"Olhai para os lírios do campo, como eles crescem; não trabalham, nem fiam. E eu vos digo que nem mesmo Salomão, em toda a sua glória, se vestiu como qualquer deles".

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Redação científica

Notas e Reflexões sobre Redação Científica
Rogério Lacaz-Ruiz
Prof. de Metodol. Científ. FZEA/USP


"Se você quiser dar crédito a um sujeito,
faça isso por escrito. Se você quiser
mandá-lo para o inferno, faça o por
telefone." (Charlie Beacham)

Quando foi diagnosticada uma doença grave em um amigo, recorremos a um manual médico para saber mais sobre a doença. Da leitura do tratado, em inglês, pudemos extrair todas as informações necessárias, sem praticamente recorrer ao dicionário. O texto estava completo e sua leitura agradável. O médico que nos emprestou o livro fez um comentário interessante. Disse que o organizador convidava especialistas para que escrevessem os capítulos de sua área e antes de fazer a arte final seguia dois protocolos obrigatórios, a saber: i) enviava todo material a um romancista para tornar a linguagem mais fácil e ii) devolvia o material aos autores, para verificarem se as alterações não comprometiam as informações técnicas.
Este fato, confirma a tese de Peter Drucker: o verdadeiro comunicador é o receptor. Ao escrever é preciso perguntar-se: quem irá ler este texto? Em que condições? Um aluno universitário, em geral, precisa ler muito e se o texto for técnico, provavelmente o rendimento será menor. Um capítulo adaptado por um romancista facilita a leitura e a apreensão do conhecimento; e este é o objetivo.
As vezes a imaginação nos leva por caminhos estranhos e, por este motivo, não queremos fornecer uma resposta definitiva ao problema da escrita.
Enumeraremos, a seguir, algumas notas que podem ajudar a quem precisa escrever. Cada um poderia descobrir naturalmente soluções de como aprimorar a escrita, desde que se propusesse a isto. Leitura de boas obras e observar como os outros escrevem, facilitam o aprendizado. Com o passar do tempo, se exercitamos a escrita, poderemos dar passos seguros e significativos.
Lee Iacocca, o conhecido mega-empresário da indústria automobilística norte americana, tem uma capacidade de comunicação acima da média. Ele mesmo conta, em sua autobiografia, o que aprendeu de Robert McNamara: "...ele me ensinou a pôr todas as minhas idéias no papel. - Você é muito eficiente cara a cara, ele costumava me dizer. - Você conseguiria vender qualquer coisa a qualquer um. Mas estamos para gastar cem milhões de dólares aqui. Vá para casa hoje à noite e ponha sua grande idéia no papel. Se você não conseguir fazer isso é porque não trabalhou a idéia direito. Esta foi uma lição valiosa e a partir daí passei a seguir sua orientação. Sempre que um dos meus homens tem uma idéia, eu lhe peço para colocá-la no papel. Não quero que ninguém me venda um plano por causa do tom da sua voz ou da força de sua personalidade. Seria inadmissível." (in: Iacocca, L.; Novak, W. Iacocca, uma autobiografia São Paulo: Livraria Cultura, 1985. p.66). Em outro parágrafo, complementa a idéia de outra forma: "A cada três meses, cada gerente se reúne com seu superior imediato para rever seu próprio desempenho e para estabelecer seus objetivos para o período seguinte. Havendo acordo quanto a esses objetivos, o gerente os põe no papel e o supervisor assina. Como aprendi com McNamara, o hábito de escrever as coisas é o primeiro passo no sentido de realizá-las efetivamente. Na conversa, você pode se desviar para todos os tipos de imprecisões e absurdos, muitas vezes sem perceber. Mas, ao colocar suas idéias no papel, você se força a ir direto ao que interessa. É mais difícil enganar a si mesmo ou enganar aos outros." (ibidem p.71-72)
