"Olhai para os lírios do campo, como eles crescem; não trabalham, nem fiam. E eu vos digo que nem mesmo Salomão, em toda a sua glória, se vestiu como qualquer deles".

domingo, 4 de março de 2012

Palíndromos, tautologias e outras curiosidades da Língua Portuguesa

Você sabe o que é um palíndromo?
Um palíndromo é uma palavra ou um número que se lê da mesma maneira nos dois sentidos, normalmente, da esquerda para a direita e ao contrário.

Exemplos:
OVO, OSSO, RADAR.
O mesmo se aplica às frases, embora a coincidência seja tanto mais difícil de conseguir quanto maior a frase; é o caso do conhecido:

SOCORRAM-ME, SUBI NO ONIBUS EM MARROCOS.

Veja mais alguns...

Anotaram a data da maratona
Assim a Aia ia a missa
A Diva em Argel alegra-me a vida
A droga da gorda
A mala nada na lama
A torre da derrota
Luza Rocelina, a namorada do Manuel, leu na moda da romana: anil é cor azul
O céu sueco
O galo ama o lago
O lobo ama o bolo
O romano acata amores a damas amadas e Roma ataca o namoro
Rir, o breve verbo rir
A cara rajada da jararaca
Saíram o tio e oito marias
Zé de Lima rua Laura mil e dez

E sabe o que é tautologia?
Tautologia (ou pleonasmo) é o termo usado para definir um dos vícios, e erros, mais comuns de linguagem. Consiste na repetição de uma ideia, de maneira viciada, com palavras diferentes, mas com o mesmo sentido.
O exemplo clássico é o famoso 'subir para cima' ou o 'descer para baixo'. Mas há outros, como pode ver na lista a seguir:

- elo de ligação
- acabamento final
- certeza absoluta
- quantia exata
- nos dias 8, 9 e 10, inclusive
- juntamente com

- expressamente proibido
- em duas metades iguais

- sintomas indicativos
- há anos atrás
- vereador da cidade
- outra alternativa
- detalhes minuciosos
- a razão é porque
- anexo junto à carta
- de sua livre escolha
- superávit positivo

- todos foram unânimes
- conviver junto

- fato real
- encarar de frente

- multidão de pessoas
- amanhecer o dia

- criação nova
- retornar de novo
- empréstimo temporário
- surpresa inesperada
- escolha opcional
- planejar antecipadamente

- abertura inaugural
- continua a permanecer
- a última versão definitiva
- possivelmente poderá ocorrer
- comparecer em pessoa

- gritar bem alto
- propriedade característica
- demasiadamente excessivo
- a seu critério pessoal

- exceder em muito .


Note que todas essas repetições são dispensáveis. Por exemplo, 'surpresa inesperada'. Existe alguma surpresa esperada? É óbvio que não.
Devemos evitar o uso das repetições desnecessárias. Fique atento às expressões que utiliza no seu dia-a-dia.
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E sobre os Ditos populares?
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No popular se diz:
Esse menino não pára quieto, parece que tem bicho carpinteiro
Correto:
Esse menino não pára quieto, parece que tem bicho no corpo inteiro

Batatinha quando nasce, esparrama pelo chão.
Enquanto o correto é: Batatinha quando nasce, espalha a rama pelo chão.

Cor de burro quando foge.
O correto é: Corro de burro quando foge!

Outro que no popular todo mundo erra: Quem tem boca vai a Roma.
O correto é: Quem tem boca vaia Roma. (do verbo vaiar).

Outro que todo mundo diz errado: Cuspido e escarrado. Quando alguém quer dizer que é muito parecido com outra pessoa.
O correto é: Esculpido em Carrara. (Carrara é uma variedade de mármore)

Quem não tem cão, caça com gato.
O correto é: Quem não tem cão, caça como gato... ou seja, sozinho!

