"Olhai para os lírios do campo, como eles crescem; não trabalham, nem fiam. E eu vos digo que nem mesmo Salomão, em toda a sua glória, se vestiu como qualquer deles".

terça-feira, 30 de julho de 2013

O que muda. O que não muda.

O Novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa.

Alfabeto

1.       Incorporação, no alfabeto da língua portuguesa, das letras K, Y e W.
Antes do acordo
Darwin, Wagner, Kuwait, km, kg, Yeda, Ely, byroniano, Franklin, Kant, taylorista, Kwanza, malawiano, KLM, Watt, Kardec, Klepler, Washington, WWW, kart, yoga.
A partir do acordo
Darwin, Wagner, Kuwait, km, kg, Yeda, Ely, byroniano, Franklin, Kant, taylorista, Kwanza, malawiano, KLM, Watt, Kardec, Klepler, Washington, WWW, kart, yoga.

Observação: antes do acordo, as letras K, Y e W não faziam parte do alfabeto do português, aparecendo em casos especiais (abreviaturas e estrangeirismos); a partir do acordo passam a vigorar oficialmente em nosso alfabeto.

2.       Manutenção ou simplificação, nos nomes próprios hebraicos de tradição bíblica, dos dígrafos finais -ch, -ph e -th pronunciados.
Antes do acordo
Baruch, Enoch, Moloch, Loth, Ziph.
A partir do acordo
Baruch ou Baruc, Enoch ou Enoc, Moloch ou Moloc, Loth ou Lot, Ziph ou Zif.

3.       Eliminação ou adaptação, nos nomes próprios hebraicos de tradição bíblica, dos dígrafos finais -ch, -ph e -th mudos e de alguns pronunciados.
Antes do acordo
Joseph ou José, Nazareth ou Nazaré, Judith ou Judite, Beth ou Bete, Ruth ou Rute.
A partir do acordo
José, Nazaré, Judite, Bete, Rute.

Observação: evidentemente, para efeito legal, deve permanecer a ortografia dos nomes próprios registrados em Cartório de Registro Civil.


4.       Manutenção ou eliminação, em antropônimos e topônimos consagrados pelo uso, das consoantes finais.
Antes do acordo
David ou Davi, Jacob ou Jacó, Madrid ou Madri, Job ou Jó, Josafat ou Josafá.
A partir do acordo
David ou Davi, Jacob ou Jacó, Madrid ou Madri, Job ou Jó, Josafat ou Josafá.

Observação: a intenção dessa regra é apenas consagrar um uso já comum na ortografia portuguesa, embora ainda não tivesse sido definida antes do acordo.

5.       Substituição, sempre que possível, dos topônimos estrangeiros por formas vernáculas correspondentes.
Antes do acordo
Anvers ou Antuérpia, Milano ou Milão, Zürich ou Zurique, München ou Munique, Bordeaux ou Bordéus, Génève ou Genebra, Torino ou Turim, London ou Londres, Shangai ou Xangai, Nova York ou Nova Iorque, Lion ou Lião, Quebec ou Quebeque.
A partir do acordo
Antuérpia, Milão, Zurique, Munique, Bordéus, Genebra, Turim, Londres, Xangai, Nova Iorque, Lião, Quebeque.

Observação: os topônimos grafados na forma original, isto é, com a grafia estrangeira, são muito mais comuns no Brasil do que em Portugal, devendo haver, a partir do acordo, uma unificação em favor das formas vernáculas. Topônimos que não possuem, tradicionalmente, correspondente no vernáculo devem manter sua grafia original: Washington, Los Angeles, Buenos Ares, Zagreb etc.

Letras maiúsculas e minúsculas

1.       Emprego da letra minúscula nos nomes de meses, estações do ano e dias da semana.
Antes do acordo
Janeiro, Fevereiro, Março, Abril, Maio, Junho, Julho, Agosto, Setembro, Outubro, Novembro, Dezembro, Primavera, Verão, Outono, Inverno, Segunda, Terça, Quarta, Quinta, Sexta, Sábado, Domingo.
A partir do acordo
janeiro, fevereiro, março, abril, maio, junho, julho, agosto, setembro, outubro, novembro, dezembro, primavera, verão, outono, inverno, segunda, terça, quarta, quinta, sexta, sábado, domingo.

2.       Emprego da letra minúscula nos nomes dos pontos cardeais.
Antes do acordo
Norte, Sul, Leste, Oeste, Sudeste, Nordeste, Noroeste, Sueste.
A partir do acordo
norte, sul, leste, oeste, sudeste, nordeste, noroeste, sueste.