"Todo pesquisador deve escrever de acordo com os padrões exigidos pela ciência, no entanto, muitos não dominam a linguagem científica. Alguns editores apontam a falta de estilo como principal defeito dos artigos enviados para publicação por cientistas dos países em desenvolvimento. Isto indica que há uma deficiência importante na formação destes investigadores.
O ensino médio (de primeiro e segundo graus) enfoca a forma literária de escrever. Esta admite frases longas, complexas e retóricas, para passar imagens e sensações ao leitor. Ao contrário, a linguagem científica deve ser clara, objetiva, escrita em ordem direta e com frases curtas. Portanto, os indivíduos precisarão adequar sua redação quando se iniciam na carreira científica. Esse assunto tem sido negligenciado pelos cursos de Pós-Graduação no Brasil, originando a formação de Mestres e Doutores inabilitados para escrever artigos científicos. Geralmente esses jovens pesquisadores não têm consciência disso e passarão suas deficiências aos futuros orientados.
Para corrigir esta falha na formação é necessário muito esforço, paciência e disposição para ocupar quanto tempo for necessário. Acima de tudo, é preciso ter humildade para reconhecer as próprias limitações e trabalhar continuamente para eliminá-las. Produzir um texto adequado é tarefa árdua e demorada mesmo para aqueles que dominam a linguagem científica." (Valenti, W.C. Guia de Estilo para a Redação Científica)
A seguir, serão apresentadas algumas regras práticas sugeridas pelo professor Valenti, adaptadas para este artigo. Evidentemente, elas são de mero caráter típico-indicativo e admitem exceções, mas podem auxiliar na hora de escrever ou revisar um texto acadêmico.
1. Antes de iniciar, organize um roteiro com as idéias e a ordem em que elas serão apresentadas. Estabeleça um plano lógico para o texto. Só escreve com clareza quem tem as idéias claras na mente.(1)
2. Trabalhe com um dicionário e uma gramática ao seu lado e não hesite em consultá-los sempre que surgirem dúvidas.
3. Escreva sempre na ordem direta: sujeito + verbo + complemento.(2)
4. Escreva sempre frases curtas e simples. Abuse dos pontos.
5. Prefira colocar ponto e iniciar nova frase a usar vírgulas. Uma frase repleta de vírgulas está pedindo pontos. Na dúvida, use o ponto. Se a informação não merece nova frase não é importante e pode ser eliminada.
6. Evite orações intercaladas, parêntesis e travessões. Algumas revistas internacionais aceitam o uso de parêntesis para reduzir o período.
7. Corte todas as palavras inúteis ou que acrescentam pouco ao conteúdo.
8. Evite as partículas de subordinação, tais como que, embora, onde, quando. Estas palavras alongam as frases de forma confusa e cansativa. Use uma por frase, no máximo.
9. Use apenas os adjetivos e advérbios extremamente necessários.
10. Só use palavras precisas e específicas. Dentre elas, prefira as mais simples, usuais e curtas.(3)
11. Evite repetições. Procure não usar verbos, substantivos aumentativos, diminutivos e superlativos mais de uma vez num mesmo parágrafo.
12. Evite ecos (e.g. "avaliação da produção") e cacófatos (e.g. "...uma por cada tratamento" ... uma porcada...)
13. Prefira frases afirmativas.
14. Frases escritas em voz passiva são muito utilizadas em relatórios e trabalhos científicos, mas devem ser evitadas.
15. Evite: regionalismos, jargões, modismos, lugar comum, abreviaturas sem a devida explicação, palavras e frases longas.