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domingo, 26 de fevereiro de 2012

Vírgula ( , )

Usa-se a vírgula:
a)      Separando as orações coordenadas assindéticas:
Pare, olhe, siga.

b)      Separando as orações coordenadas sindéticas, exceto as ligadas pela conjunção e:
Vá, mas volte depressa.

c)      Separando as orações coordenadas sindéticas, ligadas pela conjunção e, de sujeitos diferentes:
Ele foi ao Japão, e ela à Itália.

d)      Separando as orações adverbiais:
Quando saístes, ela chegou.
Iríamos, se pudéssemos.

e)      Separando as orações adjetivas explicativas:
O homem, que é mortal, acaba virando pó.

f)       Separando as orações reduzidas:
Saciada a sede, contou-nos a aventura.

g)      Separando as orações intercaladas:
Creio, afirmou Antonio, que este é um caso perdido.

h)      Separando elementos de mesma função sintática, normalmente assindéticos:
Os livros, os cadernos e os lápis estão sobre a mesa.

i)        Assinalando a supressão do verbo:
Maria era rica; José, pobre.

j)        Separando adjuntos adverbiais antecipados:
Naquele momento, todo o pelotão se pôs em fuga.

k)      Separando o aposto:
Jorge Amado, autor de Juabiabá, é um excelente romancista.

l)        Separando o vocativo:
Não toque nesses doces, menino!

m)   Separando, nas datas, a localidade:
São Paulo, 24 de fevereiro de 2012.

Exercícios
1.      Copie as frases seguintes, usando a vírgula quando necessário:
a)      Se estudares serás aprovado; do contrário não cursarás medicina o que te deixará frustrado.

b)      Logo depois do nascimento do filho em 20 de janeiro de 2010 os pais foram para o interior.

c)      Sexta-feira às 12 horas iremos esperá-los no aeroporto.

d)      Porque os pais estavam desempregados o menino vendia balas na rua mas o seu sonho era frequentar a escola.

e)      Ele era honesto; o banqueiro desonesto.

f)       Assim como há quem reclame do trabalho outros reclamam de não trabalhar.

g)      Naquela manhã João ia fazer compras.

h)      Os maiores culpados são os que não contestam não lutam pelos seus direitos acham que não há solução que a vida é assim mesmo que cada povo tem o governo que merece.

i)        Sua casa ficava na Favela do Angu na periferia da cidade o que o fazia gastar muito tempo para chegar ao trabalho.

j)        O prefeito mandou construir um obelisco depois patrocinou um desfile de modas.

k)      Este ano como se sabe é ano de eleições. Cabe ao jovem feliz ou não votar com consciência.

l)        Desejoso de escolher a nova diretoria do grêmio da escola Henrique por exclusão acabou votando na chapa de Antônio.

2.      Deixo meus bens: ao meu irmão não, aos sobrinhos nada, aos netos.
Ao encontrar esta frase no testamento da irmã, o irmão modificou a pontuação para que fosse ele o beneficiado. Escreva em seu caderno como ficaria a nova frase.

Fonte:
(Adaptado do livro)
MAIA, João Domingues. Português. Série Novo Ensino Médio. 1ª ed. São Paulo: Ática,2003.
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segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Curriculum Vitae