3.       Emprego facultativo da letra minúscula nos vocábulos que compõem uma citação bibliográfica, com exceção do primeiro vocábulo e daqueles obrigatoriamente grafados com maiúscula.
Antes do acordo
Memórias Póstumas de Brás Cubas, Grande Sertão: Veredas, Casa-Grande e Senzala, O Crime do Padre Amaro, O Espírito das Leis, Em Busca do Tempo Perdido, A Montanha Mágica, Crime e Castigo, O Crepúsculo dos Deuses.
A partir do acordo
Memórias Póstumas de Brás Cubas ou Memórias póstumas de Brás Cubas, Grande Sertão: Veredas ou Grande sertão: veredas, Casa-Grande e Senzala ou Casa-grande e senzala, O Crime do Padre Amaro ou O crime do Padre Amaro, O Espírito das Leis ou O espírito das leis, Em Busca do Tempo Perdido ou Em busca do tempo perdido, A Montanha Mágica ou A montanha mágica, Crime e Castigo ou Crime e castigo, O Crepúsculo dos Deuses ou O crepúsculo dos deuses.

4.       Emprego facultativo de minúscula nas formas de tratamento e reverência (axiônimos), bem como em nomes sagrados e que designam crenças religiosas (hagiônimos).
Antes do acordo
Santa Isabel, Doutor Carlos Ferreira, Papa João Paulo II, Governador Mário Covas, Senhor Roberto, Excelentíssimo Senhor Reitor, Vossa Reverendíssima.
A partir do acordo
Santa Isabel ou santa Isabel, Doutor Carlos Ferreira ou doutor Carlos Ferreira, Papa João Paulo II ou papa João Paulo II, Governador Mário Covas ou governador Mário Covas, Senhor Roberto ou senhor Roberto, Excelentíssimo Senhor Reitor ou excelentíssimo senhor reitor, Vossa Reverendíssima ou vossa reverendíssima.

5.       Emprego facultativo de minúscula nos nomes que designam domínios do saber e formas afins.
Antes do acordo
Português, Educação Física, História do Brasil, Arte Medieval, Linguística, Arquitetura, História da América, Geografia Humana, Química Quântica, Astrofísica, Biologia Marinha, Cultura Geral, Informática, Pintura, Artes Plásticas, Letras Clássicas e Vernáculas.
A partir do acordo
Português ou português, Educação Física ou educação física, História do Brasil ou história do Brasil, Arte Medieval ou arte medieval, Linguística ou linguística, Arquitetura ou arquitetura, História da América ou história da América, Geografia Humana ou geografia humana, Química Quântica ou química quântica, Astrofísica ou astrofísica, Biologia Marinha ou biologia marinha, Cultura Geral ou cultura geral, Informática ou informática, Pintura ou pintura, Artes Plásticas ou artes plásticas, Letras Clássicas e Vernáculas ou letras clássicas e vernáculas.

6.       Emprego facultativo de maiúscula inicial em categorizações de logradouros públicos, templos e edifícios.
Antes do acordo
Rua do Ouvidor, Estrada das Figueiras, Edifício Copan, Igreja do Rosário, Palácio do Governo, Túnel Rebouças, Rodovia Castelo Branco, Bairro da Mooca.
A partir do acordo
Rua do Ouvidor ou rua do Ouvidor, Estrada das Figueiras ou estrada das Figueiras, Edifício Copan ou edifício Copan, Igreja do Rosário ou igreja do Rosário, Palácio do Governo ou palácio do Governo, Túnel Rebouças ou túnel Rebouças, Rodovia Castelo Branco ou rodovia Castelo Branco, Bairro da Mooca ou bairro da Mooca.


Acentuação

1.       Eliminação do sinal de diérese intitulado trema, no -u seguido de g ou q e antes de -e ou -i.
Antes do acordo
lingüiça, agüentar, freqüente, conseqüência, cinqüenta, subseqüente, cinqüentenário, iniqüidade, eqüestre, lingüística, quinqüênio, antiqüíssimo, argüição, enxágüe.
A partir do acordo
linguiça, aguentar, frequente, consequência, cinquenta, subsequente, cinquentenário, iniquidade, equestre, linguística, quinquênio, antiquíssimo, arguição, enxágue.

2.       Eliminação do acento agudo nos ditongos abertos -ei, -oi, das palavras paroxítonas.
Antes do acordo
idéia, assembléia, hebréia, Coréia, paranóico, jibóia, heróico, Galiléia, apóio.
A partir do acordo
ideia, assembleia, hebreia, Coreia, paranoico, jiboia, heroico, Galileia, apoio.

