para o fazer
porque vos tornastes o meu auxílio. Entrei e, com o olho da minha alma, vi
acima desse mesmo olho da minha alma a Luz imutável, pairando muito acima do
meu espírito – não a luz cotidiana, óbvia para qualquer criatura, nem uma
versão mais ampla do mesmo gênero de luz. Era como se brilhasse com muito maior
intensidade e enchesse tudo com sua magnitude. Não era essa luz, mas uma coisa
diferente, profundamente distinta de todas as espécies de luz. (VII.10.16)
Agostinho tornou-se um neófito
cristão em julho de 386, aos 32 anos de idade. Antes de ser batizado, renunciou
à sua posição de professor municipal e retirou-se, com sua mãe, seu filho
Adeodatus então com 15 anos e um grupo de amigos de idênticas inclinações
filosóficas, para uma propriedade rural, Cassicíaco, nas vizinhanças de Como.
Lá ele conduziu conversações filosóficas com esses amigos e escreveu a sua mais
antiga obra conhecida, Contra os acadêmicos, e três outros livros filosóficos.
Na Páscoa do ano seguinte, 387,
Agostinho e seu filho foram batizados juntos na catedral de Milão. O evento
foi, para ele, um novo começo. “Fomos batizados”, escreve em suas Confissões,
“e dissiparam-se em nós as inquietações sobre nossa vida passada.” (IX.6.14)
Em parceria com Evódio, um
conterrâneo de Tagaste, que também viria a ser bispo e foi o interlocutor de
Agostinho em seu diálogo Do livre arbítrio, Agostinho decidiu formar uma
comunidade cristã na África. Contudo, sua viagem de regresso ao Magreb parou em
Óstia, o porto marítimo de Roma, por um bloqueio. Lá, Mônica, mãe de santo
Agostinho, caiu seriamente enferma. Apercebendo-se de que Mônica estava à beira
da morte, Agostinho conversou com ela acerca da vida que os santos teriam. Ele
escreve em suas Confissões:
A conversa levou-nos à conclusão
de que os prazeres gerados pelos sentidos corporais, por mais deliciosos que
sejam na luz radiante deste mundo físico, não são dignos de comparação com a
bem-aventurança da vida eterna, nem merecem sequer que deles se faça menção.
Nossas mentes se alçaram, impelidas por uma afeição ardente, para serem
acolhidas no seio do próprio ser eterno. Nessa escalada, fomos deixando pouco a
pouco para trás todos os objetos corporais e o próprio céu, onde o sol, a lua e
as estrelas derramaram luz sobre a terra. Ascendemos ainda mais pela meditação
e o diálogo, falando e admirando vossas obras, e penetramos em nossas próprias
mentes. Deixamo-las então para trás a fim de atingir aquela região de
inesgotável abundância onde nutris eternamente Israel com o alimento da
verdade. Aí a vida é a Sabedoria pela qual todas as criaturas adquirem ser,
tanto as coisas que eram como as que serão. (IX.10.24)
Santo Agostinho continua por
muitos outros parágrafos essa descrição da visão que compartilhou com sua mãe.
É, talvez, sua mais eloquente descrição de uma visão mística.
Depois de Agostinho e sua mãe
terem concluído sua visão em conjunto, Mônica despediu-se do filho: “Meu filho,
quanto a mim, já nada me dá prazer nesta vida. O que ainda estou fazendo aqui e
por que estou aqui, eis algo que ignoro. Minha esperança nesta vida já está
plenamente satisfeita. A única razão por que queria permanecer um pouco mais de
tempo nesta vida era o meu desejo de te ver um cristão católico antes de
morrer. O meu Deus me concedeu essa graça de um modo muito além do que eu podia
esperar.” (IX.10.26)
Após nove dias enferma, Mônica
veio a falecer. Ela tinha 56 anos. Agostinho estava com 36.
Agostinho e seus colaboradores,
incluindo seu filho, não tardaram em regressar à África, mais precisamente à
Tagaste, onde fundaram sua comunidade cristã. Mas em 391, durante uma visita a
Hipona, distante cerca de 240 quilômetros, Agostinho assistiu a uma missa na
catedral, onde a congregação reunida em assembleia insistiu para que ele
aceitasse o sacerdócio, a fim de auxiliar o então bispo de Hipona, Valério. E
assim foi ordenado. Cinco anos depois, ele próprio seria eleito bispo de
Hipona.
Agostinho
fundou uma comunidade monástica em Hipona, que passou a ser sua própria
comunidade pelo resto da vida. Sua vida como bispo incluiu deveres pastorais,
assim como uma vasta gama de responsabilidades administrativas. Ele pregava com
regularidade e escrevia volumosamente – sermões, cartas, comentários e
tratados. Sua produção literária, realizada com a ajuda de escribas, é enorme.