16. Um parágrafo é uma unidade de pensamento. Sua primeira frase deve ser curta, enfática e, preferencialmente, conter a informação principal. As demais devem corroborar o conteúdo apresentado na primeira. A última frase deve seguir de ligação com o parágrafo seguinte. Pode conter a idéia principal se esta for uma conclusão das informações apresentadas nos períodos anteriores. (4)
17. Os parágrafos devem interligar-se de forma lógica.
18. Um parágrafo só ficará bom após cinco leituras e correções:
a) na primeira, cheque se está tudo em forma direta e modifique se necessário;
b) na segunda, procure repetições, ecos, cacófatos, orações intercaladas e partículas de subordinação; elimine-os;
c) na terceira, corte todas as palavras desnecessárias; elimine todos os adjetivos e advérbios que puder;
d) na quarta, procure erros de grafia, digitação e erros gramaticais, tais como de regência e concordância;
e) na quinta, cheque se as informações estão corretas e se realmente está escrito o que você pretendia escrever. Veja se você não está adivinhando, pelo contexto, o sentido de uma frase mal redigida. Após a correção de cada parágrafo, em separado, leia todo o texto três vezes e faça as correções necessárias.
Na primeira leitura, observe se o texto está organizado segundo um plano lógico de apresentação do conteúdo. Veja se a divisão em itens e subitens está bem estruturada; se os inte-títulos (título de cada tópico) são concisos e refletem o conteúdo das informações que os seguem. Se for necessário, faça nova divisão do texto ou troque parágrafos entre os itens. Analise se a mensagem principal que você desejava transmitir está de forma clara a ser entendida pelo leitor.
Na segunda, observe se os parágrafos se interligam entre si. Veja se não há repetições da mesma informação em pontos diferentes do texto, em períodos escritos de forma diversa, mas com significado semelhante. Elimine todos os parágrafos que contenham informações irrelevantes ou fora do assunto do texto.
Na terceira leitura, cheque todas as informações, sobretudo valores numéricos, datas, equações, símbolos, citações de tabelas e figuras, e as referências bibliográficas.
Lembre-se que textos longos e complexos, com frases retóricas e palavras incomuns não demonstram erudição. Ao contrário, indicam que o autor precisa melhorar seu modo de escrever.
Hoje em dia, já se encontram disponíveis na internet (www) muitos sites contendo informações para redigir de acordo com o local onde se pretende publicar. Por exemplo, o Style and Form do Journal of Animal Science: http://www.asas.uiuc.edu.
Leituras Recomendadas
Eco, U. Como se faz uma tese. 14a. ed. São Paulo: Perspectiva, 1996, p.170.
Figueiredo, L.C. A redação pelo parágrafo. Brasília: Universidade de Brasília, 1995. 127p.
Lertzman, K. "Notes on writing papers and thesis", Bulletin of the Ecological Society of America, v.76, n.2, p.86-90, 1995.
Magnusson, W.E. "How to write backwards", Bulletin of the Ecological Society of America, v.77, n.2, p.88, 1996.
Medeiros, J.B. Redação científica. 2ed. São Paulo : Atlas, 1996. 231p.
Medeiros, J. B.; Gobes, A.; Alves, F.; Lima, L. Manual de redação e revisão. São Paulo: Atlas, 1995. 203p.
Manual de estilo Editora Abril. Rio de Janeiro : Nova Fronteira, 1990. 93p.
Manual Escolar de Redação Folha de São Paulo - Editora Ática. São Paulo : Ática, 1994. 184p.
Shaw, H. Punctuate it right! 2ed. New York : Harper Collings, 1994. 208p.
Strunk, Jr., W; White, E.B. The elements of style. 3ed. Boston: Allyn & Bacon, 1979. 92p.
Universidade Federal do Paraná, Biblioteca Central. Normas para apresentação de trabalhos. v.1 Livros e Folhetos. 5ed. Curitiba: Universidade Federal do Paraná. 1995. 25p.
Willians, J.M. Style: toward clarity and grace. Chicago: University of Chicago, 1995. 208p.