Observação: a acentuação mantém-se nas palavras que apresentam as condições descritas na regra, mas que são oxítonas: anéis, batéis, fiéis, papéis, corrói, herói(s), remói, sóis etc.

3.       Eliminação do acento agudo nas palavras paroxítonas com -i e -u tônicos precedidos de ditongo.
Antes do acordo
cauíla, feiúra, baiúca, boiúno, boiúna, Sauípe, teiídio.
A partir do acordo
cauila, feiura, baiuca, boiuno, boiuna, Sauipe, teiidio.

Observação: a acentuação mantém-se nas palavras que apresentam as condições descritas na regra, mas que são proparoxítonas (maiúsculo, feiíssimo, cheiíssimo) ou possuem -i / -u não precedidos de ditongo (aí, cafeína, saída, saúde, país, viúvo, saístes, saúva). 

4.       Eliminação do acento agudo nas palavras paroxítonas que possuam -u tônico precedido das letras g ou q, seguidas de -e ou -i.[1]
Antes do acordo
averigúe, apazigúe, apazigúem, argúem, argúi, obliqúe, redargúi, redargúem.
A partir do acordo
averigue, apazigue, apaziguem, arguem, argui, oblique, redargui, redarguem.

5.       Eliminação do acento circunflexo nos encontros vocálicos -oo.
Antes do acordo
vôo, enjôo, môo, perdôo, corôo, côo, sôo, abençôo.
A partir do acordo
voo, enjoo, moo, perdoo, coroo, coo, soo, abençoo.

6.       Eliminação do acento circunflexo nos encontros vocálicos -ee.
Antes do acordo
crêem, dêem, lêem, vêem, relêem, revêem, descrêem, antevêem.
A partir do acordo
creem, deem, leem, veem, releem, reveem, descreem, anteveem.

7.       Eliminação dos acentos agudo e circunflexo nas seguintes palavras homógrafas (acento diferencial).
Antes do acordo
para (verbo parar) e para (preposição); péla (verbo pelar), péla (substantivo) e pela (preposição); pólo (substantivo), pôlo (substantivo) e polo (preposição arcaica); pélo (verbo pelar), pêlo (substantivo) e pelo (preposição); pêro (substantivo) e pero (conjunção arcaica); pêra (substantivo), péra (substantivo) e pera (preposição arcaica).
A partir do acordo
para (verbo parar) e para (preposição); pela (verbo pelar), pela (substantivo) e pela (preposição); polo (substantivo), polo (substantivo) e polo (preposição arcaica); pelo (verbo pelar), pelo (substantivo) e pelo (preposição); pero (substantivo) e pero (conjunção arcaica); pera (substantivo), pera (substantivo) e pera (preposição arcaica).

8.       Manutenção dos acentos agudo e circunflexo nas seguintes palavras homógrafas (acento diferencial).
Antes do acordo
pôde (3ª pessoa do singular do pretérito perfeito do indicativo) e pode (3ª pessoa do singular do presente do indicativo); pôr (verbo) e por (preposição); têm (3ª pessoa do plural do presente do indicativo) e tem (3ª pessoa do singular do presente do indicativo); vêm (3ª pessoa do plural do presente do indicativo) e vem; (3ª pessoa do singular do presente do indicativo); abstêm e todos os demais derivados do verbo ter (3ª pessoa do plural do presente do indicativo) e abstém e todos os demais derivados do verbo ter (2ª e 3ª pessoas do singular do presente do indicativo); convêm e todos os demais derivados do verbo vir (3ª pessoa do plural do presente do indicativo) e convém e todos os demais derivados do verbo vir (2ª e 3ª pessoas do singular do presente do indicativo).
A partir do acordo
pôde (3ª pessoa do singular do pretérito perfeito do indicativo) e pode (3ª pessoa do singular do presente do indicativo); pôr (verbo) e por (preposição); e demais formas detalhadas acima.

9.       Emprego facultativo dos acentos agudo e circunflexo nas seguintes palavras homógrafas (acento diferencial).
Antes do acordo
dêmos (1ª pessoa do plural do presente do subjuntivo) e demos (1ª pessoa do plural do pretérito perfeito do indicativo; fôrma (substantivo) e forma (substantivo, 3ª pessoa do singular do presente do indicativo ou 2ª pessoa do singular de imperativo); amámos e demais formas verbais da primeira conjugação (1ª pessoa do plural do pretérito perfeito do indicativo) e amamos e demais formas verbais da primeira conjugação (1ª pessoa do plural do presente do indicativo).
A partir do acordo
dêmos ou demos (1ª pessoa do plural do presente do subjuntivo) e demos (1ª pessoa do plural do pretérito perfeito do indicativo; fôrma ou forma (substantivo) e forma (substantivo, 3ª pessoa do singular do presente do indicativo ou 2ª pessoa do singular de imperativo); amámos e demais formas verbais da primeira conjugação ou amamos e demais formas verbais da primeira conjugação (1ª pessoa do plural do pretérito perfeito do indicativo) e amamos e demais formas verbais da primeira conjugação (1ª pessoa do plural do presente do indicativo).