“Curriculum” é palavra latina cujo plural é “curricula”.
“Curriculum vitae” é o documento que, através de uma sucinta relação de informações, dá condições de se avaliar a qualificação de uma pessoa. É a exposição organizada dos atributos de um profissional. Visa gerar uma entrevista com quem tem poder de decisão a respeito da ocupação pretendida.
É fundamental que reflita com honestidade as qualidades e competências de quem o elaborou. Não deve conter informações enganosas ou que gerem dúvidas.
Deve ser sóbrio, evitando-se excesso de folhas coloridas e de variedades gráficas.
Sua redação espelhada na norma culta (português correto) é de suma importância.
Segundo estatísticas feitas, 80% dos currículos recebidos por uma empresa vão para o lixo, 15% vão para o banco de dados e 5% são utilizados para entrevista. Para estar entre os 5%, às vezes, é preciso ter um conteúdo diferente. O mais importante é enfatizar os valores pessoais, e em que a experiência acumulada colaborou para o seu crescimento profissional. Não basta dizer o nome da empresa ou órgão público e o cargo e funções exercidas, mas também os resultados obtidos. Cursos que aparentemente não interessam ao setor de recrutamento e seleção podem gerar um importante diferencial de currículo.
É mais importante falar de si próprio do que das empresas ou instituições públicas nas quais trabalhou.
Também é válido relacionar duas ou três pessoas que possam servir como referência sobre o seu desempenho profissional. Uma recomendação, por escrito, ou até mesmo verbal, feita por alguém que se relacione com pessoas que tenham poder de decisão pode ser o canal pelo menos para a oportunidade da entrevista. Por incrível que pareça, o folclórico “QI” (quem indica) ainda abre portas. No caso de recém-formados, um professor seria o mais indicado.
Quem lê-lo deve sentir vontade de conhecer a pessoa que o enviou.
A linguagem deve ser concisa, restringindo-se a dados objetivos, não devendo, em princípio, exceder a três páginas.
Deve-se evitar a abreviação de nomes de entidades, escolas, empresas e órgãos públicos.
Não há necessidade de juntar comprovantes; estes poderão, se for o caso, ser exigidos posteriormente.
Conterá: logo no alto e à esquerda da página, os dados pessoais (nome, endereço, data de nascimento, telefone etc.); a escolaridade, logo após, seguida de cursos de idiomas, informática e outros; a seguir, as experiências profissionais, que serão escritas em ordem cronológica decrescente, ou seja, do mais recente para o primeiro emprego, incluindo o tempo de duração de cada um, com a descrição dos cargos ocupados e funções desempenhadas e, finalmente, as referências pessoais e o salário pretendido (caso tenha sido requisitado).
Orientações uteis:
·      Escrever a data de nascimento, e não a idade, pois se o currículo ficar arquivado em um banco de dados, esse item ficará desatualizado.
·      Evitar muitas cores e efeitos gráficos, pois tornam a leitura e a interpretação difíceis e cansativas.
·      Evitar ultrapassar três páginas. Os profissionais de recursos humanos raramente lêem além disso. Não se esquecer de grampeá-las.
·      Não colocar o número de RG da cédula de identidade nem o número do CPF.
·      Não incluir nomes de estabelecimentos de ensino de primeiro grau (ensino fundamental) e segundo grau (ensino médio), a não ser que se trate de escola técnica, de escola de formação de professores de educação infantil e de 1ª a 4ª séries de ensino fundamental (magistério), colégio militar, escola militar ou curso feito no exterior.
·      Explicar, se for o caso, no que os cursos realizados contribuíram efetivamente para seu crescimento profissional.
·      Descrever o tipo de atividade que realizou em empresas, no serviço público, como empresário, ou como profissional autônomo.
·      Explicar, sucintamente, a importância de cada empresa, órgão ou estabelecimento pelo qual passou.
·      Se prestou o serviço militar, mencionar onde ocorreu, bem como a categoria de reservista.
·      Incluir qualquer estudo e estada no exterior. Experiência internacional é sempre valorizada.
·      Ser claro ao indicar o nível de conhecimento de línguas.
·      Registrar o período de permanência em cada emprego, cargo, função ou atividade autônoma.
·      Excluir as permanências de curta duração.
·      Poupar espaço evitando mencionar experiências pouco relevantes.
·      Mencionar viagens profissionais, assim como seus objetivos.
·      Anexar fotografia só se for pedida.
·      Enviar uma breve carta pessoal de apresentação junto ao currículo, citando onde foi encontrado o anúncio da oferta e o cargo pretendido.
·      O envelope deve ser preenchido e endereçado à pessoa que irá receber o material. Se não souber o nome, deverá ser endereçado ao departamento / setor de recursos ou de talentos humanos da empresa, ou ainda à agência recrutadora, se for o caso.


ROTEIRO

“CURRICULUM VITAE”

IDENTIFICAÇÃO
Nome –
Nacionalidade –
Naturalidade –
Estado civil –
Residência –
Telefone –
Fax –
E-mail –


ESCOLARIDADE
1º e 2º graus – (se for o caso)
3º grau –
Pós-graduação –
Outros cursos –
Idiomas –
Informática –

ATIVIDADES PROFISSIONIAS
Cargos e funções exercidas –
Estágios –
Bolsas –
Cursos ministrados –
Aprovação em concursos públicos –
Participação em congressos, simpósios, conferências etc. –
Trabalhos publicados –
Serviço militar –



REFERÊNCIAS
Pessoais –
Profissionais –
Comerciais –
Bancárias –


LOCAL E DATA
ASSINATURA


MODELO DE CARTA DE APRESENTAÇÃO

São Paulo/SP, 20 de fevereiro de 2012.


Corretora Santa Fé Ltda.

Prezados(as) Senhores(as):

Conforme anúncio publicado no jornal Folha de São Paulo, de 19 de fevereiro, venho, por meio desta, candidatar-me à vaga de auxiliar de contabilidade.

Anexo meu currículo para apreciação.



                                                                                  Atenciosamente.





