"Olhai para os lírios do campo, como eles crescem; não trabalham, nem fiam. E eu vos digo que nem mesmo Salomão, em toda a sua glória, se vestiu como qualquer deles".

sexta-feira, 24 de julho de 2009

“É HORA DA ONÇA BEBER ÁGUA”

Pasquale Cipro Neto

A palavra “onça” faz parte de muitas expressões de nossa língua. Quem é que nunca ouviu algo como “Ele virou onça”? Ou “Nessas horas, ele fica uma onça”? Uma consulta ao dicionário nos faz saber que “na onça” (que em Portugal é “à onça”) significa “aperto financeiro, falta de dinheiro”: “Estou na onça. Empreste-me algum dinheiro.”

O dicionário Aurélio diz que “onça” também pode significar “fora do comum, extraordinário”: “A Josefa tomou um pileque onça.” O exemplo é de ninguém menos que Artur Azevedo e está em Contos fora de moda. Também existe a deliciosa expressão “amigo da onça”, cujo significado todos conhecem. Por fim, a famosa frase “É hora da onça beber água”, que, segundo os dicionários, remete à idéia de perigo e equivale a uma curiosa expressão: “Hora de canção pegar menino”. Na prática, o que se quer dizer é que se aproxima um momento crítico, decisivo.

Pois bem, feitas todas essas considerações a respeito da presença da palavra “onça” em algumas de nossas expressões idiomáticas, vamos ao centro de nossa conversa: “hora da onça beber” ou “hora de a onça beber”?

Certamente você já viu em algum jornal, livro ou revista algo como “No caso de ele votar a favor...”, ou “O fato de o ministro ter afirmado que...”, ou ainda “Diante da possibilidade de a senadora deixar...”. “De ele”, “de o”, “de a”, tudo isso parece esquisito.

Na língua oral, ou seja, na fala, essas formas vão para o chamado espaço. A tendência é que se faça a fusão: “No caso dele votar a favor...”, “O fato do ministro ter afirmado que...”, “Diante da possibilidade da senadora deixar...”.

E o que diz a gramática? Vamos lá. O raciocínio não é muito complicado. Pense na seguinte frase: “No caso de o cenário se alterar...”. Qual é o sujeito do infinitivo “alterar”? Só pode ser o que se altera, ou seja, “o cenário”. Você percebeu que esse sujeito aparece depois do verbo. Percebeu também que estão presentes as palavras “de” e “o”, separadas: “No caso de se alterar o cenário...”.

Estamos perto. A gramática diz que a preposição não se funde com o sujeito do infinitivo, o que, em termos estruturais, parece lógico. Se o sujeito de “alterar” é “o cenário”, a preposição “de” não faz parte do sujeito e, portanto, não se funde com o artigo “o”: “No caso de se alterar o cenário...”/ “No caso de o cenário se alterar...”. Note que as palavras são exatamente as mesmas. Só mudou a ordem.

Pode-se dizer o mesmo em relação aos outros exemplos dados. Em “No caso de ele votar a favor...”, o sujeito de “votar” é “ele”, que não se funde com a preposição “de”. Em “Diante da possibilidade de a senadora deixar...”, o sujeito de “deixar” é “a senadora”.

A preposição “de” não faz parte do sujeito, portanto não se funde com o artigo “a”. Mas, quando entra em cena o aspecto sonoro da questão, a história é outra: é impossível resistir à tentação de fundir “de” e “o” (“do”), “de” e “ele” (“dele”), “de” e “a” (“da”) etc. A maioria dos gramáticos diz que nesses casos a fusão da preposição com o artigo ou pronome já é fato mais do que consagrado, sobretudo na fala.

Em suma, o que se pode deixar como essência da história é o seguinte: se você quiser ser estritamente lógico, não funda a preposição com o sujeito do infinitivo. Ninguém poderá dizer que você está errado. Em outras palavras, diga que “É hora de a onça beber água”. Afinal, o sujeito de “beber” é “a onça”, portanto a preposição “de”, que não faz parte do sujeito, não se funde com o artigo “a”. Mas saiba que ótimos autores não se incomodam nem um pouco com “É hora da onça beber água”. Vale lembrar que essa história não tem relação com os outros casos de fusão da preposição “de” com os artigos “o”, “a”, “os”, “as”, ou com os pronomes “ele”, “ela”, “eles”, “elas”. É claro que não se pode dizer “O carro de o diretor está na oficina”, ou “A casa de ele foi invadida”. Não se trata, no caso, de sujeito de verbos no infinitivo.

Também vale lembrar uma velha canção popular: “Eu devia estar feliz pelo Senhor ter me concedido um domingo para ir com a família ao Jardim Zoológico...”. Reconheceu? “Ouro de Tolo”, interpretada por Raul Seixas. Qual é o sujeito do verbo “ter”? É “o Senhor”, é claro. Pela lógica, a preposição “por”, que não faz parte do sujeito, não se funde com o artigo “o”: “Eu devia estar feliz por o Senhor ter me concedido...”. No padrão estritamente formal é assim. Mas que dá uma tremenda vontade de fundir “por” e “o” dá, ou não dá?

Cá entre nós, é muito melhor mudar a ordem: “Eu devia estar feliz por ter o Senhor me concedido um domingo...”. Não é para fugir do problema, não. É por clareza e elegância mesmo. Não é à toa que, em textos eruditos, formais, técnicos, é mais comum pospor o sujeito do infinitivo: “Verbo de ‘movimento para’, é natural reger ele preposição a diante do complemento de lugar”. O sujeito do infinitivo (“reger”) é “ele”, posposto. O trecho é de Celso Luft, está no “Dicionário Prático de Regência Verbal” e diz respeito ao verbo “chegar”.

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