10.   Emprego facultativo da acentuação nos casos consagrados pelas duas ortografias oficiais.
Antes do acordo
econômico ou económico, acadêmico ou académico, fêmur ou fémur, bebê ou bebé, canapê ou canapé, matinê ou matiné, purê ou puré, judô ou judo, metrô ou metro, sumô ou sumo, Antônio ou António, prêmio ou prémio, gênero ou género, fenômeno ou fenómeno, bônus ou bónus, sêmen ou sémen, Fênix ou Fénix, ônix ou ónix, oxigênio ou oxigénio, sinfônico ou sinfónico, tênis ou ténis, cômico ou cómico, guichê ou guiché.
A partir do acordo
econômico ou económico, acadêmico ou académico, fêmur ou fémur, bebê ou bebé, canapê ou canapé, matinê ou matiné, purê ou puré, judô ou judo, metrô ou metro, sumô ou sumo, Antônio ou António, prêmio ou prémio, gênero ou género, fenômeno ou fenómeno, bônus ou bónus, sêmen ou sémen, Fênix ou Fénix, ônix ou ónix, oxigênio ou oxigénio, sinfônico ou sinfónico, tênis ou ténis, cômico ou cómico, guichê ou guiché.

11.   Emprego facultativo da acentuação nas formas conjugadas dos verbos terminados em -guar, -quar e -quir.
Antes do acordo
averiguo, averigua, averigúe, enxáguo, enxágua, enxáguam, enxagüe, águo, obliquo, apaziguo, delínque, apropínquo.
A partir do acordo
averiguo ou averíguo, averigua ou averígua, averigue ou averígue, enxáguo ou enxaguo, enxágua ou enxagua, enxáguam ou enxaguam, enxague ou enxágue, águo ou aguo, obliquo ou oblíquo, apaziguo ou apazíguo, delinque ou delínque, apropinquo ou apropínquo.


Hífen

1.       Eliminação do hífen em palavras compostas cuja noção de composição, em certa medida, se perdeu.
Antes do acordo
pará-quedas, manda-chuva, madressilva, girassol, pontapé.
A partir do acordo
paraquedas, mandachuva, madressilva, girassol, pontapé.

2.       Eliminação do hífen em vocábulos derivados por prefixação, cujo prefixo terminar em vogal e o segundo elemento iniciar-se por consoante (com exceção do h).
Antes do acordo
contra-regra, extra-regular, anti-semita, ultra-sonografia, neo-republicano, proto-revolucionário, semi-selvagem, ultra-sensível, supra-renal, contra-senha, co-seno, infra-som, minissaia, eletrossiderurgia, microssistema, microrradiografia, minissérie, contra-senso, proto-satélite, ultra-romântico, ultra-secreto, extra-solar, supra-sumo, micro-cirurgia, semicírculo.
A partir do acordo
contrarregra, extrarregular, antissemita, ultrassonografia, neorrepublicano, protorrevolucionário, semisselvagem, ultrassensível, suprarrenal, contrassenha, cosseno, infrassom, minissaia, eletrossiderurgia, microssistema, microrradiografia, minissérie, contrassenso, protossatélite, ultrarromântico, ultrassecreto, extrassolar, suprassumo, microcirurgia, semicírculo.

3.       Eliminação do hífen em vocábulos derivados por prefixação, cuja vogal final do prefixo é diferente da vogal inicial do segundo elemento.
Antes do acordo
antieconômico, extra-escolar, auto-aprendizado, contra-indicado, intra-ocular, auto-educação, extra-oficial, antiaéreo, co-educação, aeroespacial, auto-estrada, auto-aprendizagem, agroindustrial, hidroelétrico, plurianual, auto-adesivo, contra-exemplo, auto-ajuda, intra-oral, auto-escola, co-editor, contra-oferta, auto-estima, coirmão.
A partir do acordo
antieconômico, extraescolar, autoaprendizado, contraindicado, intraocular, autoeducação, extraoficial, antiaéreo, coeducação, aeroespacial, autoestrada, autoaprendizagem, agroindustrial, hidroelétrico, plurianual, autoadesivo, contraexemplo, autoajuda, intraoral, autoescola, coeditor, contraoferta, autoestima, coirmão.