1. Deve-se escrever, também, do geral para o particular. Quando decidimos ou precisamos escrever algo, normalmente já temos uma noção do que vamos escrever, mas aqueles que irão ler, não.
Por este motivo, escrevemos bem menos do que precisamos para transmitir uma idéia. Isto é, deixamos subentendidos uma série de raciocínios intermediários, o que acaba dificultando a leitura. Uma experiência que todos podemos fazer, é a de escrever um texto sobre algo, deixando fluir toda nossa imaginação e capacidade, e depois de algumas semanas, lê-lo novamente. É surpreendente como nós mesmos não entendemos todo o texto, e nos questionamos sobre algumas frases ou até mesmo parágrafos inteiros. Naturalmente o número de palavras que usamos, não esta diretamente relacionado com a clareza. Escrever muito nem sempre é suficiente para deixar as idéias claras.
2. E também do antecedente para o consequente. Algumas pessoas, quando nos contam um fato ou um filme, parecem tão ansiosas que colocam o carro na frente dos bois. Quem escuta ou não entende, ou perde o interesse por escutar pois já sabe o final da história. No latim, que é uma língua com declinações, a ordem das palavras pode ser alterada, sem que a frase perca seu sentido. A declinação das palavras permite sua construção alterada, sem que o leitor deixe de saber se ela é objeto direto ou sujeito. Mas, os bons latinistas, procuram deixar o verbo, que exprime ação, para o final da frase. Tempus brevis est. Mesmo nesta frase, que diz que o tempo é breve, ficamos na expectativa até o final... qual a relação do tempo com a brevidade? Alfred Hitchcok e Ágata Christie, costumavam criar um clima de suspense, de modo que o espectador se sinta atraído a assistir ou ler a obra até o fim. E todos os que querem que seus textos sejam lidos, podem fazer o mesmo. Dizem que Hitchcok iniciava uma estória de suspense quando estava numa fila de elevador, e seguia sua narrativa já dentro do mesmo. Para surpresa geral, saía num andar, antes de terminar a estória. Não se deve imitá-lo nesta brincadeira, é preciso ir até o fim. Relatar as coisas do mais antigo para o mais recente, garante a atenção de quem lê e facilita a compreensão do texto. O ideal para quem escreve um trabalho científico, é que momentos antes de terminar a última frase, o leitor possa imaginar a solução do problema ou a conclusão. Já no caso de escritores e poetas, ser previsível nem sempre é desejável.
3. Usar a palavra correta. Cada palavra tem um significado original e freqüentemente é útil e interessante conhecer a etimologia. Quantas vezes, ao ler no dicionário o significado de uma delas, nos surpreendemos com a alteração que sofreu pelo uso. As vezes é possível resgatar o sentido original, e esta preocupação de recorrer ao dicionário, deve passar a ser uma ocupação. Outras vezes é impossível. É o caso das palavras aquário e piscina. Aquário (do lat. acqua =água) é o lugar onde se armazena água e piscina (do lat. pisces = peixe) o local onde se criam peixes. Ora, seria tido por louco quem dissesse que cria peixes na piscina e toma banho em um aquário.
4. O uso de parágrafos de transição. Quando se escreve a primeira versão de uma tese, um livro, ou mesmo um relatório compostos por capítulos é freqüente terminar um e começar o outro, sem que haja conexão explícita. Para corrigir este defeito, pode-se usar o parágrafo de transição. Esta técnica, se bem empregada, estimula o leitor a ler o capítulo seguinte. Bastam algumas palavras a mais no último parágrafo, para introduzir o leitor no novo tema que se vai abordar. De forma análoga Clive Staples Lewis (1898-1963) em seu livro Mere Christianity começa o capítulo novo, recordando algumas idéias do anterior. A explicação é simples. Como o livro foi uma transcrição de palestras radiofônicas (Broadcast Talks) ele era "obrigado" a recordar em parte a conferência anterior. Desta forma, os parágrafos de transição, sejam eles no fim ou no início de cada capítulo, garantem ao leitor a sensação de que o autor pensou nele, e que dentro do seu estilo, quis tornar a leitura mais agradável.