Além de aproximadamente 100 livros e tratados, existem cerca de 250 cartas e
por volta de 500 sermões, incluindo aqueles que constavam de comentários sobre
os Salmos.
Agostinho dedicou muita energia
e escrita para reprimir o que considerava importantes heresias cristãs,
especialmente o donatismo, o maniqueísmo e o pelagianismo. Ao definir essas
heresias, ele ajudava, assim, a definir a ortodoxia cristã. É possível afirmar
que existem bases suficientes para sustentar que nenhum teólogo fez mais do que
Agostinho para estabelecer a ortodoxia cristã.
Duas das três heresias
focalizadas por santo Agostinho, o pelagianismo e o maniqueísmo, revestem-se de
especial interesse filosófico. O pelagianismo, assim chamado em referência ao
nome do monge britânico Pelágio, que o promulgou, está sintetizado em uma
máxima que os filósofos associam hoje a Immanuel Kant, a saber: “Dever
subentende poder.” De acordo com essa noção, se temos uma obrigação de ser sem
pecado, então está em nosso poder existir sem pecar.
O maniqueísmo é a doutrina
segundo a qual a força cósmica do mal é igual em poder à força cósmica do bem.
Embora possamos, é claro, nos aliar à força do bem, ao princípio da Luz,
podemos esperar que a força do mal continue a contrabalançar a bondade no
mundo.
LEITURAS ADICIONAIS:
BROWN, Peter. Augustine of Hippo.
Berkeley, University of California Press, 1967. Esta obra permaneceu, desde sua
publicação, a biografia clássica de Agostinho.
RIST, John. Augustine: Ancient
Thought Baptized. Cambridge, Cambridge University Press, 1994.
sábado, 15 de abril de 2017
Dialogar e conviver
DIÁLOGO: A COMPETÊNCIA DO CONVIVER
Humberto
Mariotti
INTRODUÇÃO. O diálogo é
uma atividade de conversação cuja principal finalidade é ampliar a comunicação
entre as pessoas e facilitar a produção de ideias novas e significados
compartilhados. Com essa finalidade, ele vem sendo cada vez mais utilizado em
empresas (ou qualquer outro grupo, organização e instituição) em todo o mundo.
A IMPORTÂNCIA DO OUTRO. As pessoas
são dignas de respeito não por causa de suas posses materiais, ou quaisquer
outros privilégios. Sua legitimidade vem do simples fato de que elas existem, de
que são seres humanos como nós próprios. Este deve ser o ponto de partida de
todos os relacionamentos verdadeiramente significativos. Em certas tribos
africanas, existe uma tradição zulu que se baseia nesta afirmação: Uma pessoa
se torna uma pessoa por causa das outras.
DINÂMICA DA
CONVERSAÇÃO.
O diálogo é uma forma de fazer circular ideias e significados. Busca os
seguintes objetivos: a) melhorar a comunicação entre as pessoas; b) observar o
processo do pensamento;
c)
criar redes de conversação; d) produzir e compartilhar significados.
Para
isso, é preciso passar por um aprendizado, que se compõe de dois passos
principais: a) diminuir a quantidade de hábitos mentais que dificultam nossa
capacidade de ouvir; b) buscar alternativas para esses hábitos.
UTILIDADES DO DIÁLOGO. Destas
observações, pode-se deduzir a principal utilidade do método: adotar uma
postura que permita perceber e pensar as mesmas questões de modo diferente. O
resultado pode ser o aparecimento de ideias e soluções novas.
O
questionamento básico do diálogo é simples: o que temos como certo e fora de
dúvida nem sempre é o único modo de perceber o mundo. A pergunta-chave a ser
feita é: “E se suspendermos ao menos temporariamente os nossos modos habituais
de pensar, nossas “certezas”, e conversarmos livremente para ver o que
acontece?” Trata-se, assim, de mudar o modo de olhar, trocar de posição,
observar a partir de outros ângulos, pensar os mesmos problemas de modo
diferente.
Conclui-se,
então, que o diálogo se aplica a qualquer situação em que seja necessário
produzir ideias novas e aprender em grupo. Ele é útil em todas as áreas e
situações em que é preciso modificar nosso modo habitual de perceber o mundo.
Por isso, em organizações de vários países do mundo, o método vem sendo utilizado
nesse sentido.
No
diálogo, o modelo habitual “eu falo, você responde” é substituído pela
alternativa “eu falo, você também fala; falamos juntos”. As ideias novas surgem
por meio da cooperação, não pelo confronto. Não existem o enfrentamento ou a
competição. O que há são interações e ligações. A expressão gráfica da
discussão/debate poderia ser esta: ®
¬. Já para o
diálogo, ela seria uma circularidade:
DIFERENÇAS ENTRE O DIÁLOGO E A
DISCUSSÃO.