4.       Eliminação do hífen nas formas conjugadas do verbo haver seguido da preposição de.
Antes do acordo
hei-de ou hei de, há-de ou há de, hão-se ou hão de, havemos-de ou havemos de, haverei-de ou haverei de, haveremos-de ou haveremos de.
A partir do acordo
hei de, há de, hão-se ou hão de, havemos de, haverei de, haveremos de.

Observação: deve-se atentar para o fato de que somente na norma ortográfica lusitana o emprego desse hífen  era obrigatório, uma vez que a norma ortográfica brasileira já dispensava seu uso. 

5.       Manutenção do hífen em palavras compostas por justaposição cujos elementos constituem uma unidade semântica, mas mantêm uma tonicidade própria; e em compostos que designam espécies botânicas e zoológicas.
Antes do acordo
ano-luz, arco-íris, decreto-lei, médico-cirurgião, tenente-coronel, tio-avô, alcaide-mor, amor-perfeito, guarda-noturno, mato-grossense, norte-americano, porto-alegrense, sul-africano, afro-asiático, azul-escuro, luso-brasileiro, primeiro-ministro, segunda-feira, conta-gotas, finca-pé, guarda-chuva, couve-flor, carta-bilhete, vitória-régia, cirurgião-dentista, abaixo-assinado, ave-maria, erva-doce, feijão-verde, formiga-branca, bem-te-vi.
A partir do acordo
ano-luz, arco-íris, decreto-lei, médico-cirurgião, tenente-coronel, tio-avô, alcaide-mor, amor-perfeito, guarda-noturno, mato-grossense, norte-americano, porto-alegrense, sul-africano, afro-asiático, azul-escuro, luso-brasileiro, primeiro-ministro, segunda-feira, conta-gotas, finca-pé, guarda-chuva, couve-flor, carta-bilhete, vitória-régia, cirurgião-dentista, abaixo-assinado, ave-maria, erva-doce, feijão-verde, formiga-branca, bem-te-vi.

Observação: atente-se para o fato de, se comparada com a regra 1, esta se caracteriza como uma das propostas mais polêmicas do acordo, em razão de suas bases não explicitarem os casos em que as mudanças devem ocorrer. Regra 5: “emprega-se o hífen nas palavras compostas por justaposição que não contêm formas de ligação e cujos elementos [...] constituem uma unidade sintagmática e semântica e mantêm acento próprio”. Regra 1: “compostos, em relação aos quais se perdeu, em certa medida, a noção de composição, grafam-se aglutinadamente” (grifo meu).

6.       Manutenção do hífen em vocábulos derivados por prefixação cujo segundo elemento iniciar-se por h.
Antes do acordo
pré-história, semi-hospitalar, geo-história, sub-hepático, anti-higiênico, contra-harmônico, extra-humano, super-homem, ultra-hiperbólico, neo-helênico, pan-helenismo.
A partir do acordo
pré-história, semi-hospitalar, geo-história, sub-hepático, anti-higiênico, contra-harmônico, extra-humano, super-homem, ultra-hiperbólico, neo-helênico, pan-helenismo.

Observação: Com exceção de alguns prefixos como co- (coabitar, coerdeiro) re- (reaver) etc. 

7.      Manutenção do hífen em vocábulos derivados por prefixação cuja consoante final do prefixo é r e o segundo elemento também iniciar-se por r; ou com os prefixos circum- e pan- com o segundo elemento iniciado por vogal, m ou n; ou em qualquer condição para alguns prefixos (além-, ex-, sota-, soto-, vice-, vizo-, pós-, pré-, pró-, grã-, grão).
Antes do acordo
hiper-reativo, inter-relacionado, super-resistente, super-requintado; circum-escolar, circum-murado, circum-navegação, pan-africano, pan-mágico, pan-negritude, pan-americano; além-mar, ex-almirante, ex-diretor, ex-hospedeira, ex-presidente, ex-primeiro-ministro, sota-piloto, soto-mestre, vice-presidente, vice-reitor, vizo-rei, pós-graduação, pós-tônico, pré-escolar, pré-natal, pró-africano, pró-europeu, grã-duque, grã-fina, grão-cruz, grão-mestre.
A partir do acordo
hiper-reativo, inter-relacionado, super-resistente, super-requintado; circum-escolar, circum-murado, circum-navegação, pan-africano, pan-mágico, pan-negritude, pan-americano; além-mar, ex-almirante, ex-diretor, ex-hospedeira, ex-presidente, ex-primeiro-ministro, sota-piloto, soto-mestre, vice-presidente, vice-reitor, vizo-rei, pós-graduação, pós-tônico, pré-escolar, pré-natal, pró-africano, pró-europeu, grã-duque, grã-fina, grão-cruz, grão-mestre.