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

O meu professor de literatura



Às vezes, eu costumava matar aula no colégio para ir ao cinema, outras vezes, vejam só, para ir à biblioteca da escola mesmo. Foi estranho quando, um dia, o meu professor de literatura da época me encontrou numa dessas vezes entre as estantes, procurando um livro. Naquela hora, na minha turma, era a aula dele. Por algum motivo, ele precisou deixar a sala e ir à biblioteca rapidamente. Teve um espanto ao me ver ali. Não sei se por que eu matava a sua aula, ou por que fazia isso na biblioteca, com um livro nas mãos. Ele me olhava e olhava o livro. Ia e voltava com os olhos, perplexo. Eu não soube, por um instante, se devia justificar a minha ausência na sala ou o fato de ter escolhido um lugar cheio de livros para faltar à aula de literatura. Quando enfim comecei a gaguejar alguma coisa, ele se afastou, transtornado, e saiu, mas não antes de olhar mais uma vez o livro que eu tinha nas mãos, com evidente ressentimento.
Eu havia cometido algum delito grave para aquele professor. O fundo em meu estômago dizia isso. Não podia ser só a aula. Outros alunos também a matavam de vez em quando, e ele depois lhes chamava à atenção com uma seriedade divertida e irônica. Nada de perplexidades constrangidas. Olhares graves e ressentidos. Aquela reação perturbadora ele havia reservado apenas para mim. Mas, tampouco, devia ser a biblioteca, ou era? O livro suava em minhas mãos, assumindo talvez a culpa. Levei-o para casa, apertando-o em meu peito. Éramos cúmplices, nós dois, de um ato horrível e misterioso contra o professor. Naquela noite, tive pesadelos. Os olhos do professor tomavam inteiramente o seu rosto, e me enfrentavam indignados e ofendidos.
Na aula seguinte, tentei me comportar da melhor maneira possível. Não passei o tempo olhando para a janela, como costumava fazer, em busca de um horizonte qualquer. Nem me distraí com rabiscos, desenhos e frases inúteis no caderno. Fixava o professor com atenção exagerada, tentando absorver e compreender tudo o que ele dizia sobre o estilo de época Arcadismo, anotando bucolismo e pastoralismo com caligrafia exemplar, e assentindo com a cabeça toda a vez que seus olhos passavam por mim e não me viam. Ao contrário do meu pesadelo, o professor não me olhava mais. Era dessa forma retraída que ele lidava com o ressentimento. Eu, por outro lado, assumia todas as culpas na medida em que ele silenciosamente me acusava. No corredor, evitava cruzar comigo, e se me via no pátio lendo um livro, como eu gostava de fazer, mudava de direção como se estivesse diante de um obstáculo intransponível. Era sempre à noite, na escuridão da insônia, que eu ruminava as atitudes do professor e repassava a matéria. Romantismo: nacionalismo, exaltação do eu. Realismo: racionalismo, crítica social. Não sei por que, naquele dia, eu achei que ele tremera um pouco durante a aula, a voz rasgando a garganta, ao dizer, crítica social.
Semanas depois, eu percebi: o professor não fazia mais a barba, engordava, e, como se não tivesse mais nada a fazer, envelhecia. Se antes não era alegre nem triste, agora não era, simplesmente. Entrava na sala de aula resignado, dizia algumas coisas, escrevia outras, para depois desaparecer. A sua apatia era tão grande que um dia ele deve ter se esquecido de que sua presença era aguardada e realmente desapareceu. “Viajou”, explicou a diretora, como se o fato de alguém ir de um lugar para o outro explicasse tudo. E assim os anos se passaram sem notícias do professor.
Nos encontramos anos depois, por acaso, numa livraria. Eu a frequentava sempre, e não sabia que, desde que entrei pela primeira vez ali, era observada pelo professor. Já sentia o livro suando em minhas mãos, quando ele me cumprimentou, perguntando se eu era eu, a sua aluna. Sim, confirmei. Ele me olhava e olhava o livro, como nosso constrangido encontro na biblioteca da escola. De repente, me abraçou, com uma gratidão que eu não pude entender. Mas, em seguida, o professor foi de uma claridade imprevista, de fechar os olhos. Uma de suas alegrias era me ver ali em sua livraria, ele disse. E sorriu, confirmando, sim, sou livreiro. E pegando um livro, levou-o ao peito. A capa sobre o coração, enquanto ele confirmava a satisfação de ver que eu continuava a gostar de ler, apesar de suas aulas. Aquele dia na biblioteca ressurgiu então entre nós. Me ver matar a aula de literatura para ler foi a gota d’água para o professor. Havia passado a noite anterior preparando uma aula de literatura, elencando, não poetas e escritores, seus textos e suas poesias, mas características, datas e nomes que os alunos não podiam deixar de saber, porque ia cair na prova, porque estava no currículo do semestre. Às vezes, conseguia uma aula ou outra para os textos, mas era pouco, muito pouco. Até me ver na biblioteca, o professor me julgava uma aluna desinteressada e desinteressante, daquelas que não se avista o futuro. Não me imaginava abrindo um livro, como podia supor que eu era uma leitora? Mas eu era, e, para ele, havia sido como um marido, que sempre considerara a esposa frígida, descobrir que ela tem um amante. Eu, que já tinha idade e altura para sorrir dessa imagem, sorri, profundamente feliz. O professor abraçava o livro, apaixonado. Contou que um dia, se levantou da cama, se arrumou para ir trabalhar, saiu de casa, mas, em vez de ir à escola, foi para uma livraria. No dia seguinte, pediu demissão. Juntou dinheiro, conseguiu um empréstimo e abriu uma pequena livraria, que se expandira em outras. “Eu queria estar perto dos livros”, explicou. “Antes, eu achava que podia ser professor de literatura impunemente”, disse. O professor entrara na escola cheio de esperanças de mudar o modo em que é feito o ensino da literatura, de driblar, dia a dia, o sistema. Mas foi ao contrário, era o sistema que estava, pouco a pouco, mudando o professor, encurralando-o numa sala escura. “Até te ver na biblioteca, eu não tinha a real consciência da dimensão do que eu fazia. A cada aula, eu matava um livro. A cada aula, um leitor morria.”

