"Olhai para os lírios do campo, como eles crescem; não trabalham, nem fiam. E eu vos digo que nem mesmo Salomão, em toda a sua glória, se vestiu como qualquer deles".

terça-feira, 31 de agosto de 2010

Literatura erótica nas escolas

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Nesta oportunidade pretendo versar sobre a questão da literatura erótica nas escolas públicas, e em especial, nas unidades escolares da Rede Oficial de Ensino do Estado de São Paulo.
Tratar do erótico é sempre um tema controverso, isto porque é um tema que tangencia uma presença oculta na religião e na filosofia, faz parte da existência de tabus e transgressões humanas em que, por desdobramentos, fecundam as raízes de obscenidades como orgias, sacrifícios, incesto e prostituição.
Pois bem, tratado por alguns apenas e unicamente pelo fato de permear imagens de corpos em proposição do ato sexual, cabe lembrar que o erótico vai muito mais além, examinado e esmiuçado em muitas das áreas do conhecimento humano com estudos independentes que tratam da psicanálise e literatura, é possível inferir que exista um enorme hiato entre o pensar erótico e o pensar pornográfico, sendo que enquanto este é saudável, aceitável e profundo, resgatando das mitologias e origens dos espécimes viventes os conceitos que atravessam do nascimento, a vida e a morte, aquele é pernicioso por destruir a pureza e a beleza que existe na inexplicabilidade do Eros e das relações amorosas, por assim dizendo, o pornográfico é simples e puramente a deturpação do erótico.
Conforme afirma o pensador francês Georges Bataille ao apregoar que o erotismo é a experiência que permite ir além de si mesmo, superando a descontinuidade que condena o ser humano, “entre todos os problemas, o erotismo é o mais misterioso, o mais geral, o mais distante”.
Voltando à questão da literatura erótica nas escolas, a informação de que um grupo de pais, no município de Jundiaí/SP, pediu ao Ministério Público o recolhimento do livro “Cem melhores contos brasileiros do século”, distribuído em escolas da rede pública para os alunos da terceira série do ensino médio, pelo fato de que, segundo esses pais, o conto “Obscenidades de uma dona de casa”, do escritor Ignácio de Loyola Brandão, conter uma linguagem inapropriada para os estudantes.
Ora, bolas! É evidente que a Secretária da Educação, bem como o próprio autor do conto e inúmeros outros interessados nas questões educacionais e literárias saíram em defesa da opção pela escolha dos livros, entre tantos outros, que foram doados para os discentes, para isso, lembrou-se de que o referido conto já foi tema de vestibular. Além do mais, segundo diversos educadores, a linguagem encontrada no texto não se difere da praticada no universo dos jovens. Como exemplo, foram apontados os livros da série “Crepúsculo” que, conforme afirma o autor, também apresentam conteúdos como: erotismo, vampirismo, demonismo etc., entretanto, são excessivamente endeusados pelo público infanto-juvenil e não sofrem restrições alguma por parte dos pais mais conservadores.
Se por um lado o inconformismo dos pais (e responsáveis) denota certo caretismo e desconhecimento das tendências literárias voltadas para o público jovem, é também certo que esse tipo de abordagem merece ser tratado como mais uma forma de aproximar aqueles pais que até então não procuravam saber o que se passa na rotina dentro dos muros escolares. O fato é que um enorme número de famílias não apresenta estruturação suficiente para acompanhar o desenvolvimento escolar nas escolas hodiernas, e talvez esta seja uma boa oportunidade para que pais e filhos tratem de temas como educação sexual, gravidez, aborto etc.
Conforme divulgado na mídia, em Santos/SP, o conto teria sido lido em sala de aula e gerado indignação em uma jovem. Pois bem, um gênero textual com esse tema, é evidente que não se aconselha a leitura compartilhada, justamente em um ambiente de ensino. Cabe aos pais e professores orientar os estudantes para que esse tipo de leitura seja praticado em reservado num momento oportuno.
Se a leitura foi feita por algum professor ou sob a orientação de deste, certamente observar-se-á um caso de desconhecimento da adequada performance magisterial, que aconselha todo professor a examinar previamente o conteúdo do material a ser trabalhado durante a aula. O que não pode acontecer de maneira alguma é a tentativa de escandalizar a sociedade a partir de um texto literário, seja por desconhecimento ou com o objetivo único e exclusivamente de denegrir os profissionais da pasta da educação a fim de se obter vantagens político-eleitoreiras.
Para o autor, o texto, que já foi publicado em dez línguas e virou vídeo e monólogo teatral, não é obsceno. O conto, narra a história de uma mulher que recebe cartas de um desconhecido, e é baseado em uma história real, que teria acontecido com uma vizinha do escritor. "Ele é erótico, é sensual, mas é poético. Não existe obscenidade na arte, a não ser quando ela é pornográfica, e isso é a última coisa que o conto é", afirma.
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