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FONTE:
Adaptado do livro
HERDADE, Márcio Mendes. Novo manual de redação: básica, concursos, vestibulares, técnica / Márcio Mendes Herdade / 2ª Edição, 1ª reimpressão - Campinas/SP: Pontes Editores, 2007.

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Aula de comunicação

domingo, 5 de fevereiro de 2012

Alguns comentários sobre o texto empresarial

A linguagem no texto empresarial moderno
As organizações devem modernizar seu estilo e sua linguagem para não perderem a competitividade, pois desde o final dos anos 70, como resultado de um contexto econômico, a disputa por uma fatia do mercado mundial se tornou muito mais competitiva.
Quanto à pertinência dessas ações visando à modernidade, uma análise criteriosa indica que as mesmas vieram para ficar, sendo que nos dias atuais tem sido verificada a necessidade de investir na direção da qualidade e da fidelização dos clientes, e, portanto, sendo importante discriminar os procedimentos e padrões utilizados no dia a dia, especificando-os em linguagem clara e sem duplicidade de sentido, de forma a minimizar o retrabalho e acelerar o intervalo de tempo entre os fatos e as ações.
O objetivo de modernizar o estilo e a linguagem do texto empresarial é evitar que os textos venham a causar prejuízos para as empresas, pois sabemos que a circulação de um texto mal escrito pode causar, entre outras agravantes: a desmotivação para a leitura, a ineficiência para novos negócios, conflitos internos constantes, privilégio para a troca oral de informações, falta de credibilidades, o retrabalho.
Em se tratando do princípio fundamental do texto empresarial, pode-se inferir que o interesse das empresas seja o de gerar uma resposta objetiva àquilo que é transmitido, i.e., propiciar uma ação. O texto é sempre redigido para um cliente visando uma resposta, sendo considerado eficaz se o cliente der a resposta que se espera.
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GOLD, Mirian. Redação empresarial – escrevendo com sucesso na era da globalização. São Paulo, Makron Books, 2002.
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sábado, 10 de setembro de 2011

Dúvidas

O duodécimo e o duodécuplo


“Tenho um amigo que acaba de fazer, pela décima segunda vez, o Caminho de Santiago de Compostela, a mais tradicional rota de peregrinação deste planeta. Tenho tratado este amigo, nas nossas trocas de e-mails, por ‘Duodécimo Peregrino’. Está correta esta expressão (duodécimo) para indicar algo feito pela décima segunda vez? Haveria outra forma mais adequada ou correta de tratamento, no caso? Cordiais saudações.” (Marcos Rocha)

A dúvida de Marcos Rocha é curiosa. O fato de parecer um tanto fora de moda só valoriza sua ideia de encontrar um apelido erudito para seu amigo, em vez de chamá-lo simplesmente de algo como “Dozão”. É também uma boa oportunidade de dar uma espiada no complicado reino dos numerais.

Bem, “Duodécimo Peregrino” pode até servir, com boa vontade e já que se trata de uma brincadeira, para designar quem foi doze vezes peregrino. A rigor, porém, não é um epíteto adequado. Como numeral ordinal, aquele que designa uma posição numa sequência numérica, a palavra duodécimo, do latim duodecimus, indica o que vem em décimo segundo lugar e não o que se repete doze vezes. Se o tal peregrino fosse o 12º amigo de Rocha a percorrer o caminho de Santiago de Compostela, o nome estaria perfeito.

(Vale lembrar que, como numeral fracionário, duodécimo significa também cada uma das partes de um todo dividido por doze. O que, no caso em questão, só piora as coisas: divide em vez de multiplicar.)

Qual seria, então, a palavra mais indicada? Rocha pode escolher entre duas, uma mais rara que a outra: duodecúplice (“multiplicado por 12”) ou duodécuplo (“que contém 12 vezes a mesma unidade”). Duodécuplo Peregrino, que tal?