8.       Inclusão do hífen em vocábulos derivados por prefixação cujo prefixo terminar por vogal igual à vogal inicial do segundo elemento.
Antes do acordo
antiinflacionário, arquiinimigo, autoônibus, pseudo-organizado, mega-ação, antiimperialista, microorganismo, antiibérico, supra-auricular, arquiirmandade, autoobservação, semi-interno, microondas, contra-ataque, intra-arterial.
A partir do acordo
Anti-inflacionário, arqui-inimigo, auto-ônibus, pseudo-organizado, mega-ação, anti-imperialista, micro-organismo, anti-ibérico, supra-auricular, arqui-irmandade, auto-observação, semi-interno, micro-ondas, contra-ataque, intra-arterial.

Observação: não se inclui o hífen em palavras indicadas por alguns prefixos como co- (cooptar, coordenar) pre- (preencher, preestabelecer), re- (reembolsar, reerguer) etc.


Letras mudas

1.       Eliminação de consoantes mudas não pronunciadas.
Antes do acordo
acção, baptizar, directo, adoptar, objecção, acto, óptimo, accionar, abstracção, actual, fraccionar, selecção, electricidade, projecto, adopção, Egipto.
A partir do acordo
ação, batizar, direto, adotar, objeção, ato, ótimo, acionar, abstração, atual, fracionar, seleção, eletricidade, projeto, adoção, Egito.

Observação: trata-se de uma regra que tem particular incidência sobre a articulação lusitana, já que não é comum, na grafia brasileira, casos de consoantes mudas não pronunciadas, com exceção do h.

2.       Emprego facultativo de consoantes mudas pronunciadas.
Antes do acordo
facto  ou fato, sector ou setor, carácter ou caráter, amnistia ou anistia, sumptuoso ou suntuoso, excepcional ou excecional, concepção ou conceção, peremptório ou perentório, assumpção ou assunção, aspecto ou aspecto, ceptro ou cetro, corrupto ou corruto, recepção ou receção, subtil ou sutil, amígdala ou amídala, indemnizar ou indenizar, omnipotente ou onipotente, omnisciente ou onisciente, infeccioso ou infecioso, dicção ou dição, decepcionar ou dececionar, súbdito ou súdito, aritmética ou arimética.
A partir do acordo
facto  ou fato, sector ou setor, carácter ou caráter, amnistia ou anistia, sumptuoso ou suntuoso, excepcional ou excecional, concepção ou conceção, peremptório ou perentório, assumpção ou assunção, aspecto ou aspecto, ceptro ou cetro, corrupto ou corruto, recepção ou receção, subtil ou sutil, amígdala ou amídala, indemnizar ou indenizar, omnipotente ou onipotente, omnisciente ou onisciente, infeccioso ou infecioso, dicção ou dição, decepcionar ou dececionar, súbdito ou súdito, aritmética ou arimética.

Grafia de derivados

1.       Uniformização dos sufixos -iano e -iense (em vez de -ano e -ense) em vocábulos derivados de palavras terminadas por -e(s).
Antes do acordo
acreano ou acriano (de Acre), açoriano (de Açores), euclidiano (de Euclides), camoniano (de Camões), cabo-verdiano (de Cabo Verde), sofocliano (de Sófocles), freudiano (de Freud), marciano (de Marte), georgiano (de George), quebequense (de Quebeque), torrense (de Torres), zairense (de Zaire).
A partir do acordo
acriano (de Acre), açoriano (de Açores), euclidiano (de Euclides), camoniano (de Camões), cabo-verdiano (de Cabo Verde), sofocliano (de Sófocles), freudiano (de Freud), marciano (de Marte), georgiano (de George), quebequiense (de Quebeque), torriense (de Torres), zairiense (de Zaire).

2.       Uniformização das terminações átonas -io e -ia (em vez de -eo e -ea) nos substantivos que constituem variações de outros substantivos terminados em vogal.
Antes do acordo
hástia ou hástea, réstia, vestia, béstia.
A partir do acordo
hástia, réstia, vestia, béstia.

3.       Variação da conjugação de verbos terminados em -iar, provenientes de substantivos terminados em -ia ou -io átonos. 
Antes do acordo
negocio (de negócio), premio (de prêmio).
A partir do acordo
negocio ou negoceio (de negócio), premio ou premeio (de prêmio).

Observação: Outros verbos terminados em -iar deverão seguir a conjugação regular (noticiar – noticio, influenciar – influencio, principiar – principio etc.) ou irregular (remediar – remedeio, mediar – medeio, odiar – odeio etc), conforme a tradição.