A finalidade do diálogo é observar, participar e aprender pela compreensão. O
objetivo da discussão é participar e intervir para aprender pela explicação.
Por isso, no diálogo a postura observadora é o princípio, o meio e o fim. Mas é
indispensável ter em mente que essa observação é sempre participante: observo, mas
ao mesmo tempo me observo observando; faço parte daquilo que observo. O quadro
abaixo resume as principais diferenças entre o diálogo e a discussão/debate:
DIÁLOGO
Visa
abrir questões
Visa
mostrar
Visa
estabelecer relações
Visa
compartilhar ideia
Visa
questionar e aprender
Visa
compreender
Vê
a interação partes/todo
Faz
surgir ideias novas
Busca
a diversidade de ideias
DISCUSSÃO /
DEBATE
Visa
fechar questões
Visa
convencer
Visa
demarcar posições
Visa
defender ideias
Visa
persuadir e ensinar
Visa
explicar
Visa
às partes em separado
Descarta
as ideias vencidas
Busca
acordos
Vimos
que as posturas básicas do diálogo são relativamente poucas. Lembremos agora
que elas podem ser resumidas nos seguintes itens:
a) Prestar
atenção aos fenômenos quando e como eles se mostram;
b)
Descrevê-los sem tentar explicá-los;
c) Respeitar
as diferenças;
d) Não se
deixar influenciar por pressupostos (convicções prévias);
e) Colocar
todos os fenômenos observados em pé de igualdade;
f) Não
delimitar prematuramente o campo de observação;
g) Ver-se
como participante, não como observador.
A SUSPENSÃO
DE PRESSUPOSTOS.
Pressupostos são as nossas crenças, nossas teorias sobre como o mundo deve ser,
nossas “certezas” inabaláveis. Aqui se incluem também os nossos preconceitos.
São hábitos de pensamento a que nos apegamos, de tal modo que eles acabam se
transformando numa segunda natureza. O conjunto de nossos pressupostos forma
aquilo que se denomina de “atitude natural” ou “atitude habitual”. É por isso
que eles são tão difíceis de suspender.
O
filósofo francês Michel de Montaigne já falava sobre isso, quando se referia à
“suspensão do juízo”. Ele observava que suspender não quer dizer eliminar
definitivamente: significa apenas não julgar por algum tempo até que se tenha
uma percepção melhor da pessoa, conceito ou situação. Ou seja: deixar para fazer
os julgamentos um pouco mais tarde, quando for o caso. Enfim, manter a mente
sempre aberta.
OUTROS PONTOS
IMPORTANTES.
Os seguintes pontos são da maior importância para o diálogo como meio de busca
de ideias novas e, portanto, de conhecimento e aprendizagem. Por isso, precisam
ser relembrados:
- O principal
obstáculo ao diálogo é o fato de que as pessoas quase sempre definem o seu
comportamento a partir de ideias firmemente consolidadas, que acabam se
constituindo no principal bloqueio à percepção e ao aprendizado. É o que
podemos chamar de atitude habitual.
- O
aprendizado eficaz depende do modo como aprendemos a questionar essas ideias
prévias. Como resultado, poderemos chegar à abertura mental necessária à
diminuição da resistência à mudança.
- A atitude
habitual pode facilmente transformar-se em posição defensiva. É ela que faz com
que a maioria de nós assuma uma postura resistente, sempre que colocados diante
de ideias novas.
- Para
diminuir essa resistência, como já vimos, é preciso aprender a suspender tal
postura. A suspensão nos leva a uma visão de mundo mais abrangente.
- Esta, por
sua vez, mostra que o conhecimento não é apenas objetivo nem somente subjetivo:
é o resultado da interação entre o observador e o observado. Por isso, lidar com
ele implica que as pessoas aprendam a lidar também com sua subjetividade, isto
é, com o modo como veem o mundo e como essa visão influencia seus
comportamentos.
Se
aprendermos a suspender a atitude habitual, serão removidas — pelo menos em
parte — as defesas que entravam o aprendizado. Ao agir defensivamente,
imaginamos que estamos nos protegendo, quando na verdade perdemos eficácia de
percepção e estreitamos a nossa compreensão.
Humberto Mariotti. Médico,
psicoterapeuta e escritor. Pesquisador independente em teoria da complexidade e
suas aplicações. Criador da disciplina Gestão da Complexidade para MBAs no
Brasil. Sócio diretor do M&Z Complexity Thinking – Centro de Estudos e
Aplicações da Teoria da Complexidade.
E-mail: humberto.mariotti1@gmail.com
www.humbertomariotti.com.br
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