Claudia Lage 
é formada em literatura e dedicou muito tempo ao teatro. Autora, entre outros, do romance Mundos de Eufrásia.

Texto publicado no jornal Rascunho, em março de 2011 e na revista Na Ponta do Lápis, n. 20, julho/2012. Disponível em http://rascunho.gazetadopovo.com.br/o-meu-professor-de-literatura.
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sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Os numerais

Numeral

1 – Nos exemplos seguintes, as palavras destacadas são numerais:
Comprei cinco livros.                         cinco      ànúmero, quantidade
Moro no segundo andar.                  segundo    àordem numérica
Comemos um terço da pizza.            terço       àparte, fração
Trinta é o triplo de dez.                     triplo       àmúltiplo

Numeral é a palavra que exprime número, ordem numérica, múltiplo ou fração.

2 – O número pode ser cardinal, ordinal, multiplicativo e fracionário. Exemplos:
dez litros; sexta-feira; um terço da pizza; o triplo de vinte

3 – Incluem-se entre os numerais as seguintes palavras:
1.       zero: grau zero, zero hora, zero quilômetro;
2.       ambos (= os dois, um e outro), ambas (= as duas, uma e outra).

4 – São substantivos coletivos numéricos:
1.       par , dezena, década,dúzia, vintena, centena, centúria, grosa, milheiro, milhar e outros coletivos que indicam um agrupamento numericamente exato;
2.       biênio, triênio, quadriênio, lustro ou quinquênio, década ou decênio, milênio, centenário e sesquicentenário, referente a anos;
3.       tríduo e novena, referentes a dias, e bimestre, trimestre e semestre, relativos a meses.

Obs.:
As palavras último, penúltimo e antepenúltimo são adjetivos. Metade é substantivo.

Flexão dos numerais

5 – Alguns numerais se flexionam, outros não.
1.       Os cardinais, com exceção de um (fem. uma), dois (fem. duas) e daqueles terminados em –entos e –ao (duzentas, trezentas, milhões, etc.), são invariáveis.
2.       Os ordinais variam em gênero e numero: primeira volta, primeiros resultados, as segundas eleições, etc.
3.       No plural flexionam-se os numerais cardinais substantivados que terminam por fonema vocálico: dois cinquentas, dois setes, três oitos, dois cens, quatro uns, etc. permanecem invariáveis os que finalizam por fonema consonantal: Pedro tirou quatro seis e dois dez, nas notas bimestrais.

Leitura e escrita dos números

6 – Intercala-se a conjunção e entre as centenas e as dezenas e entre estas e as unidades. Exemplo:
3.655.264 = três milhões seiscentos e cinquenta e cinco mil duzentos e sessenta e quatro
Obs.:
1.        Na escrita dos números por extenso não se põe vírgula entre uma classe e outra.
2.        Não se usa ponto na escrita dos anos: 1997, 2010, 2012, etc.