Fonte:
SILVA, Maurício. O novo acordo da língua portuguesa: o que muda, o que não muda. 2ed. São Paulo: Contexto, 2009.




[1] Para a dupla grafia dos verbos terminados em -uar (averiguar, apaziguar, obliquar etc.), consultar a regra 11.

sexta-feira, 12 de abril de 2013

O uso da crase

Crase
A palavra crase (do grego krásis = mistura, contração) designa, em gramática normativa, a fusão de dois sons vocálicos iguais.

Leia o seguinte trecho de um conto de Machado de Assis e observe que ora ocorre a crase, ora não ocorre.

Não digo as vezes que andei de um lado para o outro, na sala, no corredor, à espreita e à escuta, até que de todo passou a possibilidade de vir. Poupo a notícia do meu desespero, o tempo que rolei no chão, falando, gritando ou chorando. Quando cansei, escrevi-lhe uma longa carta; esperei que me escrevesse também, explicando a falta. Não mandei a carta, e à noite fui à casa deles.

Nas orações, ocorre crase quando a preposição a se funde com:
§  o artigo a e suas flexões: Assistimos à peça de teatro.
§  o artigo inicial do pronome demonstrativo aquele e suas flexões: Não me refiro àqueles livros.
§  o pronome demonstrativo a e sua flexão: Sua assinatura é referente à de meu irmão.

Ocorre crase:
a)    Antes de substantivo feminino que exija artigo.
Adaptei-me à turma.

b)   Antes de nomes de localidades, quando estes admitirem o artigo a.
Viajaremos à Colômbia.

Obs.: Nem todos, porém, admitem artigo: Curitiba, Fortaleza, Madri etc.
Viajaremos a Curitiba. à Venho de Curitiba.
*Haverá crase se o substantivo vier acompanhado de adjunto:
Vou à Curitiba dos meus sonhos.

c)    Antes de numeral seguido da palavra hora, mesmo subentendida.
Chegaremos às quatro horas.
Fui dormir às duas da manhã.

d)   Quando se puder subentender as palavras moda ou maneira.
Ela usava um salto à Luís XV.
Costumava escrever à Guimarães Rosa.

e)    Quando o artigo está desacompanhado do respectivo substantivo.
O atleta correu da quadra de tênis à de basquete. à ...da quadra de tênis a + a quadra de basquete.

f)    Antes da palavra casa, se esta vier determinada.
Retornou à casa paterna.
Vamos à casa de vídeos.
Obs.: Se a palavra casa tiver o sentido de lar, domicílio, não haverá crase:
                Chegamos a casa cansados.

g)    Antes da palavra terra, se esta não for antônima de bordo.
Voltou à terra onde nascera.
Vendo o tubarão, o surfista retornou logo a terra (terra = mar).

Não ocorre crase:
a)    Antes de substantivo masculino.
Iremos a cavalo.

b)   Antes do artigo indefinido uma.
Foi a uma igreja rezar.

c)    Antes de verbo.
Ela passou a viver da venda de cosméticos.

d)   Antes de expressões de tratamento.
Remetemos a vossa senhoria os documentos.

e)    Antes de pronomes que não admitem artigo, como você, toda, cada, tudo, alguém, ninguém etc.
Entreguei o prêmio a cada um dos vencedores.
Não devo nada a ninguém.
Distribui sorrisos a toda gente.

f)    Antes de palavra feminina em sentido genérico.
Não assisto a peças que não tenham um bom elenco.

g)    Na locução a distancia, quando não determinada.
O líder assistia a tudo a distância.
O líder assistia a tudo à distância de cem metros.

h)   Entre substantivos repetidos.
Os guerreiros ficaram face a face.
O vendedor foi de porta a porta.
As crianças tomaram o remédio gota a gota.

Uso facultativo da crase:
Pode-se usar ou não a crase nos seguintes casos:
a)    Antes de nome próprio referente a pessoa.
Ofereci um poema a (ou à) Helena.

b)   Antes de pronome possessivo.
Dirigiu a palavra a (ou à) nossa secretária.

c)    Depois de até.
Renato caminhou até a (ou à) porta.

d)   Com as locuções que indicam meio ou instrumento.
O bandido foi morto a (ou à) bala.

A crase e os pronomes demonstrativos
Usa-se a crase nos seguintes casos:
a)    Quando o pronome demonstrativo aquele e suas flexões completarem o sentido de um verbo ou nome que exija preposição.
Entregou o prêmio àquele aluno.
Chegou àquela região castigada pela seca.
Prefiro isso àquilo.

b)   No a que precede os pronomes que, quem, qual, e quais, quando o verbo ou o nome exigir preposição. Isto pode ser verificado substituindo-se o antecedente por uma palavra masculina. Se o a se transformar em ao, haverá crase.
A situação em que me encontro é semelhante à que superaste.
(O impasse em que me encontro é semelhante ao que superaste.)