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Fonte: http://veja.abril.com.br/blog/sobre-palavras/
Contato:   sobrepalavras@todoprosa.com.br
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sábado, 20 de agosto de 2011

Os tempos escolares

[...] O ensino escolar é um trabalho coletivo que acontece durante vários anos e conta com diversos professores que se revezam para realizar uma ação educativa sobre os alunos. Graças a essa longa duração (que ocupa, atualmente, uma parte cada vez maior da vida humana, em torno de 15 anos de nossa vida), a maioria das crianças acaba se socializando e assimilando, individualmente falando, as normas e conhecimentos que estão na base da vida em sociedade.
O tempo escolar é constituído, inicialmente, por um continuum objetivo, mensurável, quantificável, administrável. Mas, em seguida, ele é repartido, planejado, ritmado de acordo com avaliações, ciclos regulares, repetitivos. Essa estruturação temporal da organização escolar é extremamente exigente para os professores, pois ela puxa constantemente para a frente, obrigando-os a seguir esse ciclo coletivo e abstrato que não depende nem da rapidez nem da lentidão do aprendizado dos alunos. Essa temporalidade reproduz em grande escala o universo do mundo do trabalho, cadenciado como um relógio; ela arranca as crianças da indolência e da acronia das brincadeiras para mergulhá-las num mundo onde tudo é medido, contado e calculado abstratamente: tal dia, a tal hora, elas deverão aprender tal coisa, numa duração predeterminada e sobre o que serão avaliadas mais tarde, às vezes muito depois. Esse tempo escolar, portanto, é o tempo “sério”, “importante” com consequências graves para o futuro: os atrasos, as faltas, as ausências, os descuidos se acumulam e passam a contar, constituindo fatores de fracasso ou de sucesso, enfim, de diferenciação escolar e, mais tarde, social. O tempo escolar, portanto, é potencialmente formador, porque impõe, para além dos conteúdos transmitidos, normas independentes de variações individuais e aplicáveis a todos. O tempo escolar é um tempo social e administrativo imposto aos indivíduos, é um tempo forçado. É por isso que uma das tarefas fundamentais dos professores é ocupar os alunos, não deixá-los por conta, sem nada para fazer, mas, ao contrário, ocupá-los com atividades: não ter mais o que dizer ou fazer, quando ainda sobra tempo à disposição, é um dos pavores básicos dos professores, e o temor que isso gera é, geralmente, muito importante no início de sua carreira.


Maurice Tardif e Claude Lessard


(TARDIF, M.; LESSARD, C. “A escola como organização do trabalho docente”. In: ___________. O trabalho docente: elementos para uma teoria da docência como profissão de interações humanas. Tradução de João Batista Kreuch. 5ª ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2009, p. 75-76.)
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domingo, 14 de agosto de 2011

A prática na aplicação da flexão verbal

História de passarinho



Um ano depois os moradores do bairro ainda se lembravam do homem de cabelo ruivo que (1) e sumiu de casa.

Ele era um santo, disse a mulher (2) os braços. E as pessoas em redor não (3) nada nem era preciso, perguntar o que se todos já sabiam que era um bom homem que de repente abandonou casa, emprego no cartório, o filho único, tudo. E se mandou Deus sabe para onde.

Só pode ter enlouquecido, sussurrou a mulher, e as pessoas tinham que se aproximar inclinando a cabeça para ouvir melhor. Mas de uma coisa estou certa, tudo começou com aquele passarinho, começou com o passarinho. Que o homem ruivo não sabia se era um canário ou um pintassilgo. Ô! Pai, (4) o filho, que raio de passarinho é esse que você foi arrumar?!

O homem ruivo (5) o dedo entre as grades da gaiola e ficava acariciando a cabeça do passarinho que por essa época era um filhote todo arrepiado, escassa a plumagem amarelo-pálido com algumas peninhas de um cinza-claro.

Não sei, filho, deve ter caído de algum ninho, (6) ele na rua, não sei que passarinho é esse.

O menino (7) chicle. Você não sabe nada mesmo, Pai, nem marca de carro, nem marca de cigarro, nem marca de passarinho, você não sabe nada.

Em verdade, o homem ruivo sabia bem poucas coisas. Mas de uma coisa ele (8) certo, é que naquele instante gostaria de estar em qualquer parte do mundo, mas em qualquer parte mesmo, menos ali. Mais tarde, quando o passarinho (9), o homem ruivo ficou sabendo também o quanto ambos se pareciam, o passarinho e ele.

Ai! O canto desse passarinho, (10) a mulher, Você quer mesmo me atormentar, Velho. O menino esticava os beiços tentando fazer rodinhas com a fumaça do cigarro que subia para o teto: Bicho mais chato, Pai. Solta ele.