Quadro dos principais numerais

·         Cardinais                                                          
um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete, oito, nove, dez, onze, doze, treze, catorze, quinze, dezesseis, dezessete, dezoito, dezenove, vinte, trinta, quarenta, cinquenta, sessenta, setenta, oitenta, noventa, cem (cento), duzentos, trezentos, quatrocentos, quinhentos, seiscentos, setecentos, oitocentos, novecentos, mil, milhão, bilhão.                                  
·         Ordinais
primeiro, segundo, terceiro, quarto, quinto, sexto, sétimo, oitavo, nono, décimo, décimo primeiro, décimo segundo, décimo terceiro, décimo quarto, décimo quinto, décimo sexto, décimo sétimo, décimo oitavo, décimo nono, vigésimo, trigésimo, quadragésimo, quinquagésimo, sexagésimo, setuagésimo, octogésimo, nonagésimo, centésimo, ducentésimo, trecentésimo, quadringentésimo, quingentésimo, sexcentésimo, setingentésimo, octingentésimo, nongentésimo, milésimo, milionésimo, bilionésimo.

·         Multiplicativos
dobro (ou duplo), triplo (tríplice), quádruplo, quíntuplo, sêxtuplo, sétuplo, óctuplo, nônuplo, décuplo, cêntuplo.

·         Fracionários
meio, terço, quarto, quinto, sexto, sétimo, oitavo, nono, décimo, onze avos, doze avos, treze avos, catorze avos, quinze avos, dezesseis avos, dezessete avos, dezoito avos, dezenove avos, vinte avos, trinta avos, quarenta avos, cinquenta avos, sessenta avos, setenta avos, oitenta avos, noventa avos, centésimo, ducentésimo, trecentésimo, quadringentésimo, quingentésimo,   sexcentésimo, setingentésimo, octingentésimo, nongentésimo, milésimo, milionésimo, bilionésimo.

Formas duplas
7 – Os seguintes numerais apresentam mais de uma forma:
     undécimo ou décimo primeiro
     duodécimo ou décimo segundo
     catorze ou quatorze
     setuagésimo ou septuagésimo
     sexcentésimo ou seiscentésimo
     septingentésimo ou setingentésimo
     noningentésimo ou nongentésimo

Obs.:
Os numerais um (hum) e cinquenta (cincoenta) apresentam grafias duplas, respectivamente, por interesse em evitar fraudes em documentos financeiros e, no segundo caso, por contaminação pela grafia do número cinco, mas também a forma corretar procura dificultar a ação dos golpistas.

Importante:
A partir de dois mil é melhor usar segundo milésimo, terceiro milésimo, etc., do que dois milésimos, três milésimos, etc. Assim:
No segundo milésimo quingentésimo aniversário da fundação da cidade...
Na terceira milésima ducentésima vigésima quinta página da enciclopédia...

Algarismos Romanos:
Conforme está posto, são algarismos romanos e não se aplica oficialmente a grafia da língua portuguesa praticada no Brasil, com exceções para inscrição de capítulos em obras literárias, em documentos jurídicos e outros poucos casos.

M = 1.000
D = 500
C = 100
L = 50
X = 10
V = 5
I = 1


Obs.:
Quando houver um traço sobre os algarismos, significa que ele está sendo multiplicado por 1.000 vezes. Ex.:

_
V = 5.000
__
XLII = 42.000
_
M = 1.000.000


Fonte: Adaptação da obra. CEGALLA, Domingos Paschoal. Novíssima gramática da língua portuguesa. 45ª ed. São Paulo: Companhia Editora NAcional, 2002.

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Modelo de requerimento

Obs.: O requerimento é o documento que utilizamos para solicitar ou pedir, a um órgão ou a uma autoridade pública, alguma coisa a que temos direito. É um tipo de redação técnica que nos acompanha desde a vida estudantil... Começamos no ensino médio a requerer o que necessitamos na escola, na faculdade requeremos provas de segunda chamada, emissão de certificados e diplomas. Na vida social, o cidadão envia requerimentos para a prefeitura, ao comando da polícia militar, ao departamento de iluminação urbana, entre tantos outros. Veja o modelo a seguir:
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Ilmo (ilustríssimo) Sr. Diretor do Colégio Machado de Assis






         Marcelo Mattos, alunos regularmente matriculado na 1ª série do

ensino médio, turma A-102, vem respeitosamente requerer a V.S.a

(vossa senhoria) dispensa das aulas de Educação Física deste

estabelecimento de ensino, durante o mês de setembro do corrente,

por problemas de saúde, conforme o atestado médico em anexo.




Nestes termos


Pede deferimento






                                           São Paulo/SP, 03 de setembro de 2012.




                                           (Assinatura do requerente)
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