A posição à qual aspiro depende de muitos esforços.
(O cargo ao qual aspiro depende de muitos esforços.)

Crase nas locuções
a)    Adverbiais: às cegas, às claras, às escondidas, à toa, às pressas, às vezes, à esquerda, à direita, à força, à tarde, à noite.
Partiu às pressas.
Faz tudo às claras.
O ônibus virou à esquerda.
Deu tiros às cegas.
Mariana chegará à noite.

b)   Prepositivas: à roda de, à beira de, à espera de, à vista de, à falta de, à guisa de.
Encontrei-o à beira da falência.
Permaneceu à espera de outra chamada.
Escreveu um texto à guisa de apresentação.
As crianças morrem à vista do mundo.

c)    Conjuntivas: à medida que, à proporção que.
À medida que anoitecia, aumentava-lhe o medo.
Entusiasmava-se à proporção que falava.

Observação
Usa-se o acento grave indicador de crase nas locuções em que se pode fazer a correlação a ― na:
            À saída do teatro. (= Na saída)
            Quem ousaria incomodá-lo àquela hora? (= naquela hora)


Fonte:
CEGALLA, Domingos Paschoal. Novíssima gramática da língua portuguesa. 45ª ed. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 2002.
MAIA, João Domingues. Português. 7ª ed. São Paulo: Ática, 2000.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Sobre a prática da pesquisa


Carta aos jovens[1] 

O que desejaria eu aos jovens de minha pátria consagrados à ciência?
Antes de tudo – constância. Nunca posso falar sem emoção sobre essa importante condição para o trabalho científico. Constância, constância e constância! Desde o início de seus trabalhos habituem-se a uma rigorosa constância na acumulação do conhecimento.
Aprendam o abecê da ciência antes de tentar galgar seu cume. Nunca acreditem no que se segue sem assimilar o que vem antes. Nunca tentem dissimular sua falta de conhecimento, ainda que com suposições e hipóteses audaciosas. Como se alegra vista com o jogo de cores dessa bolha de sabão – no entanto ela, inevitalvemente, arrebenta e nada fica além da confusão.
Acostumem-se à descrição e à paciência. Aprendam o trabalho árduo da ciência. Estudem, comparem, acumulem fatos.
Ao contrário das asas perfeitas dos pássaros, a ciência nunca conseguirá alçar voo nem sustentar-se no espaço. Fatos – essa é a atmosfera do cientista. Sem eles, nunca poderemos voar. Sem eles, nossa teoria não passa de um esforço vazio.
No entanto, estudem, experimentem, observem, esforcem-se para não abandonar os fatos à superfície. Não se transformem em arquivistas de fatos. Tentem penetrar no mistério de sua origem e, com perseverança, procurem as leis que os governam.
Em segundo lugar – sejam modestos. Nunca pensem que sabem tudo. E não se tenham em alta conta; possam ter sempre a coragem de dizer: sou ignorante.
Não deixem que o orgulho os domine. Por causa dele poderão obstinar-se quando for necessário concordar; por causa dele renunciarão ao conselho saudável e ao auxílio amigo; por causa dele perderão a medida da objetividade.
No grupo que me foi dado dirigir, todos formavam uma mesma atmosfera. Estávamos todos atrelados a uma única tarefa e cada um agia segundo sua capacidade e possibilidades. Dificilmente era possível distinguir você próprio do restante do grupo. Mas dessa nossa comunidade tirávamos proveito.
Em terceiro lugar, a paixão. Lembrem-se de que a ciência exige que as pessoas se dediquem a ela durante toda a vida. E, se tivessem duas vidas, ainda assim não seria suficiente. A ciência demanda dos indivíduos grande atenção e forte paixão. Sejam apaixonados por sua ciência e por suas pesquisas.
Nossa pátria abre um vasto horizonte para os cientistas e é preciso reconhecer – a ciência generosamente nos introduz na vida de nosso país. Prossigam com o máximo de generosidade!
O que dizer sobre a situação dos nossos jovens cientistas? Eis que tudo é claro. A vocês muito foi dado, mas de vocês muito se exige. E para jovens, assim como para nós, a questão de honra é ser digno de uma esperança maior, aquela que é depositada na ciência de nossa pátria.

Ivan Pavlov (1849–1936),
médico e cientista russo



[1] Tradução do original em russo por Annibal Villela.