Antes de sair para o trabalho o homem ruivo (11) ficar algum tempo olhando o passarinho que desatava a cantar, as asas trêmulas ligeiramente abertas, ora pousando num pé, ora noutro e cantando como se não (12) parar nunca mais. O homem então enfiava a ponta do dedo entre as grades, era despedida e o passarinho, emudecido, vinha meio encolhido oferecer-lhe a cabeça para carícia. Enquanto o homem se afastava, o passarinho se atirava meio às cegas contra as grades, fugir, fugir! Algumas vezes, o homem assistiu a essas tentativas que (13) o passarinho tão cansado, o peito palpitante, o bico ferido. Eu sei, você quer ir embora, você quer ir embora, mas não pode ir, lá fora é diferente e agora é tarde demais.

A mulher (14) então a falar e falava uns cinqüenta minutos sobre as coisas todas que (15) ter e que o homem ruivo não lhe dera, não esquecer aquela viagem para Pocinhos do Rio Verde e o Trem Prateado descendo pela noite até o mar. Esse mar que se não (16) o Pai (que Deus o tenha!) ela jamais teria conhecido porque em negra hora casara com um homem que não prestava para nada, Não sei mesmo onde estava com a cabeça quando me casei com você, Velho.

Ele continuava com o livro aberto no peito, (17) muito de ler. Quando a mulher baixava o tom de voz, ainda furiosa (mas sem saber mais a razão de tanta fúria), o homem ruivo fechava o livro e ia conversar com o passarinho que se punha tão manso que se abrisse a portinhola poderia colhê-lo na palma da mão. Decorridos os cinqüenta minutos das queixas, e como ele não respondia mesmo, ela se calava exausta. Puxava-o pela manga, afetuosa: Vai, Velho, o café está esfriando, nunca pensei que nesta idade eu fosse trabalhar tanto assim. O homem ia tomar o café. Numa dessas vezes, (18) de fechar a portinhola e quando voltou com o pano preto para cobrir a gaiola (era noite) a gaiola estava vazia. Ele então (19) no degrau de pedra da escada e ali ficou pela madrugada, fixo na escuridão. Quando amanheceu, o gato da vizinha desceu o muro, aproximou-se da escada onde estava o homem ruivo e ficou ali estirado, a se espreguiçar sonolento de tão feliz. Por entre o pêlo negro do gato desprendeu-se uma pequenina pena amarelo-acinzentada que o vento delicadamente fez voar. O homem inclinou-se para colher a pena entre o polegar e o indicador. Mas não disse nada, nem mesmo quando o menino que presenciara a cena desatou a rir, Passarinho mais besta! Fugiu e acabou aí, na boca do gato.

Calmamente, sem a menor pressa o homem ruivo guardou a pena no bolso do casaco e levantou-se com uma expressão tão estranha que o menino parou de rir para ficar olhando. Repetiria depois à Mãe, Mas ele até que parecia contente, Mãe, juro que o Pai parecia contente, juro! A mulher então interrompeu o filho num sussurro, Ele ficou louco.

Quando formou-se a roda de vizinhos, o menino voltou a contar isso tudo mas não achou importante contar aquela coisa que descobriu de repente: o Pai era um homem alto, nunca (20) reparado antes como ele era alto. Não contou também que estranhou o andar do Pai, firme e reto, mas por que ele andava agora desse jeito? E repetiu o que todos já sabiam, que quando o Pai saiu, deixou o portão aberto e não olhou para trás.


TELLES, Lygia Fagundes. In: Invenção e memória. Rio de Janeiro: Rocco, 2000.



Assinale a alternativa que preencha corretamente cada lacuna:


(1) enlouquecera                      enlouqueceu                           enlouquecia

(2) levantando                          levantou                                 levantara

(3) perguntou                            perguntava                             perguntaram

(4) cassoava                             caçoava                                 casouava

(5) introduzia                             introduzira                              introduz

(6) pegava                                 peguei                                    pegarei

(7) mascava                               mascaria                                 mascando

(8) estive                                   esteve                                    estava

(9) crescia                                 cresceu                                  esteve crescido

(10) queixara-se                        queixava-se                            queixavasse

(11) costumou                           costumava                              costumara

(12) pode-se                             pudesse                                  pude-se

(13) deixava                              deixa                                      deixavam

(14) punha-se                           punhasse                               ponhasse

(15) quis                                   quiz                                       quer

(16) fo-se                                 foce                                      fosse

(17) gostou                               gostávamos                           gostava

(18) esqueceu                           esquecia                                esquece

(19) sentousse                          sentosse                                sentou-se

(20) teve                                  tinha                                      tenha

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